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← Como criar crianças que podem superar a ansiedade

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Mostrar Revisión18 creada 06/10/2020 por Maricene Crus.

  1. Quando criança, eu tinha muitos medos.
  2. Tinha medo de raio, insetos,
  3. barulho alto e personagens fantasiados.
  4. Eu também tinha duas fobias muito severas:
  5. de médico e de injeção.
  6. Na minha luta para escapar
    do nosso médico da família,
  7. eu ficava tão agressiva fisicamente
  8. que ele me dava um tapa
    no rosto para me atordoar.
  9. Eu tinha seis anos.
  10. Na época eu estava sempre
    no modo "lutar ou fugir".
  11. Me segurar para tomar uma simples vacina
    demandava de três a quatro adultos,
  12. incluindo meus pais.
  13. Mais tarde, nossa família se mudou
    de Nova Iorque para a Flórida,

  14. bem quando eu estava começando
    o ensino médio.
  15. Como aluna nova na escola paroquial,
  16. sem conhecer ninguém
  17. e preocupada se iria me encaixar,
  18. logo no primeiro dia de aula,
  19. a professora chama: "Anne Marie Albano".
  20. E eu respondo: "Aqui!"
    (com sotaque de Staten Island)
  21. Ela ri e diz:
    "Ah, querida, levante-se.
  22. Diga C-Ã-O".
  23. E eu respondo: "Cão?"
    (com o mesmo sotaque)
  24. A turma desatou a rir
    juntamente com a professora.
  25. E assim se seguiu,
  26. porque ela tinha muitas outras palavras
    com as quais podia me humilhar.
  27. Voltei para casa chorando,

  28. perturbada,
  29. implorando para ser levada
    de volta a Nova Iorque
  30. ou para algum convento.
  31. Não queria mais voltar àquela escola.
  32. De jeito nenhum!
  33. Meus pais me ouviram

  34. e disseram que falariam
    com o monsenhor de Nova Iorque,
  35. mas eu tinha que continuar indo
    para ter a presença contabilizada
  36. e poder me transferir
    para o nono ano em Staten Island.
  37. Tudo isso foi antes de existirem
    o e-mail e o telefone celular,
  38. então nas semanas seguintes,
  39. supostamente, cartas estavam sendo
    trocadas entre a Arquidiocese de Manhattan
  40. e de Miami
  41. e o Vaticano.
  42. E todo dia eu ia para a escola
    e voltava para casa chorando.
  43. Minha mãe me atualizava com as orientações
    de algum cardeal ou bispo dizendo:
  44. "Mantenha-na indo à escola enquanto
    encontramos um lugar para ela".
  45. Eu era ingênua ou o quê?

  46. (Risos)

  47. Depois de algumas semanas,
    enquanto esperava o ônibus escolar,

  48. conheci uma menina chamada Debbie
  49. e ela me apresentou aos seus amigos.
  50. Eles se tornaram meus amigos
  51. e, assim, o papa se livrou dessa.
  52. (Risos)

  53. Eu comecei a me acalmar e me ajustar.

  54. Minhas três últimas décadas
    estudando ansiedade infantil

  55. vêm parcialmente da minha busca
    por autocompreensão.
  56. E tenho aprendido muito.
  57. A ansiedade é a condição psiquiátrica
    mais comum da infância.
  58. Esses transtornos começam cedo,
  59. aos quatro anos.
  60. Na adolescência, 1 em cada 12 jovens
    são prejudicados severamente
  61. em suas habilidades funcionais em casa,
    na escola e com os colegas.
  62. Essas crianças ficam muito assustadas,
  63. preocupadas
  64. e fisicamente desconfortáveis
    devido à ansiedade.
  65. É difícil para elas
    prestar atenção na escola,
  66. relaxar e se divertir,
  67. fazer amigos
  68. e fazer tudo que crianças deveriam fazer.
  69. A ansiedade pode trazer
    sofrimento para as crianças
  70. e os pais são as principais testemunhas
    da angústia que elas sentem.
  71. Conforme encontrava, no meu trabalho,
    cada vez mais crianças ansiosas,

  72. tive que fazer algumas
    perguntas aos meus pais:
  73. "Por que vocês me seguravam
  74. quando eu sentia tanto medo de injeção
  75. e me forçavam a tomar?
  76. E por que me contavam aquelas mentiras
    para me fazer ir para a escola
  77. quando eu estava tão preocupada
    se ia passar vergonha de novo?"
  78. Eles disseram:
    "Sempre partia nosso coração,
  79. mas sabíamos que eram coisas
    que você tinha que fazer.
  80. Tínhamos que arriscar chateá-la
  81. enquanto esperávamos você
    se acostumar com a situação,
  82. com mais tempo e experiência.
  83. Você precisava ser vacinada.
  84. Você precisava ir à escola".
  85. Mal sabiam eles que estavam fazendo mais
    do que me imunizando contra o sarampo.

  86. Estavam também me imunizando contra uma
    vida inteira de transtornos de ansiedade.
  87. Ansiedade excessiva em crianças pequenas
    é como uma superbactéria.
  88. Infecciona, multiplica-se,
  89. de tal forma que muitos jovens que atendo
  90. possuem mais de uma condição de ansiedade
    ocorrendo ao mesmo tempo.
  91. Por exemplo, eles têm
    uma fobia específica,
  92. mais a ansiedade de separação,
    mais a fobia social, tudo junto.
  93. Se não for tratada,
  94. a ansiedade na primeira infância
    pode levar à depressão na adolescência.
  95. Pode também contribuir com o uso de drogas
    e com a tendência ao suicídio.
  96. Meus pais não eram terapeutas.

  97. Eles não conheciam nenhum psicólogo.
  98. Tudo o que sabiam era que essas situações
    podiam ser desconfortáveis para mim,
  99. mas não eram prejudiciais.
  100. Minha ansiedade excessiva teria
    me causado mais dano a longo prazo
  101. se tivessem me deixado evitar
    essas situações, escapar delas
  102. e não aprender a tolerar
    um sofrimento eventual.
  103. Então, na essência, minha mãe e meu pai
    estavam fazendo a versão caseira
  104. da terapia de exposição,
  105. que é o componente mais importante
    do tratamento cognitivo-comportamental
  106. para ansiedade.
  107. Meus colegas e eu conduzimos
    o maior estudo randomizado controlado

  108. do tratamento para ansiedade
    em crianças de 7 a 17 anos.
  109. Descobrimos que a terapia infantil
    de exposição cognitiva-comportamental
  110. ou o uso de um inibidor seletivo
    de recaptação de serotonina
  111. é eficaz com 60% dos jovens tratados.
  112. E a combinação de ambos ajuda 80%
    das crianças em no máximo 3 meses.
  113. São boas notícias.
  114. E se elas continuarem se medicando
  115. ou usarem tratamento de exposição
    mensalmente como fizemos durante o estudo,
  116. podem permanecer bem por mais de um ano.
  117. Entretanto, depois que o estudo
    do tratamento acabou,
  118. fizemos um estudo continuado
    dos participantes
  119. e descobrimos que muitas das crianças
    tinham tido recaídas com o tempo.
  120. E, apesar dos melhores tratamentos
    baseados em evidência,
  121. também descobrimos que 40%
    das crianças com ansiedade
  122. permaneceram doentes durante todo o tempo.
  123. Pensamos muito sobre esses resultados.

  124. Onde estávamos errando?
  125. Chegamos à hipótese
    de que estávamos concentrados
  126. somente em intervenções infantis
  127. e talvez houvesse algo importante
    para direcionar aos pais,
  128. envolvê-los no tratamento também.
  129. Estudos do meu laboratório
    e de colegas no mundo todo

  130. mostraram uma tendência consistente:
  131. pais bem-intencionados, frequentemente,
    são tragados inadvertidamente
  132. para o ciclo de ansiedade.
  133. Eles cedem,
  134. fazem muitas concessões para seus filhos
  135. e deixam-nos escapar
    de situações desafiadoras.
  136. Quero que pensem sobre isso, assim:
  137. seu filho vem para casa
    chorando, aos prantos.
  138. Ele tem cinco ou seis anos de idade.
  139. "Ninguém na escola gosta de mim!
    As crianças são malvadas.
  140. Ninguém quer brincar comigo."
  141. Como vocês se sentem vendo
    seu filho tão chateado?
  142. O que vocês fazem?
  143. O instinto natural dos pais é
    confortar a criança, acalmá-la,
  144. protegê-la e consertar a situação.
  145. Pedir ajuda ao professor ou combinar
    com os pais de outra criança
  146. para que ela brinque com seu filho
  147. são opções se a criança tem cinco anos.
  148. Mas o que fazer se seu filho continua
    vindo para casa chorando todos os dias?
  149. Você continua buscando
    soluções até os 8, 10, 14 anos?
  150. As crianças, conforme se desenvolvem,
  151. invariavelmente encontram
    situações desafiadoras:
  152. dormir na casa do amiguinho, chamada oral,
  153. uma prova desafiadora que surge,
  154. testes para entrar num time de esportes
    ou participar da peça teatral da escola,
  155. conflitos com os colegas...
  156. Todas essas situações envolvem risco:
  157. risco de não ir bem,
    não conseguir o que deseja,
  158. risco de talvez cometer erros
    ou de passar vergonha.
  159. Crianças com ansiedade,

  160. que não se arriscam nem se envolvem,
  161. não aprendem a lidar
    com esse tipo de situação.
  162. Certo?
  163. Porque as habilidades
    se desenvolvem ao longo do tempo,
  164. com exposição repetida às situações
    que as crianças encontram no dia a dia.
  165. Ter habilidades de autocontrole
  166. ou de se acalmar quando está chateado;
  167. resolução de problemas,
  168. incluindo a habilidade de resolver
    conflitos com os outros,
  169. de aguardar uma gratificação,
  170. ou a habilidade de perseverar
  171. apesar de, às vezes, ter de esperar
    para ver o que vai acontecer.
  172. Essas e muitas outras habilidades
    são desenvolvidas por crianças
  173. que se arriscam.
  174. E a autoeficácia toma forma,
  175. o que, de modo simples,
    é a crença na sua capacidade
  176. de superar situações desafiadoras.
  177. Crianças com ansiedade que evitam
    essas situações, escapam delas

  178. e que conseguem outras pessoas
    para resolvê-las por elas,
  179. tornam-se mais e mais ansiosas com o tempo
  180. e cada vez menos autoconfiantes.
  181. Diferentemente dos colegas
    que não sofrem de ansiedade,
  182. elas acreditam que são incapazes
    de lidar com essas situações.
  183. Acham que precisam de alguém,
  184. como os pais delas,
  185. para fazer as coisas por elas.
  186. Enquanto o instinto natural
    dos pais é confortar, proteger

  187. e tranquilizar as crianças,
  188. em 1930, o psiquiatra Alfred Adler
  189. já tinha alertado os pais
  190. que podemos amar um filho
    tanto quanto quisermos,
  191. mas não podemos torná-lo dependente.
  192. Ele aconselhou os pais a começarem
    a treinar as crianças desde cedo
  193. para serem autônomas.
  194. Ele também alertou
    que se as crianças têm a impressão
  195. que seus pais não têm nada melhor a fazer
    a não ser ficar à disposição delas,
  196. elas estão recebendo
    uma falsa ideia do que é o amor.
  197. Crianças com ansiedade, hoje em dia,

  198. estão sempre ligando para seus pais
  199. ou enviando mensagens com suas angústias,
    em qualquer momento do dia.
  200. Se crianças com ansiedade não aprenderem
    a lidar com as situações quando jovens,
  201. o que acontecerá quando elas crescerem?
  202. Eu coordeno grupos de pais de jovens
    adultos com transtornos de ansiedade.

  203. Esses jovens têm entre 18 e 28 anos.
  204. A maioria deles vive com seus pais
  205. e depende deles.
  206. Muitos frequentaram
    a escola e a faculdade.
  207. Alguns se formaram.
  208. A maioria deles não trabalha,
  209. só fica em casa e não faz muita coisa.
  210. Não têm relacionamentos significativos
  211. e são muito dependentes de seus pais
    para fazerem tudo para eles.
  212. Os pais ainda marcam
    as consultas médicas para eles,
  213. ligam para os amigos de infância
    e imploram que venham fazer uma visita,
  214. lavam as roupas e cozinham para eles.
  215. E os pais estão num conflito enorme
    com seu jovem adulto,
  216. porque a ansiedade dele floresceu,
    mas a juventude não.
  217. Esses pais sentem uma enorme culpa,
  218. mas depois sentem ressentimento
  219. e depois mais culpa.
  220. Muito bem! Que tal uma boa notícia?

  221. Se os pais e outras pessoas importantes
    na vida de uma criança
  222. ajudam-na a enfrentar seus medos
  223. e a aprender a resolver problemas,
  224. então é mais provável que ela desenvolva
  225. seus próprios mecanismos
    para lidar com sua ansiedade.
  226. Nós ensinamos os pais
    a permanecerem atentos ao momento
  227. e a pensarem sobre suas reações
    à ansiedade de seus filhos.
  228. Nós pedimos a eles que observem
    as situações e se perguntem:
  229. "Que situação é essa?
  230. Ela é ameaçadora para meu filho?
  231. O que eu gostaria que ele
    aprendesse com ela?"
  232. Mas é claro que queremos
    que os pais escutem com cuidado,

  233. pois se uma criança está sofrendo bullying
    seriamente ou se machucando,
  234. queremos que os pais intervenham,
  235. sem dúvida.
  236. Mas nas situações cotidianas,
    típicas, que produzem ansiedade,
  237. os pais podem ajudar mais
  238. se permanecerem calmos,
    práticos e acolhedores,
  239. validando os sentimentos da criança
  240. mas ajudando-a, depois,
    a planejar como administrar a situação.
  241. E então, o ponto chave,
  242. que é realmente deixar a criança
    lidar com a situação sozinha.
  243. Claro que é de partir o coração
    ver uma criança sofrer,

  244. como meus pais me disseram anos depois.
  245. Quando vocês veem seu filho sofrer,
  246. desejam interferir e poupá-lo da dor,
  247. não é verdade?
  248. É o que desejamos fazer.
  249. Mas seja você jovem ou não,
  250. a ansiedade excessiva nos leva
    a superestimar o risco e o sofrimento
  251. enquanto subestimamos nossa
    habilidade de lidar com as situações.
  252. Sabemos que a exposição repetida
    ao que temos medo enfraquece a ansiedade,
  253. enquanto nos fortalecemos
    e desenvolvemos resiliência.
  254. Meus pais estavam no caminho certo.

  255. A juventude hiperansiosa de hoje
    não está sendo ajudada
  256. pelos pais superprotetores.
  257. Calma e confiança não são só emoções.
  258. São habilidades que pais e filhos
    podem aprender.
  259. Obrigada.

  260. (Aplausos)