Portuguese, Brazilian subtitles

← Cenas de uma vida trans negra

Get Embed Code
29 Languages

Showing Revision 56 created 07/17/2020 by Maricene Crus.

  1. Olá.
  2. Ei.
  3. (Risos)

  4. Como vocês acabaram de ouvir,

  5. meu nome é D-L Stewart,
  6. sou membro do corpo docente no campus
    da Universidade Estadual do Colorado.
  7. Mas o mais importante
    que entendam sobre mim agora
  8. é que eu me identifico como negro
  9. e como transgênero, ou trans.
  10. E sim, vou falar com vocês hoje sobre
    como a vida dos negros trans importa.
  11. Ao fazê-lo,
  12. compartilharei algumas cenas
    da minha própria vida,
  13. misturadas com as maneiras
  14. que raça e gênero se cruzam
    histórica e atualmente
  15. para moldar a vida dos negros trans.
  16. Prontos?
  17. Plateia: Sim.

  18. DLS: Cena um.

  19. Estou em casa sozinho.
  20. Meu corpo, um país soberano.
  21. Soberano significando
  22. que ele é superlativo em qualidade.
  23. Do tipo mais exaltado.
  24. Com poderes curativos generalizados
    de natureza não qualificada,
  25. sem mitigação,
  26. primordial,
  27. possuidor de poder supremo,
  28. ilimitado em extensão, absoluto.
  29. Desfrutando de autonomia,
  30. independente,
  31. majestoso.
  32. Meu corpo desafia as restrições
  33. de uma sociedade consumida
    por tipos e binários
  34. e por "você é menino ou menina?"
  35. Independente de tais convenções,
  36. meu corpo se apega
    há muito tempo à tradição
  37. que entendeu a mágica dele.
  38. Eu contenho multidões.
  39. Deste poder supremo para me nomear,
    me definir e ser eu mesmo,
  40. me apresento uma reivindicação
    e organizo minha resistência.
  41. Uma resistência que proclama corajosamente
    que as vidas trans negras importam.
  42. Meu corpo é um país soberano
  43. e meu primeiro local de resistência.
  44. Fim da cena.
  45. Dizer que a vida trans negra importa
    é uma reivindicação de soberania.

  46. Assim como "Black Girl Magic"
    e "#transisbrilliant",
  47. Vidas Trans Negras Importam
    também é um coro de resistência.
  48. Porque o Vidas Trans Negras
    começa definindo nosso corpo
  49. como um país soberano
  50. a partir do qual começamos
    a resistir às mensagens
  51. de que não pertencemos a nenhum lugar.
  52. Fazemos movimentos inteiros avançarem
    com a força de nossa visão.
  53. Definimos tendências
    e criamos novos mundos.
  54. Nós somos a vanguarda.
  55. Vidas trans negras sempre importaram.
  56. E mesmo assim,

  57. ficam presas no cruzamento
    da viagem no tempo
  58. da celebração da emancipação "Juneteenth"
  59. e da declaração de emancipação
    da Rebelião de Stonewall,
  60. vidas trans negras são vistas,
    mas ainda são invisíveis.
  61. Invisíveis pela antinegritude
    dos movimentos homossexual e trans.
  62. Pela transfobia e antagonismo trans
    dos movimentos dos negros.
  63. Nossa soberania
    e resistência são bloqueadas
  64. por camadas de sistemas e estruturas
  65. que sempre visaram
  66. conter, definir e apagar
    corpos trans negros.
  67. Cena dois.

  68. Estou com minha terapeuta.
  69. Aquela de cujo testemunho devo depender
  70. para me declarar homem o suficiente
    para mudar meus documentos.
  71. Aquela que deve ser acreditada.
  72. Apesar das minhas próprias declarações
    de que eu não sou esse corpo,
  73. que esse corpo não é dela
    nem seu para definir,
  74. me sento com esta doutora.
  75. E ela preenche um formulário para mim.
  76. Quando se trata de tudo que eu fiz
  77. para afirmar meu gênero:
  78. "O paciente tem apresentação de gênero
  79. alinhada com sua identidade de gênero?"
  80. Ela decide que minha
    apresentação de gênero
  81. é mais neutra, na verdade.
  82. Enquanto estou sentado lá,
  83. com vestuário masculino,
    da cabeça aos pés.
  84. minhas calças mostram
    o tamanho da minha cintura
  85. e meu corte de cabelo igual
    ao do Denzel em "Chamas da Vingança",
  86. mas ainda pareço neutro.
  87. Sério?
  88. Porque ela ainda vê,
  89. e vocês veem,
  90. uma mulher negra.
  91. E o corpo das mulheres negras
    nunca têm gênero.
  92. Fim da cena.
  93. Os esteriótipos de Mammy e Sapphire,

  94. a Mandingo e Sambo,
  95. o corpo negro e nosso gênero
    estão presos na imaginação branca.
  96. E essa imaginação é extravagante
  97. e poderosa o suficiente para transformar
    suas fantasias em realidades.
  98. Imaginados como uma coisa,
  99. fomos feitos para nos tornar essa coisa,
  100. e assim fomos criados como cavalos,
  101. alimentados como tartarugas para jacarés,
  102. marcados como gado,
    ordenhadas como porcas,
  103. transformados em bois para arar.
  104. O gênero nunca importou,
  105. contanto que as partes de nosso corpo,
  106. nossos braços, pernas e costas,
    nossos seios e órgãos genitais,
  107. pudessem ser transformados em lucro.
  108. O corpo negro não foi feito branco

  109. e, portanto, não é digno de gênero.
  110. E sob o peso do tule gentio
  111. e da renda virginal que vestia
    as amantes das plantações,
  112. a feminilidade negra sempre foi negada.
  113. Em vez disso, a mulher negra
    é um animal ou uma estrela pornô.
  114. Sem gênero específico, desumanizada.
  115. Criou-se uma ameaça social
    que põe em perigo a civilidade.
  116. Coloca a civilização em perigo.
  117. Não se pode escapar
    da ira da mulher negra.
  118. Nem mesmo a primeira-dama dos EUA.
  119. Do mesmo modo, inadequada para a cavalaria

  120. e superada como mestres
    e capitães do destino,
  121. a masculinidade negra permanece flácida
    nas mãos do domínio do homem branco.
  122. Medidas corporais tomadas,
  123. velocidade medida,
  124. alocação de jogadores nos times prevista.
  125. Esta é a combinação da NFL.
  126. Medidas corporais tiradas,
  127. dentes e cavidades corporais
    inspecionados,
  128. número atribuído.
  129. Esta é a sala de admissão na prisão.
  130. Medidas corporais tiradas,
  131. talentos e habilidades anunciados,
  132. dentes e cavidades corporais
    inspecionados,
  133. nome e valor atribuído.
  134. Esse é o documento de venda de um escravo.
  135. Feito garanhão ou farsa,
    ele não é para o próprio prazer,
  136. mas sim para lucro e diversão.
  137. Atletas e comediantes
  138. contidos.
  139. Não são ameaça.
  140. "Meu gênero é negro", disse Hari Ziyad,

  141. porque corpos negros
    e nosso gênero foram presos
  142. na imaginação branca,
    e sempre fomos transgressivos.
  143. Transgressivo significa
  144. uma violação dos limites aceitos
    e impostos da aceitabilidade social.
  145. A negritude é transgressora.
  146. E uma vez livre
  147. da aceitabilidade social,
  148. a negritude desafia as limitações
    do que o gênero pode ser.
  149. Temos sempre sido fugitivos aqui.
  150. Fugindo da vigilância de gênero
  151. para reivindicar nossa soberania
  152. e nosso direito de existir e viver livres,
  153. proclamar como bonito
    o que foi feito feio,
  154. para desafiar a convenção,
  155. da vida negra, da vida trans
    e da vida trans negra.
  156. E, no entanto, neste mundo,

  157. o fato de que vidas trans negras
    fazem a diferenças
  158. e fazem questão de importar é apagado
    pelas negações passadas e atuais
  159. dos nossos direitos de existir e resistir.
  160. Nós devemos lutar para sermos vistos,
  161. assim como vemos através das cercas
  162. de quintais dos quais somos mantidos fora.
  163. Cena três.

  164. Eu estou na escola.
  165. A campainha toca, é recreio.
  166. Nós fazemos fila para sair.
  167. Aqueles nascidos meninos de um lado,
  168. aquelas nascidas meninas do outro.
  169. Nós saímos pelas portas.
  170. Os meninos parando
    para preencher a rua fechada.
  171. As meninas e eu
  172. atravessando a rua.
  173. "Olhem sempre para frente", nos dizem.
  174. Porque há um parque do outro lado da rua.
  175. Mas há uma cerca de ferro forjado
    que cerca o parque.
  176. É aqui que as meninas e eu brincamos.
  177. Geralmente, fico perto da cerca e assisto,
  178. enquanto meus colegas jogam bola na rua,
  179. fazem barulho,
  180. são brutos,
  181. ficam suados
  182. e eu fico atrás da cerca.
  183. Acusado de ter pensamentos desobedientes.

  184. Eles não fazem ideia.
  185. Fim da cena.
  186. Efeminados e sapatões,
    somos todos inventados.

  187. Meninos de vestido e meninas de terno,
  188. o corpo transgressor negro
  189. preso em fantasias de tipos e binários
  190. que tornam nossa genitália
    representativa de nosso gênero,
  191. e nossos maneirismos nossa sexualidade.
  192. As vidas trans negras são, portanto,
    depreciadas como efeminadas
  193. ou sapatões.
  194. E a sobreposição da feminilidade
    em corpos marcados como masculinos,
  195. e, portanto, como homem,
    adere como um sinal de "chute-me",
  196. exceto que as consequências
    são muito mais mortais.
  197. A maioria das pessoas trans assassinadas
    neste país é de mulheres trans negras.

  198. Porque quando a masculinidade
    está localizada entre as pernas,
  199. e definida em oposição à feminilidade,
  200. o que há entre as pernas
  201. não pode ser visto como tendo
    algo em comum com a feminilidade.
  202. E essa mesma lavagem ácida serve
    para embranquecer a masculinidade trans,
  203. fazendo-a desaparecer no nada.
  204. Homens trans negros se tornam
    ilusões de masculinidade,
  205. mulheres brincando de ser homens, porque
    não dá para se tornar um homem de verdade.
  206. Sempre colocados em nosso lugar,

  207. somos indelevelmente marcados como mulher.
  208. E, na melhor das hipóteses, a ameaça
    iminente da masculinidade trans negra
  209. está contida, inoculada,
  210. mais neutra, na verdade.
  211. Cena quatro.

  212. Estou com minha terapeuta.
  213. Eu digo a ela o que penso,
  214. enquanto meu corpo começa a se transformar
    lentamente em outra versão de si mesmo.
  215. O que acontecerá quando eu mudar
  216. da ameaça social da raiva
    das mulheres negras
  217. à ameaça física da iminente
    masculinidade negra?
  218. Quando meus vizinhos vão se esquecer
    de reconhecer a mim e ao meu pit bull?
  219. Eles têm nos visto quase todos os dias
  220. antes do amanhecer ou depois
    do entardecer, por mais de dois anos.
  221. Quando e quanto tempo
  222. depois de não se referirem
    mais a mim como mulher
  223. os policiais serão chamados
    para virem me conter
  224. e apagar minha presença?
  225. Quanto tempo antes
    de agarrarem sua bolsa,
  226. atravessarem a rua?
  227. O que significa se tornar um bruto?
  228. Transformar meu corpo
    em outro tipo de ameaça?
  229. A terapeuta fica surpresa
    que eu já esteja aceitando isso.

  230. Não posso me dar ao luxo de não fazê-lo.
  231. Fim da cena.
  232. Quem pode enxergar a mim e meu semelhante
    negro trans na pele em que estamos?

  233. Quem se atreve a nos amar,
  234. quem nos mantém próximos?
  235. Para quem mais importamos
    além de a nós mesmos?
  236. Não estamos procurando salvadores.
  237. Nós temos uns aos outros.
  238. Como Lilla Watson disse:
  239. "Se você veio aqui para me ajudar,
    está perdendo seu tempo.
  240. Mas se você veio porque reconhece
    que sua libertação está ligada à minha,
  241. então vamos trabalhar juntos".
  242. Vamos trabalhar juntos para fazer
    com que vidas trans negras importem.
  243. A experiência vivida
    de pessoas negras trans
  244. para o mundo.
  245. Se você acredita que sua libertação
    está ligada à minha,
  246. então eu te convido
  247. a fazer do "Vidas Trans Negras
    Importam" sua ética pessoal
  248. sendo transformador,
    veemente e consciente.
  249. Isso pode ser feito de três maneiras.

  250. Transformando seu pensamento
    sobre negritude e gênero.
  251. Sendo veemente assumindo o risco
  252. de enfrentar suposições falsas,
    medos e preconceitos alheios.
  253. Sendo consciente, prestando atenção
  254. e acreditando no que os negros
    dizem sobre a vida deles.
  255. Ser transformador, veemente
    e consciente requer prática.

  256. Assim como usar os pronomes
    de alguém corretamente.
  257. A propósito, os meus são eles,
    lhes, deles, e ele, lhe, dele.
  258. Usar os pronomes de alguém corretamente

  259. e ser transformador,
    veemente e consciente importa,
  260. pois as vidas trans negras importam.
  261. Minha vida importa.
  262. Meu corpo é um país soberano
  263. e meu primeiro local de resistência.
  264. (Aplausos)