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Mostrar Revisión13 creada 07/08/2020 por Raissa Mendes.

  1. "Eu sou um homem invisível."
  2. "A Sra. Dalloway disse
    que ela própria compraria as flores."

  3. "Você está prestes a ler
    o novo romance de Italo Calvino."

  4. Essas são, respectivamente, as aberturas

  5. de "O Homem invisível", de Ralph Ellison,
  6. "Mrs. Dalloway", de Virginia Woolf,
  7. e "Se um viajante numa noite
    de inverno", de Italo Calvino.
  8. Cada uma delas estabelece
    um ponto de vista.
  9. Quem está contando a história,
    e de qual perspectiva,
  10. são algumas das escolhas mais importantes
    que os escritores podem fazer.
  11. Contada de outro ponto de vista,
    a história pode mudar completamente.
  12. Vejamos este conto de fadas:

  13. "Rapunzel, Rapunzel", chamou o príncipe,
    "jogue suas tranças".
  14. Rapunzel desenrolou o cabelo,
    e o jogou pela janela.
  15. O príncipe escalou as tranças até a torre.
  16. A história de Rapunzel é normalmente
    contada por um narrador externo.
  17. Esse ponto de vista é chamado
    de terceira pessoa.
  18. Mas a história também poderia
    ser narrada por um personagem interno,

  19. um narrador em primeira pessoa.
  20. "A ponta do cabelo de Rapunzel
    caiu aos meus pés.
  21. Eu a agarrei e comecei a subir... uh!
  22. Eu não conseguia me desvencilhar.
  23. O fios grudaram em mim,
    colando no meu suor."
  24. Narrada em primeira pessoa,
    a história pode mudar drasticamente,

  25. dependendo do personagem que narra.
  26. Digamos que Rapunzel estivesse
    narrando, e não o príncipe:
  27. "Espero que ele valorize o tempo que levo
    pra desenrolar quase 8 metros de cabelo.
  28. Aiiiii!
  29. Sendo honesta: achei que ia ficar careca.
  30. 'Dá pra subir mais rápido?', gritei."
  31. Em segunda pessoa,
    o narrador se dirige ao leitor.

  32. Ele chama seu nome.
  33. E quer que você jogue os seus cabelos.
  34. Você acabou de trançá-los, mas, poxa,
    não é sempre que você tem visitas.
  35. As perspectivas da terceira,
    da primeira e da segunda pessoa,

  36. cada uma proporciona possibilidades únicas
    assim como restrições.
  37. Então, como você escolhe
    um ponto de vista para sua história?
  38. Restrições não são
    necessariamente algo ruim.

  39. Elas podem te ajudar a focar a história
    e destacar certos elementos.
  40. Por exemplo,
  41. um narrador em terceira pessoa
    tende a se afastar dos personagens.
  42. Mas isso pode ser algo bom, quando
    o sentimento de distância é importante.
  43. Um narrador em terceira pessoa
    também pode ser limitado,
  44. pois ele fica atrelado aos sentimentos
    e pensamentos de um personagem,
  45. ou ele pode ser onisciente, navegando
    entre as mentes dos personagens,
  46. dando ao leitor mais informações.
  47. Uma história em primeira pessoa cria
    uma proximidade entre leitor e narrador.

  48. Também fica restrita
    ao conhecimento do narrador.
  49. Isso pode criar suspense
  50. conforme o leitor vai descobrindo
    as informações junto com o personagem.
  51. Esse narrador não tem necessariamente
  52. que representar a experiência
    do personagem fidedignamente.
  53. Pode haver ilusão ou desonestidade.
  54. Em "Os vestígios do dia",
    obra de Kazuo Ishiguro,
  55. Stevens, um velho mordomo britânico,
    em 1956 reconta seus anos de serviços,
  56. mas fracassa em reconhecer
    os erros do homem para quem trabalhou.
  57. As brechas em sua narrativa acabam
    chamando a atenção dos leitores
  58. para as falhas não reconhecidas
    da cultura e do sistema de classes
  59. em que ele vive.
  60. O livro "We the Animals",
    de Justin Torres,

  61. começa com um narrador
    na primeira pessoa do plural:
  62. "Nós éramos seis mãos esticadas,
    seis pés batendo;
  63. éramos irmãos, meninos, três reizinhos
    presos em uma disputa por mais".
  64. Em certo momento da história,
    o ponto de vista muda
  65. para a primeira pessoa do singular,
    do "nós" para "eu",
  66. conforme eles crescem, e um dos irmãos
    se sente alienado dos outros.
  67. A escolha da segunda pessoa é menos comum.

  68. Exige que o escritor faça o leitor perder
    a descrença, para se tornar outro "você".
  69. Quando o escritor põe o leitor
    na visão do personagem,
  70. isso pode gerar urgência e suspense.
  71. Porém, algumas vezes,
  72. a segunda pessoa serve mais para afastar
    o narrador de sua própria história
  73. do que aproximar o leitor dela.
  74. Nesses casos,
  75. esse narrador refere-se a si próprio
    como "você", e não como "eu".
  76. Escritores estão sempre experimentando
    diferentes pontos de vistas.

  77. Novas tecnologias de realidade aumentada
  78. podem expandir as possibilidades
    para essa variação.
  79. Ao colocar as pessoas em certo ponto
    de vista em um ambiente virtual,
  80. como isso transformaria nosso jeito
    de contar e experimentar histórias?