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← O quarto de Mary: um experimento de pensamento filosófico - Eleanor Nelsen

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Showing Revision 15 created 03/01/2017 by Maricene Crus.

  1. Imagine uma neurocientista
    brilhante chamada Mary.
  2. Mary vive em um quarto preto e branco,
  3. ela só lê livros em preto e branco,
  4. e suas telas exibem apenas preto e branco.
  5. Mas mesmo que nunca tenha visto cores,
    Mary é uma especialista em visão colorida
  6. e conhece tudo o que foi estudado
    sobre a sua física e biologia.
  7. Sabe como diferentes
    comprimentos de onda de luz
  8. estimulam três tipos de cone na retina,
  9. e ela sabe como os sinais elétricos
  10. viajam pelo nervo ótico para o cérebro.
  11. Ali eles criam padrões de atividade neural
  12. que correspondem aos milhões de cores
    que a maioria dos humanos podem ver.
  13. Agora imagine que um dia
  14. a tela em preto e branco da Mary falha
  15. e uma maçã colorida aparece.
  16. Pela primeira vez,
  17. ela pode experimentar algo
    conhecido por ela há anos.
  18. Ela aprendeu alguma coisa nova?
  19. Há alguma coisa sobre percepção de cores
    que não foi captada com seu conhecimento?
  20. O filósofo Frank Jackson propôs
    esta experiência de pensamento,
  21. chamada Quarto de Mary, em 1982.
  22. Ele argumentou que, se Mary conhecia
    todos os fatos físicos da visão de cores,
  23. e experimentar cores
    ainda ensina algo novo a ela,
  24. logo os estados mentais,
    como percepção de cores,
  25. não podem ser completamente
    descritos por fatos físicos.
  26. O experimento do quarto de Mary
  27. descreve o que filósofos chamam
    de argumento do conhecimento,
  28. em que há propriedades
    e conhecimentos não-físicos
  29. que só podem ser descobertos
    através da experiência consciente.
  30. O argumento do conhecimento
    contradiz a teoria do fisicalismo,
  31. que diz que tudo,
    inclusive os estados mentais,
  32. tem uma explicação física.
  33. Para quem ouviu a história de Mary,
  34. parece intuitivamente óbvio
    que ver as cores
  35. é algo totalmente diferente
    do que aprender sobre isso.
  36. Portanto, deve haver alguma
    qualidade na visão de cores
  37. que transcende sua descrição física.
  38. O argumento do conhecimento
    não é apenas sobre a visão de cores.
  39. O quarto de Mary usa a visão de cores
    para representar a experiência consciente.
  40. Se a ciência física não pode explicar
    inteiramente a visão de cores,
  41. então talvez ela não possa explicar
    outras experiências conscientes.
  42. Por exemplo, poderíamos
    saber todos os detalhes físicos
  43. sobre a estrutura e função
    do cérebro de outra pessoa,
  44. mas ainda assim não entender
    como é ser essa pessoa.
  45. Essas experiências indescritíveis
    têm propriedades chamadas qualia,
  46. qualidades subjetivas que não podemos
    descrever ou medir com precisão.
  47. Qualia são exclusivas para a pessoa
    que as experimenta,
  48. como ter uma coceira,
  49. estar apaixonado,
  50. ou sentir-se entediado.
  51. Os fatos físicos não podem explicar
    completamente estados mentais como esses.
  52. Os filósofos interessados
    em inteligência artificial
  53. usam o argumento do conhecimento
  54. para teorizar que recriar um estado físico
  55. não necessariamente recria
    um estado mental correspondente.
  56. Em outras palavras,
  57. a construção de um computador
    que imita a função de cada neurônio
  58. do cérebro humano
  59. não necessariamente cria um cérebro
    computadorizado consciente.
  60. Nem todos os filósofos concordam
    que o quarto de Mary seja útil.
  61. Alguns argumentam que o vasto
    conhecimento sobre visão de cores
  62. poderia permitir que ela
    criasse o mesmo estado mental
  63. produzido pela visão real de cores.
  64. O mau funcionamento da tela
    não mostraria nada de novo a ela.
  65. Outros afirmam que o conhecimento
    dela nunca foi completo,
  66. porque foi baseado
    apenas nos fatos físicos
  67. que podem ser expressos em palavras.
  68. Anos depois de sua proposta,
  69. Jackson inverteu sua própria posição
    sobre a sua experiência de pensamento.
  70. Ele decidiu que, mesmo a experiência
    de Mary de ver o vermelho
  71. ainda corresponde a um acontecimento
    físico mensurável no cérebro,
  72. sem qualia desconhecida
    além da explicação física.
  73. Mas ainda não há uma resposta definitiva
  74. para a questão se Mary aprende algo novo
  75. quando ela vê a maçã.
  76. Será que há limites fundamentais
    para o que podemos saber
  77. sobre algo que não podemos experimentar?
  78. E será que isso significa que há
    certos aspectos do universo
  79. que se encontram permanentemente
    além da nossa compreensão?
  80. Ou a ciência e a filosofia nos permitirão
    superar as limitações da nossa mente?