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← Como ajudar as crianças a ultrapassar a ansiedade

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Mostrar Revisión13 creada 07/06/2020 por Margarida Ferreira.

  1. Quando eu era criança, tinha muitos medos.
  2. Tinha medo de relâmpagos, de insetos,
  3. de ruídos fortes
    e de personagens mascaradas.
  4. Também tinha duas fobias graves
  5. a médicos e a injeções.
  6. Quando me debatia para
    tentar fugir ao médico de família,
  7. oferecia tanta resistência física
  8. que ele tinha de me dar
    uma bofetada para me atordoar.
  9. Eu tinha seis anos.
  10. Eu estava preparada para
    resistir ou fugir nessa altura,
  11. e para apanhar uma vacina
    eram precisos três ou quatro adultos
  12. incluindo os meus pais.
  13. Mais tarde, a minha família
    mudou-se de Nova Iorque para a Florida

  14. mesmo quando eu iniciava o secundário.
  15. Eu era a miúda nova
    numa escola paroquial,
  16. não conhecia ninguém
  17. e preocupava-me com a integração.
  18. No primeiro dia de aulas,
  19. uma professora fez a chamada
    e disse: "Anne Marie Albano"
  20. ao que respondi: "Aqui!"
    (com o sotaque de State Island).
  21. Ela riu-se e disse:
    "Ó, querida, levanta-te.
  22. "Diz C-Ã-O."
  23. E eu respondi: "Cão?"
    (com o sotaque de Staten Island)
  24. A turma desatou a rir
    com a professora.
  25. E assim continuou,
  26. porque ela tinha mais palavras
    com que me humilhar.
  27. Fui para casa lavada em lágrimas,

  28. desolada
  29. e a implorar para voltar
    para Nova Iorque
  30. ou para uma escola de freiras.
  31. Eu não queria voltar para
    aquela escola. Nem pensar.
  32. Os meus pais ouviram

  33. e disseram-me que iam falar
    com o monsenhor em Nova Iorque,
  34. mas que eu tinha de ir às aulas
    para não perder a assiduidade
  35. e poder ser transferida para
    o nono ano em Staten Island.
  36. Tudo isto antes do "e-mail"
    e dos telemóveis.
  37. Portanto, durante as semanas seguintes,
  38. supostamente, andavam a circular cartas
    entre a Arquidiocese de Manhattan
  39. e Miami
  40. e o Vaticano.
  41. E, todos os dias,
    eu ia para a escola a chorar
  42. e voltava da escola a chorar
  43. e a minha mãe informava-me
    do que o cardeal ou o bispo tinham dito:
  44. "Mantenham-na na escola,
    até encontrarmos uma vaga."
  45. Eu era ingénua ou quê?

  46. (Risos)

  47. Um dia, ao fim de duas semanas,
    enquanto esperava pelo autocarro,

  48. conheci uma rapariga chamada Debbie,
  49. que me apresentou aos seus amigos.
  50. E eles tornaram-se meus amigos.
  51. O Papa foi dispensado.
  52. (Risos)

  53. Comecei a acalmar e a instalar-me.

  54. Os três últimos 30 anos que passei
    a estudar a ansiedade em crianças

  55. são o resultado da minha investigação
    sobre auto-compreensão.
  56. E aprendi muito.
  57. A ansiedade é o problema psiquiátrico
    infantil mais frequente nos jovens.
  58. Este transtorno começa
    logo aos quatro anos,
  59. e na adolescência, 1 em 12 jovens
    tem graves dificuldades
  60. em funcionar em casa,
    na escola e com os colegas.
  61. Estas crianças estão assustadas,
  62. preocupadas,
  63. e literalmente desconfortáveis
    fisicamente devido à sua ansiedade.
  64. É difícil para elas
    prestarem atenção na escola,
  65. relaxarem e divertirem-se,
  66. fazerem amigos,
  67. e todas as coisas que
    as crianças devem fazer.
  68. A ansiedade pode tornar
    a criança infeliz,
  69. e os pais são os primeiros a testemunhar
    a angústia dos seus filhos.
  70. Após contactar com um número
    cada vez maior de crianças com ansiedade,

  71. tive de contactar os meus pais
    e fazer-lhes uma série de perguntas.
  72. "Porque é que me agarravam
  73. quando eu tinha medo de levar injeções
  74. "e me forçavam a apanhá-las?"
  75. "Porquê inventar aquelas histórias
    para me obrigar a ir à escola
  76. "apesar de eu ter medo
    de ser humilhada novamente?"
  77. Eles disseram: "Os nossos corações
    sofriam sempre contigo,
  78. "mas nós sabíamos que eram
    coisas que tu tinhas de fazer.
  79. "Tínhamos de arriscar
    que ficasses transtornada
  80. "enquanto esperávamos
    que te adaptasses à situação
  81. "com o tempo e com mais experiência.
  82. "Tinhas de ser vacinada.
  83. "Tinhas de ir à escola."
  84. O que os meus pais não sabiam

  85. era que estavam a fazer mais
    do que vacinar-me contra o sarampo.
  86. Estavam a vacinar-me contra
    uma vida com distúrbios de ansiedade.
  87. A ansiedade excessiva numa criança
    é como uma superbactéria:
  88. é infecciosa, até mesmo multiplicadora,
  89. de tal forma, que muitos dos jovens
    que vêm ter comigo
  90. têm mais do que um problema
    de ansiedade ao mesmo tempo.
  91. Por exemplo, têm um fobia específica,
  92. mais ansiedade de separação,
    mais ansiedade social, tudo junto.
  93. Sem tratamento,
  94. a ansiedade na infância
    pode levar a depressão na adolescência.
  95. Também pode contribuir para o suicídio
    ou para o abuso de substâncias.
  96. Os meus pais não eram psicólogos.

  97. Não conheciam nenhum psicólogo.
  98. Só sabiam que estas situações
    podiam ser desconfortáveis para mim,
  99. mas não eram prejudiciais.
  100. A minha ansiedade extrema
    seria mais prejudicial no futuro
  101. se eles me ajudassem
    a fugir a estas situações
  102. e não aprendesse a tolerar
    um desconforto pontual.
  103. Portanto, de certa forma,
    os meus pais criaram a sua versão
  104. de terapia por exposição,
  105. que é a componente central e essencial
  106. do tratamento cognitivo-comportamental
    para a ansiedade.
  107. Os meus colegas e eu realizámos
    o maior estudo aleatório controlado

  108. sobre o tratamento da ansiedade
    em crianças dos 7 aos 17 anos.
  109. Descobrimos que a terapia de exposição
    cognitivo-comportamental focada na criança
  110. ou a medicação com inibidores
    seletivos de recaptação de serotonina
  111. são eficazes em 60% dos jovens tratados.
  112. E, com as duas coisas em conjunto,
    80% das crianças melhoram em três meses.
  113. Isto são boas notícias.
  114. E se continuarem com a medicação,
  115. ou fizerem tratamentos de exposição,
    como fizemos ao longo do estudo,
  116. continuariam bem, durante mais de um ano.
  117. Porém, após terminar os tratamentos,
  118. realizámos um acompanhamento
    com os participantes do estudo
  119. e reparámos que muitas das crianças
    tinham uma recaída com o passar do tempo.
  120. Apesar das práticas terapêuticas
    comprovadas,
  121. descobrimos que cerca de 40%
    das crianças com ansiedade,
  122. continuavam doentes
    ao longo desse tempo.
  123. Refletimos muito sobre estes resultados.

  124. O que é que estava a faltar?
  125. Pusemos a hipótese
    de nos estarmos a focar
  126. apenas em intervenções em crianças.
  127. Talvez fosse importante abordar os pais
  128. e envolvê-los também no tratamento.
  129. Estudos realizados no meu laboratório
    e por outros colegas de todo o mundo

  130. demonstram uma tendência homogénea:
  131. os pais bem-intencionados
    são atraídos involuntariamente
  132. para o ciclo de ansiedade.
  133. Cedem e resolvem em demasia
    os problemas dos seus filhos
  134. e deixam que os filhos
    fujam a estas situações difíceis.
  135. Quero que pensem comigo:
  136. O vosso filho chega a casa a chorar.
  137. Tem cinco ou seis anos.
  138. "Ninguém gosta de mim na escola!
    As outras crianças são más.
  139. "Ninguém brinca comigo."
  140. Como é que se sentem
    ao ver o vosso filho tão transtornado?
  141. O que é que fazem?
  142. O instinto paternal mais comum
    é consolar a criança, tranquilizá-la,
  143. protegê-la e resolver a situação.
  144. Pedir ao professor que intervenha
  145. ou com os outros pais para marcar
    encontros com outras crianças
  146. pode ser bom aos cinco anos.
  147. Mas o que fazem se o vosso filho continuar
    a chegar a casa todos os dias a chorar?
  148. Resolvem a situação por eles
    aos 8, 10, 14 anos?
  149. À medida que se desenvolvem,
  150. as crianças, inevitavelmente,
    passam por situações difíceis:
  151. festas de pijama, testes orais,
  152. um teste difícil inesperado,
  153. uma prova para uma equipa desportiva
    ou um papel na peça de teatro da escola,
  154. conflitos com os colegas...
  155. Todas estas situações têm riscos:
  156. o risco de não terem êxito,
    de não conseguirem o que querem,
  157. o risco de fazerem erros
  158. ou risco de constrangimentos.
  159. As crianças com ansiedade

  160. que não arriscam, nem se envolvem,
  161. não aprendem a gerir
    este tipo de situações.
  162. Certo?
  163. Porque as capacidades desenvolvem-se
    através de exposição ao longo do tempo,
  164. à exposição repetida a situações
    diárias que as crianças enfrentam:
  165. capacidades de relaxamento
  166. ou a capacidade de se acalmarem
    quando angustiadas;
  167. capacidade de resolver problemas,
  168. incluindo a capacidade de
    resolveres conflitos com outros;
  169. uma gratificação não imediata,
  170. ou a capacidade de fazer esforços
  171. mesmo tendo de esperar
    para saber os resultados.
  172. Essas capacidades e muitas outras
    desenvolvem-se em crianças
  173. que arriscam e se envolvem.
  174. E isto forma a auto-eficácia,
  175. ou seja, a crença na confiança
  176. de que conseguimos enfrentar
    situações problemáticas.
  177. As crianças com ansiedade
    que fogem e evitam estas situações

  178. e têm pessoas que as resolvem por elas,
  179. tornam-se mais ansiosas com o tempo
  180. e menos confiantes nelas mesmas.
  181. Ao contrário dos colegas,
    que não sofrem de ansiedade,
  182. começam a acreditar que são
    incapazes de lidar com essas situações.
  183. Acham que precisam de alguém,
    como os seus pais,
  184. que lhes façam as coisas.
  185. Embora o instinto paternal
    seja reconfortar e proteger

  186. e tranquilizar as crianças,
  187. em 1930, o psiquiatra Alfred Adler
  188. já havia advertido os pais
  189. de que podemos amar
    os nossos filhos quanto quisermos,
  190. mas não devemos tornar
    as crianças dependentes.
  191. Aconselhou os pais a treinar
    os filhos desde o início
  192. a terem autonomia.
  193. Também alertou que,
    se a criança ficar com a ideia
  194. de que os pais não têm mais nada que fazer
    senão estarem sempre à sua disposição,
  195. ficará com uma ideia errada do amor.
  196. Hoje em dia, as crianças com ansiedade

  197. estão sempre a ligar aos pais
  198. ou a mandar mensagens de socorro
    a qualquer hora do dia.
  199. Portanto, se as crianças com ansiedade
  200. não aprenderem mecanismos
    de sobrevivência, enquanto jovens,
  201. o que lhes acontece quando crescerem?
  202. Tenho um grupo para pais de jovens
    com distúrbios de ansiedade.

  203. Estes jovens têm entre 18 e 28 anos.
  204. A maioria vive em casa,
  205. dependentes dos pais.
  206. Muitos deles frequentaram
    escolas e faculdades.
  207. Alguns têm licenciatura.
  208. A grande maioria não está a trabalhar,
  209. ficam em casa e não fazem quase nada.
  210. Não têm relações profundas
    com outras pessoas
  211. e estão muito, muito
    dependentes dos pais
  212. para qualquer tipo de atividade.
  213. São os pais que lhes marcam as consultas.
  214. Ligam para amigos antigos dos seus filhos
    e pedem-lhes que os venham visitar.
  215. Tratam-lhes da roupa e cozinham para eles.
  216. Estão em constante conflito
    com os seus filhos,
  217. porque a ansiedade evoluiu,
    mas a maturidade não.
  218. Estes pais sentem imensa culpa,
  219. mas depois sentem ressentimento
  220. e depois mais culpa.
  221. OK, e então as boas notícias?

  222. Se os pais e as pessoais importantes
    na vida da criança
  223. puderem ajudar a criança
    a enfrentar os seus medos
  224. e a aprender a resolver problemas,
  225. é mais provável que a criança
    comece a desenvolver
  226. os mecanismos de sobrevivência
    para lidar com a ansiedade.
  227. Ensinamos os pais a terem
    consciência do momento
  228. e pensarem na sua reação
    à ansiedade da criança.
  229. Dizemos-lhes:
  230. "Olhem para a situação e pensem:
    'De que se trata esta situação?
  231. " 'Quão ameaçadora é para o meu filho?
  232. " 'O que é que quero que ele
    aprenda com isto?'"
  233. Claro que queremos
    que os pais ouçam com atenção

  234. porque, se a criança
    é vítima de "bullying" grave
  235. ou estiver em perigo,
  236. queremos que os pais intervenham,
    sem dúvida alguma.
  237. Mas em situação típicas,
    que produzam ansiedade,
  238. os pais podem ajudar imenso os filhos,
  239. se se mantiverem calmos,
    objetivos e afetuosos,
  240. se legitimarem os sentimentos da criança,
  241. mas a ajudarem
  242. a planear a forma como
    a criança lidará com a situação.
  243. E, depois, é fundamental
  244. fazer com que a criança
    lide sozinha com a situação.
  245. Claro que é penoso
    ver uma criança sofrer,

  246. como os meus pais assistiram
    e me contaram anos mais tarde.
  247. Quando vemos os nossos filhos sofrer
  248. "e achamos que podemos poupá-los à dor
  249. "isso é importante para nós, não é?
  250. É isso que gostaríamos de fazer.
  251. Mas quer sejamos jovens ou velhos,
  252. a ansiedade extrema pode levar
    à sobrestimação do risco e do desespero
  253. e à subestimação da nossa capacidade
    de lidar com a situação.
  254. Sabemos que a exposição repetida
    àquilo que tememos
  255. enfraquece a ansiedade
    e desenvolve recursos e resiliência.
  256. Os meu pais já o sabiam.

  257. Os jovens super ansiosos
    de hoje não estão a ser ajudados
  258. pelos pais super protetores.
  259. A tranquilidade e a confiança
    não são apenas emoções.
  260. São mecanismos de sobrevivência
    que os pais e as crianças têm de adquirir.
  261. Obrigada.

  262. (Aplausos)