Portuguese, Brazilian subtitles

← Uma ferramenta inesperada para entender a desigualdade: matemática abstrata

Get Embed Code
26 Languages

Showing Revision 15 created 03/26/2019 by Maricene Crus.

  1. O mundo está inundado
    de discussões polêmicas,
  2. conflitos,
  3. notícias falsas,
  4. vitimização,
  5. exploração, preconceito,
    intolerância, acusações, gritarias
  6. e défice de atenção.
  7. Às vezes, parece que estamos
    destinados a tomar partido,
  8. a estarmos presos em câmaras de eco
  9. e a nunca mais concordar.
  10. Às vezes, parece uma corrida
    ao fundo do poço,
  11. em que todo mundo chama atenção
    ao privilégio do outro
  12. e compete para se mostrar
    o mais injustiçado na discussão.
  13. Como entendermos um mundo
    que não faz sentido?
  14. Tenho uma ferramenta para entender
    esse nosso mundo confuso

  15. que, para vocês, talvez seja inesperada:
  16. matemática abstrata.
  17. Sou estudiosa da matemática pura.

  18. Tradicionalmente, matemática pura
    é como se fosse a teoria da matemática,
  19. enquanto a matemática aplicada é usada
    em problemas reais, como construir pontes,
  20. pilotar aviões e controlar
    o fluxo de tráfego.
  21. Mas irei falar sobre como
    a matemática pura é usada diretamente
  22. em nosso cotidiano
    como um modo de pensar.
  23. Resolver equações de segundo grau
    não me ajuda no dia a dia,
  24. mas eu uso o raciocínio matemático
    para me ajudar a entender argumentos
  25. e ser empática com outras pessoas.
  26. Então, a matemática pura
    me ajuda com todo o mundo.
  27. Mas antes de falar sobre todo o mundo,

  28. preciso falar sobre algo
    que vocês possam achar
  29. tão irrelevante quanto matemática escolar:
  30. fatores de números.
  31. Comecemos com os fatores de 30.
  32. Se isso lhes faz tremer com memórias ruins
    das aulas de matemática,
  33. compadeço-me, pois também achava
    as aulas de matemática chatas.
  34. Mas tenho certeza que abordaremos isso
  35. de modo bem diferente
    de como o fizemos na escola.
  36. O que são fatores de 30?

  37. São os divisores de 30.
  38. Talvez se lembrem deles, vejamos:
  39. um, dois, três,
  40. cinco, seis,
  41. 10, 15 e 30.
  42. Não é muito interessante.
  43. São vários números em uma linha reta.
  44. Podemos torná-los mais interessantes
  45. ao analisar quais desses números
    também são fatores entre si
  46. e desenhar uma figura,
    quase uma árvore genealógica,
  47. para mostrar essas relações.
  48. Então, o 30 fica no topo
    como se fosse o tataravô.
  49. Seis, 10 e 15 são divisores de 30.
  50. Cinco é divisor de 10 e 15.
  51. Dois é divisor de 6 e 10.
  52. Três é divisor de 6 e 15.
  53. Um é divisor de dois, três e cinco.
  54. Agora, vemos que dez
    não é divisível por três,
  55. mas que estes são vértices de um cubo,
  56. o que é um pouco mais interessante
  57. do que vários números em uma linha reta.
  58. Podemos perceber algo mais:
    há uma hierarquia aqui.

  59. No nível de baixo está o número um,
  60. em seguida os números dois, três e cinco,
  61. que só são divisíveis
    por eles mesmos e por um,
  62. o que significa que são números primos.
  63. No nível seguinte, temos 6, 10 e 15,
  64. que são produtos da multiplicação
    de dois fatores primos.
  65. Seis é dois vezes três,
  66. dez é dois vezes cinco,
  67. quinze é três vezes cinco.
  68. No topo, temos 30,
  69. que é o produto da multiplicação
    de três números primos:
  70. dois vezes três vezes cinco.
  71. Poderia redesenhar esse diagrama
    usando esses números.
  72. Temos dois, três e cinco no topo.
  73. Temos pares de números no nível seguinte.
  74. Temos unidades no próximo nível
  75. e um conjunto vazio na base.
  76. Cada seta mostra a perda
    de um número no conjunto.
  77. Talvez agora esteja claro

  78. que não importa quais sejam esses números.
  79. Na verdade, não importa o que sejam.
  80. Poderíamos substituí-los por A, B e C,
  81. e teríamos a mesma imagem.
  82. Isso se tornou muito abstrato.

  83. Números viraram letras.
  84. Mas há um objetivo nessa abstração,
  85. pois agora isso se tornou
    amplamente aplicável,
  86. porque A, B e C podem ser qualquer coisa.
  87. Poderiam ser três tipos de privilégio:
  88. rico, branco e homem.
  89. No nível seguinte temos
    pessoas ricas e brancas.
  90. Aqui, temos homens ricos.
  91. Aqui, temos homens brancos.
  92. Depois, temos ricos, brancos e homens.
  93. Ao fim, temos pessoas
    sem nenhum desses privilégios.
  94. Colocarei o restante
    dos adjetivos para dar ênfase.
  95. Aqui temos pessoas ricas,
    brancas e não-homens,
  96. para nos lembrar de que há pessoas
    não-binárias que precisamos incluir.
  97. Aqui, temos homens, não-brancos e ricos.
  98. Aqui, temos homens, brancos e não-ricos.
  99. Ricos, não-brancos e não-homens.
  100. Não-ricos, brancos e não-homens.
  101. E não-ricos, não-brancos e homens.
  102. Na base temos as pessoas
    menos privilegiadas:
  103. não-ricas, não-brancas e não-homens.
  104. Partimos de um diagrama de fatores de 30

  105. para um diagrama de interações
    entre diferentes tipos de privilégio.
  106. E há muito a se aprender
    com esse diagrama.
  107. Primeiro, cada seta representa
    a perda direta de um tipo de privilégio.
  108. Às vezes, erroneamente se pensa
    que o privilégio de ser branco significa
  109. que todos os brancos estão em melhores
    condições que todos os não-brancos.
  110. Alguns apontam para os astros
    esportistas negros e dizem:
  111. "Está vendo? Eles são ricos.
    Privilégio de ser branco não existe".
  112. Mas não é isso que a teoria
    do privilégio de ser branco diz.
  113. Ela diz que se aquele astro esportista
    super-rico tivesse essas características
  114. e também fosse branco,
  115. é de se esperar que estivesse
    em melhores condições na sociedade.
  116. Há algo mais que podemos
    compreender com este diagrama

  117. se olharmos as linhas.
  118. Ao olhar a segunda linha, na qual pessoas
    têm dois tipos de privilégio,
  119. perceberemos que elas
    não são totalmente iguais.
  120. Por exemplo: mulheres brancas e ricas
    provavelmente estão em melhores condições
  121. do que homens brancos e pobres.
  122. E homens negros e ricos estão
    entre os dois grupos.
  123. Na verdade, é assim mais inclinado.
  124. E o mesmo ocorre no nível abaixo.
  125. Mas podemos ir além

  126. e analisar as interações
    entre os dois níveis do meio.
  127. Pessoas ricas, não-brancas e não-homens
    podem estar em melhores condições
  128. do que homens brancos e pobres.
  129. Pensem em exemplos flagrantes
    como a Michelle Obama
  130. e a Oprah Winfrey.
  131. Elas estão melhores do que homens
    brancos, pobres, desempregados e sem-teto.
  132. Então, na verdade, o diagrama
    é assim mais inclinado.
  133. E essa tensão existe
  134. entre as camadas de privilégio no diagrama
  135. e o privilégio absoluto que pessoas
    vivenciam na sociedade.
  136. Isso me ajudou a entender por que alguns
    homens brancos e pobres
  137. estão com tanta raiva
    da sociedade atualmente.
  138. É porque são vistos como se estivessem
    no alto desse cubo de privilégio,
  139. mas, em termos de privilégio absoluto,
    eles não sentem os efeitos.
  140. Acredito que entender a origem dessa raiva
  141. é muito mais produtivo do que simplesmente
    retribuir-lhes o sentimento.
  142. Analisar essas estruturas abstratas
    também nos ajuda a mudar cenários

  143. e ver que pessoas diversas
    estão no topo em cenários distintos.
  144. No diagrama original,
  145. homens brancos e ricos estavam no topo,
  146. mas, se atentarmos para os não-homens,
  147. veremos que estão aqui,
  148. e, agora, não-homens
    ricos e brancos estão no topo.
  149. Poderíamos mudar
    para um cenário de mulheres,
  150. e nossos três tipos de privilégio
    seriam rica, branca e "cisgênero".
  151. Lembrem-se que cisgênero significa
    que sua identidade de gênero corresponde
  152. ao gênero que lhe foi
    atribuído no nascimento.
  153. Agora vemos que mulheres cisgênero,
    brancas e ricas ocupam situação análoga
  154. a de homens brancos e ricos
    em uma sociedade mais ampla.
  155. Isso me ajudou a entender
    por que há tanta raiva
  156. direcionada a mulheres brancas e ricas,
  157. especialmente em algumas partes
    do movimento feminista atual,
  158. porque elas talvez estejam propensas
    a se verem como desprivilegiadas
  159. em comparação a homens brancos
  160. que esquecem o quão privilegiadas são
    em comparação com mulheres não-brancas.
  161. Podemos utilizar essas estruturas
    abstratas para nos colocar em situações

  162. em que somos mais privilegiados
    ou menos privilegiados.
  163. Todos somos mais privilegiados que alguém
  164. e menos privilegiados que outrem.
  165. Eu sei, e sinto, que, como asiática,
  166. sou menos privilegiada que pessoas brancas
  167. pelo privilégio de serem brancas.
  168. Mas também entendo
  169. que sou uma das mais privilegiadas,
    provavelmente, dentre os não-brancos,
  170. e isso ajuda a me orientar
    entre esses dois cenários.
  171. Em termos de riqueza,
  172. não me considero super-rica.
  173. Não sou tão rica quanto as pessoas
    que não precisam trabalhar.
  174. Mas estou bem,
  175. e é uma situação bem melhor
    do que quem passa por dificuldades,
  176. esteja desempregado
    ou ganhando um salário mínimo.
  177. Faço esse exercício mental

  178. para tentar entender os acontecimentos
    do ponto de vista de outras pessoas,
  179. o que me leva a esta possivelmente
    inesperada conclusão:
  180. matemática abstrata é altamente
    relevante para nossa vida diária
  181. e pode nos ajudar a entender
    e a ser solidários com outras pessoas.
  182. Desejo que todos tentassem
    cada vez mais entender uns aos outros
  183. e trabalhassem juntos
  184. em vez de competir entre si
  185. e tentar mostrar o erro dos outros.
  186. E acredito que o raciocínio
    matemático abstrato
  187. pode nos levar a esse objetivo.
  188. Obrigada.

  189. (Aplausos)