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← Porque é que a vitória nem sempre equivale ao sucesso

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Showing Revision 12 created 01/06/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Tenho uma pergunta para todos nós,
  2. Estão prontos?
  3. Será que vitória equivale
    sempre a sucesso?
  4. (Murmúrios)

  5. Oh.

  6. (Risos)

  7. Oh. Ok.

  8. Sou a recentemente reformada
    treinadora principal

  9. da Equipa de Ginástica Feminina
    da Universidade da Califórnia,
  10. uma posição em que me mantive por 29 anos.
  11. (Aplausos)

  12. Obrigada.

  13. Durante o exercício do meu cargo,

  14. convivi com muitas vitórias.
  15. Levei a nossa equipa
    a sete Campeonatos Nacionais,
  16. entrei para o “Passeio da Fama
    Desportivo” da UCLA
  17. e até fui eleita Treinadora do Século
  18. pela Conferência do PAC-12.
  19. (Aplausos)

  20. Vencer é mesmo, mesmo

  21. muito divertido.
  22. (Risos)

  23. Mas estou aqui para partilhar
    a minha experiência:

  24. vencer nem sempre equivale a sucesso.
  25. Por toda a América e por todo o mundo,
  26. temos uma crise
  27. na cultura de vencer a todo o custo
  28. que criámos.
  29. Nas nossas escolas,
  30. nos negócios, na política,
  31. vencer a todo o custo,
    tornou-se aceitável.
  32. Como sociedade,
  33. honramos as pessoas
    no topo da pirâmide.
  34. Aplaudimos efusivamente aqueles que ganham
    campeonatos, eleições e prémios.
  35. Mas infelizmente, várias vezes,
  36. essas mesmas pessoas
    estão a deixar as suas instituições
  37. como seres humanos afetados.
  38. Infelizmente, com 20 valores a tudo,
  39. as crianças estão
    a sair das escolas afetadas.
  40. Com prémios e medalhas,
  41. os atletas muitas vezes
    saem das suas equipas afetados.
  42. emocional e mentalmente,
    não só fisicamente.
  43. E com enormes lucros,
  44. trabalhadores por vezes
    saem das suas empresas afetados.
  45. Temos estado tão hiperfocados
    nesse resultado final,
  46. que, quando o resultado final
    é uma vitória,
  47. a componente humana
    de como lá chegámos
  48. por vezes não é valorizada,
  49. e o mesmo acontece com os danos.
  50. Assim, estou a pedir uma mudança.

  51. Uma mudança.
  52. Temos de redefinir o sucesso.
  53. O verdadeiro sucesso é preparar
    campeões na vida para o nosso mundo,
  54. quer vençam ou percam.

  55. (Aplausos)

  56. O verdadeiro sucesso é preparar
    campeões na vida,

  57. não para a vossa equipa,
  58. não para o vosso negócio
  59. e, entristece-me dizer isto, nem mesmo para
    o direito de se gabarem nos vossos cartões de Natal.
  60. Peço desculpa.
  61. Então, como fazemos isto?

  62. Primeiro, talvez seja possível
    construir um caminho para a vitória,
  63. mas não é possível construir
    um caminho para o sucesso.
  64. Regressemos a 1990, quando
    fui nomeada, pela primeira vez,

  65. treinadora principal
    da Equipa Feminina de Ginástica da UCLA.
  66. Gostaria de vos dizer
    que nunca pratiquei ginástica.
  67. Cresci no mundo do "ballet".
  68. Nunca fiz uma roda,
  69. e não vos consigo ensinar
    como fazer uma boa roda.
  70. (Risos)

  71. Infelizmente é verdade.

  72. Também não sabia nada sobre
    como desenvolver espírito de equipa.
  73. O melhor que podia fazer era imitar
    outros treinadores que tinham ganho.
  74. Tornei-me dura,
  75. inflexível, implacável,
  76. antipática,
  77. agressiva, indiferente
  78. e muitas vezes francamente má.
  79. Eu agia como uma treinadora principal
  80. cujo único pensamento
    era descobrir como vencer.
  81. As minhas primeiras temporadas
    como treinadora principal foram péssimas,

  82. e depois de lidar com a minha forma
    impetuosa de treinar, durante uns anos,
  83. a minha equipa convocou
    uma reunião de equipa.
  84. Adoro reuniões de equipa,
    assim, disse:
  85. “Sim! Vamos fazer uma reunião de equipa!"
  86. E durante duas horas,
  87. deram-me exemplos de como a minha
    arrogância era dolorosa e humilhante.
  88. Não foi muito divertido.
  89. Explicaram-me
  90. que queriam ser apoiadas,
  91. não menosprezadas.
  92. Queriam ser ensinadas,
    não deitadas abaixo.
  93. Queriam ser motivadas,
  94. não pressionadas ou intimidadas.
  95. Essa foi a minha chamada de atenção,
  96. e escolhi mudar.
  97. Um ditador dogmático

  98. pode produzir soldadinhos
    bons e condescendentes,
  99. mas não cria campeões na vida.
  100. É muito mais fácil,
    em qualquer momento da vida,
  101. dar ordens
  102. do que realmente perceber
    como motivar alguém
  103. a querer fazer melhor.
  104. A razão é — e todos sabemos isso —
  105. demora muito tempo
    para a motivação criar raízes.
  106. Mas quando isso acontece,
  107. desenvolve o carácter,
  108. e muda a nossa vida.
  109. Percebi que precisava de fortalecer
    as nossas atletas estudantes

  110. como seres humanos num todo,
  111. não só atletas que ganham.
  112. Para mim o sucesso mudou a minha posição
  113. que passou de apenas me focar em ganhar
  114. para desenvolver
    a minha filosofia de treino,
  115. que é criar campeões na vida
    através do desporto.
  116. Eu sabia que se fizesse isto
    suficientemente bem,
  117. aquela mentalidade de campeão
    se traduziria na competição no solo.
  118. E fê-lo.
  119. O ingrediente chave foi
    o desenvolvimento da confiança
  120. pela paciência,
  121. pela honestidade respeitosa
  122. e pela responsabilidade
  123. — todos os ingredientes
    que formam o amor difícil.
  124. Falando de amor difícil,

  125. Katelyn Ohashi é um exemplo perfeito.
  126. Podem já ter visto a sua sequência
    no solo.
  127. Teve mais de 150 milhões de visualizações.
  128. E é consensual que a sua exibição
    é pura alegria.
  129. Porém, quando a Katelyn veio para a UCLA,
    ela estava mal física e mentalmente.
  130. Ela tinha crescido num mundo atlético
    de alto nível estereotipado,
  131. e estava afetada.
  132. Quando a Katelyn veio
    para a UCLA, no seu primeiro ano,
  133. estava bastante rebelde,
  134. ao ponto de não conseguir
    praticar ginástica
  135. ao nível a que fora recrutada.
  136. E eu nunca esquecerei
  137. uma reunião de equipa que tivemos
    a meio do seu primeiro ano.
  138. Reunimos com a equipa, com o grupo
    de treinadores, com o grupo de apoio,
  139. com psicólogos do desporto,
  140. e a Katelyn disse,
    muito clara e frontalmente:
  141. "Não quero voltar a ser formidável."
  142. Eu senti-me como se
    alguém me tivesse batido.

  143. A primeira coisa em que pensei foi:
  144. "Então porque raio
    vou eu honrar a tua bolsa?"
  145. Foi um pensamento sarcástico
    e felizmente não o disse,
  146. porque depois percebi.
  147. A Katelyn não odiava a ginástica.
  148. A Katelyn odiava tudo o que se relacionava
    com ser formidável.
  149. A Katelyn não queria ser uma vencedora,
  150. porque ganhar a todo o custo
    tinha-lhe custado a sua alegria.
  151. A minha função era encontrar
    uma forma de a motivar
  152. a querer ser formidável outra vez,
  153. ajudando-a a redefinir o seu sucesso.
  154. O meu entusiasmo com esse desafio
    transformou-se em determinação

  155. quando um dia a Katelyn
    me olhou nos olhos e disse:
  156. "Sra. Val, só quero que saiba,
  157. "tudo o que me disser para fazer,
    eu faço exatamente o contrário."
  158. (Risos)

  159. Sim, tudo bem Katelyn,
    desafio aceite.

  160. (Risos)

  161. Isto é uma prova de que dar ordens
    não traz a vitória.

  162. Embarquei assim num processo
    doloroso e lento
  163. de construção de confiança.
  164. e de lhe provar que, acima de tudo,
  165. eu me preocupava com ela
    como um ser humano no seu todo.
  166. Parte de da minha estratégia foi
    falar-lhe de ginástica apenas no ginásio.
  167. Fora do ginásio,
    falávamos de tudo o resto:
  168. escola, rapazes, famílias,
    amigos, passatempos.
  169. Encorajei-a a encontrar coisas fora
    do desporto que lhe trouxessem alegria.
  170. E foi fantástico
  171. ver o processo da Katelyn Ohashi
    florescer perante os nossos olhos.
  172. Durante esse processo,
  173. ela redescobriu o seu amor próprio
  174. e o seu valor.
  175. E lentamente, ela conseguiu
    trazer essa alegria
  176. de volta à ginástica.
  177. Ganhou o título da NCAA no solo,
  178. e ajudou a nossa equipa a ganhar pela
    sétima vez o campeonato da NCAA em 2018.
  179. Obrigada.

  180. (Aplausos)

  181. Vamos então pensar
    nas Katelyn Ohashi da vossa vida.

  182. Vamos pensar nas pessoas que estão
    sob o vosso cuidado e orientação.
  183. O que dizem aos vossos filhos
    no carro, quando voltam para casa?
  184. Esse passeio de carro até casa
  185. tem muito mais impacto
    do que possam pensar.
  186. Será que estão focados no resultado final,
  187. ou estão felizes por usar esse tempo
  188. para ajudar os vossos filhos
    a tornarem-se campeões?
  189. É muito simples:
  190. ficarão a saber quando estão
    focados no resultado final
  191. se fizerem perguntas
    sobre o resultado final:
  192. "Ganhaste?"
  193. "Quantos pontos fizeste?"
  194. "Tiveste a nota máxima?"
  195. Se estiverem verdadeiramente motivados
    a ajudar um vosso filho a ser um campeão,
  196. vão fazer perguntas sobre a experiência
  197. e o processo, tais como:
  198. "O que aprendeste hoje?"
  199. "Ajudaste um colega de equipa?"
  200. E a minha pergunta preferida:
  201. "Conseguiste divertir-te ao mesmo tempo
    que te esforçavas muito?"
  202. E a chave é ficar calado

  203. e ouvir a resposta.
  204. Acredito que um dos melhores presentes
    que podemos dar a outros seres humanos
  205. é não achar que temos
    de estar sempre certos
  206. ou que temos de formular sempre
    uma resposta apropriada
  207. e ouvir verdadeiramente
  208. quando alguém está a falar.
  209. E fazendo isto,
  210. podemos descobrir quais são
    os nossos medos e imperfeições,
  211. sendo que isto nos ajuda a formular
    a nossa resposta
  212. com mais clareza e empatia.
  213. Kyla Ross, outra das nossas ginastas,

  214. é uma das maiores ginastas
    da história do desporto.
  215. É a única atleta a ter ganho três títulos:
  216. é campeã nacional,
  217. é campeã mundial
  218. e é campeã olímpica.
  219. Ela também não gosta muito
    de conversa fiada,
  220. por isso fiquei surpreendida quando,
    um dia, ela veio ao meu gabinete,
  221. sentou-se no sofá
    e começou a falar
  222. — primeiro da sua licenciatura,
  223. depois, de acabar a universidade
  224. e de tudo o que lhe vinha à cabeça.
  225. A minha voz interior sussurrou-me
  226. que algo se passava com ela
  227. e que, se eu a ouvisse
    e lhe desse tempo,
  228. ela acabaria por dizê-lo.
  229. E assim aconteceu.
  230. Foi a primeira vez que a Kyla
    partilhou com alguém
  231. que tinha sido abusada sexualmente
    pelo Larry Nassar,
  232. o antigo médico da equipa
    de ginástica dos EUA,
  233. que foi depois condenado por ser
    um molestador de crianças em série.
  234. A Kyla chegou-se à frente
  235. e juntou-se ao exército
    de sobreviventes do Nassar
  236. que partilharam as suas histórias
  237. e usaram as suas vozes
  238. para invocar uma mudança positiva
    no nosso mundo.
  239. Senti que, naquela altura,
    era extremamente importante

  240. fornecer um espaço seguro
    para a Kyla e para a nossa equipa.
  241. Falei sobre isto nalgumas
    reuniões de equipa.
  242. Nesse ano ganhámos o campeonato nacional,
  243. e depois disso, a Kyla veio ter comigo
    e disse-me que achava
  244. que uma das razões
    pelas quais tínhamos ganho
  245. era por termos lidado
    com um problema difícil,
  246. a tragédia que não só
    tinha dado a volta ao mundo
  247. mas que tinha libertado as verdades
    e as memórias nela própria,
  248. em muitas das suas amigas
    e das suas colegas.
  249. A Kyla disse:
  250. "Sra. Val, eu senti-me literalmente
    maior com o passar da temporada,
  251. "e quando entrei naquele campeonato
    no solo, senti-me invencível."
  252. Simplesmente...
  253. (Aplausos)

  254. Simplesmente porque tinha sido ouvida.

  255. Como pais, como treinadores,

  256. como líderes
  257. não podemos continuar a liderar
  258. considerando que ganhar
    é a única forma de medir o sucesso,
  259. onde o nosso ego é o principal,
  260. porque tem sido provado
  261. que esse processo produz
    seres humanos afetados.
  262. E eu sei
  263. que é completamente possível
  264. criar e treinar campeões na vida
  265. em cada momento da vida
  266. sem comprometer o espírito humano.
  267. (Aplausos)

  268. Começa com definir sucesso

  269. para vocês mesmos e para aqueles
    com quem se preocupam
  270. e depois, consistentemente,
  271. examinarem se as vossas ações
    correspondem aos vossos objetivos.
  272. De alguma forma, somos todos treinadores.

  273. Todos temos uma responsabilidade coletiva
  274. em desenvolver campeões na vida
    para o nosso mundo.
  275. É com isto que o sucesso se parece,
  276. e no mundo do atletismo,
  277. é a isto que chamamos uma dupla vitória.
  278. Obrigada.

  279. (Aplausos)