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Showing Revision 2 created 11/04/2019 by Margarida Ferreira.

  1. [Louise Despont: Desenhar a Vida em Bali]
  2. Como o sol se põe à mesma hora,
    durante todo o ano, em Bali,
  3. há a sensação de que o tempo está parado,
  4. que só existe um longo verão.
  5. Há um sentimento de tranquilidade
  6. e não sentimos pressa.
  7. Esta rotina está ligada
    ao ritmo do mundo à nossa volta.
  8. [Desenhar a Vida em Bali]
  9. Eu sou de Nova Iorque.
    foi lá que cresci
  10. e é o sítio onde sempre regresso.
  11. Mas também sei que o mais importante
    para fazer um bom trabalho
  12. é o tempo
  13. e o espaço.
  14. Viver em Bali é onde consigo ter
    as duas coisas abundância.
  15. Acordo por volta das 6:30,
  16. porque o nascer do sol é muito cedo.
  17. Às 8:30, começo a preparar
    as coisas no estúdio.
  18. O gato fica lá fora para não passear
    por cima dos desenhos.
  19. Nopi e Wiwik chegam por volta das 9:00.
  20. - Desenho daqui até aqui?
    - Sim.
  21. Nyoman chega por volta das 10:30
    para fazer as oferendas para a casa.
  22. É um nunca acabar
    de cerimónias e rituais.
  23. Todos cuidam da energia da ilha.
  24. Toda a gente a alimenta.
  25. Em Bali, há templos construídos
    em volta de nascentes naturais.
  26. Aproximamo-nos da água
    e temos uma sensação
  27. de profunda reverência
    e de profundo respeito
  28. por este local e por esta substância.
  29. Depois, quando entramos lá dentro,
    é uma sensação de poder,
  30. esta sensação de entrar e de mergulhar.
  31. No dia seguinte, sinto sempre
    que perdi qualquer coisa,
  32. que qualquer coisa,
    que eu tinha comigo, desapareceu.
  33. Eu queria conseguir desenhar
    qualquer coisa dessa experiência,
  34. tentar fazer uma memória visual.
  35. Desenhar não é uma coisa
    que floresça nos trópicos.
  36. O papel não dura.
  37. O ar é extremamente húmido,
  38. por isso, muitas folhas
    deformam-se ao fim de poucos dias.
  39. Mandei fazer uma caixa
    de vidro, muito simples
  40. para pôr lá dentro
    um pequeno desumidificador.
  41. Qualquer coisa em que eu não esteja
    a trabalhar, guardo-a ali dentro.
  42. Penestanan era uma pequena aldeia
  43. que foi criada pela comunidade
    dos artistas tradicionais de Bali.
  44. Os expatriados começaram
    a mudar-se para lá
  45. e as coisas começaram a desenvolver-se
    mais na direção dos arrozais.
  46. Há uma grande pegada
  47. provocada por todos nós,
    os turistas que ali estávamos.
  48. Nos três anos que ali vivi,
    assisti a grandes mudanças.
  49. Mas a vida continuava,
  50. sem interrupção.
  51. Tive de vir para este país novo
    e não tinha aqui nenhuns amigos.
  52. A parte mais assustadora era
    que tinha acabado com a minha relação
  53. e não sabia bem se conseguia
    trabalhar, sem estar apaixonada,
  54. porque sempre tive a sensação
    de que o amor me trazia exuberância
  55. e era a inspiração dos meus desenhos.
  56. isto durante muito tempo,
  57. pelo menos para aquilo que eu considerava
    serem as minhas melhores obras.
  58. E eu pensava:
  59. "Não sei se consigo desenhar
    quando estou triste
  60. "ou se consigo desenhar
    quando estou deprimida".
  61. "Não se se consigo desenhar
    quando estou amedrontada".
  62. Mas foi muito bom conseguir desenhar
  63. porque era como uma parte da minha vida
    que continuava na mesma.
  64. Eu lá estava, no estúdio, com papel,
  65. quer estivesse ou não numa relação.
  66. Claro que não é tão fácil
    como quando estamos apaixonados,
  67. mas é possível.
  68. É tão bom ter uma atividade
    que nos mantém de pé.
  69. [Centro de Desenho, Soho, Manhattan]
  70. Quando tive a oportunidade
    de fazer a exposição no Centro de Desenho,
  71. quis imaginar a energia
    sob a forma de um corpo físico.
  72. Desenhei um embrião em formação.
  73. Observei diagramas científicos
    de como as células se dividem
  74. e, depois, de certa forma,
    segui aquilo ao longo duma vida,
  75. acabando na desintegração do corpo
  76. e regressando a uma coisa sem forma.
  77. Eu sabia que queria fazer esta sala oval
    que era um enorme desenho
  78. com o mesmo ar que vocês têm.
  79. Que fosse frágil, mas se aguentasse unida.
  80. Expor o trabalho sem moldura
    dava-lhe um aspeto de vulnerabilidade.
  81. Era como me sentia naquele ano, em Bali,
  82. extremamente vulnerável.
  83. Aaron compôs a música
    para o espaço dos desenhos.
  84. Eram um tipo de composições
    muito intervaladas,
  85. que davam a sensação
    de uma respiração lenta
  86. Penso que era o som
    dos gamelões de Aaron
  87. que criavam esta atmosfera muito pacífica
  88. em que as pessoas sentiam
    que tinham entrado num santuário
  89. vindas da rua.
  90. Sei, por experiência própria,
  91. mesmo quando encontro
    qualquer coisa de que gosto,
  92. que talvez tenha viajado
    até tão longe para a ver,
  93. por vezes, só passamos
    30 segundos a olhar para ela.
  94. Fiquei a pensar
  95. quanto tempo passamos
    em frente duma obra de arte.
  96. Sempre quis criar uma atmosfera
    em que alguém estivesse tempo suficiente
  97. para viajar, através dos desenhos,
    no seu espírito.
  98. Percebi que aquele momento
    é mais belo para mim
  99. do que qualquer desenho acabado,
  100. porque é o potencial de um desenho
    que eu nunca consigo fazer.
  101. [Depois deste filme, Louise
    encontrou alguém e têm um bebé]
  102. [Ainda vivem em Bali]
  103. Tradução de Margarida Ferreira