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← O que estamos a fazer de errado na batalha contra a fome

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Showing Revision 100 created 03/19/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Em junho de 2017,
  2. fui voluntária num grupo
    num banco alimentar local
  3. no lado sul da minha cidade natal
  4. em Atlanta, na Georgia.
  5. Era uma tarde de sexta-feira,
  6. dia da doação semanal de alimentos.
  7. Enquanto conduzia,
    via as pessoas a chegar,
  8. muitas delas com os carrinhos a reboque,
  9. preparadas para receber
    os alimentos para a semana.
  10. Ao entrar, vi cerca
    de 40 pessoas do lado de fora,
  11. a esperar na fila.
  12. Eu estava muito animada,
  13. porque há pouquíssimas coisas
    que gosto mais do que retribuir.
  14. Porém, ao entrar na sala
    onde havia a reunião dos voluntários,

  15. percebi logo:
  16. não íamos dar a essas pessoas
    refeições de verdade.
  17. Apenas lhes íamos dar alimentos.
  18. Ocupei o meu lugar na linha de produção,
    onde — imaginem —
  19. eu tinha de assegurar que
    os bolinhos dos Vigilantes do Peso
  20. chegavam aos sacos de todas as famílias.
  21. Assim que os sacos começaram a passar,

  22. pensei para comigo:
  23. O que é que estamos aqui a fazer?
  24. Cada saco continha
    dois sumos dieta de 600 ml
  25. quatro litros de molho de churrasco,
  26. um pacote de batatas fritas,
  27. uma caixa de esparguete enriquecido
    com legumes em forma de super-herói,
  28. uma caixa de barras de cereais,
  29. uma lata de feijão cozido e amassado,
  30. uma lata de ervilhas,
  31. e uma lata pequena de milho.
  32. Não consigo esquecer aqueles bolinhos
  33. e as cebolinhas fritas,
  34. sabem, aquelas que ficam a boiar
    numa caçarola de feijão verde.
  35. E era tudo.
  36. Naquele dia preparámos
    mais de 100 desses sacos,
  37. e as pessoas esperavam
    em fila para receber um deles.
  38. Mas fui tomada por um sentimento;
  39. senti-me mal, um pouco irritada.
  40. Como poderia sentir-me bem
    com o trabalho que fazia
  41. quando eu sabia que,
    de facto, nenhuma refeição viria
  42. dos alimentos que acabávamos de dar
    a mais de 100 famílias?
  43. Ou seja, quem quer uma refeição
    com molho de churrasco e bolinhos?
  44. (Risos)

  45. E, na verdade,

  46. eu fizera parte desse processo
    a vida toda.
  47. Participei na distribuição de alimentos,
  48. recolhi latas desde criança,
  49. fiz doações na mercearia
    mais vezes do que posso contar,
  50. fui voluntária em abrigos,
    trabalhei em centros de distribuição
  51. e tenho a certeza de que
    muitos de vocês também.
  52. Em 2013, até criei
    um restaurante itinerante
  53. chamado Sunday Soul.
  54. Aluguei mesas, cadeiras e toalhas
    e imprimi ementas
  55. e levei essas experiências para becos,
  56. por baixo de pontes e em parques,
  57. para permitir que pessoas desalojadas
  58. jantassem com dignidade.
  59. Comprometi-me nessa luta
    durante algum tempo.
  60. Em quase todas as grandes cidades dos EUA,

  61. o banco alimentar é uma
    instituição comunitária muito estimada.
  62. As empresas enviam voluntários
    semanalmente
  63. para selecionar os alimentos
    e preparar as caixas para os que precisam.
  64. As entregas de enlatados
  65. aquecem o coração de escolas
    e escritórios que participam
  66. e enchem as prateleiras dos bancos
    alimentares e despensas de todo o país.
  67. É assim que trabalhamos
    para acabar com a fome.
  68. E acabei por perceber
  69. que tratamos a fome de modo errado.
  70. Estamos a fazer as mesmas coisas,
  71. repetidamente,
  72. esperando um resultado diferente.
  73. Criámos um ciclo
  74. que mantém as pessoas dependentes
    dos bancos e despensas alimentares
  75. para alimentos que, geralmente,
    não estão bem equilibrados
  76. e, certamente, não lhes oferecem
    refeições saudáveis.
  77. Nos EUA, a nossa abordagem
    para fazer o bem,

  78. aquilo a que chamamos "caridade",
  79. tem-nos impedido
    de fazer progressos concretos.
  80. Educamos o mundo sobre quantas pessoas
    têm insegurança alimentar.
  81. Há anúncios na televisão,
    painéis publicitários,
  82. doações enormes,
  83. e o envolvimento nesta luta de algumas
    das nossas maiores celebridades.
  84. Mas a realidade é que,
    mesmo com todo esse trabalho,
  85. milhões de pessoas
    continuam a passar fome.
  86. E nós podemos fazer melhor.
  87. No mundo, 821 milhões
    de pessoas passam fome.
  88. É uma em cada nove pessoas neste planeta.
  89. Aqui nos EUA,

  90. quase 40 milhões de pessoas
    passam fome todos os anos,
  91. inclusive mais de 11 milhões de crianças
  92. que se deitam famintas todas as noites.
  93. Porém, desperdiçamos
    mais alimentos do que nunca:
  94. Mais de 36 milhões de toneladas por ano,
  95. para ser exata.
  96. A EPA estima que o desperdício
    de alimentos mais do que duplicou
  97. entre 1970 e 2017,
  98. e agora representa 27% de tudo
    o que está nos aterros sanitários.
  99. Enquanto os alimentos
    ali apodrecem gradualmente
  100. e produzem gás metano prejudicial,
  101. um importante responsável
    pela alteração climática mundial,
  102. temos o desperdício do alimento em si,
  103. o desperdício de todo o dinheiro associado
    à produção desses alimentos desperdiçados
  104. e o desperdício do trabalho
    com tudo o que foi mencionado.
  105. E finalmente há a desigualdade social
  106. entre as pessoas que precisam
    de alimentos, e não os conseguem,
  107. e as pessoas que os têm em demasia
    e simplesmente os deitam fora.
  108. Tudo isso fez-me perceber que a fome
    não era um problema de escassez,

  109. mas uma questão de logística.
  110. Em 2017, decidi vencer a fome
    usando a tecnologia.
  111. Afinal, os aplicativos de entrega
    de alimentos começaram a espalhar-se
  112. e achei que podíamos fazer
    engenharia inversa dessa tecnologia
  113. e obter alimentos de empresas,
    como restaurantes e mercearias,
  114. e entregá-los às pessoas necessitadas.
  115. Acredito que a tecnologia e a inovação
  116. têm o poder de resolver problemas reais,
  117. principalmente a fome.
  118. Então, em 2017, criei um aplicativo

  119. que fazia o inventário de tudo
    o que uma empresa vende
  120. e tornava super fácil a doação
    do excesso de alimentos
  121. que, habitualmente, seria deitado fora
    no final da noite.
  122. Agora o utilizador só precisa
    de clicar num item,
  123. informar quanto tem para doar,
  124. e a plataforma calcula
    o peso e o valor tributário
  125. dos itens no momento da doação.
  126. Depois, contactamos motoristas locais
    na economia partilhada
  127. para recolher os alimentos
    e entregá-los diretamente à porta
  128. de organizações sem fins lucrativos
    e de necessitados.
  129. Providenciei os dados e as análises
  130. para ajudar as empresas a reduzir
    o desperdício na origem,
  131. informando os itens
    que desperdiçam repetidamente
  132. e de forma regular.
  133. E elas até economizaram
    milhões de dólares.
  134. A nossa missão era simples:
  135. alimentar mais, desperdiçar menos.
  136. Em 2018, um dos nossos clientes incluía
    o aeroporto mais movimentado do mundo:
  137. o Hartsfield-Jackson em Atlanta.
  138. Trabalhávamos com marcas e empresas
  139. como a Hormel, a Chick-fil-A
    e o Papa John's.
  140. Até tivemos a oportunidade
    de trabalhar com a NFL
  141. para a 53.ª edição do Super Bowl.
  142. Nos últimos dois anos, temos trabalhado
    com mais de 200 empresas
  143. para desviar mais de 900 toneladas
    de alimentos comestíveis
  144. de aterros sanitários
    para os que mais precisam.
  145. (Aplausos)

  146. Obrigada.

  147. (Aplausos)

  148. Isso representa cerca
    de 1,7 milhão de refeições

  149. e permitiu-nos começar a alargar
    os nossos esforços a outras cidades
  150. como Washington D.C., Chicago,
    Miami, Filadélfia e muito mais.
  151. Esta é só uma abordagem
    que apenas aborda o problema.

  152. Outra foi o lançamento
    das nossas mercearias temporárias.
  153. Recuperamos o excesso
    de alimentos das empresas
  154. e formamos mercearias comunitárias
    gratuitas no meio de desertos alimentares.
  155. Apresentamos um "chef",
  156. fazemos testes de sabor no local
    e as famílias levam as receitas.
  157. Damos a cada família sacos reutilizáveis
    e permitimos que façam compras
  158. sem a etiqueta de preço.
  159. Queríamos dar às pessoas
    acesso a refeições
  160. e não apenas a alimentos.
  161. Queríamos mudar o modo como pensamos
    e trabalhamos para erradicar a fome,
  162. convencer as pessoas
    de que podemos erradicar a fome,
  163. não enquanto organização,
    ou banco alimentar,
  164. mas como uma iniciativa social,
  165. que visa reduzir o desperdício
    e acabar com a fome.
  166. Mas não tem sido tão fácil
    como eu julgava
  167. mudar a narrativa
    e o processo de pensamento
  168. sobre como pensamos poder
    resolver o problema da fome.
  169. Em 2016, a França
    tornou-se o primeiro país

  170. a proibir os supermercados
    de deitar fora alimentos não utilizados.
  171. Em vez disso, eles devem doá-los
  172. e são multados se não fizerem isso.
  173. Sim.

  174. (Aplausos)

  175. Em 2017, a Itália seguiu o exemplo,

  176. tornando-se o segundo país europeu
  177. a proibir o desperdício de alimentos.
  178. Foi apresentada de forma tão simples
    quanto foi aprovada:
  179. "Temos milhares de toneladas
    de alimentos bons que vão para o lixo
  180. "e pessoas pobres que passam fome".
  181. Tão simples como isto.
  182. A Dinamarca tem uma mercearia
    para alimentos desperdiçados.

  183. Chama-se Wefood.
  184. Recuperam o excesso de alimentos
    de mercearias locais
  185. e vendem-no com descontos até 50%.
  186. Depois doam todas as receitas
    a programas de ajuda a emergências
  187. e questões de necessidade social
    para as pessoas necessitadas.
  188. Foi aclamada como
    "a mercearia da boa vontade".
  189. No ano passado, o mundo ganhou
    a primeira mercearia "pague o que puder":

  190. quando abriu a Feed it Forward,
    em Toronto.
  191. As prateleiras são abastecidas,
    com o excesso de alimentos
  192. provenientes dos supermercados
  193. e permitem que as famílias
    paguem apenas o que puderem
  194. naquela mercearia.
  195. Isto é incrível.

  196. É desta inovação que nós mais precisamos.
  197. Todos podemos contribuir
    para a mudança de atitudes
  198. e para a forma como erradicar a fome.
  199. Quando pensamos
    em como permitimos que a tecnologia
  200. mudasse a nossa vida
  201. como comunicamos uns com os outros,
  202. como olhamos para o entretenimento
  203. ou como recebemos comida,
  204. é incrível que ainda
    não tenhamos erradicado a fome.
  205. Temos carros que podem
    conduzir sozinhos
  206. e milhões de pessoas
    que não conseguem alimentar-se.
  207. Com milhões de dólares em doações
    para acabar com a insegurança alimentar,
  208. devíamos ter erradicado a fome
    há anos.
  209. Eu pergunto-me...
  210. (Aplausos)

  211. Eu pergunto-me:
    Porque não escapamos deste ciclo vicioso?

  212. Porque ainda não resolvemos este problema?
  213. Lembro-me de encontrar
    investidores e lançar a ideia,
  214. tentando arrecadar fundos
    para o meu negócio
  215. e um dele me dizer, muito a sério:
  216. "A fome é um problema já resolvido".
  217. Como se milhares não se fossem deitar
    famintas todos os dias,
  218. como se não houvesse mais nada a fazer.
  219. E a realidade é esta:
  220. Há quem pense
    que a fome está a desaparecer
  221. mas a verdade é que
    nós estamos a tentar.
  222. Se queremos combater a fome,

  223. então, temos de mudar a forma
    como o estamos a fazer.
  224. As mesmas ações vão gerar sempre
    os mesmos resultados.
  225. Há centenas de empresários sociais
    em todo o mundo.
  226. Eles estão focados em resolver
    problemas graves como a fome,
  227. mas nunca receberão o mesmo apoio
  228. que damos a outras organizações
    e bancos alimentares
  229. Mas, se lhes derem uma oportunidade,
  230. eles são capazes de gerar novas ideias
  231. e talvez sejam pioneiros o suficiente
    para resolverem este problema.
  232. Por isso, viajo pelo mundo,

  233. relatando como é a fome nos EUA
  234. e explicando a diferença
    entre dar acesso a alimentos
  235. e dar acesso a refeições.
  236. Tenho encontrado membros
    do conselho da cidade
  237. e organizadores de cidades
    por todos os EUA
  238. para lhes dizer que a tecnologia,
    de facto, tem o poder
  239. de integrar empresas
    e alimentos excedentes
  240. para os que precisam
  241. e explicar o que uma refeição
    realmente significa para uma família.
  242. Tenho reunido com conselhos
    e distritos escolares
  243. para dizer como alimentamos
    crianças famintas.
  244. Organizações de saúde
  245. têm propagado que alimento é saúde,
  246. alimento é vida
  247. e que, combatendo a fome,
    podemos resolver uma série de problemas.
  248. Então, se queremos saber
    que não vivemos numa nação

  249. onde comida em bom estado é desperdiçada
  250. enquanto os nossos vizinhos
    não têm nada para comer,
  251. precisamos de mudar as leis.
  252. Precisamos de novas políticas.
  253. E o mais importante, precisamos
    de mudar de mentalidade e de atitudes.
  254. Distribuir alimentos é bom.
  255. Os bancos alimentares cumprem
    um objetivo importante.
  256. E sim, às vezes eu também
    gosto de bolinhos.
  257. Mas a distribuição de alimentos
    não irá combater a fome.
  258. E se soubermos ligar os pontos
    que estão mesmo à nossa frente,
  259. poderemos fazer muito mais
    por uma família
  260. do que fornecer uma caixa de esparguete
    enriquecido com vegetais
  261. e quatro litros de molho de churrasco
  262. para se alimentarem.
  263. Podemos, em vez disso,
    dar-lhes dignidade.
  264. Talvez possamos aumentar
    a frequência nas escolas.
  265. Podemos melhorar a saúde de milhões.
  266. E, o mais importante, podemos
    reduzir os alimentos em aterros,
  267. criando um ambiente melhor
    para todos nós.
  268. Aquilo de que mais gosto é que podemos
    sentir-nos bem durante o processo.

  269. Se erradicarmos a fome,
  270. não teremos nada a perder e tudo a ganhar.
  271. Então, vamos lá.
  272. Obrigada.

  273. (Aplausos)

  274. Obrigada.