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← Como eu uso a arte para combater a poluição nos nossos oceanos

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Showing Revision 50 created 01/12/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Isto é Sian Ka'an.
  2. Situa-se a norte de Tulum,
    na costa das Caraíbas do México,

  3. é uma reserva protegida, a nível federal,
  4. é Património Mundial da UNESCO
  5. e uma das regiões do planeta
    com maior biodiversidade.
  6. Mas quando a visitei
    pela primeira vez, em 2010,
  7. fiquei horrorizado e completamente confuso
  8. porque a praia estava coberta de lixo.
  9. Eu percebi, então, que aquilo chegava
    a flutuar do mundo inteiro.
  10. Depois daquela primeira viagem,
  11. tenho lá voltado várias vezes por ano
  12. para visitar Sian Ka'an,
    o meu país natal,

  13. para trabalhar com esse lixo.
  14. E até agora,
  15. já documentámos lixo de 58 países
    e territórios diferentes
  16. de seis continentes,
  17. que chega à praia,
    neste paraíso, no México.
  18. Embora nunca venha a saber
    onde um produto foi deitado fora,
  19. às vezes, baseando-me no rótulo,
    posso saber onde algo foi fabricado.
  20. A vermelho, vemos todos os países
    representados pelo seu lixo

  21. em Sian Ka'an.
  22. Como estes potes de manteiga haitianos
    de todas as formas e tamanhos,
  23. estas garrafas de água da Jamaica.
  24. Não admira que muitas coisas
    sejam de países vizinhos das Caraíbas,
  25. mas elas vêm de todos os lados.
  26. Este é um exemplo
    de garrafas de água internacionais.
  27. E uma das ironias é que
    muitas das coisas que encontro
  28. são produtos de limpeza e de beleza,
  29. como este artigo dos EUA
  30. que foi feito para proteger o plástico.
  31. (Risos)
  32. Champô da Coreia do Sul,
  33. lixívia da Costa Rica

  34. e detergente sanitário norueguês.

  35. São artigos que conhecemos muito bem,
  36. pelo menos, espero que conheçam
    estas escovas de dentes.
  37. (Risos)
  38. Utensílios de cozinha.
  39. Brinquedos.

  40. Também estou a encontrar indícios
    de queima de plásticos,

  41. o que liberta no ar
    gases causadores de cancro.
  42. As pessoas perguntam qual é o artigo
    mais interessante que já encontrei,
  43. e, de longe, é esta perna artificial.
  44. Ali ao fundo, se estão a ver
    aquela pequena tampa azul de garrafa,

  45. na altura em que a encontrei,
  46. estava a ser a casa
    deste caranguejo-eremita.
  47. Este tipo é muito giro.
  48. (Risos)
  49. (Risos)
  50. E são estes objetos fascinantes,

  51. mas também objetos horrorosos,

  52. cada um com a sua própria história,

  53. que eu uso para fazer a minha arte
    efémera e ecológica.
  54. Tudo começou com esta imagem
    em fevereiro de 2010,
  55. quando eu visitei Sian Ka'an.
  56. Percebi que o azul era
    a cor dominante dos plásticos.

  57. O roxo é a cor mais rara.
    É como ouro para mim.
  58. Mas o azul é a mais predominante,
  59. Então, juntei alguns artigos azuis
  60. e fiz este pequeno arranjo
    em frente do céu azul
  61. e das águas azuis das Caraíbas.
  62. Quando tirei uma foto
    e olhei para a prova,
  63. foi como se um raio me tivesse atingido
    naquele momento.
  64. Eu sabia que teria de voltar
  65. para fazer uma série inteira
    de instalações no local
  66. e fotografá-las.
  67. Então, isto acabou por ser um esboço
  68. para um trabalho que completei
    três anos mais tarde.
  69. Eu não fazia ideia de que,
    quase 10 anos depois,

  70. quase uma década depois,
    eu ainda estaria a trabalhar naquilo.
  71. Mas o problema persiste.
  72. Então, vou mostrar
    algumas das imagens
  73. da série que chamo de "Washed Up:
    Transforming a Trashed Landscape".
  74. Tenham em mente que
    eu não pinto o lixo.

  75. Eu apanho-o e organizo-o por cores
  76. nas mesmas praias em que o encontro.
  77. Esta é minha preciosa pilha de lixo,
    tal como vista em 2015,
  78. após ser colocada na primeira edição
    do "Museo de la Basura"
  79. ou seja, o "Museu do Lixo".

  80. A minha intenção é cuidar deste lixo,
  81. exaltá-lo, colocá-lo num pedestal
  82. e exibi-lo.
  83. Todos nós já vimos imagens devastadoras
  84. de animais a morrer
    com plástico no estômago.
  85. E é muito importante vermos isso
  86. e termos isso em consideração.

  87. Mas é fazendo arranjos estéticos
    — há quem os ache bonitos —
  88. com o lixo do mundo,
  89. que estou a tentar captar
    a atenção do espetador
  90. para apresentar aos que podem
    não conhecer os horrores do mundo
  91. e fazê-los pensar de uma forma diferente
    para entender o que está a acontecer.
  92. Alguns descrevem
    o Grande Depósito de Lixo do Pacífico
  93. como uma ilha
    duas vezes maior do que o Texas,
  94. mas disseram-me que é difícil vê-lo
  95. porque é como um nevoeiro.

  96. Então, através das minhas obras de arte,
  97. tento retratar a realidade
    do que está a acontecer no nosso ambiente
  98. e tornar visível o invisível.
  99. A principal questão, de início,
    após começar o projeto, foi:
  100. "O que farei com o lixo
    depois de terminar?".
  101. Uns disseram-me que podiam
    ser mercadorias estragadas
  102. depois de viajarem pelo oceano
    e ficarem expostas aos elementos,

  103. que isso podia degradar-se
    e arruinar um conjunto de reciclagem.
  104. O aterro sanitário também não era
    um destino final ideal.
  105. E finalmente, ocorreu-me que,
  106. após todo o meu esforço
    e de pessoas que me ajudaram
  107. a reunir, a organizar
    e a limpar esse lixo,
  108. eu devia guardá-lo.
  109. Então, o plano é este:
  110. usá-lo e reutilizá-lo infindavelmente,
  111. para fazer mais obras de arte
  112. e envolver as comunidades
    no processo de arte ecológica.
  113. Este é um exemplo de uma obra de arte
    feito pela comunidade no ano passado
  114. com os jovens de Punta Allen
    em Sian Ka'an.
  115. A peça-chave do trabalho comunitário
    é a limpeza das praias
  116. e o programa de educação.

  117. Com o crescimento dessa comunidade
    em torno do projeto
  118. e o crescimento da minha coleção de lixo,
  119. eu acredito que o impacto
    também crescerá.
  120. Portanto, ao longo dos anos,
  121. tornei-me um pouco obcecado
    com a minha coleção de lixo.
  122. Coloco-a em malas e viajo com ela.
  123. Levo-a de férias comigo.

  124. (Risos)
  125. No último trabalho,
  126. comecei a romper o plano bidimensional
    da fotografia.
  127. Estou muito feliz com este novo trabalho.

  128. Vejo-o como obras de arte vivas

  129. que se transformam
    e crescem ao longo do tempo.
  130. Embora o meu maior desejo
  131. seja ficar sem matéria-prima
    para este trabalho,
  132. ainda não chegámos lá.
  133. Na próxima fase desse projeto,
  134. planeio continuar
    com o trabalho comunitário
  135. e fazer o meu próprio trabalho
    a uma escala muito maior,
  136. porque o problema é enorme.
  137. Oito milhões de toneladas de plástico
    vão parar ao nossos oceanos todos os anos,
  138. destruindo os ecossistemas.
  139. Neste momento, enquanto falo,
    há plástico a ser despejado no oceano.
  140. Vejo este projeto como um pedido de ajuda
    e um apelo à ação.

  141. A nossa saúde e o nosso futuro
    estão ligados indissociavelmente
  142. ao dos nossos oceanos.
  143. Eu chamo o projeto de "Washed Up:
    Transforming a Trashed Landscape",
  144. mas isso, na verdade, transformou-me
  145. e fez-me repensar no meu consumo
    e nos meus comportamentos.
  146. Se isto puder ajudar mais alguém
    a ter mais consciência,
  147. será compensador.
  148. Muito obrigado.
  149. (Aplausos)