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← O que Nada Ortodoxa nos ensina sobre trauma | Netflix

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Showing Revision 1 created 06/01/2020 by Juliana Phillippi.

  1. A definição do dicionário
    para trauma é:
  2. "severo choque e dor emocional,
  3. causado por uma experiência
    extremamente impactante."
  4. Não existe um padrão
    para processar o trauma.
  5. Mas em "Nada Ortodoxa", vemos
    como duas comunidades distintas,
  6. uma em Berlim e
    outra em Brooklyn,
  7. lidam com as tragédias
    que os afetaram.
  8. Em troca, aprendemos formas
    de lidar com nosso próprio trauma.
  9. Em Brooklyn, trauma
    forma a identidade de Esty,
  10. de 19 anos, e de
    sua comunidade.
  11. A história segue a reservada
    comunidade Satmar
  12. de judeus hassídicos.
  13. Estabelecida pelo rabino
    que fugiu de Satu Mare,
  14. na atual Romênia,
    durante o Holocausto,
  15. a comunidade Satmar não
    se mistura com os outros.
  16. Em "Nada Ortodoxa",
  17. na ponta da mesa
    segregada por gênero,
  18. para o jantar de Pesach,
  19. - uma comemoração anual dos
    judeus que escaparam escravidão
  20. no antigo Egito -
  21. o avô de Esty explica
    o por quê:
  22. "Nós repetimos
  23. a história da Páscoa judaica
  24. para nos lembrarmos
    do nosso sofrimento."
  25. A série celebra
  26. a união forte entre família
    e tradição
  27. na comunidade de Esty,
  28. onde costumes religiosos
    e orações
  29. acontecem em segurança,
  30. enquanto ataques fatais
  31. em sinagogas, e outros locais
    frequentados por judeus
  32. aumentam pelo mundo.
  33. Essa comunidade desafia o
    antissemitismo com devoção.
  34. Também vemos, nessa cena,
  35. como os judeus Satmar usam
    o trauma do passado
  36. para gerar em seus membros
    medo sobre o mal lá fora.
  37. "Quando confiamos em
  38. nossos amigos
    e vizinhos,
  39. Deus nos puniu.
  40. Quando esquecemos
    quem nós somos,
  41. atraímos a ira de Deus."
  42. O Holocausto causou
  43. estresse pós-traumático
    a seus sobreviventes,
  44. e seu impacto perdura.
  45. Como disse o sobrevivente
    de Auschwitz,
  46. o químico e escritor Primo Levi:
  47. "Auschwitz está fora de nós,
  48. mas está ao nosso redor,
    no ar.
  49. A praga se foi, mas a
    infecção continua,
  50. e seria tolo
    negar isso."
  51. Esse trauma de uma geração
    cresce das raízes
  52. da árvore genealógica de Esty,
    e forma a sua identidade pessoal.
  53. Ela é desencorajada de
    explorar paixões
  54. que contradizem os
    valores da comunidade.
  55. Suas aulas de piano
    são tão mal vistas,
  56. que ela precisa aprender
    em segredo.
  57. Sua professora,
    Vivian Dropkin,
  58. é desprezada como
    'a shiksa', ou não judia.
  59. Curiosamente, embora
    a série nunca mostre isso,
  60. Dropkin é uma judia secular.
  61. Apesar de sua fé, suas escolhas
    não são judias o suficiente
  62. para a comunidade devota
    de Esty.
  63. Muitos judeus ortodoxos
    acreditam que o modo
  64. de desfazer o trauma
    do Holocausto
  65. é por repopulação.
  66. A pesquisa de 2013
    do Pew Center
  67. mostra que o índice de natalidade
    entre judeus ortodoxos é 4.1,
  68. comparado à média nacional
    dos EUA de 1.8.
  69. Esty acredita em tudo que foi
    ensinada a crer,
  70. insistindo mais tarde,
  71. "Estamos reconstruindo
    os seis milhões perdidos."
  72. Judeus mortos no Holocausto.
  73. "Tantas perdas.
  74. Mas logo você terá seus
    próprios filhos."
  75. Seis milhões não é um
    número nada pequeno.
  76. Por isso, além do trabalho doméstico
    para deixa a casa em ordem,
  77. e seu marido,Yanky Shapiro,
  78. alimentado e com ternos
    bem passados,
  79. o trabalho de Esty é ter a maior
    quantidade possível de filhos.
  80. "Você não terá poder
    no casamento,
  81. até ter um bebê.
    Entendeu?"
  82. Ela aprende que sexo vai
    dar prazer ao seu marido,
  83. que em troca vai dar a ela
    exatamente o que quer:
  84. o que disseram a ela para querer...
    um bebê.
  85. O problema de lidar com
    o trauma assim,
  86. como vemos pelos
    olhos de Esty,
  87. é que cria um efeito
    em dominó.
  88. Existe uma área de
    estudo acadêmico
  89. chamado epigenética,
  90. que lida com o conceito
  91. de trauma transgeracional,
  92. a ideia de que o trauma
    pode ser herdado.
  93. Alguns estudos sugerem
    que o DNA
  94. muda em resposta
    à experiências horríveis,
  95. e isso é passado às
    gerações futuras.
  96. Seja pela epigenética ou não,
  97. em "Nada Ortodoxo", pais
    traumatizados
  98. traumatizam seus filhos
    sem intenção.
  99. Os avós de Esty ainda
    estão, compreensivelmente,
  100. devastados pelo Holocausto.
  101. Seu filho, Mordecai,
    está mentalmente instável.
  102. Quanto à Leah, seu
    trauma vem
  103. de não se encaixar no
    molde feito para ela.
  104. Esty é marcada pela dor
    de seus pais.
  105. Agora que ela mesma é noiva,
    as regras são incômodas.
  106. "Não deveríamos ter concordado
    com esse casamento."
  107. "Mamãe, por favor!"
  108. "O fruto não cai longe do pé."
  109. Quando Esty tenta
    argumentar
  110. que deve sentir prazer
    em vez de trauma na cama,
  111. usando as escrituras como prova
    de que é a vontade de Deus,
  112. ela é silenciada.
  113. "Mulheres são proibidas
    de ler o Talmud!"
  114. Esse texto pertence aos homens,
    não aos olhos das mulheres,
  115. devido a algo chamado
  116. 'Kavod Hatzibur', ou a
    dignidade da comunidade.
  117. A história de Esty mostra como respostas
    ao trauma socialmente restritivas
  118. costumam amordaçar
    as mulheres.
  119. Esty não consegue se safar de metade do
    que seu primo Moishe consegue.
  120. Moishe é um ladrão, mentiroso,
    um imbecil agressivo
  121. sem consideração
    com os outros.
  122. Ainda assim, seu comportamento
    parece vir de um ódio próprio.
  123. Sua decadência moral,
    seu próprio trauma
  124. está alcançando ele,
  125. conforme ele percebe
    que não tem
  126. nem o comprometimento
    de uma comunidade,
  127. nem as ferramentas de outra.
  128. Enquanto isso Yanky,
  129. um santo comparado a Moishe,
  130. acaba por infligir trauma
  131. através de seu comprometimento
    ignorante e infantil
  132. em manter sua comunidade
  133. a qualquer custo.
  134. Em Brooklyn, vemos como o trauma,
  135. infelizmente, às vezes
    gera mais trauma.
  136. Como a mãe de Esty diz:
  137. "Tanto dano feito em Brooklyn,
  138. em nome de Deus.
  139. Todas as regras, as fofocas.
  140. Não é à toa que Esty não suportou."
  141. Em Berlim, por outro lado,
  142. a forma de lidar com o trauma
    é completamente diferente.
  143. "Nada Ortodoxa" apresenta
  144. a antiga fortaleza de
    Adolf Hitler
  145. como um paraíso
    diverso e liberal,
  146. onde as pessoas, especialmente
    os jovens, podem
  147. fazer o que querem, quando querem,
    com quem quiserem.
  148. Uma vez o epicentro do
    sofrimento,
  149. Berlim contraria seu
    trauma do passado
  150. celebrando a alegria,
  151. reavendo parte de
    seu caráter
  152. que os nazistas tentaram
    extinguir.
  153. Essa é a cidade
  154. que uma vez viu os anos 20
    dourados da República Weimar,
  155. quando Marlene Dietrich
    subiu à fama,
  156. cabaret era entretenimento
    popular,
  157. e o movimento de arte
    Bauhaus foi fundado.
  158. Esse liberalismo social
    é refletido em demonstrações
  159. públicas de afeto, que surpreendem
    a tímida e modesta Esty.
  160. Ela está acostumada a uma vida
    sexual traumática,
  161. que só acontecia no privado,
  162. porém discutida em público.
  163. Em Berlim, o oposto ocorre.
  164. Isso porquê o prazer,
    em vez da procriação,
  165. é o objetivo.
  166. Esty começa a perceber
  167. que o mundo não
    é preto e branco
  168. como ela aprendeu.
  169. "Você pode tentar salvar a tentativa
    de salada do Robert."
  170. Os espaços físicos da cidade
  171. são exemplos de como lugares
    traumáticos podem ser reivindicados.
  172. Na primeira excursão de Esty
    com os novos amigos,
  173. ela se depara com o que é,
  174. para sua comunidade no Brooklyn,
  175. o inferno.
  176. "Quando o Muro de Berlim
    estava erguido,
  177. os guardas da Alemanha
    Oriental atiravam
  178. em qualquer um que tentasse
    nadar esse lago à liberdade."
  179. "E agora?"
  180. "Agora, você pode nadar
    até onde quiser."
  181. Pode ser um local de trauma,
  182. mas não é fonte de trauma.
  183. Diferente do Mivah que
    abençoou Esty,
  184. um corpo de água secular
    não pode abençoar nem condenar.
  185. Só as pessoas podem.
  186. Claro, algumas pessoas
    nunca vão encontrar alegria
  187. na mesma água que
    Hitler observou,
  188. quando decidiu terminar as
    vidas de milhões de judeus.
  189. Mas nessa cena,
  190. Esty tem a oportunidade
    de ajudar
  191. a começar sua nova vida,
    dentro dessa água.
  192. Esty tira sua peruca
    nesse lago,
  193. numa versão mais extrema
    do corte de cabelo pós-término.
  194. Enquanto o cabelo curto
    por baixo
  195. é a imposição de um secto
  196. que vê o cabelo das mulheres
    como tal tentação
  197. aos homens que precisa
    ser raspada,
  198. também é uma memória
    acidental e análoga
  199. de como os ancestrais
    de Esty
  200. foram desumanizados
    pelos nazistas,
  201. suas cabeças raspadas em
    campos de concentração.
  202. Sem a peruca,
    ela bóia na água,
  203. livre para esquecer seu trauma,
  204. e todas as regras e regulações
    que levaram a isso.
  205. A cena no lago prova como
  206. a expressão de liberdades
    individuais
  207. pode ser tributo a gerações
    passadas que foram restritas.
  208. Ao nadar na ápgua,
  209. Esty e seus amigos
  210. fazem o que muitos em gerações
    passadas não puderam.
  211. Alegria, para eles, é mais útil
  212. para lembrar, do que
    a culpa.
  213. "Um lago é só um lago."
  214. Os amigos de Esty
  215. provam que o trauma vêm
    de muitas formas.
  216. Cada um carrega consigo suas
    próprias histórias difíceis.
  217. Alguns vêm de países devastados
    pela guerra,
  218. perderam entes queridos,
  219. ou cresceram gay em países
    homofóbicos.
  220. A fricção entre Esty e Yael
    existe
  221. em como seu trauma em comum é
    tratado de forma diferente.
  222. "Meus avós perderam sua
    família inteira
  223. nos campos."
  224. "Assim como metade de Israel.
  225. Mas estamos muito ocupados
    defendendo nosso presente,
  226. para ser sentimentalista
    sobre o passado."
  227. Ambas judias,
  228. os ancestrais de Esty e Yael
    podem muito bem ter morrido
  229. lado a lado nos campos
    de morte,
  230. mas suas respostas
    a esse trauma
  231. não poderiam ser mais diferentes.
  232. Yael usou música como fuga
    do serviço militar,
  233. e seus traumas inevitáveis.
  234. Com violino em mãos, ela
    se expressa como prefere.
  235. Esty logo aprende que,
    em Berlim,
  236. homens e mulheres,
  237. judeus seculares,
  238. muçulmanos, cristãos,
    e outros
  239. tocam música juntos.
  240. A única regra é comparecer,
  241. manter foco e colaborar.
  242. Esty não precisa mais
    abafar os próprios gritos,
  243. mas solta sua dor
    e trauma,
  244. usando a criatividade que
    ela sempre quis
  245. poder usar.
  246. Usando a liberdade sem filtro
    de Yael como base,
  247. Esty finalmente expressa sua
    identidade pessoal.
  248. Os berlinenses de
    "Nada Ortodoxa"
  249. não esqueceram seu trauma,
  250. ou o da cidade em
    que vivem,
  251. mas acharam formas
    de lidar com isso
  252. reivindicando a terra de Hitler
    para seus próprios fins alegres.
  253. Buscando liberdades pessoais
    para todos,
  254. especialmente mulheres.
  255. Usando a criatividade como
    condutor para exorcizar o trauma.
  256. Isso não quer dizer que Brooklyn
    é o completo oposto.
  257. Como todo o resto na série,
  258. dos figurinos aos sets,
  259. "Nada Ortodoxo" lida com trauma
    de modo sensível e belo.
  260. Ninguém é de todo bem,
    ou de todo mal.
  261. Alguns têm dificuldades em Berlim,
  262. assim como alguns florescem
    no Brooklyn.
  263. O trauma humano é
    complexo e individual,
  264. não preto e branco.
  265. Em "Nada Ortodoxa", vemos
  266. a história clássica do judeu
    escapando o trauma europeu
  267. e o cativeiro, ao contrário.
  268. Em Berlim, Esty descobre
  269. que desfazer o trauma pode
    ser tão simples
  270. quanto sair para nadar,
  271. se comunicar com outros,
  272. e cantar à plena voz.
  273. Tudo a seu ritmo,
  274. no seu próprio tempo.