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← O que é uma arma na era da informação?

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Showing Revision 21 created 12/10/2020 by Raissa Mendes.

  1. Há alguns anos, um consultor
    de defesa norte-americano
  2. me falou de uma viagem
    que ele fez ao Uzbequistão.
  3. A função dele lá
    era ajudar a vender tecnologia
  4. que o governo uzbeque pudesse usar
    para espionar seus próprios cidadãos.
  5. Ele compartilhou comigo
    o material de marketing
  6. que havia apresentado
    ao governo do Uzbequistão.
  7. Um folheto em papel brilhante
    apresentava uma tecnologia
  8. capaz não só de interceptar telefonemas,
    mas também identificar quem ligava,
  9. independentemente
    do número de telefone usado,
  10. com base no espectrograma sonoro único
  11. e, em seguida, identificar
    a localização geográfica exata.
  12. Era um cara envolvido há anos
    com o comércio de armas,

  13. não um contrabandista típico de Hollywood
    que fazia negócios ilícitos,
  14. mas só alguém que trabalhava
    com empresas ocidentais legítimas
  15. para ajudar a vender armas no exterior.
  16. Ele não se incomodava em comercializar
    esse tipo de tecnologia.
  17. Para ele, era só o passo seguinte
    no comércio de armas.
  18. Digamos que era ainda mais fácil
    do que vender armas ao Iraque
  19. porque não exigia licença de exportação
    do Departamento de Estado dos EUA,
  20. como exigia a maioria das vendas de armas.
  21. Acontece que quase todas
    essas ferramentas de vigilância
  22. não têm regulamentação
  23. porque não são definidas
    atualmente como armas,
  24. mas deveriam ser, e precisamos
    regulamentá-las dessa forma.
  25. Sou jornalista, e passei
    as últimas duas décadas

  26. observando como o mundo
    militar e da inteligência
  27. estimula o desenvolvimento
    de novas ciências e tecnologias.
  28. Acompanhei o surgimento de novas armas
  29. e procurei ver o que acontece
  30. quando empresas começam
    a comercializá-las no exterior.
  31. Mas o que é uma arma na era da informação?
  32. Sabemos que drones armados são armas,
  33. assim como mísseis e bombas,
  34. mas o Departamento de Estado classifica
    amplas categorias de tecnologias
  35. como armas.
  36. Por exemplo, um cientista vai ao exterior
    em um navio de pesquisa oceanográfica

  37. e quer levar os mais recentes
    óculos de visão noturna?
  38. Segundo o Departamento de Estado,
    eles são armas em potencial.
  39. Por quê?
  40. Porque, embora óculos de visão noturna
  41. sejam usados por cientistas
    e caçadores no mundo todo,
  42. foram uma capacidade desenvolvida
    inicialmente para os militares.
  43. Ferramentas de vigilância,

  44. que um regime autoritário
    poderia usar para espionar cidadãos,
  45. dissidentes, jornalistas,
  46. segundo o governo dos EUA
    hoje, não são armas.
  47. Porém essas ferramentas de vigilância
  48. fazem parte de uma indústria
    multibilionária crescente e sigilosa.
  49. A origem desse mercado de espionagem
    remonta a cerca de 18 anos,

  50. em um hotel Hilton do norte da Virgínia,
  51. a apenas quilômetros de distância
  52. da Agência Central
    de Inteligência dos EUA.
  53. Algumas dezenas de pessoas,
    a maioria homens de terno,
  54. reuniram-se lá na primavera de 2002
  55. para uma conferência com o nome
    despretensioso de ISS World.
  56. À primeira vista, era provável
    que ela se parecesse
  57. com dezenas de eventos que aconteciam
    na região de Washington, DC.
  58. Porém esse evento foi único.
  59. ISS é a sigla em inglês
    para Sistemas de Apoio à Inteligência,
  60. e as pessoas presentes eram de empresas
  61. que desenvolviam tecnologias
    para espionar comunicações privadas.
  62. Em outras palavras, eram uma espécie
    de escutas telefônicas de aluguel.
  63. Elas estavam lá
    porque, menos de um ano antes,

  64. os ataques de 11 de setembro
    em Nova York e Washington
  65. levaram o Congresso a aprovar uma lei
    conhecida como Lei Patriótica.
  66. Isso deu ao governo novas autorizações
    para monitorar comunicações,
  67. e-mails, atividades na internet,
    ligações telefônicas
  68. e até transações financeiras
  69. e criou uma demanda instantânea por dados.
  70. No verdadeiro espírito
    empreendedor norte-americano,
  71. uma indústria se ergueu
    para ajudar a coletar esses dados.
  72. No entanto, em 2002,

  73. ainda era um caso bastante modesto.
  74. Apenas cerca de 10% da população mundial
    estava on-line usando a internet.
  75. A maior parte do que estava sendo coletado
  76. eram e-mails simples e ligações
    de telefones fixos e celulares.
  77. Porém, nos anos seguintes,
  78. nossa forma de comunicação
    começou a mudar rapidamente.
  79. Houve a chegada do Skype, do Facebook
    e depois, de modo decisivo, do iPhone.
  80. Em poucos anos, bilhões de nós andávamos
    com pequenos computadores no bolso
  81. que fazem tudo, desde monitorar
    nossa rotina de exercícios
  82. até nos ajudar a encontrar
    parceiros românticos.
  83. De repente, não precisávamos
    necessariamente
  84. da capacidade avançada
    da Agência de Segurança Nacional
  85. nem das grandes "telecoms"
  86. para monitorar a comunicação de todos.
  87. Em alguns casos, só precisávamos
    acessar o aparelho no bolso.
  88. Isso deu origem a um tipo
    totalmente novo de indústria.
  89. Poucas empresas conseguem fabricar
    mísseis ou aeronaves,

  90. mas não é preciso muito capital
  91. para criar um software
    capaz de invadir smartphones.
  92. Hackers de computador existem há anos,
  93. mas agora as habilidades deles
    podem ser usadas para criar tecnologias
  94. muito procuradas por agências
    de segurança pública e de inteligência.
  95. Em pouco tempo, dezenas
    e até centenas de empresas
  96. entravam nesse mercado
    de escutas telefônicas.
  97. Aquela pequena conferência na Virgínia
  98. cresceu e logo se tornou conhecida
    como o baile de escutas telefônicas.
  99. Não se sabia muito sobre esse baile
    naqueles primeiros anos

  100. porque as conferências
    eram fechadas para todos,
  101. exceto para as empresas
    e seus clientes governamentais.
  102. Porém os jornalistas
    começaram a ver e ouvir relatos
  103. de empresas que entravam
    nesse mercado privado de espionagem,
  104. empreendedores assustadores
    que viajavam o mundo e faziam negócios
  105. geralmente com regimes autoritários.
  106. Desde o início, foi um mercado
    de regulamentação muito fraca.

  107. Alguns países exigem permissão
    para vender essas tecnologias no exterior,
  108. mas raramente com o tipo de escrutínio
    dado às armas tradicionais.
  109. Por exemplo, a empresa
    italiana Hacking Team
  110. vendeu sua tecnologia
    para regimes autoritários
  111. no Egito e no Cazaquistão.
  112. A empresa israelense NSO Group
    supostamente vendeu sua tecnologia
  113. ao regime da Arábia Saudita,
  114. que vem sendo acusado de acossar
  115. e até mesmo, em um caso,
    matar um de seus adversários políticos.
  116. Pensamos em armas
    como coisas que matam pessoas,
  117. mas, na era da informação,
  118. algumas das armas mais poderosas
  119. são coisas que podem
    nos rastrear e nos identificar.
  120. Isso é algo que o Pentágono e a CIA
    reconheceram há anos

  121. e tentaram criar tecnologias
  122. capazes de rastrear pessoas
    suspeitas de terrorismo, em todo o mundo.
  123. O Pentágono investiu em algo
    chamado poeira inteligente:
  124. pequenos microssensores
    do tamanho de partículas de poeira
  125. que podem espalhados nas pessoas
    sem que elas saibam
  126. e usados para rastrear
    a localização delas.
  127. O Pentágono, por meio
    de sua empresa de capital de risco,
  128. investiu em uma empresa
    de produtos de beleza
  129. que já apareceu na "Oprah Magazine"
  130. para construir um aparelho
    capaz de coletar DNA secretamente
  131. apenas passando pela pele.
  132. No entanto, aconteceu algo
    extraordinário na última década.

  133. Em muitos casos, o que o mercado
    privado conseguiu fazer
  134. ultrapassou em muito o que o Pentágono
    ou a CIA achavam possível.
  135. Em 2008,
  136. o Pentágono tinha um banco de dados
    sigiloso de DNA de terroristas.
  137. Havia cerca de 80 mil amostras.
  138. A empresa privada AncestryDNA
  139. hoje tem amostras
    de mais de 15 milhões de pessoas.
  140. 23andMe, o segundo maior
    banco de dados genealógico,
  141. tem amostras de mais
    de 10 milhões de pessoas.
  142. Talvez não precisemos dessas técnicas
    de coleta de DNA dignas de James Bond
  143. se estivermos dispostos
    a entregá-lo a empresas privadas
  144. e até mesmo pagar pela honra de mantê-lo.
  145. O que podemos fazer
    com uma amostra de DNA?

  146. Nos Estados Unidos e na China,
  147. pesquisadores trabalham
    com o uso de amostras de DNA
  148. para construir imagens
    do rosto de pessoas.
  149. Se emparelharmos o DNA
    com a tecnologia de reconhecimento facial,
  150. teremos a base de um sistema
    de vigilância muito poderoso
  151. que pode ser usado para rastrear
    indivíduos ou grupos étnicos inteiros.
  152. Se você acha que isso parece
    um pouco paranoico,
  153. lembre-se de que o Pentágono,
    no ano passado,
  154. enviou um memorando
    a todos os membros das Forças Armadas,
  155. alertando-os para não usarem
    esses kits comerciais de DNA
  156. devido à preocupação de a informação
    ser usada para rastreá-los
  157. ou rastrear seus familiares.
  158. Porém, mesmo com as preocupações
    do Pentágono sobre essa tecnologia,
  159. quase nada foi feito
    para predominar nesse mercado.
  160. Uma empresa norte-americana, Clearview AI,

  161. vem coletando bilhões de imagens
    de rostos de pessoas
  162. em toda a internet,
  163. como aquelas fotos
  164. que você posta em seu Instagram
    e no de seus amigos e familiares,
  165. e depois vendendo serviços
    de reconhecimento facial
  166. para o governo dos EUA
    e agências de segurança pública.
  167. Mesmo que você considere uma aplicação
    perfeitamente aceitável dessa tecnologia,
  168. nada os impede de vendê-la
    para pessoas físicas,
  169. empresas ou mesmo governos estrangeiros.
  170. Algumas empresas
    estão fazendo exatamente isso.
  171. Aquele baile de escutas telefônicas
    que começou no norte da Virgínia

  172. é realizado atualmente
    em várias cidades ao redor do mundo.
  173. Milhares de pessoas agora
  174. participam dos treinamentos
    e das conferências da ISS,
  175. e mais empresas que surgem
    vêm do Oriente Médio e da China.
  176. O mercado de espionagem ficou globalizado.
  177. Em feiras de armas, agora em todo o mundo,
  178. veremos empresas que exibem
    tecnologia de reconhecimento facial
  179. e software de invasão de telefones,
  180. ao lado de fabricantes
    de armas tradicionais
  181. com tanques e mísseis.
  182. Ao andar nessas feiras de armas,
  183. é muito fácil cair
    em buracos distópicos de coelhos,
  184. pensando na futura
    tecnologia de vigilância
  185. que rastreará cada movimento nosso.
  186. Um conselheiro do Pentágono me disse
  187. que os militares precisavam
    de satélites no espaço
  188. capazes de rastrear pessoas
    em qualquer lugar
  189. com base apenas no DNA delas.
  190. É o suficiente para nos fazer
    investir em paranoias.
  191. Mas a verdade é que não sabemos
    que tipo de tecnologia o futuro trará.

  192. Sabemos que hoje,
    na ausência de regulamentação,
  193. esse mercado já está saturado.
  194. Na realidade, uma daquelas empresas
  195. acusadas de vender tecnologia
    de vigilância para regimes autoritários
  196. hoje se oferece para ajudar a rastrear
    pessoas infectadas com COVID-19.
  197. Claro, a tecnologia oferece
    a promessa tentadora
  198. de ajudar a controlar uma pandemia
    por meio de rastreamento de contatos,
  199. mas também abre outra porta
    para a vigilância em massa privatizada.
  200. O que fazemos com esse mercado
    privado de espionagem?

  201. Podemos nos esconder, ficar off-line,
  202. sair das redes sociais,
    abandonar o smartphone,
  203. ir morar em uma caverna.
  204. Na verdade, não fomos treinados
    para ser espiões profissionais.
  205. Não podemos viver sem identidade
    ou com uma identidade falsa.
  206. Até espiões de verdade
  207. estão com dificuldade
    em ficar fora do radar atualmente.
  208. Não importa quantos passaportes
    Jason Bourne tenha
  209. se o rosto ou o DNA dele
    estiverem em algum banco de dados.
  210. Mas, se até governos perderam o controle
    de ferramentas de espionagem,
  211. podemos fazer algo a respeito?
  212. Ouvi um argumento
    de que, mesmo se os EUA

  213. restringissem empresas de vender
    esse tipo de tecnologia no exterior,
  214. empresas com sede na China
    poderiam simplesmente intervir.
  215. Porém regulamentamos
    o comércio de armas hoje,
  216. mesmo que o façamos
    de maneira imperfeita.
  217. De fato, houve uma proposta
    multilateral há vários anos
  218. para fazer exatamente isso:
  219. exigir licenças de exportação
    para software de vigilância.
  220. Os Estados Unidos estavam entre os países
  221. que concordaram com essas
    regulamentações voluntárias,
  222. mas, em Washington,
    essa proposta simplesmente definhou.
  223. Temos um governo que prefere
    vender mais armas no exterior
  224. com menos restrições,
  225. inclusive para alguns dos países acusados
    de abusar da tecnologia de vigilância.
  226. Para seguirmos em frente,
    precisaríamos reapresentar essa proposta,

  227. mas até mesmo dar um passo adiante.
  228. Precisamos mudar fundamentalmente
  229. nosso modo de pensar
    a tecnologia de vigilância
  230. e definir essas ferramentas como armas.
  231. Isso permitiria ao governo
  232. regulamentar e controlar
    a venda e a exportação delas
  233. da mesma forma que controla
    armas tradicionais,
  234. aeronaves avançadas e mísseis.
  235. Mas isso significa reconhecer
    que a tecnologia que rastreia quem somos,

  236. o que fazemos, o que dizemos
  237. e até mesmo, em alguns casos,
    o que pensamos,
  238. é uma forma de armamento avançado.
  239. E essas armas estão ficando
    muito poderosas,
  240. disponíveis a quem oferece mais
  241. e de acordo com os caprichos
    do mercado de espionagem.
  242. Obrigada.