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← Vamos mensurar o que é importante: direitos humanos | Anne-Marie Brook | TEDxWellington

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Showing Revision 14 created 09/17/2019 by Leonardo Silva.

  1. Todos compreendemos a importância
    da luz e da verdade, certo?
  2. Imaginem um mundo sem isso.
  3. Estou aqui pra explicar
    por que precisamos de mais, de ambas.
  4. Vou começar contando uma história real
  5. sobre as coisas que acontecem
  6. quando grande parte do mundo
    age na escuridão.
  7. No outubro quente de 2018,
  8. um jornalista saudita
    chamado Jamal Kashoggi
  9. entrou no consulado
    da Arábia Saudita em Istambul
  10. para pegar a documentação de que precisava
    para se casar com sua noiva turca.
  11. Ela ficou do lado de fora
    durante horas, esperando por ele.
  12. Ela nunca mais o viu.
  13. Talvez vocês se lembrem desse caso,
    pois foi manchete em todo o mundo.
  14. Diversas investigações mostraram
  15. que agentes do governo saudita
    entraram no consulado,
  16. mataram Khashoggi
  17. e esquartejaram seu corpo.
  18. Vou ser clara sobre o que acabei de dizer.
  19. Agentes do governo mataram um jornalista
    para silenciar as verdades que ele dizia.
  20. Esse tipo de coisa é chocante,
    mas incrivelmente comum.
  21. Mas tenho certeza de que,
    se o governo saudita soubesse
  22. que esse caso seria manchete
    em todo o mundo,
  23. por várias semanas,
  24. eles não teriam feito isso, certo?
  25. Eles achavam que esse crime
    ficaria fora dos holofotes,
  26. não que seria divulgado pra todos saberem.
  27. Isso nos traz algumas perguntas.
  28. E se pudéssemos expor mais
    as injustiças e malfeitos do mundo?
  29. E se, ao fazermos isso,
  30. conseguíssemos incentivar governos
    a tratar as pessoas com mais respeito
  31. e a ouvir a voz daqueles que os criticam,
    em vez de silenciá-los?
  32. É esse mundo que tenho
    trabalhado para criar.
  33. Gostaria que vocês parassem um instante -
  34. podem fechar os olhos, se quiserem -
  35. e se perguntassem o seguinte:
  36. do que você e sua família precisam
  37. para viverem com dignidade e desenvolverem
    seu potencial como seres humanos?
  38. Talvez vocês pensem em boa alimentação,
    um teto sobre a cabeça,
  39. acesso a saúde e educação,
  40. um bom emprego, seguridade social,
  41. ou talvez pensem em liberdade
    pra ser quem você é
  42. e falar o que pensa sem ter medo de ser
    detido, torturado, preso ou coisa pior.
  43. Essas coisas não são privilégios.
    São direitos humanos.
  44. Foram definidas e estabelecidas
    na lei internacional de direitos humanos.
  45. Países se comprometeram a respeitá-los.
  46. Mas, até agora,
  47. ninguém tem acompanhado
    o desempenho de cada país
  48. na garantia de que cada pessoa
    consiga exercer cada um desses direitos.
  49. Eu sei, também fiquei surpresa
    quando soube disso.
  50. Durante 20 anos, fui economista.
  51. Em meados dos anos 2000,
    eu trabalhava na OCDE, em Paris,
  52. aconselhando governos
    em termos de política econômica.
  53. Eu adorava meu trabalho.
  54. Achava superinteressante analisar
    cada país sob uma ótica econômica
  55. e descobrir que aconselhamento oferecer.
  56. Mas havia um problema.
  57. Em todos os países,
    havia violações de direitos humanos.
  58. Eu lia sobre maus-tratos
    aos curdos na Turquia
  59. e ao povo roma na Eslováquia,
  60. e sempre procurava formas
  61. de tentar abordar esses problemas
    de direitos humanos em meus relatórios.
  62. Mas não podia fazer muito além disso,
  63. porque o aconselhamento de um economista
  64. sempre tem que se basear
    em evidências empíricas,
  65. e descobri que não havia nenhum
    banco de dados de grande escala
  66. para acompanhamento do desempenho
    dos países em direitos humanos.
  67. Isso é um problema.
  68. Isso era um problema.
  69. Quando se avalia a situação do mundo,
  70. é provável que se analise primeiro
    coisas sobre as quais se tem dados:
  71. renda per capita, comércio
    e fluxo de investimentos,
  72. emissões de carbono...
  73. É bem complicado para qualquer governo
  74. colocar os direitos humanos
    como uma de suas pautas principais
  75. se não tiverem os dados de que precisam.
  76. Depois disso, não consegui ignorar o fato
    de que havia essa lacuna de dados.
  77. Alguns anos depois,
    depois de voltar para a Nova Zelândia,
  78. me lembro de estar em casa
    com meu filho ainda pequeno
  79. e, depois de colocá-lo pra dormir à tarde,
  80. senti uma vontade enorme
    de voltar pro computador
  81. e continuar pesquisando quem estava
    mensurando direitos humanos.
  82. Eu estava contatando especialistas
    mundiais e fazendo perguntas.
  83. Por que os direitos humanos não estão
    sendo mensurados sistematicamente?
  84. Será que isso poderia ser feito?
  85. Muitas das mensagens que enviei
    não foram respondidas,
  86. mas muitas outras foram.
  87. Algumas pessoas me disseram
  88. que essa ideia de acompanhar
    sistematicamente os direitos humanos
  89. era boa, mas ambiciosa demais.

  90. Somente uma ou duas pessoas me disseram
    que era impossível, ou até absurdo.
  91. Não fiquei aborrecida.
  92. Minha filosofia era olhar
    para o lado positivo.
  93. E, olhando o lado positivo,
  94. me juntei a dois acadêmicos
    supercapacitados em direitos humanos
  95. e que tinham a mesma visão que eu,
  96. Susan Randolph e Chad Clay,
  97. e juntos fundamos a
    Human Rights Measurement Initiative,
  98. ou HRMI, que são as inciais.
  99. Antes mesmo que a HRMI tivesse
    US$ 1 de financiamento,
  100. trabalhávamos com profissionais da área
    de direitos humanos do mudo todo
  101. para garantir que produzíssemos dados
  102. que refletissem com precisão
    a situação real em diversos países.
  103. Nosso objetivo é garantir
    que vocês consigam ver mais
  104. do que somente os poucos casos,
    como o de Khashoggi,
  105. que viram manchetes.
  106. Estamos acendendo
    mais holofotes sobre o mundo.
  107. Me sinto privilegiada e honrada
    por poder fazer o que faço
  108. porque sei que, em muitos
    outros países do mundo,
  109. defensores de direitos humanos
    arriscam sua vida todos os dias,
  110. só para documentar as injustiças que veem.
  111. Então, estou muito feliz que a HRMI
    esteja ajudando a amplificar as vozes
  112. dessas pessoas maravilhosas
  113. para que o trabalho delas
    tenha mais alcance.
  114. E estou muito feliz que a visão
    coletiva que a HRMI tem
  115. não seja mais apenas uma visão;
    agora ela é um empenho coletivo.
  116. Já temos centenas de profissionais
    de direitos humanos pelo mundo
  117. contribuindo, de forma voluntária,
    com seu tempo e conhecimento
  118. para ajudar a acender mais holofotes,
    a preencher essas lacunas de dados,
  119. a trazer mais atenção
    ao que realmente é importante.
  120. Mas como mensuramos o desempenho
    dos países em termos de direitos humanos?
  121. Até agora, temos duas
    metodologias principais.
  122. Primeiro, sempre que possível, usamos
    estatísticas disponíveis publicamente:
  123. para direitos de qualidade de vida,
  124. coisas como o direito à alimentação,
    educação, saúde, moradia e trabalho,
  125. isso nos proporciona
    grande cobertura por país.
  126. Este mapa mostra, em azul,
    todos os 169 países
  127. cujo desempenho em direito
    à saúde nós acompanhamos.
  128. Muitos dos indicadores estatísticos
    que analisamos são os mesmos
  129. para monitorar as Metas de Desenvolvimento
    Sustentável das Nações Unidas.
  130. Mas eis a diferença: não analisamos
    apenas simples estatísticas;
  131. fazemos algo bem mais vital.
  132. Nós as convertemos
    em números que fazem sentido
  133. do ponto de vista dos direitos humanos.
  134. Para fazer isso, adotamos
    uma abordagem premiada
  135. que foi desenvolvida pela Susan,
    cofundadora da HRMI, e seus colegas.
  136. Nela, cada país é avaliado
    por meio de uma referência diferente,
  137. dependendo do nível de renda do país.
  138. Assim, tanto países mais ricos
    quanto mais pobres serão mal avaliados
  139. se não estiverem usando
    seus recursos disponíveis
  140. com a mesma eficiência que outros países
    de mesmo nível de renda;
  141. por exemplo, para gerar
    bons resultados na área de saúde.
  142. Essa abordagem é genial,
  143. não só porque avalia
    o desempenho dos países
  144. no que tange a como esses direitos
    são definidos na lei internacional,
  145. mas também porque é simplesmente lógica.
  146. Faz sentido esperar dos países
    mais ricos um padrão mais alto
  147. em resultados na área de saúde
  148. do que dos países mais pobres, certo?
  149. Segundo, no que se refere
    a direitos civis e políticos,
  150. nós mesmos coletamos os dados.
  151. Esses direitos incluem
    todo tipo de coisas,
  152. desde execuções e tortura a direito
    de voto e liberdade de expressão.
  153. Talvez vocês se surpreendam por saber
    que tudo isso são coisas
  154. que as estatísticas oficiais
    simplesmente não acompanham.
  155. Então, trouxemos especialistas
    da Anistia Internacional,
  156. organizações como a Human Rights Watch,
  157. e juntos desenvolvemos
    uma pesquisa especializada
  158. para coletarmos essa informação
  159. de pessoas que estão monitorando
    eventos reais em cada país.
  160. Estamos muitos felizes com os resultados
    da nossa pesquisa especializada.
  161. Até agora, temos dados desses 19 países,
  162. e esse número cresce a cada ano.
  163. Acima de tudo, as pessoas nos dizem
  164. que nossas pontuações refletem
    precisamente a situação local
  165. nos países de que elas têm conhecimento.
  166. Vou apresentar a vocês
    algumas das nossas leituras de dados
  167. mostrando a vocês uma pergunta.
  168. "Qual desses países
    tem o melhor desempenho
  169. no respeito ao direito de não sofrer
    uma execução extrajudicial?
  170. Jordânia, Venezuela, Arábia Saudita,
    Estados Unidos ou México?"
  171. Bem, enquanto vocês pensam,
  172. vou dar só mais uma pequena
    informação a vocês.
  173. Primeiro, uma definição:
  174. execuções extrajudiciais são execuções
    realizadas por agentes do governo,
  175. como a que aconteceu com Khashoggi,
  176. mas, mais comumente,
    mortes por violência policial.
  177. Também vou contar um pouquinho mais
    sobre de onde vêm as pontuações.
  178. Em fevereiro e março deste ano,
  179. enviamos nossa pesquisa especializada
    a pessoas que monitoram direitos humanos
  180. em todos esses cinco países, e outros,
  181. e cada pessoa nos contou
    qual desempenho acha que seu país tem
  182. em respeitar esse direito, e outros.
  183. E usamos algumas técnicas
    bastante sofisticadas
  184. para garantir que respostas
    de diferentes pessoas
  185. possam ser comparadas umas com as outras.
  186. Certo, então vocês já pensaram
    na resposta para aquela pergunta?
  187. A resposta é: Jordânia.
  188. Aqui, podemos ver a pontuação
    de cada um dos cinco países.
  189. As pequenas linhas sólidas verticais ali
    são nossa melhor estimativa
  190. da pontuação de cada país.
  191. Países com faixas mais largas
    de incerteza, como a da Arábia Saudita,
  192. nos mostram que temos menos certeza
    de onde exatamente está a pontuação real,
  193. talvez porque tenha havido
    menos concordância
  194. entre as pessoas que responderam
    à nossa pesquisa para a Arábia Saudita.
  195. Faixas mais estreitas, como a do México,
  196. nos mostram que temos mais certeza
    da pontuação daquele país.
  197. A sobreposição das faixas é importante.
  198. Podemos afirmar que a Jordânia
    tem desempenho melhor que o da Venezuela
  199. porque suas faixas não se sobrepõem.
  200. Não temos tanta certeza
    de qual exatamente seria o ranking
  201. entre os países a seguir.
  202. É claro que trata-se apenas de um subgrupo
    de países sobre o qual temos dados.
  203. Vou adicionar mais alguns.
  204. Aqui, vemos Nova Zelândia, Austrália,
    Coreia do Sul e Reino Unido.
  205. Nenhum país tem pontuação perfeita
  206. porque, em cada país,
    inclusive na Nova Zelândia,
  207. há possibilidade de melhoria.
  208. Por que essa informação é importante?
  209. A HRMI não é uma organização ativista
  210. portanto, não dizemos aos países
    o que deveriam fazer diferente.
  211. Mas vocês podem usar
    nossos dados para esse propósito.
  212. Digamos que o seu país
    tenha uma pontuação meio baixa
  213. e esteja neste lado da escala,
  214. e você queira que ele mude de posição.
  215. O que você pode fazer?
  216. Claro que as possibilidades são inúmeras,
    mas vamos discutir só algumas.
  217. Você pode incentivar seu país a assumir
    a tarefa desafiadora, mas vital,
  218. de recapacitar sua força policial.
  219. Você pode se reunir
    com grupos vulneráveis e minorias
  220. e dar ouvidos às sugestões deles
    sobre como reformar suas instituições.
  221. Você pode avaliar as leis e políticas
    de seus vizinhos com melhor desempenho
  222. e escolher melhorar o seu.
  223. Temos uma tabela como esta para oito
    direitos civis e políticos diferentes
  224. e, para cada um deles,
    para cada país e cada direito,
  225. também coletamos informação
    sobre o que impacta suas pontuações.
  226. Digamos que você quisesse saber
  227. por que os EUA têm
    um desempenho ruim nesse direito.
  228. Você talvez descubra
    que a razão, em parte,
  229. se deve ao fato de haver muitas
    pessoas negras baleadas pela polícia.
  230. Nossos especialistas do EUA nos contaram
  231. que as pessoas que correm maior risco
    de execução extrajudicial nos EUA
  232. são afro-americanas,
  233. latinas,
  234. de origem indígena
  235. e crianças detidas na fronteira do país.
  236. Essas leituras que mostrei
    da nossa base de dados
  237. são apenas algumas das milhares
    que vocês podem encontrar nela,
  238. isso antes mesmo de aplicarmos nossa
    pesquisa em todos os países do mundo.
  239. Sei que tudo isso deve parecer bem pesado.
  240. É porque é pesado.
  241. Fico feliz em dizer a vocês
  242. que também temos algumas histórias
    realmente boas e positivas
  243. na base de dados da HRMI.
  244. Este é um quadro
    de boas notícias da África,
  245. Cada uma das áreas coloridas
    mostra um direito de qualidade de vida,
  246. e podemos ver que houve
    uma melhoria lenta, mas gradual,
  247. no desempenho, em média,
    em todo o continente africano.
  248. A história fica ainda melhor
  249. porque os dados da HRMI também mostram
    uma tendência de melhoria gradual
  250. no cumprimento desses direitos
    em todas as partes do mundo.
  251. Essa é uma história realmente
    positiva de direitos humanos.
  252. Eu a adoro, e ela me enche de esperança.
  253. Uma coisa que percebi
  254. desde que deixei minha carreira
    de economista e virei cofundadora da HRMI
  255. é que, quando reencontro velhos amigos
    e digo a eles que o que faço agora
  256. é mensurar o desempenho de países
    em termos de direitos humanos,
  257. às vezes recebo olhares
    meio que sem expressão.
  258. Quando contava às pessoas que ajudava
    a melhorar o desempenho econômico,
  259. eu recebia mais olhares de aprovação.
  260. E eu entendo.
  261. Economia é algo muito bem mensurado.
    As pessoas estão acostumadas com isso.
  262. Por outro lado, os direitos humanos
    têm sido mal registrados, mal mensurados
  263. e esquecidos há bastante tempo.
  264. Vamos mudar isso.
  265. Lançar luz sobre os direitos humanos
  266. e provocar uma grande mudança
    na forma como nosso mundo funciona
  267. é um desafio enorme de colaboração global,
  268. e vocês podem ajudar.
  269. Começamos lançando luz sobre o seu país.
  270. O que vocês podem fazer a partir disso?
  271. O que vão cobrar de seus líderes?
  272. Em que os outros países
    podem inspirar o seu
  273. para um maior e melhor respeito
    pelos direitos humanos?
  274. E se os líderes mundiais convocassem
    seus conselheiros e exigissem respostas?
  275. E se não dissessem apenas: "Me diga como
    melhorar nosso desempenho econômico",
  276. mas também: "Me diga como melhorar
    nosso desempenho em direitos humanos"?
  277. Números não são tão atraentes
    quanto histórias.
  278. Eles não mexem com a gente da mesma forma.
  279. Mas cada um ajuda a iluminar nosso mundo,
    nos mostrando o caminho a seguir.
  280. Os números nos ajudam a entender
    o que precisa ser mudado, e como.
  281. Vamos construir um mundo
    onde os países concorram
  282. não só nos esportes
    e para ver quem é o mais rico,
  283. mas para ver qual consegue
    tratar melhor o seu povo.
  284. Vamos mensurar o que é importante.
  285. Obrigada.
  286. (Aplausos)