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← Natureza, folclore e colaborações fotográficas fortuitas

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Showing Revision 10 created 09/09/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Riitta Ikonen: Apresento-vos
    o nosso amigo Bob.
  2. Conhecemo-nos numa noite de inverno
    na companhia dos membros
  3. da Sociedade de Jardinagem
    de Interiores de Nova Iorque.
  4. Um dos frequentadores habituais
    era este cavalheiro carismático
  5. que estuda as maravilhas
    das plantas carnívoras.
  6. Nós estávamos lá
  7. à procura de colaboradores
    para um projeto de arte,
  8. que examinava a pertença
    do homem moderno à Natureza.
  9. Karoline Hjorth: Não resistimos
    e enfiámos um bilhete no bolso de Bob

  10. a dizer que queríamos conhecê-lo melhor.
  11. No dia seguinte, ele ligou-nos
    e declarou animadamente:
  12. "Esta não é uma época da minha vida
    que eu queira passar na cama."
  13. E na semana seguinte,
  14. estávamos todos na linha J do metro
    para Forest Park, em Queens.
  15. RI: Bob tinha trabalhado durante décadas

  16. na indústria fotográfica
    de moda de Nova Iorque,
  17. e teve de ser substituído
    por três pessoas,
  18. quando finalmente decidiu
    partir para novas aventuras.
  19. Bob concordou em colaborar connosco
  20. com a condição de
    não mexermos no estilo
  21. que ele havia levado
    muitas décadas a aperfeiçoar.
  22. Nós prometemos-lhe isso,
  23. e só acrescentámos
    umas agulhas de pinheiro.
  24. Talvez estejam a pensar
  25. porque é que nós estávamos no parque
  26. a podar o boné de agulhas
    de pinheiro do Bob
  27. Tínhamo-nos conhecido uns anos antes,
  28. quando eu procurava na Internet,
  29. um colaborador para um projeto de arte
  30. que analisava a relação
    do homem moderno com a Natureza.
  31. Fiz o que pessoas fazem,
  32. fui ao Google e escrevi três palavras:
  33. "Noruega,"
  34. "avós" e "fotógrafo".
  35. E cliquei no primeiro resultado da busca,
  36. que era a Karoline Hjorth.
  37. (Risos)

  38. KH: Eu tinha acabado de lançar
    um livro sobre avós norueguesas.

  39. E a princípio, juntámo-nos
  40. para analisar como os fenómenos naturais
    eram explicados numa perspetiva humana.
  41. E começámos a pesquisar
    os contos populares
  42. numa pequena cidade do litoral da Noruega.
  43. RI: Pensámos que, quanto mais velho
    fosse o entrevistado local,

  44. mais próximas estaríamos
    das pedras basilares dessas histórias.

  45. KH: Agnes, por exemplo, é a avó
    paraquedista mais velha da Noruega.

  46. Saltou pela última vez aos 91 anos.
  47. Este retrato é uma homenagem
    ao lendário vento norte
  48. muito retratado
    nos contos populares nórdicos.
  49. Conhecemos outra figura lendária,
    chamada Lyktemann,

  50. num pântano nos arredores de Oslo.
  51. A presença de Lyktemann como luzes
    misteriosas foi registada durante séculos
  52. em muitas culturas diferentes,
    sob muitos nomes diferentes,
  53. como Joan the Wad, fogo-fátuo
  54. ou o homem da lanterna.
  55. A visão contemporânea
  56. ou a explicação atual para estas luzes
  57. é que elas são o produto
    da ignição dos gases do pântano.
  58. A visão mais ousada
  59. é que aparece uma figura
    quando o nevoeiro baixa,
  60. e há viajantes incautos
    que perderam o caminho.
  61. RI: Ele é conhecido por ser
    uma figura muito maliciosa,

  62. que nunca revela a verdadeira natureza
    das suas intenções.
  63. KH: E como Bengt é um especialista
    em navegação astronómica,

  64. um antigo capitão de submarinos
  65. e antigo oficial imediato
    do veleiro Christian Radich,
  66. Bengt foi a personificação perfeita
    do Lyktemann.
  67. RI: Na nossa demanda inicial

  68. de analisar o papel
    do folclore contemporâneo,
  69. fomos rapidamente desdenhadas
  70. por estudarmos uma coisa considerada
    histórias infantis para adormecer.
  71. Bastava dizer a palavra "folclore"
    para deixar as pessoas espantadas.
  72. KH: E não era só o sotaque.

  73. (Risos)

  74. RI: Até houve um ceramista local
    de oitava geração que afirmou

  75. que as pessoas desta região
  76. foram responsáveis por algumas
    das melhores invenções do país,
  77. e não iam perder tempo a virar
    pedras para ver o que havia por baixo.
  78. Essa rejeição foi exatamente
    o que precisávamos
  79. para continuarmos a bisbilhotar
    neste tema.
  80. (Risos)

  81. KH: Continuámos a entrevistar pessoas

  82. sobre a sua relação com o meio ambiente
  83. e começámos a questionar
  84. o que estava a acontecer
    com a imaginação do povo.
  85. Será que a nossa relação
    com a Natureza pode ser explicada
  86. de modo tão pragmático, tão aborrecido,
  87. que uma pedra
    é apenas uma boa e velha pedra,
  88. e um lago é apenas
    um lugar molhado qualquer,
  89. completamente dissociado de nós?
  90. Será que os meios ambientes
    podem ser explicados
  91. de um modo tão enfadonho de racionalidade?
  92. RI: O nome do nosso projeto,
    "Eyes as Big as Plates",

  93. foi retirado de um conto popular.
  94. E há um conto com um cão
    que vive por baixo duma ponte
  95. e outra versão
  96. em que é um "troll" na mesma situação.
  97. Esta abordagem atenta
    e potencialmente arriscada
  98. para ver o mundo à nossa volta,
  99. tornou-se um símbolo da curiosidade
    que guia as nossas interações.
  100. KH: O acaso é o gestor do nosso projeto.

  101. Idealmente, encontramos
    os nossos colaboradores, por mero acaso.
  102. Na outra pista da piscina,
  103. no ensaio do coro,
  104. num restaurante oriental
  105. ou num porto de pesca senegalês,
  106. como aconteceu connosco.
  107. Cada foto começa com uma conversa,
  108. como uma entrevista casual.
  109. RI: E nunca chamamos "modelos"
    aos colaboradores,

  110. porque há três autores para cada imagem,
  111. todos igualmente indispensáveis
    para a realização do retrato.
  112. Não há limite de idade,
  113. qualquer um que tenha vivido
    uma vida interessante
  114. é mais do que qualificado para se juntar.
  115. KH: Este é Boubou.

  116. O genro dele estava neste porto
  117. quando chegámos à procura de locais.
  118. E depois de uma visita improvisada
    e muitas compras no mercado do peixe,
  119. Boubou e a família alinharam connosco
    numa maré baixa.
  120. RI: Uma escultura para vestir
    nasce da conversa

  121. com cada colaborador
  122. e é feita de materiais
    encontrados à nossa volta.
  123. Cerca de um terço da terra arável
    do Senegal é dedicada ao painço,
  124. um material incrível que provoca
    comichões, quando em contacto com a pele,
  125. nutriente e resistente
    com profundas raízes culturais.
  126. Esta é Mane,

  127. uma das bisavós da aldeia Ndos,
  128. um furacão de vigor e energia.
  129. Ela aplaudiu o nosso convite
  130. para retratá-la na sua cultura favorita,
  131. em que trabalha todos os dias.
  132. KH: É importante que a participação
    seja voluntária.

  133. (Risos)

  134. Sealguém tiver dúvidas no início,

  135. irá arrepender-se, certamente,
  136. quando a Riita estiver a enfiar uma alga
    fria e molhada no nariz dele.
  137. (Risos)

  138. Usar uma câmara analógica
    significa que o processo pode ser lento

  139. e fisicamente problemático.
  140. A pessoa em frente da câmara
  141. pode estar ajoelhada no granizo
    gelado durante três horas,
  142. ser bombardeada por mosquitos,
  143. ou, até pode ser alérgica
  144. à flora local com que a cobrimos.
  145. RI: E muitas outras coisas.

  146. (Risos)

  147. Depois, é claro, temos os elementos.

  148. A imprevisibilidade
    é um dos principais fatores
  149. que mantêm este processo interessante.
  150. Por exemplo, na Islândia,
  151. estivemos em modo operacional,
    a fotografar durante duas semanas,
  152. sem saber que a câmara
    não estava a funcionar bem.
  153. Oh, não é?
  154. KH: E como trabalhamos
    com câmaras analógicas

  155. com rolos de filmes reais,
  156. o entusiasmo com as sessões
    de fotos continua
  157. até obtermos os negativos do laboratório.
  158. RI: Felizmente, a Edda, aqui retratada,

  159. foi uma das poucas filmadas
    na Islândia.
  160. Retratada aqui no meio de uma fonte termal
    fumegante e borbulhante
  161. entre duas placas tectónicas
  162. Supostamente, há uns pássaros
    de fontes termais
  163. que mergulham nas bolhas
  164. e, de acordo com a lenda,
  165. estes passarinhos representam
    as almas dos mortos.
  166. Temos a honra

  167. de trabalhar com algumas das pessoas
    mais resistentes, corajosas e fixes,
  168. e de apreciar plenamente
  169. que alguns dos nossos trabalhos
    e retratos desfazem os estereótipos
  170. sobre a idade, o género e a nacionalidade.
  171. KH: Para nós, muito da sociedade ocidental
    é desnecessariamente confuso

  172. no que diz respeito à utilidade
  173. dessa demografia totalmente "rock'n'roll".
  174. (Risos)

  175. RI: A atitude, a experiência
    de vida e a energia

  176. são algumas das principais características
  177. que encontrámos
    em todos os nossos colaboradores,
  178. assim como uma curiosidade formidável
    por novas experiências.
  179. KH: Percebemos que as figuras
    solitárias das nossas fotos

  180. são cada vez mais vistas
    como representações da era da solidão
  181. conhecida por Eremoceno.
  182. RI: Estamos a tentar encorajar

  183. uma nova forma de participar
    e comunicar com o nosso meio ambiente.
  184. KH: Há o pressuposto

  185. de que os seres humanos criaram
    uma nova era geológica,
  186. e precisamos de aprender
    qual o nosso papel nesta era.
  187. RI: Trabalharemos com agricultores,

  188. com cosmólogos, com geoecologistas,
  189. com etnomusicólogos
    e com biólogos marinhos
  190. para ver como a arte pode mudar
    o modo como pensamos, agimos e vivemos.
  191. KH: Não está claro quem ou o quê
    é o protagonista do nosso trabalho,

  192. se é a figura humana
    ou a Natureza à volta dela,
  193. e gostamos disso assim.
  194. Com 10 anos e 15 países no projeto,
  195. não temos a certeza se este projeto
    vai terminar, nem como, nem quando.
  196. Prometemos continuar
    enquanto for divertido,

  197. e continuaremos a fazer novas fotos,
    e mais livros que explorem...
  198. KH: Como equilibrar a vida
    por entre os efeitos da crise climática.

  199. O escritor Roy Scranton
    resumiu duma forma muito bela
  200. como o nosso projeto pode ser abordado.
  201. "Precisamos de aprender a ver,
  202. "não apenas com olhos ocidentais
  203. "mas com olhos islâmicos
    e olhos esquimós
  204. "não apenas com olhos humanos,
  205. mas com olhos da toutinegra
    de bochecha dourada
  206. "olhos de salmão prateado
  207. "e olhos de urso polar,
  208. "e não apenas só com os olhos,
  209. "mas com o ser selvagem
    e inarticulado de nuvens e mares
  210. "de mares e pedras,
    de árvores e estrelas."
  211. RI: Se começarmos a ver-nos através
    dos olhos do salmão prateado,

  212. talvez possamos começar
    a sincronizar-nos melhor
  213. com os companheiros da flora,
    da fauna e dos fungos.
  214. Fazer isso requer imaginação e empatia.
  215. E a curiosidade está
    na raiz das duas coisas.
  216. KH: Como disse Halvar, um dos nossos
    primeiros colaboradores, há quase 10 anos:

  217. "Se deixarmos de ser curiosos,
  218. "é como se estivéssemos mortos."
  219. (Ambas) Obrigada.

  220. (Aplausos)