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← O quarto de Mary: Uma experiência mental filosófica — Eleanor Nelsen

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Showing Revision 4 created 02/14/2017 by Margarida Ferreira.

  1. Imaginem uma brilhante
    neurocientista chamada Mary.
  2. Mary vive num quarto preto e branco,
  3. só lê livros a preto e branco,
  4. e os ecrãs que têm são só
    a preto e branco.
  5. Apesar de nunca ter visto cores,
    Mary é uma especialista na visão a cores
  6. e sabe tudo que já foi descoberto
    sobre isso, na Física e na Biologia.
  7. Sabe como as diferentes
    ondas de comprimento da luz
  8. estimulam três tipos
    de células cónicas na retina
  9. e sabe como os sinais elétricos
  10. viajam pelo nervo ótico
    até ao cérebro.
  11. Aí, criam padrões
    de atividade neural
  12. que correspondem aos milhões de cores
  13. que quase todos
    os seres humanos distinguem.
  14. Imaginem, agora, que um dia
  15. o ecrã a preto e branco de Mary se avaria
  16. e aparece uma maçã a cores.
  17. Pela primeira vez,
  18. ela tem a experiência de uma coisa
    que conhece há anos.
  19. Será que aprende uma coisa nova?
  20. Há alguma coisa na perceção da cor
  21. que não tenha sido captado
    por todo o seu saber?
  22. O filósofo Frank Jackson
    propôs esta experiência mental,
  23. chamada "o quarto de Mary",
    em 1982.
  24. Defendeu que, se Mary
    já sabia todos os factos físicos
  25. sobre a visão a cores,
  26. e ter a experiência da cor
    ainda lhe ensina qualquer coisa de novo,
  27. então, os estados mentais,
    tal como a perceção da cor,
  28. não podem ser totalmente descritos
    por factos físicos.
  29. A experiência mental de "o quarto de Mary"
  30. descreve aquilo a que os filósofos chamam
    o "argumento do conhecimento",
  31. em que há propriedades não físicas
    e conhecimentos
  32. que só podem ser descobertos
    através duma experiência consciente.
  33. O argumento do conhecimento
    contradiz a teoria do fisicalismo
  34. que diz que tudo,
    incluindo os estados mentais,
  35. tem uma explicação física.
  36. A maioria das pessoas
    que ouve a história de Mary
  37. pensa intuitivamente
    que é óbvio que ver as cores
  38. será completamente diferente
    de saber tudo sobre elas.
  39. Portanto, deve haver
    qualquer qualidade na visão a cores
  40. que transcende a sua descrição física.
  41. O argumento do conhecimento
    não trata apenas da visão das cores.
  42. "O quarto de Mary" usa a visão das cores
  43. para representar
    uma experiência consciente.
  44. Se a Física não consegue
    explicar totalmente a visão das cores.
  45. então talvez também não consiga explicar
    totalmente outras experiências conscientes.
  46. Por exemplo, podemos conhecer
    todos os pormenores físicos
  47. da estrutura e função
    do cérebro de uma pessoa,
  48. mas, mesmo assim, não compreender
    o que é ser essa pessoa.
  49. Estas experiências indescritíveis
    têm propriedades chamadas "qualia",
  50. qualidades subjetivas que não podemos
    descrever ou medir com rigor.
  51. As "qualia" são únicas para a pessoa
    que as experimenta,
  52. como ter comichão,
  53. estar apaixonado,
  54. ou sentir-se aborrecido.
  55. Os factos físicos não podem explicar
    totalmente estados mentais como estes.
  56. Os filósofos interessados
    em inteligência artificial,
  57. têm usado o argumento do conhecimento
  58. para teorizar que a recriação
    de um estado físico
  59. não recriará necessariamente
    um estado mental correspondente.
  60. Por outras palavras,
  61. construir um computador que imite
    a função de cada um dos neurónios
  62. do cérebro humano
  63. não criará necessariamente
    um cérebro artificial consciente.
  64. Nem todos os filósofos concordam
  65. que a experiência
    de "o quarto de Mary" seja útil.
  66. Uns defendem que o extenso conhecimento
    que ela tem da visão a cores
  67. ter-lhe-á permitido criar
    o mesmo estado mental
  68. produzido por uma real visão a cores.
  69. O ecrã avariado não lhe terá
    mostrado nada de novo.
  70. Outros dizem que, para começar,
    o conhecimento dela nunca foi completo
  71. porque se baseava apenas
    nos factos físicos
  72. que podem ser transmitidos por palavras,
  73. Anos depois desta sua proposta,
  74. Jackson inverteu a sua posição
    sobre esta experiência mental.
  75. Concluiu que, mesmo a experiência
    de Mary ao ver o vermelho
  76. corresponde a um acontecimento
    físico mensurável, no cérebro,
  77. e não a "qualia" desconhecidas
    para além de uma explicação física.
  78. Mas continua a não haver
    uma resposta definitiva
  79. à pergunta de se Mary teria aprendido
    alguma coisa de novo
  80. quando viu a maçã.
  81. Será que há limites fundamentais
    para aquilo que conhecemos
  82. sobre uma coisa que nunca experimentámos?
  83. E isso significará que há
    certos aspetos do universo
  84. que ficarão permanentemente
    para além da nossa compreensão?
  85. Ou a ciência e a filosofia permitir-nos-ão
  86. ultrapassar as limitações
    do nosso espírito?