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Showing Revision 1 created 11/28/2011 by Paula Faria.

  1. Eu me mudei para Boston de Chicago há dez anos,
  2. com interesse em câncer e química.
  3. Vocês devem saber que química é a ciência de criar moléculas --
  4. ou, a meu ver, novas drogas contra o câncer.
  5. E vocês também devem saber que, para a ciência e a medicina,
  6. Boston é como uma loja de doces.
  7. Você não consegue furar um sinal em Cambridge
  8. sem atingir um estudante universitário.
  9. Um bar se chama Miracle of Science (Milagre da Ciência).
  10. Os outdoors anunciam vagas em laboratórios.
  11. E posso dizer que, nesses 10 anos,

  12. testemunhamos com certeza o começo
  13. de uma revolução científica -- a da medicina genômica.
  14. Nós sabemos mais hoje sobre os pacientes que entram em nossas clínicas
  15. do que nunca.
  16. E nós somos capazes, finalmente, de responder a pergunta
  17. que tem sido premente por tantos anos:
  18. por que eu tenho câncer?
  19. Esta informação também é assustadora.
  20. Você deve saber que,
  21. até hoje, ainda no início dessa revolução,
  22. sabemos que existem cerca de 40.000 mutações diferentes
  23. que afetam mais que 10.000 genes,
  24. e que existem 500 desses genes
  25. que são verdadeiros indutores,
  26. causadores do câncer
  27. E ainda assim, comparativamente,

  28. temos cerca de uma dúzia de medicamentos direcionados.
  29. E essa desproporção de medicamentos para o câncer
  30. realmente se tornou óbvia quando meu pai foi diagnosticado
  31. com câncer de pâncreas.
  32. Nós não o levamos para Boston.
  33. Nós não sequenciamos seu genoma.
  34. Já sabemos há décadas
  35. o que causa essa doença.
  36. São três poteínas --
  37. Ras, MIC e P53.
  38. Já temos essa informação desde os anos 80,
  39. e ainda assim não existe medicamento que possa ser receitado
  40. a um paciente com esse
  41. ou qualquer outro dos vários tumores
  42. causados por esses três cavaleiros
  43. do apocalipse, que é o câncer.
  44. Não existe medicamento para Ras, MIC ou P53.
  45. E vocês podem perguntar, com razão: por quê?

  46. E a resposta, muito insatisfatória, porém científica
  47. é que é muito difícil.
  48. Que por alguma razão,
  49. essas três proteínas passaram a fazer parte do genoma
  50. em uma área impossível de se medicar --
  51. o que seria o mesmo que falar que um computador é impossível de se navegar
  52. ou que é impossível andar na lua.
  53. É uma designação terrível.
  54. Mas o que ela significa é
  55. que não conseguimos identificar nessas proteínas um sítio ativo
  56. para a qual nós, como chaveiros moleculares,
  57. possamos criar uma molécula orgânica, pequena e a ativa
  58. ou um medicamento.
  59. Quando eu estava estudando medicina clínica,

  60. e hematologia, e oncologia
  61. e transplante de células-tronco,
  62. o que nós tínhamos,
  63. vindas da rede de regulamentações do FDA,
  64. eram essas substâncias --
  65. arsênico, talidomida
  66. e os derivados químicos
  67. do gás de mostarda nitrogenada.
  68. E isso no século 21.
  69. Então, acho que diriam, insatisfeito
  70. com o desempenho e qualidade desses medicamentos,
  71. voltei a estudar química
  72. com a idéia
  73. de que, talvez ao aprender sobre o mercado das descobertas químicas
  74. e abordá-las no contexto desse admirável mundo novo
  75. do 'open-source'
  76. e do 'crowd-source',
  77. da rede colaborativa a que temos acesso no meio acadêmico,
  78. poderíamos trazer mais rápidamente
  79. terapias poderosas e dirigidas
  80. aos nossos pacientes.
  81. Por favor, considerem isso um trabalho em andamento,

  82. mas eu gostaria de contar hoje uma história
  83. sobre um câncer muito raro,
  84. chamado carcinoma da linha média,
  85. sobre a proteína-alvo,
  86. a intratável proteína alvo que causa esse câncer,
  87. chamada BRD4,
  88. e sobre uma molécula
  89. desenvolvida no meu laboratório, no Dana Farber Cancer Institute,
  90. camada JQ1, em homenagem a Jun Qi,
  91. o químico que criou essa molécula.
  92. BRD4 é uma proteína interessante.
  93. Você pode se perguntar, com tudo que o câncer tenta fazer para matar nosso paciente,

  94. como ele se lembra que é câncer?
  95. Quando ele se enrola em seu genoma,
  96. se divide em duas células e se desenrola novamente,
  97. por que ele não se torna um olho, ou um fígado,
  98. já que ele tem todos os genes necessários pra isso?
  99. Ele se lembra que é câncer.
  100. E a razão disso é que o câncer, como todas as células do corpo,
  101. coloca pequenos marcadores moleculares,
  102. pequenos lembretes,
  103. que lembram a célula "eu sou um câncer; eu devo continuar crescendo."
  104. E esses lembretes
  105. envolvem esta e outras proteínas da sua classe --
  106. os chamados bromodomínios.
  107. Então, desenvolvemos uma ideia, uma lógica,
  108. que, talvez, se fizéssemos uma molécula
  109. que impedisse que o lembrete grudasse
  110. ao entrar naquele pequeno bolso
  111. na base dessa proteína,
  112. então talvez pudéssemos convencer as células cancerosas,
  113. e certamente aquelas viciadas em proteínas BRD4,
  114. de que elas não são câncer.
  115. Então começamos a trabalhar nesse problema.

  116. Desenvolvemos bibliotecas de compostos
  117. e finalmente chegamos a esta substância e similares
  118. chamada JQ1.
  119. Por não ser uma empresa farmacêutica,
  120. podíamos fazer certas coisas, tínhamos certa flexibilidade,
  121. que a indústria farmacêutica não tem.
  122. Começamos a enviá-la aos nossos amigos.
  123. Eu tenho um laboratório pequeno.
  124. Pensamos em enviá-la às pessoas e ver como a molécula se comporta.
  125. E nós a enviamos para Oxford, na Inglaterra,
  126. onde um grupo de cristalógrafos criou essa imagem,
  127. que nos ajudou a entender
  128. por que essa molécula é tão potente com essa proteína-alvo.
  129. É o que chamamos de um encaixe perfeito
  130. das formas complementares, ou servir como uma luva.
  131. Esse é um câncer muito raro,

  132. esse câncer viciado em BRD4.
  133. Por isso trabalhamos com amostras
  134. que foram coletadas por patologistas no Brigham Women's Hospital.
  135. E, à medida que tratávamos essas células com essa molécula,
  136. nós percebemos algo realmente impressionante.
  137. As células cancerosas,
  138. pequenas, redondas e se dividindo rapidamente,
  139. desenvolveram extensões e ramificações.
  140. Elas estavam mudando de forma.
  141. Na verdade, as células de câncer
  142. estavam esquecendo que eram câncer
  143. e se tornando uma célula normal.
  144. Ficamos muito animados com isso.

  145. O próximo passo seria introduzir essa molécula em ratos.
  146. O único problema é que não há modelo de rato para esse câncer raro.
  147. Na época em que estávamos desenvolvendo essa pesquisa,
  148. eu estava cuidando de um bombeiro de 29 anos, de Connecticut,
  149. que estava no fim de sua vida
  150. com esse câncer incurável.
  151. Esse câncer viciado em BRD4
  152. estava crescendo em seu pulmão esquerdo,
  153. e ele tinha um tubo inserido no peito que drenava pequenos fragmentos.
  154. E em cada turno de enfermagem
  155. esse material era jogado fora.
  156. Então perguntamos a esse paciente
  157. se ele poderia colaborar conosco.
  158. Poderíamos pegar esse material canceroso, precioso e raro,
  159. do tubo em seu peito
  160. e levá-lo para o outro lado da cidade, colocá-lo em ratos
  161. e tentar fazer um estudo clínico
  162. e experimentar com uma droga protótipo?
  163. Isso seria impossível e ilegal de fazer com humanos.
  164. E ele nos atendeu.
  165. No Lurie Family Center for Animal Imaging,
  166. meu colega, Andrew Kung, desenvolveu o câncer com sucesso em ratos
  167. sem tocar em plástico.
  168. E vocês podem ver nessa tomografia de um rato.

  169. O câncer está crescendo
  170. na forma dessa enorme massa vermelha nos membros traseiros do animal.
  171. E, à medida que o tratamos com o nosso composto,
  172. esse vício em açúcar,
  173. esse crescimento acelerado, se extinguiu.
  174. E no animal da direita,
  175. vocês podem ver que o câncer estava respondendo.
  176. Nós terminamos os estudos clínicos
  177. em quatro modelos de ratos com essa doença.
  178. E todas as vezes, vemos a mesma coisa.
  179. Os ratos com câncer que receberam a droga viveram,
  180. e os que não receberam morreram rapidamente.
  181. Então começamos a pensar,

  182. o que uma companhia farmacêutica faria nesse momento?
  183. Bom, eles provavelmente manteriam segredo
  184. até que pudessem fazer da droga protótipo,
  185. uma substância farmacêutica ativa.
  186. Então nós fizemos exatamente o oposto.
  187. Nós publicamos um artigo
  188. que descrevia nossa descoberta
  189. no estágio inicial do protótipo.
  190. Nós demos ao mundo a identidade química dessa molécula,
  191. o que é tipicamente um segredo no nosso meio.
  192. Nós contamos às pessoas exatamente como fazê-la.
  193. Nós publicamos o nosso email,
  194. e sugerimos que, se eles nos escrevessem,
  195. nós enviaríamos uma molécula de graça.
  196. Nós basicamente tentamos criar
  197. o ambiente mais competitivo possível para o nosso laboratório.
  198. E isso foi, infelizmente, um sucesso.
  199. (Risos)

  200. Porque agora que compartilhamos essa molécula,

  201. desde dezembro do ano passado,
  202. com 40 laboratórios nos Estados Unidos
  203. e mais 30 na Europa --
  204. muitos deles companhias farmacêuticas
  205. agora buscam entrar nessa corrida,
  206. e atacar esse câncer raro
  207. que, agora felizmente,
  208. é algo desejável de se estudar nessa indústria.
  209. Mas a ciência que está saindo desses laboratórios
  210. sobre o uso dessa molécula
  211. nos deu um entendimento
  212. que talvez não nos fosse possível ter sozinhos.
  213. Células leucêmicas tratadas com esse composto
  214. se tornam glóbulos brancos normais.
  215. Ratos com mielomas múltiplos,
  216. uma doença incurável da medula óssea,
  217. responderam dramaticamente
  218. ao tratamento com essa droga.
  219. Vocês devem saber que a gordura tem memória.
  220. E eu posso mostrar isso para vocês.
  221. E de fato, essa molécula
  222. impede que essas células adiposas, essas células-tronco de gordura,
  223. se lembrem de como fazer gordura
  224. de tal modo que os ratos com uma dieta rica em gordura,
  225. como meus conterrâneos em Chicago,
  226. não desenvolvem um fígado gorduroso,
  227. que é um grande problema de saúde.
  228. O que essa pesquisa nos ensinou --

  229. não somente ao meu laboratório, mas ao nosso instituto
  230. e à Harvard Medical School em geral --
  231. é que nós temos recursos singulares no meio acadêmico
  232. para a descoberta de drogas --
  233. que o nosso centro,
  234. que provavelmente testou cientificamente mais células de câncer
  235. que qualquer outro,
  236. nunca fez uma descoberta sozinho.
  237. Por todas essas razões que vocês veem listadas aqui,
  238. nós achamos que existe uma grande oportunidade para os centros acadêmicos
  239. participarem dessa disciplina inicial,
  240. conceitualmente difícil e criativa,
  241. que é a descoberta de drogas protótipos.
  242. Então, o que vem depois?

  243. Nós temos essa molécula, mas ela ainda não é um comprimido.
  244. Não está disponível como medicamento.
  245. Nós precisamos melhorá-la para que possamos dá-la aos nossos pacientes.
  246. E todos no laboratório,
  247. especialmente depois da interação com esses pacientes,
  248. se sentem obrigados
  249. a desenvolver um medicamento baseado nessa molécula.
  250. E é aqui que eu tenho que dizer
  251. que nós precisamos da sua ajuda e das suas idéias,
  252. da sua participação colaborativa.
  253. Diferente de uma companhia farmacêutica,
  254. nós não temos fábricas para onde podemos mandar essas moléculas.
  255. Nós não temos um time de vendedores e publicitários
  256. que nos diga como posicionar um medicamento em relação a outro.
  257. O que nós temos é a flexibilidade de um centro acadêmico
  258. para trabalhar com pessoas competentes, motivadas,
  259. entusiasmadas e, esperamos, bem pagas
  260. para levar essas moléculas até as clínicas
  261. enquanto preservamos nossa capacidade
  262. de compartilhar a droga protótipo com o mundo.
  263. Essa molécula irá em breve deixar as nossas bancadas

  264. e ir para uma pequena companhia iniciante,
  265. chamada Tensha Therapeutics.
  266. E na verdade essa já é a quarta dessas moléculas
  267. a 'graduar-se' da nossa pequena linha de montagem de descoberta de drogas,
  268. duas das quais -- um medicamento tópico
  269. para o linfoma da pele,
  270. e um comprimido para o tratamento de mieloma múltiplo -
  271. irão chegar às camas dos hospitais
  272. para o primeiro estudo clínico em julho de 2011.
  273. Para nós, um grande e empolgante marco.
  274. Eu quero deixar para vocês apenas duas idéias.
  275. A primeira é
  276. se existe algo único nessa pesquisa,
  277. não é tanto a ciência quanto a estratégia --
  278. para nós isso foi um experimento social,
  279. um experimento sobre o que aconteceria
  280. se fôssemos tão abertos e honestos
  281. quanto possível, desde as fases mais iniciais
  282. do processo de descobertas químicas.
  283. Essa sequência de letras e números,

  284. e símbolos e parênteses,
  285. que pode ser enviada por mensagem de texto
  286. ou por Twitter para o mundo todo,
  287. é a identidade química do nosso pró-fármaco.
  288. É a informação que mais precisamos
  289. das companhias farmacêuticas,
  290. a informação
  291. de como os protótipos dos medicamentos podem funcionar.
  292. No entanto, essa informação é altamente secreta.
  293. Por isso nós buscamos, na verdade,
  294. fazer o download de dois princípios
  295. vindos dos incríveis sucessos da indústria da computação:
  296. o do 'open-source' e do 'crowdsourcing'
  297. para mais rapidamente, e com responsabilidade,
  298. acelerar a distribuição de medicamentos dirigidos
  299. a pacientes com câncer.
  300. Agora o modelo de negócio envolve todos vocês.

  301. Essa pesquisa é financiada pelo público.
  302. É financiada por fundações.
  303. E uma coisa que eu aprendi em Boston
  304. é que vocês fazem o que for preciso pelo câncer - e eu adoro isso.
  305. Vocês atravessam o estado de bicicleta. Vocês sobem e descem o rio.
  306. (Risos)
  307. Eu nunca vi em lugar algum
  308. esse apoio sem igual
  309. à pesquisa do câncer.
  310. E por isso, eu gostaria de agradecê-los
  311. pela sua participação, sua colaboração
  312. e, acima de tudo, pela sua confiança em nossas idéias.
  313. (Aplausos)