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← Quatro perguntas que devem fazer ao vosso médico

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Showing Revision 7 created 09/23/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Sou neurocirurgião
  2. e venho dizer-vos que pessoas como eu
    precisam da vossa ajuda.
  3. Mais à frente,
    direi como o podem fazer.
  4. Mas antes, deixem-me que vos conte
    a história de uma paciente minha.
  5. Era uma mulher na casa dos 50.
  6. Estava em boa forma,
  7. mas tinha estado
    diversas vezes no hospital
  8. para tratamento do cancro da mama.
  9. Ela teve um prolapso
    de um disco cervical,
  10. o que lhe causava
    dores irradiantes bastante tensas,
  11. no braço direito.
  12. Ao ver a ressonância magnética,
    antes da consulta,
  13. decidi sugerir-lhe operar.
  14. As operações ao pescoço
    são padronizadas e rápidas.
  15. Mas acarretam riscos.
  16. Faz-se uma incisão aqui
  17. e disseca-se cuidadosamente
    ao lado da traqueia,
  18. do esófago,
  19. e tenta-se não cortar
    a artéria carótida interna.
  20. (Risos)
  21. Depois, com o microscópio,
  22. com cuidado, remove-se o disco
  23. e o prolapso do canal da raiz nervosa,
  24. sem danificar a medula
    e a raiz nervosa,
  25. que está milímetros abaixo.
  26. Na pior das hipóteses
    a medula é danificada,
  27. o que pode resultar numa paralisação
    do pescoço para baixo.
  28. Após ter explicado à paciente,
    ela ficou em silêncio.
  29. E, momentos depois,
    disse palavras decisivas,
  30. tanto para mim como para ela.
  31. "Doutor, é mesmo necessário?"
  32. (Risos)
  33. E sabem do que me apercebi,
    ali no momento?
  34. De que não era.
  35. Aliás, quando recebo pacientes
    como esta senhora,
  36. aconselho-os a não operar.
  37. Então porque o fiz desta vez?
  38. É que este prolapso era tão delicado
  39. que já me imaginava
    a retirá-lo do canal da raiz nervosa,
  40. antes de ela entrar no consultório.
  41. Tenho de admitir que a queria operar.
  42. Eu adoraria operá-la.
  43. Afinal, operar é a melhor parte
    da minha profissão.
  44. (Risos)
  45. Acho que muitos percebem
    esta sensação.
  46. O meu vizinho arquiteto
    diz que adora desenhar
  47. e projetar casas.
  48. Ele preferia fazer só isso,
  49. em vez de falar com o cliente
    que paga a casa
  50. e que até o pode limitar
    no seu trabalho.
  51. Mas, tal como os arquitetos,
  52. os cirurgiões precisam
    de encarar o paciente
  53. e, juntos, os dois,
  54. precisam de decidir o melhor
    para quem vai ser operado.
  55. Pode parecer fácil.
  56. Mas vejamos algumas estatísticas.
  57. As amígdalas são dois nódulos
    no fundo da nossa garganta.
  58. Podem ser cirurgicamente removidos,
  59. e a isso chama-se "amigdalectomia".
  60. Este gráfico mostra
    a taxa de amigdalectomias na Noruega,
  61. em diversas regiões.
  62. Pode chocar-vos o facto
    de haver o dobro das hipóteses
  63. de o vosso filho
    — porque isto é para crianças —
  64. fazer uma amigdalectomia na Finnmark
    do que em Trondheim.
  65. Os procedimentos são os mesmos,
    em ambos os sítios.
  66. Não deveria haver diferenças,
    mas há.
  67. Eis outro gráfico.
  68. O menisco ajuda a estabilizar o joelho
  69. e pode partir
    ou sofrer uma rutura grave,
  70. normalmente no futebol.
  71. Estas são as taxas de operação
    para este problema.
  72. É possível ver que a taxa
    em Møre og Romsdal
  73. é o quíntuplo da taxa em Stavanger.
  74. Cinco vezes mais.
  75. Como é possível?
  76. Será que os futebolistas
    de Møre og Romsdal
  77. são mais brutos do que
    os do resto do país?
  78. (Risos)
  79. É pouco provável.
  80. Adicionei mais informação.
  81. Estas são as operações efetuadas
    nos hospitais públicos, a azul-claro,
  82. e nos privados, a verde-claro.
  83. Há muta atividade
    nas clínicas privadas,
  84. em Møre og Romsdal, certo?
  85. O que mostra isto?
  86. Mostra uma possível motivação económica
    para tratar os pacientes.
  87. E há mais.
  88. Pesquisas recentes mostram
    que a diferença do efeito do tratamento
  89. entre terapia física normal
    e operações ao joelho
  90. não tem diferença.
  91. Ou seja, a maioria
    dos tratamentos feitos,
  92. no gráfico que vos mostrei,
  93. podia ser evitada,
    até em Stavanger.
  94. Então, o que quero dizer com isto?
  95. Embora a maioria dos procedimentos
    para tratamentos, a nível mundial,
  96. seja padronizada,
  97. há muitas variantes desnecessárias
    para decidir um tratamento,
  98. especialmente no Ocidente.
  99. Algumas pessoas não recebem
    o tratamento de que precisam,
  100. e ainda assim, a maior parte de vocês
  101. recebe tratamentos desnecessários.
  102. "Doutor, é mesmo necessário?"
  103. Em toda a minha carreira,
    só ouvi isto uma vez.
  104. Os meus colegas dizem que
    nunca ouviram isto de um paciente.
  105. E se virmos por outro prisma,
  106. quantas vezes acham
    que vão ouvir um "não",
  107. se perguntarem ao médico?
  108. Investigadores analisaram isto,
  109. e os resultados de respostas
    negativas é o mesmo,
  110. onde quer que vão.
  111. E o resultado é de 30%.
  112. Ou seja, três das dez vezes
  113. que o vosso médico receita
    ou sugere alguma coisa,
  114. é completamente desnecessário.
  115. E sabem qual a razão
    que eles alegam para isso?
  116. Pressão do paciente.
  117. Por outras palavras, de vocês.
  118. Vocês querem que algo seja feito.
  119. Um amigo meu veio pedir-me
    conselhos de saúde.
  120. É um desportista
  121. que faz esqui de fundo,
    no inverno,
  122. e que corre no verão.
  123. Desta vez, ele tinha
    uma dor de costas sempre que corria.
  124. A dor era tanta que deixou de correr.
  125. Fiz-lhe um exame
    e perguntei-lhe tudo,
  126. e descobri que ele poderia ter
    uma degeneração discal
  127. na parte inferior da coluna.
  128. Quando se esticava, doía-lhe.
  129. Não havia mesmo nada a fazer,
  130. ele já tinha trocado a corrida
    pela natação.
  131. Então disse-lhe:
    "Tens de ter mais atenção
  132. "com o que treinas.
  133. "Há atividades boas para ti,
  134. "mas há outras que não o são."
  135. Ele respondeu-me:
  136. "Quero fazer uma ressonância
    às minhas costas."
  137. "Porquê?"
  138. "Consigo fazê-la de graça,
    com o seguro do trabalho."
  139. "Vá lá", disse-lhe eu...
    Afinal, ele era meu amigo.
  140. "Isso não é resposta."
  141. "Bem, acho que é melhor,
    para ver o quão mau está."
  142. "Desde quando é que sabes
    ler ressonâncias?", perguntei eu.
  143. (Risos)
  144. "Confia em mim.
  145. "Não precisas de a fazer."
  146. "Bem", lá disse ele.
  147. E continuou até dizer:
    "Se calhar é cancro."
  148. (Risos)
  149. Ele obviamente fez a ressonância.
  150. E, com o seguro de saúde,
  151. foi examinado por um colega meu,
  152. que lhe falou da degeneração discal
  153. e de que como não havia nada a fazer
  154. senão continuar com a natação
    e parar de correr.
  155. Tempos depois,
    encontrámo-nos e ele diz:
  156. "Pelo menos agora sei o que é."
  157. Mas deixem-me perguntar-vos.
  158. E se todos aqui tivessem o mesmo
    e fizessem uma ressonância?
  159. E se todos os noruegueses
  160. fizessem uma ressonância
    por uma mera dor de costas?
  161. A lista de espera quadruplicaria,
    ou talvez mais.
  162. E vocês todos iriam tirar a vez
  163. a alguém que tivesse mesmo cancro.
  164. Às vezes um bom médico diz "não",
  165. mas o paciente sensível
    por vezes também rejeita
  166. uma oportunidade para ser
    diagnosticado ou tratado.
  167. "Doutor, é mesmo necessário?"
  168. Sei que pode ser difícil de perguntar.
  169. Aliás, se recuarmos 50 anos,
  170. seria considerado má-educação.
  171. (Risos)
  172. Se o médico decidisse
    o que fazer convosco,
  173. vocês apenas obedeceriam.
  174. Uma colega minha,
    agora médica de família,
  175. foi enviada para um sanatório
    de tuberculosos, em pequena,
  176. durante seis meses.
  177. Foi traumático para ela.
  178. Ela descobriu, já crescida,
  179. que os resultados da tuberculose
    tinham sido sempre negativos.
  180. O médico internara-a só por causa
    de um mau palpite.
  181. Ninguém se atreveu a confrontá-lo.
  182. Nem os pais dela.
  183. Atualmente,
    o ministro da Saúde norueguês
  184. fala sobre o serviço nacional de saúde.
  185. É suposto o paciente obter conselhos
    do médico sobre o que fazer.
  186. Isto é um ótimo progresso.
  187. Mas também vos incute
    mais responsabilidade.
  188. Vocês precisam de conversar
    com o vosso médico
  189. e partilhar decisões
    sobre que rumo seguir.
  190. Por isso, da próxima vez
    que estiverem num consultório,
  191. quero que perguntem,
  192. "Doutor, é mesmo necessário?"
  193. E, no caso da minha paciente,
  194. a resposta seria:
  195. "Não, mas uma operação
    também pode ser justificada".
  196. "Doutor, quais são os riscos
    que esta operação acarreta?"
  197. Uns 5 a 10% dos pacientes
    vão ter dores agravantes.
  198. 1 a 2% dos pacientes
  199. vai ter uma infeção na ferida
    ou uma hemorragia reincidente
  200. que pode acabar noutra operação.
  201. 0,5% dos pacientes
    experienciará rouquidão permanente
  202. e alguns, mas só alguns,
  203. experienciarão funções reduzidas
    nos braços ou pernas.
  204. "Doutor, que mais opções há?"
  205. Sim, o descanso e a terapia física
  206. podem melhorar a vossa condição.
  207. "E se eu não fizer nada?"
  208. Não é recomendado,
  209. mas mesmo assim há uma hipótese
    de melhorarem.
  210. Quatro perguntas.
  211. Perguntas bem simples.
  212. Vejam-nas como ferramentas
    para nos ajudarem.
  213. "É mesmo necessário?"
  214. "Quais são os riscos?"
  215. "Há mais opções?"
  216. "E o que acontece
    se eu não fizer nada?"
  217. Perguntem-nas quando vos quiserem
    mandar fazer uma ressonância,
  218. receitarem antibióticos,
  219. ou sugerirem operar.
  220. O que sabemos das pesquisas
  221. é que um em cada cinco
    de vocês — 20% —
  222. vai mudar a vossa opinião
    em relação ao que fazer.
  223. E ao fazerem isso,
    não só vão facilitar a vossa vida,
  224. ou até melhorá-la,
  225. como também o setor da Saúde
  226. vai beneficiar da vossa decisão.
  227. Muito obrigado.
  228. (Aplausos)