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← Cenas da vida de um negro transexual

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Showing Revision 12 created 08/20/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Viva.
  2. Olá!
  3. (Risos)

  4. Como acabaram de ouvir,

  5. chamo-me D-L Stewart
  6. e sou membro da faculdade no "campus"
    da Universidade do Estado do Colorado.
  7. Mas o mais importante que quero
    que saibam sobre mim
  8. é que eu identifico-me como negro
  9. e também como transexual.
  10. Hoje vou falar de como as vidas
    dos negros transexuais são importantes.
  11. Enquanto o faço,
  12. vou partilhar algumas cenas da minha vida,
  13. misturadas com as formas
  14. como a etnia e o género se têm cruzado
    histórica e atualmente
  15. para modelar a vida
    dos transexuais negros.
  16. Prontos?
  17. Público: Prontos.

  18. DLS: Cena um.

  19. Eu estou em casa sozinho.
  20. O meu corpo, um país soberano.
  21. Soberano querendo dizer
  22. que é superlativo em termos de qualidade.
  23. Do tipo mais exaltado.
  24. Com poderes curativos generalizados
    de uma natureza incondicional,
  25. absoluta,
  26. primordial,
  27. possuidor de poder supremo,
  28. ilimitado na sua extensão, absoluto.
  29. Desfrutando de autonomia,
  30. independente,
  31. real.
  32. O meu corpo desafia as restrições
  33. duma sociedade consumida
    por quadrados e binários
  34. e "você é um rapaz ou uma rapariga?"
  35. Independente de tais convenções,
  36. o meu corpo agarra-se
    ao saber tão distante
  37. que entendia a própria magia.
  38. Eu contenho em mim multidões.
  39. Deste poder supremo de me nomear,
  40. de me definir e de ser eu mesmo,
  41. reivindico a minha posição
  42. e organizo a minha resistência.
  43. Uma resistência que afirma corajosamente
  44. que as vidas dos negros transexuais
    são importantes
  45. O meu corpo é um país soberano
  46. e o meu primeiro local de resistência.
  47. Fim de cena.
  48. Dizer que as vidas dos negros transexuais
    são importantes

  49. é uma reivindicação de soberania.
  50. Tanto quanto o Black Girl Magic
    e o #transisbrilliant,
  51. o Black Trans Lives Matter
    é também um coro de resistência.
  52. Porque a vida dos negros transexuais
    começam por definir o nosso corpo
  53. enquanto um país soberano
  54. a partir do qual começamos
    a resistir às mensagens
  55. que dizem que não temos lugar aqui.
  56. Impulsionamos movimentos
    com a força da nossa visão.
  57. Definimos tendências
    e criamos novos mundos.
  58. Nós somos a vanguarda.
  59. A vida dos negros transexuais
    foram sempre importantes.
  60. E contudo,

  61. presas nos cruzamentos
    das viagens no tempo
  62. da celebração do Dia da Emancipação
  63. e da declaração da emancipação
    de Stonewall,
  64. as vidas dos negros transexuais
    são ao mesmo tempo vistas e não vistas.
  65. Não são vistas pela anti-negritude
    dos movimentos "queer" e transexual.
  66. Não são vistas pela fobia e antagonismo
    aos transexuais,
  67. nos movimentos dos negros.
  68. A nossa soberania e resistência
    estão bloqueadas
  69. por camadas de sistemas e estruturas
  70. que sempre pretenderam
  71. conter, definir e apagar
    os corpos negros transexuais.
  72. Cena dois.

  73. Eu estou com a minha psicóloga,
  74. aquela de cujo testemunho
    tenho de depender
  75. para me declarar homem suficiente
    e conseguir mudar os meus documentos.
  76. É nela que se deve acreditar.
  77. Apesar das minhas declarações
    dizendo que este corpo não sou eu,
  78. que este corpo não pode ser definido
    nem por vocês, nem por ela,
  79. eu sento-me com esta médica,
  80. e ela preenche um formulário para mim.
  81. E no que respeita a tudo o que já fiz
  82. para afirmar o meu género,
  83. "A apresentação do género do paciente
  84. "está em linha
    com a sua identidade de género?"
  85. ela decide que a minha
    apresentação de género
  86. é mais neutra.
  87. Enquanto eu ali estou, reparem,
  88. vestido da cabeça até aos pés
    com roupas da secção da loja
  89. em que os botões ficam
    do lado direito,
  90. e as minhas calças mostram o número
    de centímetros da minha cintura,
  91. e o meu cabelo tem o corte
    do Denzel em "Homem em Fúria",
  92. eu continuo "mais para o neutro".
  93. A sério?
  94. Porque ela ainda vê,
  95. e vocês veem,
  96. uma mulher negra.
  97. E os corpos das mulheres negras
    sempre foram considerados sem género.
  98. Fim de cena.
  99. De Mammy e Sapphire,

  100. a Mandingo e a Sambo,
  101. os corpos negros e os nossos géneros
    ficaram presos no imaginário dos brancos.
  102. E a imaginação dos brancos
    é bastante fantasiosa e poderosa
  103. para tornar as suas fantasias
    em realidades.
  104. Imaginados como uma coisa,
  105. nós fomos feitos para
    nos tornamos nessa coisa,
  106. e fomos criados como cavalos,
  107. alimentados como tartarugas
    atiradas aos jacarés,
  108. marcados como gado,
  109. ordenhadas como porcas,
  110. transformados em bois atados à charrua.
  111. O género não era importante,
  112. contanto que as partes dos nossos corpos,
  113. os nossos braços, pernas e costas,
  114. os nossos seios e genitais
  115. pudessem ser transformados em lucro.
  116. O corpo negro não foi feito branco

  117. e, por isso, não era digno de género.
  118. Sob o peso do tule delicado
  119. e das rendas virginais que vestiam
    as concubinas das plantações
  120. a feminilidade negra sempre foi negada.
  121. Em vez disso, ela era uma fera
    ou uma atriz pornográfica.
  122. não tinha propriamente um género,
    era desumanizada.
  123. Transformada em ameaça social
    que ameaça a civilidade.
  124. Que põe a civilização em perigo.
  125. Não há fuga possível
    da mulher negra irascível.
  126. Mesmo que seja a primeira dama
    destes EUA.
  127. Da mesma forma,
    inadequada para o cavalheirismo

  128. e superada por mestres
    e capitães do destino,
  129. a masculinidade negra mantém-se frouxa
  130. às mãos dominantes
    do homem branco.
  131. Medidas do corpo tomadas,
  132. velocidade medida,
  133. escolha estimada.
  134. Este é o recrutamento do NFL.
  135. Medidas do corpo tomadas,
  136. dentes e cavidades corporais
    inspecionados,
  137. número atribuído.
  138. Esta é a sala de entrada da prisão.
  139. Medidas do corpo tomadas,
  140. talentos e capacidades anunciados,
  141. dentes e cavidades corporais
    inspecionados,
  142. nome e valor atribuído.
  143. Este é o termo de venda de um escravo.
  144. Transformado em garanhão
    ou motivo de piada,
  145. não satisfaz os seus desejos,
  146. serve somente para lucro e troça.
  147. Atletas e comediantes
  148. bem comportados.
  149. Amansados.
  150. "O meu género é negro," disse Hari Ziyad,

  151. porque os corpos negros
    e os nossos géneros
  152. foram presos no imaginário dos brancos,
  153. e fomos transgressores desde sempre.
  154. Transgressor significando
  155. uma violação dos limites adotados
    e aceites socialmente.
  156. A negritude é transgressora.
  157. E quando libertada
  158. do socialmente aceite,
  159. desafia as limitações
    implicadas pelo género.
  160. Nós sempre fomos fugitivos aqui.
  161. Escapando da vigilância do género
  162. para reivindicar a nossa soberania
  163. e o direito de existir e viver livres,
  164. recuperando a beleza
  165. do que antes foi considerado feio,
  166. desafiando as convenções,
  167. vidas negras, vidas transexuais
    e vidas negras transexuais.
  168. E contudo, neste mundo,

  169. o facto de que as vidas dos negros
    transexuais fazem uma diferença,
  170. fazem diferenças,
  171. e formam uma questão importante,
  172. é apagado pelas negações
    passadas e atuais
  173. dos nossos direitos de existir e resistir.
  174. Precisamos de lutar para sermos vistos
  175. enquanto observamos os parques de jogos
  176. através de cercas
    que não podemos ultrapassar.
  177. Cena três.

  178. Estou na escola.
  179. A campainha toca, é o recreio.
  180. Fazemos fila para sair.
  181. Os considerados rapazes
    vão para um lado,
  182. as consideradas raparigas
    vão para o outro.
  183. Saímos a correr das portas.
  184. Os rapazes param e enchem a rua
    fechada ao trânsito.
  185. As raparigas e eu,
  186. atravessamos a rua.
  187. "Olhem sempre em frente," dizem-nos.
  188. Porque há um parque do outro lado da rua.
  189. Mas há uma vedação de ferro
    em volta desse parque.
  190. É aí que as raparigas e eu brincamos.
  191. Na maioria das vezes, eu fico
    junto da vedação a olhar
  192. enquanto os meus colegas
    jogam à bola na rua,
  193. fazem barulho
  194. e são brutos
  195. e transpiram
  196. enquanto eu estou atrás da vedação.
  197. Acusada de pensar coisas atrevidas.

  198. Eles não fazem ideia.
  199. Fim de cena.
  200. Apelidados de "bicha" ou "mulher-macho",
    somos todos uma invenção.

  201. Rapazes de vestido
    e raparigas de calças e casaco,
  202. o corpo negro e transgressor
  203. preso nas fantasias
    dos quadrados e binários
  204. que torna os genitais representativos
    do nosso género
  205. e os nossos maneirismos
    representativos da sexualidade.
  206. As vidas dos negros transexuais
    são consideradas como "gays" efeminados
  207. ou lésbicas machonas.
  208. E a sobreposição da feminilidade em corpos
    que foram classificados de masculinos,
  209. e que, portanto, são homens,
  210. é como uma placa dizendo
    "deem-me um pontapé",
  211. exceto que as consequências
    são muito mais fatais.
  212. A maioria dos transexuais assassinados
    neste país são mulheres negras.

  213. Porque quando a masculinidade
    está entre as pernas duma pessoa,
  214. e é definida como oposto a feminilidade,
  215. aquilo entre as pernas
  216. não pode ser visto
    como tendo a ver com feminilidade.
  217. E essa mesma lavagem ao cérebro serve
    para desbotar a masculinidade transexual
  218. fazendo-a desvanecer-se de vez.
  219. Os homens negros transexuais
    tornam-se ilusões de masculinidade,
  220. as mulheres só fingem ser homens
    porque não podem ser um homem de verdade.
  221. Sempre colocados no nosso lugar,

  222. somos perpetuamente taxados de "mulher".
  223. No melhor dos casos, a ameaça iminente
    de uma masculinidade negra transexual
  224. é contida, inoculada,
  225. tornada mais neutral.
  226. Cena quatro.

  227. Estou com a minha psicóloga.
  228. Eu conto-lhe as coisas em que penso
  229. enquanto o meu corpo se transfigura
    aos poucos para uma nova versão.
  230. O que acontecerá comigo
    enquanto passo
  231. da ameaça social
    da feminilidade negra irascível
  232. para a ameaça física
    de uma masculinidade negra iminente?
  233. Quando é que os meus vizinhos deixarão
    de me reconhecer e ao meu "pitbull"?
  234. Veem-nos quase todos os dias,
  235. ao amanhecer ou ao fim da tarde,
  236. há praticamente mais de dois anos.
  237. Quando é que,
  238. depois de deixar de ser tratado
    incorretamente como mulher
  239. chamarão a polícia para me conter
  240. e apagar a minha presença?
  241. Quanto tempo antes
    de se agarrarem à carteira,
  242. ou de atravessarem a rua?
  243. O que significa passar a ser uma fera?
  244. Transformar o meu corpo
    noutro tipo de ameaça?
  245. Ela está chocada por ver
    que eu já percebo isso.

  246. Não posso dar-me ao luxo
    de não perceber.
  247. Fim de cena.
  248. Quem consegue ver-me a mim
    e aos meus irmãos negros transexuais

  249. na pele em que estamos?
  250. Quem ousa amar-nos,
  251. quem nos abraça?
  252. Quem se preocupa connosco
    para além de nós mesmos?
  253. Não estamos à procura de salvadores.
  254. Temo-nos uns aos outros.
  255. Já dizia Lilla Watson:
  256. "Se vieste aqui para me ajudar,
    estás a perder o teu tempo.
  257. "Mas se vieste porque reconheces
  258. "que a tua libertação está ligada à minha,
  259. "então vamos trabalhar juntos."
  260. Vamos trabalhar juntos para tornar
    importante a vida dos negros transexuais.
  261. Lançar para o mundo
  262. a experiência da vida
    dos negros transexuais.
  263. E se acreditam que a vossa libertação
    está ligada à minha,
  264. então convido-vos
  265. a fazer de Vidas dos Negros Transexuais
    são Importantes a vossa ética pessoal
  266. sendo transformadores,
  267. aberta e conscientemente.
  268. Vocês podem fazê-lo de três formas.

  269. Transformem a vossa conceção
    de negritude e género.
  270. Deem a vossa voz e arrisquem-se
  271. confrontando falsas suposições,
    os medos e preconceitos dos outros.
  272. Sejam conscientes,
    prestem atenção e acreditem
  273. naquilo que nós negros transexuais
    temos a dizer sobre a nossa vida.
  274. Ser transformador aberta
    e conscientemente exige prática.

  275. Assim como acertar nos pronomes
    de uma pessoa.
  276. Aliás, os meus são ele, eles,
    dele, deles.
  277. Acertar nos pronomes de alguém

  278. e ser transformador aberta
    e conscientemente é importante.
  279. Porque as vidas dos negros
    transexuais são importantes.
  280. A minha vida é importante.
  281. O meu corpo é um país soberano,
  282. e o meu primeiro local de resistência.
  283. (Aplausos)