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Mostrar Revisión12 creada 07/27/2020 por Margarida Ferreira.

  1. "Eu sou um homem invisível."
  2. "A Mrs. Dalloway disse
    que ela mesma compraria as flores."

  3. "Estás prestes a ler
    o novo romance de Italo Calvino."
  4. Estas três frases de abertura,
    do "Homem Invisível" de Ralph Ellison,

  5. de "Mrs. Dalloway" de Virginia Woolf,

  6. e de "Se um viajante numa noite
    de inverno" de Italo Calvino
  7. estabelecem um ponto de vista diferente.
  8. Quem conta uma história,
    e de que perspetiva,
  9. são algumas das escolhas mais importantes
    que um autor tem de fazer.
  10. Uma história pode-se transformar,
    contada de um ponto de vista diferente.
  11. Por exemplo, neste conto:
  12. "Rapunzel, Rapunzel," pediu o princípe:
    "Solta os teus cabelos."

  13. "A Rapunzel desfez a trança
    e atirou o cabelo pela janela.
  14. "O príncipe trepou
    pelas madeixas até à torre."
  15. Esta história é normalmente
    contada assim, com o narrador de fora.
  16. Este é o ponto de vista da 3.ª pessoa.
  17. Mas a história pode ser contada
    por uma personagem dentro dela.
  18. por um narrador na 1.ª pessoa.

  19. "As pontas dos cabelos de Rapunzel
    caíram-me aos pés.
  20. "Agarrei neles e comecei a trepar.
  21. "Não me conseguia desembaraçar.
  22. "Cabelos por todo o lado,
    colados ao meu suor."
  23. Numa narrativa de 1.ª pessoa,
    a história pode-se alterar drasticamente
  24. dependendo da personagem
    que seja o narrador.

  25. Digamos que a Rapunzel é a narradora,
    em vez do príncipe:
  26. "Espero que ele saiba o trabalho que dá
    desfazer tranças de oito metros.
  27. "Vou ser sincera,
  28. "pensei que o couro cabeludo
    me ia saltar do crânio.
  29. "Não podes ser mais rápido?" gritei.
  30. Na 2.ª pessoa, o narrador
    dirige a história ao leitor,
  31. chama por nós,
    quer que soltemos os cabelos.

  32. "Acabaste de os entrançar, mas bem...
    não costumas ter muitas visitas."

  33. As perspetivas na 3.ª pessoa,
    na 1.ª pessoa e na 2.ª pessoa,
  34. cada uma tem possibilidades
    e restrições únicas.

  35. Então como escolher um ponto de vista
    para a nossa história?
  36. As restrições não são
    necessariamente uma coisa má.
  37. Podem ajudar a concentrarmo-nos
    ou a salientarmos certos elementos.

  38. Por exemplo, um narrador na 3.ª pessoa
    está sempre um pouco afastado
  39. das personagens.
  40. Mas isso pode ser bom para histórias
  41. em que a sensação
    de distância é importante.
  42. Um narrador na 3.ª pessoa
    pode ser limitado,
  43. só estar próximo dos pensamentos
    e sentimentos de uma personagem,
  44. ou ser omnisciente, esvoaçar
    entre as mentes das personagens
  45. e disponibilizar
    mais informação ao leitor.
  46. A 1.ª pessoa cria proximidade
    entre o leitor e o narrador.
  47. Mas também fica limitada
    pelo conhecimento do narrador.

  48. Isso pode criar "suspense"
  49. pois o leitor vai descobrindo
    o mesmo que a personagem.
  50. Um narrador na 1.ª pessoa
    não tem de representar
  51. fidedignamente a experiência
    da personagem,
  52. pode ser enganador ou desonesto.
  53. No romance "Os Despojos do Dia"
    de Kazuo Ishiguro,
  54. Stevens, um idoso mordomo
    britânico em 1956,
  55. recorda os muitos anos de serviço,
  56. mas não consegue reconhecer
    os defeitos do homem que serve.
  57. As falhas na sua narrativa acabam
    por chamar a atenção do leitor
  58. para as falhas não reconhecidas
    da cultura e do sistema de classes
  59. em que ele vive.
  60. O romance "We The Animals"
    de Justin Torres,
  61. começa com um narrador
    na 1.ª pessoa do plural:

  62. "Éramos seis mãos esticadas,
    seis pés a bater;
  63. "éramos irmãos, rapazes,
  64. "três pequenos reis
    presos numa disputa por mais."
  65. A meio da história,
    o ponto de vista é alterado
  66. para a 1.ª pessoa do singular,
    de "nós" para "eu", à medida que crescem
  67. e um dos irmãos se sente
    afastado dos outros.
  68. A 2.ª pessoa é uma escolha menos comum.
  69. Requer que o leitor suspenda
    a descrença e se torne noutro "tu".

  70. Colocar o leitor na perspetiva
    da personagem
  71. pode criar urgência e "suspense".
  72. Mas, por vezes,
    a 2.ª pessoa pretende distanciar
  73. o narrador da própria história,
  74. em vez de aproximar o leitor da história.
  75. Nestes casos, o narrador
    na 2.ª pessoa refere-se a si mesmo
  76. como "tu" em vez de "eu".
  77. Os escritores estão sempre a experimentar
    variações de ponto de vista.
  78. As novas tecnologias virtuais
    e da realidade aumentada

  79. podem expandir as possibilidades
    destas experiências.
  80. Ao colocar pessoas num ponto de vantagem
    específico no espaço virtual,
  81. como poderemos alterar a forma
    de contar e experienciar histórias?