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← Porque amo o país que em tempos me traiu

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Showing Revision 7 created 08/16/2014 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Sou um veterano
    da nave espacial Enterprise.
  2. (Risos)
  3. Naveguei pela galáxia
  4. dirigindo uma nave enorme,
  5. com uma tripulação formada
    por pessoas de todo o mundo,
  6. de muitas raças diferentes,
    muitas culturas diferentes,
  7. muitas origens diferentes,
  8. todas a trabalhar juntas.
  9. A nossa missão era explorar
    estranhos mundos novos,
  10. procurar novas formas de vida
    e novas civilizações,
  11. ir audaciosamente até onde
    ninguém havia ido antes.
  12. Bem...

  13. (Aplausos)
  14. Sou neto de imigrantes japoneses
  15. que foram para os EUA,
  16. entrando corajosamente
    num estranho mundo novo,
  17. procurando novas oportunidades.
  18. A minha mãe nasceu
    em Sacramento, na Califórnia.
  19. O meu pai era de São Francisco.
  20. Conheceram-se e
    casaram-se em Los Angeles,
  21. e eu nasci lá.
  22. Eu tinha quatro anos de idade

  23. quando Pearl Harbor foi bombardeado
  24. em 7 de dezembro de 1941,
  25. Do dia para a noite, o mundo mergulhou
  26. numa guerra mundial.
  27. Os EUA foram repentinamente
    tomados pela histeria.
  28. Os nipo-americanos,
  29. cidadãos norte-americanos
    com ascendência japonesa,
  30. foram encarados com suspeita e medo
  31. e com um ódio absoluto,
  32. só porque éramos parecidos
  33. com as pessoas que tinham
    bombardeado Pearl Harbor.
  34. A histeria foi aumentando
  35. até que, em fevereiro de 1942,
  36. o presidente dos
    Estados Unidos da América,
  37. Franklin Delano Roosevelt,
  38. ordenou que todos os nipo-americanos
  39. na Costa Oeste dos EUA
  40. fossem sumariamente detidos,
  41. sem acusações, sem julgamento,
  42. ou sem o "devido processo legal".
  43. O devido processo legal é um pilar central
  44. do nosso sistema judicial.
  45. Nada disso aconteceu.
  46. Nós tínhamos que ser detidos
  47. e aprisionados em
    10 campos de concentração
  48. nalguns dos lugares
    mais desolados dos EUA:
  49. o deserto escaldante do Arizona,
  50. os pântanos sufocantes do Arkansas,
  51. os terrenos abandonados de Wyoming,
    de Idaho, de Utah, do Colorado,
  52. e em dois dos lugares mais solitários
    da Califórnia.
  53. No dia 20 de abril, celebrei
    o meu quinto aniversário.

  54. Apenas algumas semanas depois,
  55. os meus pais acordaram
    o meu irmão mais novo,
  56. a minha irmã bebé e eu,
  57. bem cedo numa manhã,
  58. e vestiram-nos apressadamente.
  59. O meu irmão e eu estávamos na sala de estar
  60. a olhar pela janela da frente.
  61. Vimos dois soldados a marchar
    na direção da nossa casa.
  62. Tinham baionetas nas espingardas.
  63. Subiram com estrondo as escadas
    do alpendre
  64. e bateram à porta.
  65. O meu pai atendeu
  66. e os soldados mandaram-nos sair de casa.
  67. O meu pai entregou-nos pequenas malas
  68. para eu e o meu irmão levarmos,
  69. saímos e ficámos no passeio,
  70. à espera que a nossa mãe saisse.
  71. Quando por fim a minha mãe saiu,
  72. trazia a nossa irmãzinha num braço
  73. e uma enorme mochila no outro.
  74. Lágrimas escorriam-lhe pela cara abaixo.
  75. Nunca esquecerei aquela cena.
  76. Está gravada na minha memória.
  77. Fomos tirados da nossa casa

  78. e metidos em vagões de comboio
  79. com outras famílias nipo-americanas.
  80. Havia guardas parados
  81. nas duas pontas de cada vagão,
  82. como se fôssemos criminosos.
  83. Percorremos dois terços do país,
  84. a balançar naquele comboio
    durante quatro dias e três noites,
  85. até aos pântanos do Arkansas.
  86. Ainda me lembro da vedação
    de arame farpado
  87. que me rodeava.
  88. Lembro-me da alta torre de vigia
  89. com metralhadoras apontadas para nós.
  90. Lembro-me dos holofotes que me seguiam
  91. quando eu ia, durante a noite,
  92. da minha barraca até a latrina.
  93. Mas eu, com cinco anos de idade,
  94. até achava bem que
    eles iluminassem o caminho
  95. para eu ir fazer chichi.
  96. (Risos)
  97. Eu era uma criança,
  98. demasiado jovem para entender
    as razões de estar ali.
  99. As crianças são incrivelmente adaptáveis.

  100. O que seria grotescamente anormal
  101. tornou-se a minha normalidade
  102. no campo de prisioneiros de guerra.
  103. Para mim, tornou-se uma rotina
    fazer uma fila, três vezes por dia,
  104. para comer uma comida nojenta
    num refeitório barulhento e sujo.
  105. Tornou-se normal ir com o meu pai
  106. tomar banho num chuveiro coletivo.
  107. Estar numa prisão, num campo de
    prisioneiros, rodeado de arame farpado,
  108. passou a ser a minha normalidade.
  109. Quando a guerra terminou,

  110. fomos libertados
  111. e deram-nos passagens só de ida
  112. para qualquer lugar
    nos Estados Unidos da América.
  113. Os meus pais decidiram voltar
    para casa, para Los Angeles.
  114. Mas Los Angeles não era um lugar acolhedor.
  115. Estávamos sem um tostão.
  116. Tinham-nos tirado tudo
  117. e a hostilidade era intensa.
  118. A nossa primeira casa foi em Skid Row
  119. na parte mais baixa da nossa cidade,
  120. a viver com os sem-abrigo,
    os bêbados e os loucos,
  121. com o fedor de urina por todo lado,
  122. na rua, no beco, no corredor.
  123. Foi uma experiência horrível.
  124. Para nós, crianças, foi aterrorizante.
  125. Lembro-me de que, uma vez,
  126. um bêbado veio a cambalear,
  127. caiu bem à nossa frente
  128. e vomitou.
  129. A minha irmãzinha disse:
  130. "Mamã, vamos voltar para casa",
  131. pois estar atrás de vedações
    de arame farpado
  132. para nós, era estar em casa.
  133. Os meus pais trabalharam muito

  134. para se reerguerem.
  135. Tínhamos perdido tudo.
  136. Eles estavam a meio das suas vidas
  137. e estavam a começar tudo de novo.
  138. Trabalharam até os dedos
    ficarem esfolados.
  139. Por fim, conseguiram juntar
    dinheiro para comprar uma casa
  140. com três quartos, num bairro simpático.
  141. Eu era um adolescente,
  142. e sentia-me muito curioso
  143. acerca da minha infância na prisão.
  144. Tinha lido livros cívicos que me falavam
  145. dos ideais da democracia americana.
  146. Todos os homens nascem iguais.
  147. Temos o direito inalienável
  148. à vida, à liberdade
    e à procura da felicidade.
  149. Eu não conseguia conciliar isso
  150. com o que eu sabia ter sido
    a minha infância como prisioneiro.
  151. Li livros de história
  152. e não consegui achar nada sobre isso.
  153. Encetava conversas longas
    e por vezes acaloradas
  154. com o meu pai, depois do jantar.
  155. Tivemos muitas, muitas conversas dessas.
  156. O que aprendi com elas
  157. foi a sabedoria do meu pai.
  158. Foi ele quem mais sofreu
  159. as condições do encarceramento.
  160. Apesar disso, ele compreendia
    a democracia norte-americana.
  161. Disse-me que a nossa democracia
  162. é uma democracia de pessoas.
  163. Pode ser tão boa
    quanto as pessoas podem ser,
  164. mas também é tão sujeita
    a falhas quanto elas.
  165. Disse-me que a democracia norte-americana
  166. depende vitalmente das pessoas boas
  167. que cultivam os ideais do nosso sistema
  168. e se empenham ativamente no processo
  169. de fazer funcionar a nossa democracia.
  170. Levou-me a um centro de campanha política
  171. — o governador de Illinois estava
    a candidatar-se à presidência —
  172. e apresentou-me políticos
    eleitorais norte-americanos.
  173. Também me falou sobre
    jovens nipo-americanos
  174. durante a Segunda Guerra Mundial.
  175. Quando Pearl Harbor foi bombardeado,

  176. jovens nipo-americanos,
    — como todos os jovens norte-americanos —
  177. ofereceram-se para voluntários
    nas forças armadas
  178. para combater pelo nosso país.
  179. Aquele ato de patriotismo
  180. foi respondido com uma bofetada na cara.
  181. Negaram-nos o serviço
  182. e fomos classificados
    como inimigos não-estrangeiros.
  183. Era ultrajante ser chamado de inimigo
  184. quando nos oferecemos
    para lutar pela nossa nação,
  185. mas isso ainda foi ligado
    à palavra "não-estrangeiro",
  186. uma palavra que significa "cidadão",
  187. só que de modo negativo.
  188. Até nos recusaram a palavra "cidadão"
  189. e prenderam os jovens
    durante um ano inteiro.
  190. Depois, o governo apercebeu-se

  191. de que havia falta de gente
    no contingente de guerra,
  192. e, tão depressa
    quanto nos tinham prendido,
  193. abriram o serviço militar
  194. aos jovens nipo-americanos.
  195. Foi totalmente irracional.
  196. Mas o mais incrível,
  197. o mais impressionante,
  198. foi que milhares de jovens,
    homens e mulheres nipo-americanos,
  199. sairam daquelas cercas de arame farpado,
  200. vestidos com o mesmo uniforme
    que o dos nossos guardas,
  201. deixando as suas famílias na prisão,
  202. para irem combater por este país.
  203. Disseram que iam lutar

  204. não só para libertar as suas famílias
  205. daquelas vedações de arame farpado,
  206. mas porque acarinhavam o ideal
  207. que o nosso governo defende,
  208. que devia defender.
  209. Isso estava a ser anulado
  210. pelo que estava a ser feito.
  211. Todos os homens nascem iguais.

  212. Eles foram combater por este país.
  213. Foram postos numa unidade segregada,
  214. uma unidade só de nipo-americanos
  215. e mandados para
    os campos de batalha europeus,
  216. e eles empenharam-se nisso.
  217. Lutaram com uma coragem e um valor
  218. extraordinários e incríveis.
  219. Foram mandados
    para as missões mais perigosas
  220. e sofreram a maior
    taxa de mortalidade em combate
  221. de qualquer unidade, em proporção.
  222. Há uma batalha que ilustra isso.

  223. Foi uma batalha pela Linha Gótica.
  224. Os alemães estavam entricheirados
  225. na encosta duma montanha,
  226. uma encosta rochosa,
  227. em grutas inexpugnáveis.
  228. Três batalhões aliados
  229. tinham estado a atacá-los
  230. durante seis meses.
  231. Estavam num impasse.
  232. Chamaram o 442.º regimento
  233. para apoiar a batalha,
  234. mas os homens do 442.º
  235. apareceram com uma ideia
    singular mas perigosa:
  236. A parte de trás da montanha
  237. era uma escarpa de rocha.
  238. Os alemães achavam que
    um ataque por trás seria impossível.
  239. Os homens do 442.º decidiram
    fazer o impossível.
  240. Numa noite escura, sem lua,
  241. começaram a escalar aquela parede rochosa,
  242. uma queda de mais de 300 metros,
  243. em equipamento de combate completo.
  244. Escalaram durante toda a noite
  245. aquela escarpa rochosa.
  246. Na escuridão,
  247. alguns falharam as mãos, ou os pés
  248. e caíram para a morte pela ravina abaixo.
  249. Caíram todos silenciosamente.
  250. Nenhum deles gritou
  251. para não denunciar a sua posição.
  252. Os homens subiram
    durante oito horas seguidas.
  253. Os que conseguiram chegar ao topo
  254. esperaram lá até ao primeiro raio de luz,
  255. e, logo que a luz apareceu,
  256. atacaram.
  257. Os alemães foram surpreendidos
  258. e eles conquistaram a colina
    e destruíram a Linha Gótica.
  259. Um impasse de seis meses
  260. foi vencido pelo 442.º, em 32 minutos.
  261. Foi um feito impressionante.

  262. Quando a guerra acabou,
  263. o 442.º regressou
    aos Estados Unidos da América
  264. como a unidade mais condecorada
  265. de toda a Segunda Guerra Mundial.
  266. Foram saudados no relvado da Casa Branca
  267. pelo presidente Truman, que lhes disse:
  268. "Vocês não lutaram só contra o inimigo,
  269. "mas contra o preconceito, e venceram".
  270. Eles são os meus heróis.

  271. Agarraram-se à sua fé
  272. nos brilhantes ideais deste país
  273. e provaram que ser norte-americano
  274. não é só para algumas pessoas,
  275. que a raça não é
    o modo de definir um norte-americano.
  276. Expandiram o significado de
    se ser norte-americano,
  277. incluindo os nipo-americanos
  278. que eram temidos,
    olhados com suspeita e odiados.
  279. Foram agentes de mudança,
  280. e deixaram-me um legado.
  281. Eles são os meus heróis.
  282. O meu pai é o meu herói,
  283. que entendia a democracia
  284. e me guiou através dela.
  285. Eles deram-me um legado
  286. e, com esse legado, uma responsabilidade.
  287. Estou empenhado
  288. em fazer do meu país
    uns EUA ainda melhores,
  289. fazer do nosso governo
  290. uma democracia ainda mais verdadeira.
  291. Por causa dos heróis que tenho
  292. e das dificuldades por que passámos,
  293. posso estar à vossa frente,
  294. enquanto nipo-americano "gay",
  295. mas mais ainda do que isso,
  296. sou um norte-americano orgulhoso.
  297. Muito obrigado.

  298. (Aplausos)