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← O caminho do "não" para o "sim"

William Ury, autor de "Getting to Yes," oferece uma solução elegante, simples (mas não tão fácil) de chegar a entendimento mesmo nas situações mais difíceis — desde o conflito familiar a, por exemplo, o Médio Oriente.

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Showing Revision 3 created 09/26/2015 by Margarida Ferreira.

  1. O tema da negociação difícil
  2. lembra-me uma
    das minhas histórias favoritas
  3. do Médio Oriente.
  4. Um homem deixou
    17 camelos aos seus três filhos.
  5. Ao primeiro filho,
    deixou metade dos camelos.
  6. Ao segundo filho,
    deixou um terço dos camelos;
  7. e ao filho mais novo,
    deixou um nono dos camelos.
  8. Os três filhos entraram em negociações.
  9. Não se pode dividir 17 por 2.
  10. Por 3 também não.
  11. E por 9 também não.
  12. As relações entre irmãos
    começaram a azedar.
  13. Finalmente, desesperados,
    foram consultar uma velha sábia.
  14. A velha sábia pensou no problema
    durante muito tempo
  15. e finalmente disse:
  16. "Não sei se vos consigo ajudar,
  17. "mas, se quiserem,
    posso dar-vos o meu camelo."
  18. Assim, eles ficaram com 18 camelos.
  19. O primeiro filho levou a sua metade
    — metade de 18 é 9.
  20. O segundo filho levou o seu terço
    — um terço de 18 é 6.
  21. O filho mais novo levou a sua nona parte
    — um nono de 18 é 2.
  22. Ao todo, 17.
  23. Sobrou-lhes um camelo.
  24. E devolveram o camelo à velha sábia.
  25. (Risos)

  26. Pensem nesta história por um momento.

  27. Eu acho que se assemelha
  28. a muitas das negociações difíceis
    em que nos envolvemos.
  29. Começam com 17 camelos — sem solução.
  30. De certa forma, precisamos
  31. de afastar-nos dessas situações,
    como a velha sábia fez,
  32. ver a situação com outros olhos
  33. e arranjar o 18.º camelo.
  34. Arranjar esse 18.º camelo
    nos conflitos mundiais
  35. tem sido a paixão da minha vida.
  36. Eu vejo a Humanidade
    um pouco como aqueles três irmãos.
  37. Somos todos uma família.
  38. Sabemos que, cientificamente,
  39. graças à revolução nas comunicações,
  40. todas as tribos do planeta,
    todas as 15 000 tribos,
  41. estão em contacto umas com as outras.
  42. É uma grande reunião de família.
  43. Apesar disso,
    como em muitas reuniões familiares,
  44. não é só paz e luz.
  45. Existem muitos conflitos.
  46. E a questão é: Como é que lidamos
    com as nossas diferenças?
  47. Com as nossas
    diferenças mais profundas,
  48. tendo em conta que a humanidade
    é propensa ao conflito
  49. e o génio humano a desenvolver
    armas de destruição maciça?
  50. Essa é a questão.
  51. Como passei grande parte
    das últimas três décadas

  52. — quase quatro —
  53. a viajar pelo mundo,
  54. a tentar trabalhar,
    a envolver-me nos conflitos
  55. desde a Jugoslávia ao Médio Oriente
  56. à Chechénia e à Venezuela,
  57. alguns dos conflitos
    mais difíceis à face da terra,
  58. eu tenho colocado essa questão
    a mim próprio.
  59. E acho que encontrei, de certo modo,
  60. o segredo para a paz.
  61. O segredo é surpreendentemente simples.
  62. Não é fácil, mas é simples.
  63. Nem sequer é uma coisa nova.
  64. Talvez seja umas das nossas
    heranças mais antigas.
  65. O segredo para a paz somos nós.
  66. Somos nós, que agimos
    enquanto comunidade envolvente
  67. em torno de qualquer conflito,
  68. que podemos desempenhar
    um papel construtivo.
  69. Vou contar-vos uma história, um exemplo.

  70. Há uns 20 anos eu estava na África do Sul
  71. a trabalhar com as partes de um conflito,
  72. e tinha um mês extra.
  73. Então passei algum tempo a viver
  74. com vários grupos de bosquímanos San .
  75. Tinha curiosidade sobre eles e sobre
    a forma como resolviam os conflitos.
  76. Porque, afinal, desde que há memória,
  77. eles são caçadores e recoletores

  78. a viver praticamente
    como viviam os seus antepassados.
  79. durante talvez 99%
    da história da humanidade.
  80. Todos os homens têm setas envenenadas
    que usam para caçar
  81. — completamente fatais.
  82. Como é que eles lidam
    com as suas diferenças?
  83. O que eu aprendi
  84. foi que sempre que os ânimos se exaltam
    naquelas comunidades,
  85. alguém esconde todas as setas venenosas
    nos arbustos,
  86. depois toda a gente se senta
    numa roda como esta,
  87. sentam-se, e falam, e falam.
  88. Pode durar dois dias,
    três dias, quatro dias,
  89. mas eles não descansam
  90. enquanto não encontram a solução,
  91. ou melhor, a reconciliação.
  92. Se os ânimos continuarem exaltados,
  93. enviam alguém para visitar parentes
  94. como uma forma de se acalmarem.
  95. Bem, penso que esse sistema
    é, provavelmente,

  96. o sistema que nos manteve vivos até hoje,
  97. dadas as nossas tendências humanas.
  98. A esse sistema, chamo-lhe "terceiro lado".
  99. Porque, se pensarem nisso,
  100. normalmente,
    quando descrevemos conflitos,,
  101. há sempre dois lados.
  102. São árabes contra israelitas,
    o trabalho contra a gestão,
  103. maridos contra mulheres,
    republicanos contra democratas.
  104. Mas aquilo que nem sempre vemos
  105. é que há sempre um terceiro lado.
  106. O terceiro lado do conflito somos nós,
  107. é a comunidade circundante,
  108. são os amigos, os aliados,
    os membros das famílias, os vizinhos.
  109. Nós podemos ter um papel
    incrivelmente construtivo.
  110. Talvez a maneira mais fundamental
  111. em que o terceiro lado pode ajudar
  112. seja relembrar as partes
    do que realmente está em jogo.
  113. Pelas crianças, pela família,
  114. pela comunidade, pelo futuro,
  115. vamos parar de lutar por um momento
    e começar a falar.
  116. Porque, a questão é,
  117. quando estamos envolvidos em conflitos,
  118. é muito fácil perder a perspetiva.
  119. É muito fácil reagir.
  120. Como seres humanos,
    somos máquinas de reação.
  121. E como diz o ditado:
  122. "Quando zangado, farás o melhor discurso
  123. "de que te vais arrepender".
  124. (Risos)
  125. Assim o terceiro lado lembra-nos disso.
  126. O terceiro lado ajuda-nos
    a "ir à varanda",
  127. que é uma metáfora
    para um lugar de perspetiva,
  128. onde podemos manter os olhos no prémio.
  129. Vou contar-vos uma história
    da minha experiência em negociação.

  130. Há uns anos, eu estava
    envolvido como facilitador
  131. numas conversações bastante duras
  132. entre os líderes da Rússia
    e os líderes da Chechénia.
  133. Como sabem, estava a decorrer uma guerra.
  134. Reunimo-nos em Haia,
    no Palácio da Paz,
  135. na mesma sala onde estava a decorrer
  136. o julgamento de crimes
    de guerra jugoslavos.
  137. As conversações tiveram um começo agitado
  138. quando o vice-presidente da Chechénia
  139. começou por apontar para os russos
    e disse:
  140. "Vocês deviam ficar aí mesmo
    nesses lugares,
  141. "porque vão ser julgados
    por crimes de guerra."
  142. Depois virou-se para mim e disse:
  143. "Você é americano.
  144. " Veja o que vocês americanos
    estão a fazer em Porto Rico."
  145. O meu espírito começou a acelerar:
  146. "Porto Rico? O que é que eu sei
    sobre Porto Rico?"
  147. Comecei a reagir,
  148. mas depois lembrei-me de "ir à varanda".
  149. Quando ele parou,
    e toda a gente a olhar para mim,
  150. à espera da minha resposta,
  151. da perspetiva da varanda, agradeci-lhe
    a sua chamada de atenção e disse:
  152. "Agradeço a sua crítica ao meu país,
  153. "e entendo-a como um sinal
    de que estamos entre amigos
  154. "e podemos falar abertamente entre nós.
  155. "E não estamos aqui para falar
    sobre Porto Rico ou sobre o passado.
  156. "Estamos aqui para ver se conseguimos
    encontrar uma forma
  157. "de parar com o sofrimento e
    o derramamento de sangue na Chechénia."
  158. As conversações voltaram ao seu trilho.
  159. Este é o papel do terceiro lado,
  160. é ajudar as partes a "ir para a varanda".
  161. Agora vou levar-vos por um momento

  162. àquilo que é amplamente considerado
    como o conflito mais difícil do mundo,
  163. ou o conflito mais impossível.
  164. É o Médio Oriente.
  165. A questão é: "Onde está o terceiro lado?
  166. "Como é que podemos ir para a varanda?"
  167. Eu não tenho a pretensão
    de ter uma resposta
  168. para o conflito do Médio Oriente,
  169. mas acho que tenho um primeiro passo,
  170. literalmente um primeiro passo,
  171. uma coisa que todos podemos fazer
    como pessoas no terceiro lado.
  172. Mas primeiro vou fazer-vos uma pergunta.
  173. Quantos de vocês,
    nos últimos anos,
  174. se preocupou com o Médio Oriente
  175. e perguntou o que é que se podia fazer?
  176. Só por curiosidade, quantos de vocês?
  177. Ok, a grande maioria.
  178. Apesar disso, está tão longe.
  179. Porque é que prestamos tanta atenção
    a este conflito?
  180. Será pelo número de mortes?
  181. Morrem centenas de vezes mais pessoas
  182. num conflito em África
    do que no Médio Oriente.
  183. Não. É por causa da história,
  184. porque nos sentimos
    pessoalmente envolvidos
  185. nessa história.
  186. Quer sejamos cristãos,
    muçulmanos ou judeus,
  187. religiosos ou não-religiosos,
  188. sentimos que temos
    um envolvimento pessoal.
  189. As histórias interessam.
    Como antropólogo, sei disso.

  190. As histórias são o que usamos
    para transmitir conhecimentos.
  191. Dão sentido às nossas vidas.
  192. É o que contamos aqui no TED,
    contamos histórias.
  193. As histórias são a chave.
  194. Por isso a minha questão é:
  195. Sim, vamos tentar resolver
    as políticas lá no Médio Oriente,
  196. mas vamos também
    dar uma vista de olhos na história.
  197. Vamos tentar chegar à raiz do problema.
  198. Vamos ver se podemos aplicar
    o terceiro lado nela.
  199. O que é que isso quererá dizer?
    Qual é a história lá?
  200. Os antropólogos sabem

  201. que todas as culturas
    têm uma história na sua origem.
  202. Qual é a história do Médio Oriente?
  203. Numa frase, é esta:
  204. Há 4000 anos, um homem e a sua família
  205. atravessaram o Médio Oriente,
  206. e o mundo nunca mais foi o mesmo.
  207. Esse homem, claro, foi Abraão.
  208. Ele defendeu a unidade,
    a unidade da família.
  209. Ele é o pai de todos nós.
  210. Mas não é só pelo que defendeu,
    é pela sua mensagem.
  211. A sua mensagem básica
    também era a unidade,
  212. a interligação de tudo isso
    e a unidade de tudo isso.
  213. O seu valor de base era o respeito,
  214. era a bondade para com estranhos.
  215. Era por isso que ele era conhecido,
    pela sua hospitalidade.
  216. Então, nesse sentido,
  217. ele é um terceiro lado simbólico
    do Médio Oriente.
  218. É ele que nos relembra
  219. que todos fazemos parte de um todo maior.
  220. Mas agora pensem um bocado.
  221. Enfrentamos hoje o pesadelo do terrorismo.

  222. O que é o terrorismo?
  223. O terrorismo é pegar
    num desconhecido inocente
  224. e tratá-lo como inimigo a quem se mata
  225. para provocar o medo.
  226. Qual é o oposto do terrorismo?
  227. É pegarmos num desconhecido inocente
  228. e tratá-lo como um amigo
  229. a quem damos as boas vindas a nossa casa
  230. para semear e criar compreensão,
  231. ou respeito, ou amor.
  232. Então, que tal agarrarmos
    na história de Abraão,

  233. que é a história do terceiro lado?
  234. E se isso pudesse ser
  235. — porque Abraão significa hospitalidade —
  236. e se isso pudesse ser um antídoto
    para o terrorismo?
  237. E se isso pudesse ser uma vacina
  238. contra a intolerância religiosa?
  239. Como é que vocês podiam
    dar vida a essa história?
  240. Não basta contar uma história.
  241. Isso tem poder
  242. mas as pessoas precisam
    de experimentá-la.
  243. Precisam de poder viver a história.
    Como é que podem fazê-lo?
  244. Foi esse o meu pensamento:
    "como fazê-lo?"
  245. E é isso que vem como primeiro passo.
  246. Porque a maneira simples de o fazer
  247. é ir dar uma volta.
  248. Vão dar uma volta pelos passos de Abraão.
  249. Refaçam os passos de Abraão.
  250. Porque caminhar tem um verdadeiro poder.
  251. Como antropólogo, sei que
    caminhar foi o que nos tornou humanos.
  252. É engraçado, quando caminhamos,
  253. caminhamos lado a lado
  254. na mesma direção comum.
  255. Se eu fosse ter com vocês, frente a frente
  256. e chegasse assim tão perto de vocês,
  257. vocês iriam sentir-se ameaçados.
  258. Mas se eu caminhar ombro com ombro
  259. mesmo que toque no vosso ombro,
  260. não há problema.
  261. Quem combate enquanto caminha?
  262. É por isso que, quando as coisas
    ficam sérias, nas negociações.
  263. as pessoas vão dar uma volta
    pela floresta.
  264. Então ocorreu-me a ideia

  265. do quão inspirador
    podia ser um caminho, uma direção
  266. — pensem na rota de seda,
    pensem no trilho apalachiano —
  267. que seguisse os passos de Abraão.
  268. Houve pessoas que disseram:
    "É uma loucura.
  269. "Não podes refazer os passos de Abraão.
  270. "É demasiado perigoso.
    Tens de passar todas essas fronteiras.
  271. "Passar por 10 países diferentes
    no Médio Oriente,
  272. "porque os une a todos."
  273. Então nós estudámos a ideia em Harvard.
  274. Fizemos as devidas diligências.
  275. E então, há uns anos, alguns de nós,
  276. éramos cerca de 25
    de 10 países diferentes,
  277. decidimos ver se podíamos refazer
    os passos de Abraão,
  278. desde a sua cidade natal de Urfa,
    no sul da Turquia,
  279. até ao norte da Mesopotâmia.
  280. Apanhámos um autocarro, andámos a pé
  281. e fomos para Harran,
  282. onde, na Bíblia, ele começa a sua jornada.
  283. Passámos a fronteira para a Síria,
    fomos a Alepo,
  284. cujo nome vem de Abraão.
  285. Fomos a Damasco,
  286. que tem uma longa história
    associada a Abraão.
  287. Viemos depois para o norte da Jordânia,
  288. para Jerusalém,
  289. que tem tudo a ver com Abraão,
  290. a Belém, e, finalmente, ao sítio
    onde ele está sepultado
  291. em Hebron.
  292. Portanto, fomos
    desde o berço até ao túmulo.
  293. Mostrámos que era possível.
    Foi uma jornada magnífica.
  294. Vou fazer-vos uma pergunta:

  295. Quantos de vocês já tiveram a experiência
  296. de estar num bairro desconhecido,
  297. ou numa terra desconhecida,
  298. e um desconhecido,
    um perfeito desconhecido,
  299. se aproximar e mostrar a sua simpatia,
  300. talvez convidando-vos para a sua casa,
    oferecer-vos uma bebida,
  301. dar-vos um café, ou uma refeição?
  302. Quem já teve essa experiência?
  303. Essa é a essência do caminho de Abraão.
  304. Vamos por essas aldeias no Médio Oriente
  305. onde esperamos hostilidade,
  306. e encontramos uma magnífica hospitalidade,
  307. toda associada a Abraão.
  308. "Em nome de Ibrahim,
  309. "deixem-me oferecer-vos alguma comida."
  310. Então o que descobrimos
  311. é que Abraão não é só uma figura
    dos livros para aquela gente,
  312. ele está vivo, ele é uma presença viva.
  313. Para resumir,

  314. de há uns anos para cá
  315. milhares de pessoas
  316. começaram a caminhar
    bocados do caminho de Abraão
  317. no Médio Oriente,
  318. aproveitando a hospitalidade
    das pessoas que lá se encontram.
  319. Começaram a caminhar
    em Israel e na Palestina,
  320. na Jordânia, na Turquia, na Síria.
  321. É uma experiência magnífica.
  322. Homens, mulheres, jovens, idosos...
  323. mais mulheres que homens,
    curiosamente.
  324. Para aqueles que não podem andar,
  325. que não podem lá ir de momento,
  326. as pessoas começaram
    a organizar caminhadas
  327. nas suas cidades, nas suas comunidades.
  328. Em Cincinnati,
    organizaram uma caminhada
  329. desde uma igreja, uma mesquita,
    até a uma sinagoga
  330. e todos uma refeição
    abraâmica juntos.
  331. Foi o dia do caminho da Abraão.
  332. Em S. Paulo, Brasil, começou
    a ser um evento anual
  333. para uma corrida de milhares de pessoas,
    num caminho virtual de Abraão,
  334. unindo as diferentes comunidades.
  335. Os media adoram isso, adoram mesmo.
  336. Dão-lhe muita atenção, porque é visual,
  337. e espalha a ideia,
    essa ideia abraâmica de hospitalidade
  338. de empatia para com estranhos.
  339. E apenas há umas semanas
  340. houve uma reportagem
    sobre isso, na NPR.
  341. No mês passado,
    houve um artigo no Guardian,
  342. no Manchester Guardian, sobre isso.
  343. Duas páginas completas.
  344. Citaram um aldeão que disse:
  345. "Esta caminhada liga-nos ao mundo."
  346. Disse que foi como uma luz
    que chegou à nossa vida.
  347. Trouxe-nos esperança.
  348. Este é o propósito de tudo isto.
  349. Mas não é só sobre psicologia,
    é sobre economia,

  350. porque as pessoas, à medida que caminham,
    gastam dinheiro.
  351. Esta mulher, Um Ahmad,
  352. é uma mulher que vive no caminho
    no norte da Jordânia.
  353. É terrivelmente pobre.
  354. É parcialmente cega,
    o marido não pode trabalhar,
  355. tem 7 filhos.
  356. A única coisa que pode fazer, é cozinhar.
  357. Então, começou a cozinhar
    para grupos de caminheiros
  358. que vêm pela aldeia,
    e comem uma refeição na sua casa.
  359. Sentam-se no chão.
  360. Ela não tem sequer uma toalha.
  361. Faz uma comida deliciosa,
  362. fresca, das ervas da terra vizinha.
  363. Então apareceram
    cada vez mais caminheiros.
  364. Ultimamente ela começou
    a ganhar dinheiro
  365. para sustentar a família.
  366. E disse à nossa equipa:
  367. "Vocês tornaram-me visível
  368. "numa aldeia onde as pessoas
    se envergonhavam
  369. "de olhar para mim."
  370. Este é o potencial do caminho de Abraão.
  371. Há literalmente centenas
    desse tipo de comunidades
  372. por todo o Médio Oriente, pelo caminho.
  373. O potencial é basicamente
    o de mudar o jogo.
  374. Para mudar o jogo,
    temos de mudar a estrutura,
  375. a maneira como vemos as coisas.
  376. Para mudar a estrutura
  377. de hostilidade para hospitalidade,
  378. de terrorismo para turismo.
  379. Nesse sentido, o caminho de Abraão
  380. veio alterar as regras do jogo.
  381. Vou mostrar-vos uma coisa.

  382. Tenho aqui uma bolota
  383. que apanhei enquanto percorria o caminho,
  384. no início deste ano.
  385. A bolota é associada ao carvalho, claro.
  386. Cresce e transforma-se num carvalho,
    que está associado a Abraão.
  387. O caminho agora é como uma bolota,
  388. ainda está numa fase prematura.
  389. Como será o carvalho?
  390. Penso na minha infância.
  391. Depois de nascer aqui em Chicago,
  392. passei uma boa parte dela na Europa.
  393. Se vocês tivessem estado
    nas ruínas, por exemplo, de Londres
  394. em 1945, ou Berlim,
  395. e tivessem dito:
  396. "Daqui a 60 anos,
  397. "isto vai ser uma parte do planeta
    pacífica e próspera",
  398. as pessoas pensariam que vocês
    estariam redondamente loucos.
  399. Mas isso foi possível graças
    a uma identidade comum — a Europa —
  400. e a uma economia comum.
  401. A minha pergunta é:
    Se é possível fazê-lo na Europa,
  402. porque não no Médio Oriente?
  403. Porque não, graças
    a uma identidade comum
  404. — que é a história de Abraão —
  405. e graças a uma economia comum
  406. que seria baseada
    em grande parte no turismo?
  407. Vou concluir

  408. dizendo, que nos últimos 35 anos,
  409. em que trabalhei nalguns dos conflitos
  410. mais perigosos, difíceis e irascíveis
    de todo o mundo,
  411. ainda estou para ver um conflito
  412. que eu sinta que não pode
    ser transformado.
  413. Não é fácil, claro,
  414. mas é possível.
  415. Foi feito na África do Sul.
  416. Foi feito na Irlanda do Norte.
  417. Pode ser feito em qualquer lado.
  418. Apenas depende de nós.
  419. Depende de tomarmos o terceiro lado.
  420. Por isso convido-vos
  421. a considerarem pegar no terceiro lado,
  422. mesmo sendo um passo muito pequeno.
  423. Vamos fazer uma pausa daqui a pouco.
  424. Dirijam-se a alguém
  425. que seja duma cultura diferente,
    de um país diferente,
  426. duma etnia diferente, alguma diferença,
  427. e comecem uma conversa
    com essa pessoa, oiçam-na.
  428. Essa é uma ação do terceiro lado.
  429. Isso é percorrer o caminho de Abraão.
  430. Depois duma conferência TED,
  431. porque não uma caminhada TED?
  432. Vou deixar-vos três coisas.

  433. Uma é, o segredo da paz é o terceiro lado.
  434. O terceiro lado somos nós, cada um de nós.
  435. Com um único passo,
  436. podemos trazer o mundo
    um passo mais perto da paz.
  437. Há um antigo ditado africano que diz:
  438. "Quando as teias de aranha se unem,
    até detêm um leão."
  439. Se formos capazes de unir
  440. as teias da paz do terceiro lado,
  441. até podemos deter o leão da guerra.
  442. Muito obrigado.

  443. (Aplausos)