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← Como sentimos o assombro — e porque é importante

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Showing Revision 11 created 11/08/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Antes de começar, estou
    entusiasmado por estar aqui.
  2. por poder assistir ao que vai acontecer,
    daqui onde estou.
  3. (Risos)
  4. Dito isto, vamos começar.
  5. Qual é uma das nossas maiores
    necessidades?
  6. Qual é uma das maiores
    necessidades do cérebro?
  7. Em vez de vos dizer, vou mostrar.
  8. Quero que o sintam.
  9. Quero que o sintam
    nos próximos 14 minutos.

  10. Assim, se puderem todos levantar-se,
  11. vamos todos juntos
    reger uma peça de Strauss.
  12. Pode ser?
  13. Todos vocês a conhecem!

  14. Muito bem, estão prontos?
  15. Audiência: Sim!
  16. Muito bem. Prontos? Um, dois, três!

  17. (Música de Richard Strauss)
  18. É só a parte final.

  19. Prontos? Vocês sabem como continua.

  20. Oh, está quase a chegar ao fim!

  21. (Música para abruptamente)

  22. Oh!

  23. (Risos)

  24. Certo? Coito interrompido coletivo.
  25. Podem voltar a sentar-se.

  26. (Risos)

  27. Temos uma necessidade básica
    de chegar ao fim.

  28. (Risos)

  29. Adoramos uma conclusão!

  30. (Aplausos)

  31. Contaram-me a história
    de que Mozart, antes de se deitar,
  32. ia para o piano e tocava...
  33. "da-da-da-da-da."
  34. O pai dele, que já estava na cama.
    pensava: "Bolas!"
  35. Tinha de se levantar
    e tocar a nota final do acorde,
  36. antes de poder voltar a dormir.

  37. (Risos)

  38. Assim, a necessidade
    de uma conclusão leva-nos a pensar:
  39. Qual é o nosso maior medo?
  40. Pensem: qual é o nosso maior medo
    ao crescer, ou mesmo agora?

  41. É o medo do escuro!
  42. Odiamos a incerteza.
  43. Odiamos não saber.
  44. Odiamos isso!
  45. Pensem nos filmes de terror.
  46. Os filmes de terror
    são sempre filmados no escuro,
  47. na floresta,
  48. à noite,
  49. nas profundezas do oceano,
  50. na escuridão do espaço.
  51. A razão é porque morrer
    era fácil durante a evolução.
  52. Se não tivéssemos a certeza
    de que era um predador,
  53. seria tarde demais.
  54. O nosso cérebro evoluiu para prever.
  55. Se não pudéssemos prever, morreríamos.
  56. A forma como o cérebro prevê
    é codificando as tendências e suposições
  57. que foram úteis no passado.

  58. Mas essas suposições
    não ficam só dentro do cérebro,
  59. elas são projetadas no mundo.
  60. Não há ali nenhum pássaro.
  61. Vocês projetam o significado no ecrã.
  62. Tudo o que vos estou a dizer neste momento
    não tem sentido nenhum, literalmente.

  63. (Risos)

  64. Vocês estão a criar o significado,
    e a projetá-lo em mim.
  65. O que é verdade para objetos,
    é verdade para outras pessoas.
  66. Enquanto pudermos avaliar
    os "quês" e os "quandos",
  67. nunca poderemos avaliar os "porquês".
  68. Por isso, colorimos as outras pessoas.
  69. Projetamos um significado nelas,
  70. baseando-nos nas nossas tendências
    e experiências.
  71. É por isso que o melhor dos modelos
    é sempre sobre a redução da incerteza.

  72. Quando entramos na incerteza,
  73. o nosso corpo reage
    fisiológica e mentalmente.
  74. O nosso sistema imunitário
    começa a deteriorar-se.
  75. As células cerebrais
    enfraquecem e até morrem.
  76. A criatividade e a inteligência diminui.
  77. Muitas vezes, passamos do medo à raiva,
    quase vezes demais!
  78. Porquê?
    Porque o medo é um estado de certeza.
  79. Tornamo-nos moralmente críticos,
  80. numa versão extrema de nós mesmos.
  81. Os conservadores
    tornam-se mais conservadores.
  82. Os liberais tornam-se mais liberais.
  83. Porque vamos para um lugar familiar.

  84. O problema é que o mundo muda.
  85. E temos de nos adaptar ou morrer.
  86. Se quisermos mudar de A para B,
  87. o primeiro passo não é B.
  88. O primeiro passo
    é passar de A para não A
  89. — abandonar as nossas tendências
    e suposições;
  90. entrar no lugar que
    o nosso cérebro evoluiu para evitar:
  91. entrar no lugar do desconhecido.
  92. Mas é fundamental irmos a esse lugar
  93. onde o nosso cérebro nos deu a solução.
  94. A evolução deu-nos uma solução.
  95. E é possivelmente uma das mais
    profundas experiências percetivas.
  96. É a experiência do assombro.

  97. (Música)

  98. (Aplausos)

  99. (Aplausos)

  100. (Aplausos)

  101. (Aplausos)

  102. BL: Ah, fantástico! Não é?

  103. Neste instante, provavelmente,
  104. estão todos a sentirem-se
    assombrados.
  105. Certo?
  106. Então, o que se passa
    dentro do vosso cérebro neste instante?
  107. Durante milhares de anos,
  108. temos vindo a pensar, a escrever
    e a experimentar o assombro,
  109. e conhecemo-lo tão mal!
  110. Para tentar perceber
    o que é o assombro e o que faz,
  111. o meu laboratório de "Desajustes"
    teve a maravilhosa oportunidade e o prazer
  112. de trabalhar com aqueles que são
    uns dos maiores criadores do assombro
  113. que conhecemos:
  114. os escritores, os criadores,
    os diretores, os contabilistas,
  115. as pessoas que são o Cirque Du Soleil.
  116. Assim fomos a Las Vegas,

  117. e registámos a atividade cerebral
    das pessoas,
  118. enquanto assistiam ao espetáculo.
  119. Mais de 10 espetáculos de "O",
  120. que é um espetáculo
    emblemático do Cirque.
  121. Também avaliámos o comportamento
    antes do espetáculo,
  122. assim como um grupo diferente,
    depois do espetáculo.
  123. E assim tivemos
    mais de 200 pessoas envolvidas
  124. Então, o que é o assombro?

  125. O que se passa dentro
    do vosso cérebro, agora?
  126. É um estado cerebral.
  127. A parte da frente do cérebro,
    o córtex pré-frontal,
  128. que é responsável pela função executiva,
  129. pelo controlo da atenção,
  130. está agora a ser 'downregulated'.

  131. A parte do cérebro chamada
    a "rede de modo padrão"
  132. que é a interação entre
    múltiplas áreas do cérebro,
  133. que está ativa durante
    um tipo de conceção,
  134. de pensamento criativos,
  135. de pensamentos divergentes e desvaneios,
  136. está agora a ser 'upregulated'.
  137. E neste preciso momento,
  138. a atividade no vosso córtex
    pré-frontal está a mudar.
  139. Está a tornar-se assimétrica
    na sua atividade,
  140. predominantemente no lado direito,
  141. o que está correlacionado
    com quando as pessoas avançam,
  142. em vez de recuarem.
  143. De facto, a atividade no cérebro
    destas pessoas estava tão correlacionada
  144. que conseguimos treinar
    uma rede neuronal artificial
  145. para prever se as pessoas
    estavam ou não a sentir assombro,
  146. com um rigor de 75%, em média,
  147. e um máximo de 83%.
  148. O que é que este estado cerebral provoca?
  149. Como demonstrado por outros
  150. — conforme os Professores Haidt
    e Keltner nos disseram —
  151. as pessoas sentem-se pequenas
    mas conectadas com o mundo.

  152. E o seu comportamento pró-social aumenta,
  153. porque sentem uma maior afinidade
    para com os outros.
  154. Também mostrámos neste estudo
  155. que as pessoas têm menos
    necessidade de controlo cognitivo.
  156. Sentem-se mais confortáveis
    com a incerteza, sem haver uma conclusão.
  157. E o seu apetite pelo risco
    também aumenta.
  158. Na realidade, elas procuram o risco,
    e conseguem lidar melhor com os mesmos.
  159. E algo que foi ainda mais profundo,
  160. foi que, quando perguntámos às pessoas:
  161. "Tem predisposição para sentir assombro?"
  162. elas eram mais suscetíveis
    de dar uma resposta positiva
  163. depois do espetáculo, do que antes.
  164. Elas redefiniam-se
    a elas mesmas e à sua história.
  165. O assombro é possivelmente
    a perceção duma coisa "maior do que nós".
  166. Nas palavras de Joseph Campbell,
  167. "o assombro é o que nos permite avançar",
  168. ou, nas palavras de um querido amigo,

  169. provavelmente um dos melhores
    fotógrafos vivos, Duane Michaels,
  170. disse-me outro dia
  171. que talvez nos dê a curiosidade
    de ultrapassar a nossa cobardia.
  172. Então, quem se importa?
  173. Porque nos devemos importar?
  174. Considerem o conflito
  175. que parece estar tão omnipresente
    na nossa sociedade, de momento.
  176. Se vocês e eu estivermos em conflito,

  177. é como se tivéssemos
    em lados opostos da mesma linha.
  178. Tenho de provar que vocês estão
    errados e convencer-vos disso.
  179. O problema é que vocês
    estão a fazer o mesmo.
  180. Querem provar que eu estou errado
    e convencer-me disso.
  181. Notem que o conflito é a armadilha
    para ganhar, não para aprender.
  182. O cérebro só aprende, se nos movermos.
  183. A vida é movimento.
  184. E se pudéssemos usar o assombro,
    não para nos livrarmos do conflito
  185. — o conflito é essencial,
    é a forma como o cérebro se expande,
  186. é como o cérebro aprende —
  187. mas para entrar no conflito
    de uma maneira diferente?
  188. E se o assombro nos possibilitasse
    a entrar no conflito,

  189. de duas formas diferentes?
  190. Uma, para nos dar a humildade
    e a coragem de não saber.
  191. Entrar no conflito com uma pergunta,
    em vez de uma resposta.
  192. O que aconteceria então?
  193. Entrar no conflito com incerteza
    em vez de certeza.
  194. A segunda, é entrar
    no conflito dessa maneira,
  195. para procurar entender,
    ao invés de convencer.
  196. Porque todos fazem sentido
    para si mesmos, não é?
  197. Entender outra pessoa
  198. é entender os preconceitos e as suposições
  199. que dão origem ao comportamento dela.
  200. Na realidade, iniciámos um estudo-piloto
  201. para ver se podíamos usar
    o assombro induzido pela arte
  202. para facilitar a tolerância.
  203. Os resultados são
    incrivelmente positivos.
  204. Podemos mitigar a raiva e o ódio

  205. através da experiência
    do assombro causado pela arte.
  206. Então, onde podemos encontrar assombro,
  207. uma vez que é tão importante?
  208. Então, e se...
  209. Uma sugestão:
  210. O assombro não se encontra
    apenas na grandiosidade.

  211. O assombro é essencial.
  212. Frequentemente, é a sua dimensão
    — as montanhas, as paisagens solares.
  213. E se pudéssemos alterar a nossa dimensão
  214. e encontrar o impossível no simples?
  215. Se isto é verdade
  216. e os nossos dados estão corretos,
  217. então, iniciativas como a ciência,
  218. a aventura, as artes, as ideias, o amor,

  219. uma conferência TED, um espetáculo,
  220. não são só inspiradas pelo assombro,
  221. mas podem ser a nossa
    escada para a incerteza,
  222. para nos ajudar a expandir.
  223. Muito obrigado.
  224. (Aplausos)
  225. Venham cá!
  226. (Aplausos)
  227. (Aplausos)