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← O perigo da história única

As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história de como descobriu a sua voz cultural — e adverte que, se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, corremos o risco de um erro crítico.

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56 Languages

Showing Revision 6 created 11/14/2017 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Eu sou uma contadora de histórias.

  2. Gostaria de vos contar
    algumas histórias pessoais
  3. sobre aquilo que gosto de chamar
    "o perigo da história única".
  4. Cresci num "campus" universitário
    na parte oriental da Nigéria.
  5. A minha mãe diz
    que comecei a ler aos dois anos,
  6. embora eu pense que, provavelmente,
    aos quatro anos é mais perto da verdade.
  7. Por isso, eu fui uma leitora precoce.
  8. Lia livros para crianças
    britânicos e americanos.
  9. Também fui uma escritora precoce.

  10. Quando comecei a escrever,
    por volta dos sete anos,
  11. histórias a lápis
    com ilustrações a lápis de cor
  12. que a minha pobre mãe era obrigada a ler,
  13. eu escrevia exactamente
    o tipo de histórias que eu lia.
  14. Todas as minhas personagens
    eram brancas e de olhos azuis.
  15. Brincavam na neve.
  16. Comiam maçãs.
  17. (Risos)
  18. E falavam muito do tempo,
  19. como era maravilhoso o sol ter aparecido.
  20. (Risos)
  21. Isto, apesar do facto
    de eu viver na Nigéria.
  22. Nunca tinha estado fora da Nigéria.
  23. Nós não tínhamos neve. Comíamos mangas.
  24. E nós nunca falávamos do tempo,
    porque não havia necessidade.
  25. As minhas personagens também bebiam
    muita cerveja de gengibre

  26. porque as personagens
    dos livros britânicos que eu lia
  27. bebiam cerveja de gengibre.
  28. Não me importava de não fazer ideia
    do que era cerveja de gengibre.
  29. (Risos)
  30. Durante anos, eu tive o desejo desesperado
    de provar cerveja de gengibre.
  31. Mas isso é outra história.
  32. O que isto demonstra, penso eu,

  33. é como somos impressionáveis
    e vulneráveis a uma história,
  34. particularmente enquanto crianças.
  35. Como eu só lia livros
    em que as personagens eram estrangeiras,
  36. eu convenci-me que os livros,
    pela sua própria natureza,
  37. tinham de incluir estrangeiros,
  38. e tinham de ser sobre coisas
  39. com que eu não me identificava
    pessoalmente.
  40. As coisas mudaram
    quando descobri livros africanos.
  41. Não havia muitos disponíveis
  42. e não eram tão fáceis de encontrar
    como os livros estrangeiros.

  43. Mas graças a escritores como
    Chinua Achebe e Camara Laye

  44. eu passei por uma mudança mental
    na minha percepção da literatura.
  45. Apercebi-me de que pessoas como eu,
  46. raparigas com a pele cor de chocolate,
  47. cujo cabelo em carapinha
    não podia formar rabos-de-cavalo,
  48. também podiam existir na literatura.
  49. Comecei a escrever
    sobre coisas que reconhecia.
  50. Eu adorava aqueles livros
    americanos e britânicos que lia.

  51. Eles agitaram a minha imaginação.
    Abriram-me novos mundos.
  52. Mas a consequência não intencional
  53. foi que eu não sabia
    que as pessoas como eu
  54. podiam existir na literatura.
  55. O que a descoberta de escritores africanos
    fez por mim, foi isto:
  56. Salvou-me de ter uma história única
    daquilo que os livros são.
  57. Eu provenho de uma família nigeriana,
    convencional, da classe-média.

  58. O meu pai era professor.
  59. A minha mãe era gestora.
  60. Por isso, como era norma,
    lá em casa tínhamos ajuda doméstica
  61. que normalmente
    vinha de vilas rurais próximas.
  62. No ano em que fiz oito anos
    arranjámos um novo empregado.
  63. Chamava-se Fide.
  64. A única coisa que a minha mãe
    nos disse sobre ele
  65. foi que a família dele era muito pobre.
  66. A minha mãe mandava inhames e arroz,
  67. e as nossas roupas velhas
    para a família dele.
  68. Quando eu não acabava o meu jantar,
    a minha mãe dizia:
  69. "Acaba a tua comida! Não sabes que pessoas
    como a família do Fide não têm nada?"
  70. Por isso eu sentia enorme pena
    da família do Fide.
  71. Um sábado fomos à vila dele
    fazer uma visita.

  72. A mãe dele mostrou-nos um cesto
    com um padrão lindo,
  73. feito de ráfia seca,
    que o irmão dele tinha feito.
  74. Eu fiquei atónita.
  75. Não me tinha ocorrido
    que alguém da família dele
  76. pudesse de facto criar qualquer coisa.
  77. Tudo o que sabia deles
    era que eram muito pobres,
  78. de forma que me era impossível vê-los
  79. de outro modo que não fosse pobres.
  80. A sua pobreza era
    a minha história única sobre eles.
  81. Anos mais tarde, pensei nisto
    quando deixei a Nigéria,

  82. para ir para a universidade
    nos Estados Unidos.
  83. Eu tinha 19 anos.
  84. A minha companheira de quarto americana
    ficou chocada comigo.
  85. Perguntou onde é que eu tinha aprendido
    a falar inglês tão bem,
  86. e ficou confusa quando eu disse
    que a Nigéria, por acaso,
  87. tinha o inglês como língua oficial.
  88. Perguntou se podia ouvir
    a minha "música tribal",
  89. e, por isso, ficou muito desapontada
  90. quando eu desencantei
    a minha cassete da Mariah Carey.
  91. (Risos)
  92. Ela presumiu que eu não sabia
    usar um fogão.
  93. O que me espantou foi isto:

  94. Ela tinha tido pena de mim
    mesmo antes de me ter visto.
  95. A sua posição base em relação a mim,
    enquanto africana,
  96. era uma espécie de piedade
    paternalista bem intencionada.
  97. A minha companheira de quarto
    tinha uma história única de África.
  98. Uma história única de catástrofe.
  99. Nesta história única
    não havia nenhuma possibilidade
  100. de os africanos serem semelhantes a ela.
  101. Nenhuma possibilidade de sentimentos
    mais complexos do que a piedade.
  102. Nenhuma possibilidade
    duma relação entre humanos iguais.
  103. Devo dizer que, antes de ir
    para os Estados Unidos,

  104. eu não me identificava
    conscientemente como africana.
  105. Mas nos EUA, sempre que África surgia,
    as pessoas voltavam-se para mim.
  106. Não importava que eu nada soubesse
    sobre locais como a Namíbia.
  107. Mas eu acabei por abraçar
    esta nova identidade.
  108. De muitas formas penso em mim mesma
    agora como africana,
  109. embora ainda me irrite bastante
  110. quando África é referida como um país.
  111. O exemplo mais recente
    foi o meu voo de Lagos
  112. — em tudo o resto maravilhoso —
  113. há dois dias, em que havia
    um anúncio no voo da Virgin
  114. sobre o trabalho de caridade
    na "Índia, África e outros países".
  115. (Risos)
  116. Depois de ter estado vários anos
    nos Estados Unidos, como africana,

  117. comecei a perceber a reacção da minha
    companheira de quarto para comigo.
  118. Se eu não tivesse crescido na Nigéria,
  119. e se tudo que eu soubesse sobre África
    fossem as imagens populares,
  120. também eu pensaria
    que a África era um local
  121. de belas paisagens, belos animais,
  122. e pessoas incompreensíveis,
  123. lutando guerras sem sentido,
    morrendo de pobreza e SIDA,
  124. incapazes de falar por si mesmas,
  125. e esperando ser salvas,
  126. por um meigo estrangeiro branco.
  127. Eu veria os africanos da mesma forma
  128. que eu, quando criança,
    tinha visto a família do Fide.
  129. Em última análise, acho
    que esta história única de África

  130. vem da literatura ocidental.
  131. Tenho aqui uma citação dum escrito
  132. de um mercador londrino
    chamado John Lok,
  133. que navegou até à África Ocidental em 1561
  134. e manteve uma descrição
    fascinante da sua viagem.
  135. Depois de se referir aos africanos negros
  136. como "animais que não têm casas", escreve:
  137. "Também há pessoas sem cabeça,
  138. "que têm a boca e os olhos nos seios".
  139. Eu rio-me sempre que leio isto.

  140. Temos de admirar
    a imaginação de John Lok.
  141. Mas o que é importante nesta escrita
  142. é que representa o início duma tradição
  143. de contar histórias africanas no Ocidente.
  144. Uma tradição duma África subsariana
    enquanto lugar de negativos,
  145. de diferença, de escuridão,
  146. de pessoas que, nas palavras
    do maravilhoso poeta, Rudyard Kipling,
  147. são "meio diabos, meio crianças".
  148. Então, comecei a perceber que
    a minha companheira de quarto americana

  149. devia ter, ao longo da vida,
  150. visto e ouvido diferentes versões
    desta história única.
  151. Tive um professor que uma vez me disse
  152. que o meu romance
    não era "genuinamente africano".
  153. Eu estava mais que disposta a aceitar
  154. que havia várias coisas erradas
    com o romance,
  155. que eu tinha falhado em vários locais.
  156. Mas não havia imaginado
    que tinha falhado
  157. em conseguir uma autenticidade africana.
  158. Na verdade eu não sabia
    o que era a "autenticidade Africana".
  159. O professor disse-me
    que as minhas personagens
  160. eram demasiado parecidas com ele,
  161. um homem com educação e de classe média.
  162. As minhas personagens conduziam carros,
  163. não estavam esfomeadas,
  164. portanto não eram genuinamente africanas.
  165. Mas tenho que acrescentar
    que também tenho culpas

  166. na questão da história única.
  167. Há uns anos, fui
    dos Estados Unidos ao México.
  168. Na altura, o clima político
    nos Estados Unidos era tenso.
  169. Havia debates a decorrer
    sobre a imigração.
  170. E, como muitas vezes acontece na América,
  171. a imigração tornou-se
    sinónimo de mexicanos.
  172. Havia histórias infindáveis de mexicanos
  173. enquanto pessoas
    que fugiam ao sistema de saúde,
  174. que se infiltravam pela fronteira,
  175. que eram presas na fronteira,
    esse tipo de coisa.
  176. Lembro-me de andar em Guadalajara
    no primeiro dia,

  177. vendo as pessoas a ir para o trabalho,
  178. a enrolar tortilhas no mercado,
  179. a fumar, a rir.
  180. Lembro-me que, a princípio,
    senti uma breve surpresa.
  181. Depois fiquei cheia de vergonha.
  182. Apercebi-me de que estava tão imersa
  183. na cobertura dos "media"
    sobre os mexicanos
  184. que eles se tinham tornado
    numa só coisa na minha cabeça,
  185. no abjecto imigrante.
  186. Eu tinha cedido
    à história única dos mexicanos
  187. e não podia sentir mais vergonha de mim.
  188. É assim que se cria uma história única.
  189. Mostra-se um povo como uma coisa,
  190. como uma só coisa,
  191. vezes sem conta,
  192. e é nisso que ele se torna.
  193. É impossível falar sobre a história única

  194. sem falar do poder.
  195. Há uma palavra, uma palavra malvada,
    em que penso,
  196. sempre que penso
    na a estrutura do poder no mundo.
  197. É "nkali".
  198. É um substantivo que se pode traduzir
    por "ser maior do que outro".
  199. Tal como os nossos mundos
    económico e político,
  200. as histórias também se definem
    pelo princípio do "nkali".
  201. Como são contadas, quem as conta,
  202. quando são contadas,
    quantas histórias são contadas,
  203. estão realmente dependentes do poder.
  204. O poder é a capacidade de contar
    a história de outra pessoa,

  205. tornando-a na história
    definitiva dessa pessoa.
  206. O poeta palestiniano
    Mourid Barghouti escreve:
  207. "Se quiseres desapropriar um povo,
  208. "a forma mais simples de o fazer
    é contar a sua história,
  209. "começando por 'Em segundo lugar'.
  210. "Começa a história pelas setas
    dos americanos nativos,
  211. "e não pela chegada dos britânicos,
  212. "e terás uma história
    completamente diferente.
  213. "Começa a história pelo fracasso
    do estado africano
  214. "e não pela criação colonial
    do estado africano,
  215. "e terás uma história
    totalmente diferente".
  216. Falei recentemente numa universidade

  217. onde um estudante me disse
    que era uma grande pena
  218. que os homens nigerianos
    fossem abusadores físicos
  219. como a personagem do pai no meu romance.
  220. Eu disse-lhe que tinha
    acabado de ler um romance
  221. chamado "Psicopata Americano"
  222. (Risos)
  223. e que era uma pena
    que os jovens americanos
  224. fossem assassinos em série.
  225. (Risos)
  226. (Aplausos)
  227. Obviamente eu disse isto
    num ataque de leve irritação.
  228. (Risos)
  229. Nunca me tinha ocorrido pensar

  230. que, só por ler um romance
  231. em que uma das personagens
    era um assassino em série,
  232. ele de alguma forma representaria
  233. todos os americanos.
  234. Não porque seja melhor pessoa
    do que o estudante,
  235. mas, dado o poder económico
    e cultural americano,
  236. eu tinha muitas histórias da América.
  237. Tinha lido Tyler, Updike,
    Steinbeck e Gaitskill.
  238. Eu não tinha uma história única
    da América.
  239. Quando soube, há uns anos,
    que se achava que os escritores

  240. que tinham tido infâncias
    bastante infelizes tivessem êxito,
  241. comecei a pensar como poderia inventar
  242. coisas horríveis
    que os meus pais me tivessem feito.
  243. (Risos)
  244. Mas a verdade é que eu tive
    uma infância muito feliz,
  245. cheia de riso e amor,
    numa família muito unida.
  246. Mas também tive avós que morreram
    em campos de refugiados.

  247. O meu primo Polle morreu
  248. porque não teve
    assistência médica adequada.
  249. Um dos meus amigos mais próximos,
    Okoloma, morreu num desastre de avião
  250. porque os camiões dos bombeiros
    não tinham água.
  251. Cresci sob governos militares repressivos
  252. que desvalorizavam o ensino,
  253. ao ponto de, por vezes, os meus pais
    não receberem os salários.
  254. Por isso, quando criança,
  255. vi a geleia desaparecer
    da mesa do pequeno-almoço,
  256. depois desapareceu a margarina,
  257. depois o pão ficou muito caro,
  258. depois foi o leite
    que teve de ser racionado.
  259. E acima de tudo,
    um medo político normalizado
  260. invadiu as nossas vidas.
  261. Todas estas histórias
    fazem de mim quem eu sou.

  262. Mas insistir apenas
    nestas histórias negativas
  263. é minimizar a minha experiência,
  264. e esquecer tantas outras histórias
    que me formaram.
  265. A história única cria estereótipos.
  266. E o problema com os estereótipos
  267. não é eles serem mentira,
    é serem incompletos.
  268. Fazem com que uma história
    se torne na única história.
  269. Claro que a África é um continente
    cheio de catástrofes.

  270. Há as que são imensas,
    como as horripilantes violações no Congo.
  271. Há as deprimentes, como o facto
    de 5000 pessoas se candidatarem
  272. a uma única vaga de emprego na Nigéria.
  273. Mas há outras histórias
    que não são sobre catástrofes.
  274. E é muito importante,
    é igualmente importante falar sobre elas.
  275. Sempre senti que é impossível

  276. relacionar-me adequadamente
    com um lugar ou uma pessoa
  277. sem me relacionar com todas
    as histórias desse lugar ou pessoa.
  278. A consequência da história única é isto:
  279. rouba a dignidade às pessoas.
  280. Torna difícil o reconhecimento
    da nossa humanidade partilhada.
  281. Realça aquilo em que somos diferentes
  282. em vez daquilo em que somos semelhantes.
  283. O que aconteceria se,
    antes da minha viagem ao México,

  284. eu tivesse seguido o debate
    sobre a imigração segundo os dois lados,
  285. o dos Estados Unidos e o do México?
  286. E se a minha mãe nos tivesse contado
  287. que a família do Fide
    era pobre e trabalhadora?
  288. E se nós tivéssemos
    uma rede televisiva africana
  289. que divulgasse diversas histórias
    africanas para todo o mundo?
  290. Aquilo a que o escritor nigeriano
    Chinua Achebe chama
  291. "um equilíbrio de histórias".
  292. E se a minha companheira de quarto
    conhecesse o meu editor nigeriano,

  293. Muhtar Bakare,
  294. um homem notável que deixou
    o seu emprego num banco
  295. para seguir o seu sonho
    e lançar uma editora?
  296. A sabedoria popular ditava
    que os nigerianos não leem literatura.
  297. Ele discordava.
  298. Ele sentia que as pessoas
    que sabiam ler, iriam ler,
  299. se a literatura fosse acessível
    e disponível para eles.
  300. Pouco depois de ele ter publicado
    o meu primeiro romance

  301. fui a uma estação de televisão
    em Lagos para ser entrevistada.
  302. Uma mulher que trabalhava lá
    como moça de recados, disse-me:
  303. "Gostei muito do seu romance,
    não gostei foi do final.
  304. "Agora tem de escrever uma sequela,
    e isto é o que vai acontecer..."
  305. (Risos)
  306. E continuou, a dizer-me
    o que escrever na sequela.
  307. Não fiquei só encantada,
    fiquei muito comovida.
  308. Estava ali uma mulher,
    pertencente ao comum dos nigerianos,
  309. que supostamente não seriam leitores.
  310. Não só tinha lido o livro,
    como se apropriara dele,
  311. sentindo-se no direito de me dizer
  312. o que escrever na sequela.
  313. E se a minha companheira de quarto
    conhecesse a minha amiga Fumi Onda,

  314. uma mulher intrépida que é anfitriã
    dum programa televisivo em Lagos,
  315. e que está determinada em contar
    as histórias que preferíamos esquecer?
  316. E se a minha companheira de quarto
    soubesse da cirurgia ao coração
  317. que foi levada a cabo no hospital
    de Lagos na semana passada?
  318. E se a minha companheira de quarto
    ouvisse música nigeriana contemporânea?
  319. Pessoas talentosas
    a cantar em inglês e pidgin,
  320. em Igbo, em yoruba e em ijo,
  321. misturando influências de Jay-Z a Fela
  322. de Bob Marley aos seus avós.
  323. E se a minha companheira de quarto
    soubesse da advogada
  324. que recentemente foi a tribunal na Nigéria
  325. contestar uma lei ridícula
  326. que exigia que as mulheres
    tivessem o consentimento dos maridos
  327. antes de renovar os seus passaportes?
  328. E se a minha companheira de quarto
    conhecesse Nollywood,
  329. cheio de pessoas inovadoras a fazer filmes
    apesar de grandes dificuldades técnicas?
  330. Filmes tão populares que, na verdade,
    são o melhor exemplo
  331. dos nigerianos a consumirem
    o que produzem.
  332. E se ela soubesse
    da minha entrançadora de cabelo,
  333. extremamente ambiciosa,
  334. que acaba de começar um negócio
    de venda de extensões de cabelo?
  335. Ou sobre os milhões de outros nigerianos
  336. que começam os seus negócios,
    e por vezes fracassam,
  337. mas continuam a alimentar a ambição?
  338. Sempre que estou em casa, sou confrontada

  339. com as fontes habituais de irritação
    da maioria dos nigerianos:
  340. as nossa infraestruturas falhadas,
    o nosso governo fracassado.
  341. Mas também pela incrível
    resistência de pessoas
  342. que florescem, apesar do governo,
  343. em vez de devido a ele.
  344. Ensino "workshops" de escrita
    em Lagos todos os Verões.
  345. E acho extraordinário o número
    de pessoas que se inscrevem,
  346. quantas pessoas estão ansiosas
    por escrever, por contar histórias.
  347. O meu editor nigeriano e eu acabamos
    de lançar uma sociedade não-lucrativa

  348. chamada Fundo Farafina.
  349. Temos grandes sonhos
    de construir bibliotecas
  350. e renovar bibliotecas que já existem,
  351. e providenciar livros a escolas estatais
  352. que nada têm nas suas bibliotecas,
  353. e também de organizar muitos "workshops"
    de leitura e escrita,
  354. para todas as pessoas que estão ansiosas
    por contar as nossas muitas histórias.
  355. As histórias são importantes.
  356. Muitas histórias são importantes.
  357. As histórias têm sido usadas
    para desapropriar e tornar maligno.
  358. Mas as histórias também podem ser usadas
    para dar poder e para humanizar.
  359. As histórias podem quebrar
    a dignidade de um povo.
  360. Mas as histórias também podem
    reparar essa dignidade quebrada.
  361. A escritora americana Alice Walker
    escreveu isto

  362. sobre os seus parentes sulistas
    que se mudaram para norte.
  363. Ela introduzi-os num livro
    sobre a vida sulista
  364. que eles tinham deixado para trás.
  365. "Eles sentaram-se em volta, lendo o livro,
  366. "ouvindo-me ler o livro,
    e reconquistaram uma espécie de paraíso".
  367. Gostava de terminar com este pensamento:
  368. Quando rejeitamos a história única,
  369. quando nos apercebemos
  370. de que nunca há uma história única
    sobre nenhum lugar,
  371. reconquistamos uma espécie de paraíso.
  372. Obrigada.
  373. (Aplausos)