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← Como transformar o racismo em um problema solucionável e melhorar o policiamento

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Showing Revision 26 created 09/23/2019 by Maricene Crus.

  1. Quando as pessoas me encontram
    pela primeira vez no meu trabalho,
  2. sempre se sentem inspiradas
    a compartilhar uma revelação sobre mim,
  3. e acontece algo assim: "Eu sei
    por que os chefes de polícia
  4. gostam de compartilhar
    os segredos obscuros com você.
  5. Phil, com seu PhD em psicologia
    e sua careca brilhante,
  6. você é basicamente
    o 'Dr. Phil Negro', certo?"
  7. (Risos)

  8. E quero muito agradecer a todos
    que já me disseram isso,

  9. porque foi a primeira vez
    que ouvi essa piada.
  10. (Risos)

  11. E todos os outros, espero
    que acreditem em mim quando digo

  12. que nenhum chefe de polícia
    gosta de conversar comigo,
  13. porque acham que sou psicólogo clínico.
  14. E eu não sou.
  15. Não imagino o que sua mãe
    fez com você e não posso ajudar.
  16. (Risos)

  17. Os chefes de polícia
    gostam de conversar comigo,

  18. porque sou especialista em um problema
    que parece ser impossível de resolver:
  19. o racismo na profissão deles.
  20. Minha experiência deriva
    do fato de ser um cientista
  21. que estuda como a mente aprende
    a associar a cor da raça negra e o crime,
  22. e a considerar crianças negras
    mais velhas do que realmente são.
  23. Também deriva do estudo
    do real comportamento da polícia,
  24. pelo qual sei que a cada ano
    um de cada cinco adultos nos EUA
  25. está envolvido com questões legais.
  26. Desse número, cerca de 1 milhão
    são alvo de força policial.
  27. E para os negros, a probabilidade
    é de duas a quatro vezes maior
  28. do que para os brancos.
  29. Mas também, sinto na pele
    o que essas estatísticas representam.
  30. Vivenciei o medo e o pânico
    quando um policial sacou a arma,
  31. pois presumiu que meu afilhado de 13 anos
  32. já tinha idade para ser uma ameaça.
  33. Portanto, quando um chefe de polícia,
  34. um pastor,
  35. um imame ou uma mãe,
  36. me ligam depois que um policial atirou
    em outra criança negra desarmada,
  37. entendo um pouco da dor na voz deles.
  38. É a dor de um coração partido que falha
    ao resolver um problema fatal,
  39. ao tentar fazer algo que parece
    ao mesmo tempo
  40. necessário e impossível.
  41. O modo de tentar consertar
    o racismo geralmente é assim:
  42. necessário e impossível.
  43. Os chefes de polícia falam
    comigo porque sou perito,

  44. mas duvido que fariam fila
    para se deitarem no meu divã
  45. se eu dissesse que os problemas
    deles não têm solução.
  46. Toda a minha pesquisa e uma década
    de trabalho realizada no meu centro,
  47. o "Center for Policing Equity", de fato
    me levam a uma conclusão promissora
  48. em meio a toda a mágoa do racismo
    nos EUA, que é a seguinte:
  49. parece impossível tentar resolver
    o problema do racismo,
  50. porque a definição que temos
    dele o torna assim,
  51. mas não precisa ser.
  52. Eis o que quero dizer:
  53. a definição mais comum de racismo
    é a de que o comportamento racista
  54. é o produto de coração
    e mente contaminados.
  55. Quando vocês ouvem sobre o modo
    como tentamos curar o racismo, é assim:
  56. "Precisamos erradicar o ódio;
    precisamos combater a ignorância".
  57. São coração e mente.
  58. Agora, o único problema com a citação
    é que está completamente errada,
  59. cientificamente e de outro modo.
  60. Um dos preceitos fundamentais
    da psicologia social
  61. é de que as atitudes são indicadores
    muito fracos de comportamentos,
  62. e mais importante ainda, nenhuma
    comunidade negra nunca saiu à ruas
  63. para exigir que os brancos
    nos amassem mais.
  64. As comunidades saem às ruas
    para impedir os assassinatos,
  65. pois racismo tem a ver com comportamentos,
    e não com sentimentos.
  66. Mesmo quando ativistas de direitos civis
    como Martin Luther King e Fannie Lou Hamer
  67. usaram a linguagem do amor,
  68. o racismo que eles combateram
    era a segregação e brutalidade.
  69. Foram ações sobre sentimentos.
  70. E cada um daqueles líderes concordaria
  71. que, se uma definição de racismo dificulta
    ainda mais ver as feridas que ele causa,
  72. então não está apenas errada.
  73. Uma definição que leva em conta
    as intenções dos opressores,
  74. mais do que as dores dos oprimidos,
  75. essa definição de racismo é racista.
  76. Mas quando mudamos essa definição

  77. de atitudes para comportamentos,
  78. transformamos o problema
    de impossível para solucionável.
  79. Porque podemos medir
    comportamentos e problemas também;
  80. podemos aproveitar uma das únicas regras
    universais do sucesso organizacional.
  81. Quando há um problema ou meta,
    devemos medir e nos responsabilizar.
  82. Portanto, se todas as organizações
    medem o sucesso assim,
  83. por que não pode acontecer
    o mesmo na polícia?
  84. Acontece que já fazemos isso.

  85. Os departamentos de polícia já fazem
    prestação de contas com base em dados,
  86. apenas para delitos.
  87. A grande maioria dos departamentos
    de polícia dos Estados Unidos
  88. usa um sistema chamado CompStat.
  89. É um processo que, se usado corretamente,
  90. identifica os dados do delito,
    rastreia, identifica padrões,
  91. e permite que os departamentos
    se responsabilizem
  92. pelos objetivos de segurança pública.
  93. Normalmente, opera direcionando
    a atenção e os recursos da polícia
  94. ou mudando o comportamento
    conforme os acontecimentos.
  95. Por exemplo, se há uma onda
    de assaltos em um bairro,
  96. as patrulhas serão aumentadas por lá.
  97. Se aumentam os homicídios, vou conversar
    com a comunidade para saber o porquê
  98. e colaborar para mudar o comportamento
    policial e diminuir a violência.
  99. Quando se define o racismo em termos
    de comportamentos mensuráveis,
  100. pode-se fazer o mesmo.
  101. Pode-se criar um CompStat da Justiça.
  102. O Center for Policing Equity
    tem feito exatamente isso.
  103. Vou explicar como funciona.
  104. Depois que um departamento de polícia
    nos convida, lidamos com a parte legal,

  105. nos envolvemos com a comunidade
    e o próximo passo é analisar os dados.
  106. O objetivo da análise é determinar
  107. o quanto os delitos, a pobreza
    e a demografia da localidade
  108. predizem, por assim dizer,
    o uso da força policial.
  109. Digamos que esses fatores indicam
  110. que a polícia usará a força
    contra muitas dessas pessoas negras.
  111. Correto?
  112. Então, nossa próxima pergunta é:
  113. quantos negros são realmente
    alvos da força policial?
  114. Digamos que sejam muitos.
  115. Então, o que acontece com a lacuna?
  116. Grande parte da lacuna é a diferença
  117. entre o que é previsto por coisas
    que a polícia não consegue controlar,
  118. e por coisas que ela consegue, ou seja,
    as políticas e os comportamentos.
  119. E o que estamos buscando
    são tipos de contato ou áreas na cidade
  120. nas quais a lacuna é maior,
  121. para dizermos a nossos parceiros:
  122. "Olhe aqui. Resolva
    este problema primeiro".
  123. É de fato o tipo de terapia
    que os chefes de polícia podem apoiar,
  124. porque não há nada mais inspirador
    diante da história do racismo
  125. do que um problema solucionável.
  126. Se uma comunidade em Mineápolis
    solicitasse ao departamento de polícia

  127. a reparação das falhas morais
    ligadas à raça no policiamento,
  128. não sei se eles saberiam como fazê-lo.
  129. Mas se a comunidade disser:
  130. "Os dados mostram que vocês
    estão espancando moradores de rua.
  131. Dá pra pararem de fazer isso?"
  132. É algo que a polícia
    pode aprender a fazer.
  133. E eles aprenderam.
  134. Em 2015, o Departamento de Polícia
    de Mineápolis nos relatou
  135. a preocupação da comunidade
    com o uso excessivo da força policial.
  136. Mostramos como aproveitar
    os próprios dados para identificar
  137. situações nas quais a força
    poderia ser evitada.
  138. E quando olharam para dados,
    viram que um número desproporcional
  139. dos incidentes de uso da força envolvia
    moradores de rua, doentes mentais,
  140. usuários de entorpecentes
    ou uma combinação das situações,
  141. mais do que o esperado,
  142. com base naqueles fatores
    que eu lhes disse.
  143. Então, a lacuna estava bem ali.

  144. A próxima pergunta era por quê.
  145. Acontece que os moradores de rua
    sempre precisam de serviços.
  146. Quando os serviços estão indisponíveis,
  147. ou eles não conseguem os remédios
    ou perdem a vagas nos abrigos,
  148. ficam mais propensos a comportamentos
    que provocam o envolvimento da polícia.
  149. Quando a polícia aparece,
  150. os moradores de rua resistem,
  151. muitas vezes porque não fizeram
    nada ilegal na verdade,
  152. apenas moram nas ruas.
  153. O problema não foi treinar os policiais
    de Mineápolis de modo diferente.
  154. Mas foi o fato de que usavam os policiais
  155. para "tratar" abuso de substâncias
    e moradores de rua para começar.
  156. Assim, Mineápolis encontrou um modo
    de oferecer serviços sociais e recursos
  157. aos moradores de rua da comunidade
    antes que alguém chamasse a polícia.
  158. (Aplausos)

  159. Mas os moradores de rua
    nem sempre são o problema, certo?

  160. Às vezes, é o medo da aplicação
    da lei de imigração,
  161. como era em Salt Lake City
    ou é em Houston,
  162. cujos chefes de polícia tiveram que dizer:
    "Não vamos deportar quem ligar para 190".
  163. Ou o problema eram as perseguições a pé,
    como em Las Vegas,
  164. quando tiveram que treinar os oficiais
    para diminuírem o ritmo e respirarem
  165. ao invés de permitirem que a adrenalina
    desse tipo de situação aumentasse.
  166. São as perseguições em Oakland,
  167. ou como arrancam as pessoas
    dos carros em San José,
  168. ou o modo como patrulham os bairros
    que formam a Área 3 de Pittsburgh,
  169. e os bairros negros próximos
    da orla de Baltimore.
  170. Mas em cada cidade,
  171. se pudermos lhes dar
    um problema solucionável,
  172. eles tratam de solucioná-lo.
  173. E juntos, nossos parceiros têm visto
    um média de 25% de diminuição de prisões,
  174. de incidentes com uso de força,
    e menos 13% de oficiais lesionados.
  175. Basicamente, ao identificar
    as grandes lacunas
  176. e direcionar as atenções
    da polícia para solucioná-las,
  177. pode-se fornecer "uma vacina com os dados
    contra a desigualdade racial na polícia".
  178. No momento, podemos nos associar
    a cerca de 40 cidades de cada vez.

  179. Ou seja, se quisermos que os EUA
    parem de se sentirem exaustos
  180. de tentar solucionar
    um problema impossível,
  181. precisaremos de muito mais infraestrutura.
  182. O objetivo é termos todas as ferramentas
    para que possamos escalar
  183. a genialidade de nossos
    dedicados organizadores
  184. e de nossos chefes reformistas.
  185. Esse objetivo será atingido
    com o tipo de vontade coletiva
  186. que escolas dessegregadas conquistaram
    para os filhos e filhas de ex-escravos,
  187. para que possamos construir
    um tipo de sistema de saúde
  188. capaz de fornecer
    "nossa vacina" ao país inteiro.
  189. Nossa ideia ambiciosa
    é fornecer um CompStat da Justiça
  190. aos departamentos para servirem
    a 100 milhões de pessoas nos EUA
  191. nos próximos 5 anos.
  192. (Aplausos) (Vivas)

  193. Isso significaria armar um terço
    dos EUA com ferramentas que reduziriam

  194. desigualdades raciais em abordagens
    policiais, prisões e uso da força,
  195. além de ferramentas para reduzir
    a indústria da fiança,
  196. o encarceramento em massa,
    a instabilidade familiar,
  197. casos crônicos de saúde mental
    e abuso de substâncias,
  198. e todo malefício que nossos sistemas
    legal e criminal corrompidos agravam.
  199. Cada prisão desnecessária
    que conseguirmos prevenir
  200. salva uma família de uma terrível jornada
    através de cada um daqueles sistemas.
  201. Assim como cada arma não disparada,
  202. pode livrar uma comunidade
    inteira de muita dor.
  203. Cada um de nós

  204. mede o que mais nos importa.
  205. Os negócios medem os lucros;
  206. os bons alunos controlam as notas;
  207. as famílias acompanham
    o crescimento dos filhos
  208. fazendo marcas com canetas
    nos batentes das portas.
  209. Todos medimos as coisas
    que mais nos importam,
  210. razão pela qual sentimos a negligência
  211. quando ninguém se importa em medir nada.
  212. Nos últimos 250 anos,

  213. temos definido os problemas
    de raça e de policiamento
  214. de um modo funcionalmente
    impossível de se medir.
  215. Mas agora, a ciência diz
    que é possível mudar essa definição.
  216. E lá no Center for Policing Equity,
    na verdade, acho que temos medido
  217. mais comportamento policial
    do que qualquer um na história.
  218. Isso significa que, uma vez que queremos
  219. e podemos fazê-lo,
  220. esta poderia ser a geração
  221. que deixaria de pensar que o racismo
    é um problema sem solução,
  222. e que, em vez disso, veria
  223. que o que tem sido necessário
    por muito tempo agora é possível.
  224. Obrigado.

  225. (Aplausos) (Vivas)