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← Como a pornografia muda a forma como os adolescentes pensam sobre sexo

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Showing Revision 15 created 03/22/2020 by Margarida Ferreira.

  1. [Esta palestra contém conteúdo adulto]
  2. Aqui há seis anos,
  3. eu descobri algo que cientistas
    estavam a querer saber há anos.
  4. Como prender a atenção
  5. de uma sala cheia de adolescentes
    extremamente entediados?
  6. Parece que basta mencionar
    a palavra pornografia.
  7. (Risos)

  8. Vou contar como aprendi isso.

  9. Em 2012, eu estava sentada numa sala
    cheia de estudantes do secundário.
  10. que estavam a participar
    num programa pós-escolar em Boston.
  11. O meu trabalho,
    como convidada oradora do dia,
  12. era inspirá-los a pensar
    como seria excitante
  13. ter uma carreira em saúde pública.
  14. O problema era
  15. que, ao olhar para as caras deles,
  16. eu podia ver que olhavam
    para todos os lados,
  17. e não mostravam interesse.
  18. Nem sequer importou
    o que eu estava a usar,
  19. o que eu pensei que era
    uma roupa gira naquele dia.
  20. Eu estava a perder o meu público,
  21. Então, um dos dois adultos
    que trabalhavam no programa disse:
  22. "Você não está a fazer
    uma pesquisa sobre pornografia?
  23. "Talvez pudesse falar sobre isso."
  24. De repente, aquela sala
    cheia de estudantes
  25. explodiu em gargalhadas,
    "dá cá cinco".
  26. Eu acho que até ouvi uivos
    e barulhos engraçados.
  27. Só porque alguém disse
    uma palavra, pornografia.
  28. Aquele momento provaria ser
    um importante ponto de viragem
  29. para mim e para a minha missão
    profissional de achar soluções
  30. para acabar com a violência
    no namoro e na relação sexual.
  31. Naquele momento, eu estava a trabalhar
    há mais de uma década

  32. com esse problema de violência
    no namoro, aparentemente incurável,
  33. Os dados do Centro para Controlo
    e Prevenção de Doenças
  34. mostram que um em cinco jovens
    do ensino secundário
  35. experimentam violência física e/ou sexual
  36. de um companheiro,
    todos os anos nos EUA.
  37. Isto torna a violência no namoro
    mais frequente
  38. do que o "bullying" dentro da escola,

  39. do que pensar a sério em suicídio,
  40. do que o uso do cigarro eletrónico,
  41. nessa mesma população.
  42. Mas as soluções apresentavam-se esquivas.
  43. Eu estava a trabalhar
    com uma equipa
  44. que estava a procurar
    novas respostas para a pergunta:
  45. O que está a provocar o namoro abusivo,
    e como acabamos com isso?
  46. Um dos estudos de investigação
    em que estávamos a trabalhar na época,
  47. incluía algumas perguntas
    sobre pornografia.
  48. E algo inesperado estava a surgir
    nas nossas descobertas.
  49. Uns 11% das adolescentes
    na nossa amostra
  50. declararam que tinham sido
    forçadas ou ameaçadas
  51. a fazer coisas sexuais
    que o autor vira na pornografia.
  52. Isso deixou-me curiosa.
  53. Seria a pornografia culpada por alguma
    percentagem de violência nos namoros?

  54. Ou era mais uma coincidência
    que os utilizadores de pornografia
  55. também tivessem uma tendência maior
    de terem relações não-saudáveis?
  56. Eu investiguei, lendo tudo que podia
  57. da literatura revista pelos pares,
  58. e realizando a minha própria investigação.
  59. Eu queria saber
  60. a que tipo de "media" sexuais
    os jovens estavam a assistir,

  61. com que frequência e porquê,
  62. e ver se conseguia entender
  63. se isso fazia parte da razão
  64. por tantas das suas relações serem
    aparentemente pouco saudáveis.
  65. Ao ler, tentei manter a mente aberta,

  66. mesmo que a maior parte da opinião pública
  67. já estivesse com uma opinião formada
    sobre o assunto.
  68. Porque é que eu manteria
    a mente aberta sobre pornografia?
  69. Bem, tenho formação de cientista social,
  70. então a minha obrigação é ser objetiva.
  71. Mas também sou aquilo
    a que as pessoas chamam "sex-positive".
  72. Isso significa que eu apoio totalmente
    os direitos das pessoas
  73. de desfrutarem de qualquer tipo
    de vida sexual que as realize,
  74. seja o que for que isso envolva,
  75. contanto que isso inclua
    o consentimento entusiasmado
  76. de todas as partes envolvidas.
  77. Dito isso, eu pessoalmente
    não estava inclinada a ver pornografia.
  78. Eu vi um pouco, realmente
    não mexeu nada comigo.
  79. E como mãe de dois quase adolescentes,
  80. eu tinha as minhas preocupações
  81. sobre o que ver pornografia
    lhes podia fazer.
  82. Eu reparei que, embora
    houvesse muitas pessoas

  83. a denunciar pornografia,
  84. também havia pessoas
    que eram leais defensoras
  85. por diversas razões.
  86. Então, na minha exploração académica,
  87. genuinamente tentei entender:
  88. A pornografia seria má para vocês,
    ou seria boa para vocês?
  89. Seria misógina ou seria empoderadora?
  90. E não havia uma única resposta
    que surgisse claramente.
  91. Havia um estudo longitudinal
    que me preocupou,
  92. que mostrava que os adolescentes
    que assistiam a pornografia
  93. mostravam-se mais inclinados
    a praticar violência sexual.
  94. Mas o "design" do estudo
  95. não permitiu conclusões
    causais definitivas.
  96. E havia outros estudos
    que não encontraram
  97. que o uso de pornografia
    pelos adolescentes
  98. estava associado a certos
    efeitos negativos.
  99. E havia outros estudos
    que acharam que sim.
  100. Enquanto falava
    com outros especialistas,

  101. eu senti uma tremenda pressão
    para escolher um lado sobre a pornografia.
  102. Escolher uma equipa ou a outra.
  103. Até me disseram
    que eu era "pobre de espírito"
  104. por não conseguir escolher
    a correta resposta sobre pornografia.
  105. E era complicado,
  106. porque existe uma indústria
  107. que está a capitalizar
    com o fascínio do público
  108. em ver, principalmente, mulheres
    não apenas a fazer sexo,
  109. mas a serem sufocadas,
    amordaçadas, esbofeteadas,
  110. cobertas de cuspidelas, de ejaculações,
  111. chamadas por nomes degradantes
    várias vezes durante o sexo,
  112. e, claramente, nem sempre
    com a sua concordância.
  113. A maioria das pessoas concordaria
    que temos um sério problema
  114. com a misoginia, a violência sexual
    e a violação nesse país,
  115. e a pornografia provavelmente
    não está a ajudar com nada disso.
  116. E um problema crítico para mim
    era que, durante mais de um século
  117. a posição anti-pornografia
    foi usada como pretexto
  118. para discriminar "gays" e lésbicas
  119. ou pessoas que têm fantasias ou fetiches.
  120. Então, eu percebo porque é
    que, por um lado,
  121. poderíamos estar preocupados
    com a mensagem que a pornografia passa
  122. e, por outro lado,
  123. podemos estar preocupados
    em exagerá-lo.
  124. Durante os dois anos seguintes,

  125. olhei para todos os relatos terríveis,
    amedrontadores, que pude achar
  126. sobre a idade média em que se vê
    pornografia pela primeira vez
  127. ou o que ela faz ao cérebro
    ou à sexualidade.
  128. Isto é o que eu tenho para mostrar.
  129. A pornografia gratuita, "online", comum,
  130. do tipo que os adolescentes
    estão acostumados a ver,
  131. é uma forma terrível
    de educação sexual.
  132. (Risos)

  133. (Aplausos)

  134. Mas não é essa a sua intenção.

  135. E, provavelmente, não está
    a envenenar tanto as mentes deles
  136. ou a torná-los utilizadores compulsivos,
  137. como algumas ideologias
    querem que eles acreditem.
  138. É raro uma pessoa não ter visto
    alguma pornografia na juventude.
  139. Ao chegar aos 18 anos,
  140. uns 93% dos estudantes universitários
    masculinos e 62% das femininas
  141. assistiram pornografia
    pelo menos uma vez.
  142. E apesar de as pessoas falarem
  143. que a Internet fez da pornografia
    algo omnipresente,
  144. ou, basicamente, garante
    que qualquer criança
  145. que tenha um "smartphone"
    vai, definitivamente, ver pornografia,
  146. os dados não comprovam isso.
  147. Um estudo nacionalmente representativo
    descobriu que, no ano 2000,
  148. 16% de jovens entre os 10 e os 13 anos
  149. relataram que assistiram
    pornografia no ano anterior.
  150. E no ano de 2010,
    esse número havia aumentado.
  151. Mas apenas para 30%.
  152. Então, não era toda a gente.
  153. Os nossos problemas com adolescentes
    e a prática de violência sexual

  154. não é somente
    por causa da pornografia.
  155. Na verdade, um estudo recente
  156. descobriu que adolescentes
    veem mais imagens sexuais
  157. noutros tipos de "media"
    do que em pornografia.
  158. Pensem em todos aqueles
    videojogos sexualizados,
  159. ou programas de TV,
    ou vídeos de música.
  160. E pode acontecer que seja a exposição
    a um volume constante de "media" violentos
  161. que, em vez das imagens sexualizadas,
    ou em conjunto com elas,
  162. esteja a causar os nossos problemas.
  163. Se nos focarmos apenas
    nos possíveis males da pornografia,
  164. podemos estar a desviar-nos
    de problemas mais graves.
  165. Ou perdendo as raízes causais
    do namoro e violência sexual,
  166. que são a real crise de saúde pública.
  167. Dito isso, até a minha própria pesquisa

  168. demonstra que os adolescentes
    voltam-se para a pornografia
  169. para aprenderem
    e informarem-se sobre o sexo.
  170. Isso porque eles não encontram
  171. uma informação fiável
    e factual noutro lugar.
  172. Menos de 50% dos estados
    dos Estados Unidos
  173. exigem que haja educação sexual
    ensinada nas escolas,
  174. incluindo como impedir
    sexo coercivo.
  175. E menos da metade desses estados
  176. exigem que a informação apresentada
    seja medicamente rigorosa.
  177. Então, naquele programa
    pós-escolar de Boston,

  178. aqueles jovens queriam mesmo
    falar sobre sexo,
  179. e queriam mesmo
    falar sobre pornografia.
  180. E queriam falar sobre essas coisas
  181. muito mais do que queriam
    falar sobre namoro ou violência sexual.
  182. Então, percebemos
    que podíamos cobrir
  183. todos os tópicos
    de que normalmente falamos
  184. sob o pretexto da educação
    de relações saudáveis,
  185. tal como, qual a definição
    de sexo consensual?
  186. Ou, como vocês sabem se estão
    a magoar alguém durante o sexo?
  187. Ou quais são os limites saudáveis
    quando estão a namoriscar?
  188. Podemos discutir todas estas coisas
  189. usando a pornografia
    como ponto inicial
  190. para a nossa conversa.
  191. É como quando os adultos
    dão doces às crianças
  192. mas, secretamente, colocam lá dentro
    uma curgete ou algo saudável.
  193. (Risos)

  194. Podemos falar com as crianças
    sobre as coisas saudáveis,

  195. as coisas boas para vocês
  196. mas esconder qualquer coisa
    dentro da conversa
  197. que era sobre algo que eles
    pensavam que queriam falar.
  198. Nós também descobrimos algo
  199. que nós não estávamos à procura.
  200. Há uma forma fantástica
    de ter uma conversa com adolescentes
  201. sobre pornografia.
  202. E que é manter a conversa
    fiel à ciência.
  203. Reconhecer o que sabemos
    e o que não sabemos
  204. sobre o impacto da pornografia.
  205. Falar sobre onde existem
    resultados misturados
  206. ou onde há fraquezas
    nos estudos que foram realizados.
  207. Convidar os adolescentes a tornarem-se
    consumidores críticos
  208. da pesquisa literária em pornografia,
  209. assim como da pornografia em si.
  210. Isso realmente combina
    com o desenvolvimento adolescente.
  211. Os adolescentes gostam
    de questionar as coisas
  212. e gostam de ser convidados
    a pensar por eles mesmos.
  213. Percebemos,
    ao começar a experimentar,

  214. dando algumas aulas sobre consenso,
    respeito e pornografia,
  215. que tentar amedrontar adolescentes
    sobre um ponto de vista em particular
  216. ou enfiar um argumento rígido
    sobre pornografia pela goela abaixo,
  217. não apenas, provavelmente,
    não funciona,
  218. mas também não é
    o tipo de comportamento
  219. respeitável e consensual
    que queremos que eles aprendam.
  220. Então, a nossa abordagem,
    a que chamamos literacia pornográfica
  221. é sobre apresentar a verdade
    sobre pornografia
  222. com o melhor de nosso conhecimento,
  223. sendo que existe uma base de evidências
    em constante mudança.
  224. Quando as pessoas ouvem que ensinamos
    18 horas de aula, em sessões de nove horas
  225. em literatura pornográfica
    para adolescentes,
  226. acho que pensam que os obrigamos
    a ficarem sentados,
  227. tentando mostrar-lhes
    como assistir a pornografia
  228. — coisa que não fazemos —
  229. ou que fazemos parte
    de um grupo anti-pornografia,
  230. que está a tentar convencê-los
    que assistir a pornografia
  231. seria a pior coisa para a saúde deles.
  232. Mas também não é isso.
  233. O nosso ingrediente secreto
    é que não fazemos julgamentos.

  234. Não achamos que os jovens
    devam assistir a pornografia.
  235. Mas, acima de tudo, queremos
    que pensem de forma crítica
  236. se e quando assistirem.
  237. E aprendemos,
  238. pelo número de pedidos,
    pelo nosso programa
  239. e pela nossa formação
    de todos os EUA e não só,

  240. que há muitos pais
    e muitos professores
  241. que querem ter
    conversas mais moderadas
  242. e reais com adolescentes
    sobre pornografia.
  243. Tivemos pedidos desde Utah até Vermont,
  244. até Alabama, até ao Havai.
  245. Então, naquele programa pós-escolar,

  246. o que eu vi foi que, a partir do minuto
    que mencionei a palavra pornografia
  247. aqueles miúdos estavam prontos
    para mergulhar num debate
  248. sobre o que eles queriam
    e não queriam ver na pornografia
  249. e sobre o que eles queriam
    e o que não queriam durante o sexo.
  250. E o que era degradante para as mulheres
  251. ou injusto para os homens
    ou racista, tudo isso.
  252. Eles chegaram a pontos de vista
    bem sofisticados.
  253. Exatamente o tipo de coisas
    de que gostaríamos que eles falassem
  254. como ativistas para impedirem a violência.
  255. E como professores, talvez um dia
    terminemos uma aula e pensemos:

  256. "É realmente triste que exista
    esse rapaz na nossa turma
  257. "que pensa que todas as mulheres
    têm orgasmos com sexo anal".
  258. E, talvez, terminemos a aula
    na semana seguinte e pensemos:
  259. "Estou muito feliz por existir
    um miúdo na nossa turma que é 'gay',
  260. "que disse que ver a sua sexualidade
    representada na pornografia
  261. "lhe tinha salvo a vida".
  262. Ou, "há aquela rapariga
    na nossa turma
  263. "que disse que está a sentir-se
    muito melhor com o seu corpo
  264. "porque viu um corpo parecido
    com o dela como objeto de desejo
  265. "numa pornografia inofensiva".
  266. É aqui que me encontro, como uma ativista
    da prevenção contra a violência.

  267. E encontro-me a conversar
    e a pesquisar sobre pornografia.
  268. Acho que seria mais fácil
  269. se as coisas na vida
    fossem de uma forma ou de outra,
  270. o que eu encontrei em minhas conversas
    com adolescentes sobre pornografia
  271. é que eles mantêm-se
    interessados nessas conversas
  272. porque nós permitimos
    que eles lidem com as complexidades.
  273. E porque somos honestos
    em relação à ciência,
  274. Estes adolescentes
    podem não ser adultos ainda,
  275. mas estão a viver
    num mundo adulto.
  276. E estão prontos para conversas adultas.
  277. Obrigada.

  278. (Aplausos)