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← Como ensinar adolescentes a pensar sobre pornografia de modo crítico

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Showing Revision 25 created 09/19/2019 by Maricene Crus.

  1. [Esta palestra apresenta conteúdo adulto]
  2. Há seis anos,
  3. descobri algo que cientistas
    estão querendo saber há anos.
  4. Como prender a atenção
  5. de uma sala cheia de adolescentes
    extremamente entediados?
  6. Pelo jeito, tudo o que você precisa fazer
    é mencionar a palavra pornografia.
  7. (Risos)

  8. Deixem-me contar como descobri isso.

  9. Em 2012, estava sentada numa sala
    lotada com alunos do ensino médio
  10. que participavam de um programa
    extracurricular em Boston.
  11. Meu trabalho, como palestrante convidada,
  12. era inspirá-los a pensar
    sobre como seria interessante
  13. seguir carreira na saúde pública.
  14. O problema era,
  15. quando olhei para eles,
  16. percebi que tinham o olhar vitrificado,
  17. e estavam totalmente desligados.
  18. Nem mesmo importava
    que eu estivesse usando
  19. o que achei ser minha melhor
    roupa naquele dia.
  20. Eu não conseguia agradar a minha plateia.
  21. Então, um dos dois adultos
    que trabalhavam no programa disse:
  22. "Você não está pesquisando
    sobre pornografia?
  23. Talvez possa contar algo a respeito".
  24. De repente, a sala lotada de alunos
    caiu na risada e trocou um "toca aqui".
  25. Acho que alguns assobiaram um "fiu-fiu".
  26. Bastou que alguém dissesse
    aquela palavra: pornografia.
  27. Aquele momento provaria ser
    um ponto de virada importante pra mim
  28. e minha missão profissional
    de encontrar soluções
  29. para acabar com o namoro
    associado à violência sexual.
  30. Naquele ponto, eu vinha trabalhando
    por mais de uma década

  31. nesse problema aparentemente intratável
    da violência no namoro.
  32. Dados dos Centros para Controle
    e Prevenção de Doenças dos EUA
  33. demonstram que um em cada cinco
    jovens frequentando o ensino médio
  34. sofre tanto abuso físico quanto sexual
    pelo parceiro de namoro todo ano nos EUA.
  35. Isso torna mais prevalente
    a violência no namoro
  36. do que ser intimidado
    nas dependências da escola,
  37. considerando seriamente o suicídio,
  38. ou até cigarros eletrônicos,
  39. nesse mesmo grupo.
  40. Mas as soluções se revelavam evasivas.
  41. E eu trabalhava com uma equipe de pesquisa
    que buscava novas respostas à pergunta:
  42. "O que causa abuso no namoro
    e como o impedimos?"
  43. Um dos estudos de pesquisa
    no qual trabalhávamos na época,
  44. por acaso incluía algumas perguntas
    sobre pornografia.
  45. E algo inesperado emergiu
    de nossas descobertas.
  46. Em nossa amostra, 11% das adolescentes
  47. relataram que haviam sido
    forçadas ou ameaçadas
  48. a se submeter a atos sexuais
    que o rapaz tinha visto na pornografia.
  49. Isso me deixou curiosa.
  50. Será que a pornografia era culpada
    por um percentual de violência no namoro?

  51. Ou era apenas uma coincidência
    que indicava que usuários de pornografia
  52. também têm uma probabilidade maior
    de se envolver em relações doentias?
  53. Investiguei lendo tudo o que pude
  54. da literatura revisada por meus pares
    e conduzindo minha própria pesquisa.
  55. Queria saber que tipo de mídia de sexo
    explícito os jovens estavam assistindo,
  56. com que frequência e por quê,
  57. e ver se poderia entender se esse era
    um dos motivos pelo qual,
  58. para muitos desses jovens,
  59. o relacionamento de namoro
    era aparentemente algo doentio.
  60. Conforme eu lia, tentava
    manter a mente aberta,

  61. mesmo que boa parte do público já havia
    tirado suas conclusões sobre o assunto.
  62. Por que eu manteria a mente aberta
    sobre pornografia?
  63. Bem, sou uma cientista social treinada,
  64. então devo ser objetiva no meu trabalho.
  65. Mas também sou o que as pessoas
    chamam de sexo positivo.
  66. Isso significa que apoio
    totalmente o direito das pessoas
  67. de desfrutar de qualquer tipo
    de vida sexual e sexualidade
  68. que acreditem ser gratificante,
    não importando o que isso envolva,
  69. desde que inclua o consentimento pleno
    de todas as pessoas envolvidas.
  70. Dito isso, eu particularmente não estava
    inclinada a assistir pornografia.
  71. Eu já tinha visto alguma coisa,
    mas não me disse nada.
  72. E como mãe de dois meninos,
    futuros adolescentes,
  73. eu tinha minhas próprias preocupações
  74. quanto ao que assistir pornografia
    poderia fazer com eles.
  75. Notei que, enquanto havia muitos
    denunciando a pornografia,

  76. também havia firmes defensores dela,
    por uma série de motivos.
  77. Então, na minha exploração acadêmica,
    fiz de tudo para tentar entender:
  78. pornografia é algo ruim ou bom para você?
  79. É misoginia ou empoderamento?
  80. E nenhuma resposta única
    surgiu claramente disso.
  81. Houve um estudo longitudinal
    que me preocupou muito,
  82. mostrando que adolescentes
    que assistiam à pornografia
  83. tinham maior probabilidade
    depois de praticar violência sexual.
  84. Mas a estrutura do estudo não permitia
    conclusões causais definitivas.
  85. E outros estudos não concluíram que o uso
    da pornografia pelos adolescentes
  86. era associado a certos
    resultados negativos,
  87. embora outros estudos concluíram isso.
  88. Mas conforme conversava
    com outros especialistas,

  89. sentia uma imensa pressão pra escolher
    uma posição a respeito da pornografia,
  90. e me juntar a um time ou outro.
  91. Até me disseram que era
    insensato da minha parte
  92. não conseguir escolher
    a resposta correta sobre pornografia.
  93. E foi complicado,
  94. pois existe uma indústria
  95. capitalizando com o fascínio do público
  96. ao ver mulheres, em particular,
    não apenas fazendo sexo,
  97. mas sendo asfixiadas,
    amordaçadas, agredidas,
  98. cuspe e sêmen lançados sobre elas,
  99. sendo humilhadas com palavras degradantes
    repetidamente durante o sexo,
  100. e nem sempre com o consentimento delas.
  101. A maioria das pessoas concordaria
    que temos um grave problema
  102. com a misoginia, violência sexual
    e o estupro nesse país,
  103. e pornografia provavelmente
    não vem ajudando em nada com isso.
  104. E um problema extremamente
    importante para mim
  105. era que, por mais de um século,
  106. a posição antipornografia
    vinha sendo usada como pretexto
  107. para discriminar contra gays e lésbicas
  108. ou pessoas que têm perversões ou fetiches.
  109. Então, pude perceber por que, por um lado,
  110. estamos muito preocupados com as mensagens
    que a pornografia está nos enviando,
  111. e por outro lado,
  112. por que podemos estar preocupados
    quanto ao exagero ao acusá-la.
  113. Pelos dois anos seguintes,

  114. investiguei todas as declarações horríveis
    e assustadoras que poderia encontrar
  115. sobre a idade média das pessoas que
    assistem pornografia pela primeira vez,
  116. ou o que isso faz com o cérebro
    ou a sexualidade delas.
  117. Eis o que tenho a relatar.
  118. A pornografia gratuita, on-line e popular,
  119. do tipo que os adolescentes
    são mais propensos a assistir,
  120. é uma forma totalmente terrível
    de educação sexual.
  121. (Risos)

  122. (Aplausos)

  123. Mas não é pra isso que foi destinada.

  124. E provavelmente não está envenenando
    instantaneamente a mente dos jovens
  125. nem transformando ninguém
    em usuário compulsivo,
  126. da maneira que alguns ideólogos
    gostariam que acreditássemos.
  127. É raro uma pessoa que não assista
    algum tipo de pornografia na juventude.
  128. Quando atingem os 18 anos,
  129. 93% dos calouros da faculdade
    e 62% das calouras
  130. já viram pornografia ao menos uma vez.
  131. E embora muitos gostem de dizer
  132. que a internet tornou
    a pornografia onipresente,
  133. ou que basicamente garante
    que qualquer criança com um smartphone
  134. definitivamente irá assistir pornografia,
  135. os dados, na verdade, não confirmam isso.
  136. Um estudo nacionalmente representativo
    descobriu que no ano 2000,
  137. 16% dos jovens de 10 a 13 anos de idade
  138. relataram que já haviam assistido
    pornografia naquele ano.
  139. E em 2010, esse número havia aumentado,
  140. porém para apenas 30%.
  141. Então, não era todo mundo.
  142. Nossos problemas com adolescentes
    e o ato de cometer violência sexual

  143. não são causados apenas pela pornografia.
  144. Na verdade, um estudo recente
  145. descobriu que jovens são mais propensos
    a ver imagens sexualizadas
  146. em outros tipos de mídia
    além da pornografia.
  147. Consideremos todos aqueles
    videogames sexualizados,
  148. programas de TV ou videoclipes musicais.
  149. E poderia ser a exposição
    a um fluxo constante de mídia violenta
  150. que, em vez de ou além
    das imagens sexualizadas,
  151. está nos causando tantos problemas.
  152. Ao nos concentrarmos apenas
    nos possíveis danos de pornografia,
  153. podemos estar nos distraindo
    de questões ainda maiores
  154. ou desconsiderando causas fundamentais
    do namoro associado à violência sexual,
  155. que são a verdadeira crise
    da saúde pública.
  156. Com isso, até minha própria pesquisa

  157. demonstra que os adolescentes
    estão buscando na pornografia
  158. educação e informações sobre sexo.
  159. E isso porque não conseguem encontrar
  160. informações confiáveis e reais
    em outros lugares.
  161. Menos de 50% dos estados
    nos Estados Unidos
  162. exigem que a educação sexual
    seja ensinada nas escolas,
  163. incluindo tópicos como
    prevenção de sexo coagido.
  164. E menos da metade desses estados
  165. exige que as informações apresentadas
    sejam clinicamente precisas.
  166. Naquele programa
    extracurricular de Boston,

  167. aqueles jovens queriam mesmo
    era falar sobre sexo e pornografia.
  168. E queriam falar sobre esses assuntos
  169. muito mais do que falar
    sobre namoro ou violência sexual.
  170. Então percebemos
  171. que podíamos cobrir os mesmos tópicos
    que normalmente falamos a respeito
  172. sob o disfarce de uma saudável
    educação sobre relacionamentos
  173. do tipo: "Qual é a definição
    de consentimento sexual?
  174. Ou como você sabe se está
    machucando alguém durante o sexo?
  175. Ou quais são os limites aceitáveis
    quando se está flertando?"
  176. Todas as mesmas coisas que poderíamos
    discutir usando a pornografia
  177. como ponto de partida da nossa conversa.
  178. É como quando adultos dão brownies
    às crianças como sobremesa,
  179. mas secretamente assam abobrinha
    ou algo saudável dentro dele.
  180. (Risos)

  181. Poderíamos conversar com os jovens
    sobre as coisas saudáveis,

  182. que são boas para todos nós,
  183. mas esconder numa conversa
    que fosse sobre algo
  184. que eles achassem que queriam
    estar falando a respeito.
  185. Também descobrimos algo
  186. que não necessariamente
    estávamos tentando encontrar,
  187. ou seja, há uma maneira fantástica
    de se ter uma conversa com adolescentes
  188. sobre pornografia.
  189. E é isso,
  190. devemos manter a conversa fiel à ciência.
  191. Admitir o que sabemos e o que não sabemos
    sobre o impacto da pornografia.
  192. Falar sobre onde existem resultados mistos
  193. ou pontos fracos nos estudos realizados.
  194. Convidar os adolescentes
    a se tornarem consumidores críticos
  195. da literatura de pesquisa no assunto,
    bem como da própria pornografia.
  196. Isso se encaixa verdadeiramente
    com o desenvolvimento do adolescente.
  197. Eles gostam de questionar
  198. e de serem convidados
    a pensar por si mesmos.
  199. E percebemos, começando com experimentos,

  200. dando aulas em consentimento,
    respeito e pornografia,
  201. que tentar assustar adolescentes para
    que tenham um ponto de vista particular
  202. ou forçá-los a engolir a seco
    um argumento unilateral sobre pornografia
  203. provavelmente não só não funciona,
  204. mas, na verdade, não é exemplo
    para o tipo de comportamento
  205. respeitoso e consensual
    que queremos que eles aprendam.
  206. Então nossa abordagem, o que chamamos
    de alfabetização em pornografia,
  207. tem a ver com apresentar
    a verdade sobre o assunto
  208. da melhor maneira que soubermos,
  209. já que existe uma base de evidências
    em constante mudança.
  210. Quando ficam sabendo que ensinamos
    9 sessões de aulas, num total de 18 horas,
  211. em alfabetização pornográfica
    para adolescentes,
  212. acho que pensam que pedimos
    aos jovens que se sentem
  213. e tentamos mostrar a eles
    como assistir pornografia,
  214. mas não é isso que fazemos,
  215. ou que fazemos parte de um grupo
    ativista antipornografia
  216. que está tentando convencê-los
    que se assistirem pornografia,
  217. essa seria a pior coisa pra saúde deles.
  218. E também não é isso.
  219. Nosso ingrediente secreto
    é a ausência de julgamento.

  220. Não achamos que a juventude
    deveria estar assistindo pornografia.
  221. Mas, acima de tudo, queremos
    que se tornem pensadores críticos
  222. se e quando assistirem.
  223. E descobrimos,
  224. pelo número de pedidos
    do nosso currículo e nosso treinamento,
  225. de todo os EUA e além,
  226. que existem muitos pais e professores
  227. que realmente querem ter
    essas conversas mais sutis
  228. e realistas sobre pornografia
    com os adolescentes.
  229. Recebemos pedidos de Utah a Vermont,
  230. do Alabama ao Havaí.
  231. Naquele programa extracurricular

  232. notei que, assim que mencionamos
    a palavra pornografia,
  233. aqueles jovens estavam prontos
    pra falar absolutamente tudo
  234. sobre o que eles faziam e o que
    não queriam ver em pornografia,
  235. o que faziam e não queriam
    fazer durante o sexo.
  236. E o que era degradante para as mulheres
  237. ou injusto com os homens
    ou racista, tudo isso.
  238. E levantaram alguns pontos
    realmente sofisticados.
  239. Exatamente o tipo de coisa
    que gostaríamos que falassem a respeito
  240. como ativistas de prevenção à violência.
  241. E como professores, podemos
    sair da aula um dia e pensar:

  242. "É triste mesmo que haja
    aquele garoto na nossa turma
  243. que pensa que todas as mulheres
    têm orgasmos fazendo sexo anal".
  244. E podemos talvez sair da aula
    na próxima semana, pensando:
  245. "Fico contente em saber
    que aquele garoto da nossa turma é gay
  246. e disse que ver a sua sexualidade
    representada na pornografia
  247. salvou a vida dele".
  248. Ou: "Aquela garota da nossa turma
  249. disse que está se sentindo bem melhor
    em relação ao corpo dela,
  250. pois viu uma mulher com a mesma silhueta
    dela sendo considerada objeto de desejo
  251. em alguma pornografia mais branda".
  252. Então é aqui que me encaixo
    como ativista de prevenção à violência.

  253. Falo e pesquiso a respeito de pornografia.
  254. E embora seria mais fácil se as coisas
    da vida fossem todas assim ou assado,
  255. descobri nas minhas conversas
    sobre pornografia com adolescentes
  256. que eles permanecem envolvidos nelas
  257. porque permitimos que lidem
    com as complexidades do assunto.
  258. E porque somos honestos sobre a ciência.
  259. Esses adolescentes
    podem não ser adultos ainda,
  260. mas estão vivendo num mundo adulto.
  261. E estão prontos pra ter conversas adultas.
  262. Obrigada.

  263. (Aplausos)