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← Além de "menino" ou "menina": como rótulos salvam vidas | Alex Myers | TEDxPiscataquaRiver

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Showing Revision 15 created 01/12/2020 by Leonardo Silva.

  1. Você é menino ou menina?
  2. Me faziam essa pergunta o tempo todo
    quando eu era criança.
  3. Você é menino ou menina?
  4. Essa pergunta me encantava,
  5. me assustava, me confundia
    e me incomodava
  6. na mesma intensidade.
  7. Ela me encantava porque, se alguém
    me fazia essa pergunta,
  8. significava, pelo menos,
    que eu não parecia totalmente menina.
  9. Mas me assustava pois eu não sabia
    o significado disso.
  10. Por que eu não me parecia
    como as outras meninas?
  11. Mas, principalmente, me incomodava muito
  12. porque eu não sabia
    responder a essa pergunta.
  13. Quando eu era criança,
  14. não havia palavras
    além de "menino" ou "menina".
  15. A melhor resposta
    que eu podia dar era "diferente",
  16. e isso nem chegava à profundidade
    ou nuance do que eu sentia.
  17. Quando chamamos algo
    de diferente, esquisito ou estranho,
  18. significa que não entendemos.
  19. Quando conhecemos algo,
  20. quando nos preocupamos com ele,
  21. quando o amamos,
  22. damos um nome a ele.
  23. Lembro-me de ser
    uma criança muito pequena,
  24. de ir para a cama à noite,
    me cobrir até a cabeça
  25. e orar a Deus para Ele me tornar menino.
  26. Levaria anos e anos para eu descobrir
  27. que não precisava ser
    transformada em outra pessoa.
  28. Eu só precisava de palavras melhores.
  29. Seria aos 17 anos
  30. que eu finalmente encontraria
    a primeira palavra certa:
  31. "transgênero".
  32. Ela me mostrou a magia
    de uma palavra certa,
  33. como pode desbloquear algo dentro de nós,
  34. validar e permitir que seja.
  35. A melhor coisa sobre transgênero?
  36. A resposta que me deu à pergunta:
    "Você é menino ou menina?"
  37. "Sim, sou transgênero."
  38. (Risos)
  39. As pessoas nem sempre
    gostam dessa resposta.
  40. Nos 22 anos desde minha revelação
    como transgênero,
  41. passei muito tempo discutindo,
    debatendo e pensando sobre esse termo.
  42. Em 1995, quando me revelei,
  43. "transgênero" era uma palavra
    totalmente nova
  44. que substituiu termos
    como transexual, travesti, travestido,
  45. que agora parecem arcaicos
    e felizmente obsoletos.
  46. Mas, desde então, como devem ter notado,
  47. houve uma espécie de explosão
    de terminologia de gênero.
  48. Temos termos como: não binário,
    gênero sem conformidade, gênero fluido,
  49. bicha, gênero expansivo,
    terceiro gênero, agênero
  50. e provavelmente muito mais
    do que jamais ouvi falar.
  51. Ao percorrer o país e dar palestras
    sobre identidade de gênero,
  52. encontro muitas vezes hostilidade
    e animosidade em relação a esses termos,
  53. como a atitude das pessoas:
    "Por que você não consegue se decidir?"
  54. "Por que 'transgênero'
    não é bom o bastante?"
  55. "Você precisa mesmo de mais termos?"
  56. As pessoas até dizem: "Isso faz vocês
    parecerem bobos e frívolos
  57. se continuarem inventando palavras novas".
  58. Dou palestras e ouço um gemido na plateia
  59. quando incluo outra letra
    à sigla LGBTQIAA+.
  60. (Risos)
  61. Entendo que pode ser confuso,
  62. talvez irritante ou até extremo.
  63. Mas espero poder convencê-los
  64. de que essa proliferação de linguagem
    é extremamente importante.
  65. A linguagem é muito poderosa.
  66. Por quê?
  67. Acho que é porque a linguagem está
    profundamente ligada à natureza humana.
  68. O cérebro é modelado para aprender,
    usar e adquirir a linguagem.
  69. O inverso disso também é verdadeiro.
  70. Conforme aprendemos, usamos e adquirimos
    a linguagem, ela o padroniza
  71. e cria novos sulcos mentais
    com os quais podemos pensar.
  72. Adoro pensar no incrível ciclo de feedback
    que trata da identidade de gênero,
  73. a sinergia dele.
  74. Criamos todos esses novos termos,
  75. os empregamos,
  76. tornam-se parte
    de nosso vocabulário diário
  77. e geram dentro de nós
  78. uma nova percepção e adaptabilidade
    sobre a identidade de gênero.
  79. Isso não acontece apenas
    para cada um de nós,
  80. mas coletivamente, como sociedade,
  81. usamos esses novos termos
  82. e começamos a ter um novo entendimento
    e uma nova compreensão sobre gênero.
  83. Admito que, às vezes, sinto
    que estou travando uma batalha difícil
  84. enquanto tento levar as pessoas
    a adotar uma nova terminologia.
  85. A resposta que mais ouço é:
  86. "Rótulos são terríveis,
    são muito perigosos,
  87. e não devemos tentar rotular as pessoas".
  88. Tudo bem, devidamente anotado.
  89. Minha posição é esta:
    rótulos são muito importantes.
  90. Rótulos, na verdade, salvam vidas.
  91. Vou lhes dar um exemplo histórico disso.
  92. Se voltarmos à Idade Média,
  93. chegaremos a uma época
  94. em que não existe uma palavra
    para homossexualidade
  95. e nenhum entendimento
    da homossexualidade como identidade,
  96. orientação sexual como parte
    de quem somos como ser humano.
  97. Sabe-se que, às vezes,
    homens fazem sexo com homens
  98. e, em menor escala, que, às vezes,
    mulheres fazem sexo com mulheres.
  99. Mas se fala ou escreve a respeito
  100. com expressões depreciativas
    como "aquele pecado terrível"
  101. ou "o vício não mencionável".
  102. Se você fosse uma pessoa
    que dormiu com outro homem
  103. e fosse se confessar,
  104. confessaria o pecado da "luxúria",
  105. uma espécie de termo genérico
    para todo tipo de pecado sexual.
  106. Estou lhes contando isso porque é,
    na verdade, pelo confessionário
  107. que começamos a ver linguagem
    a respeito de sexualidade.
  108. É meio estranho.
  109. Mas havia um problema na Idade Média.
  110. Essas pessoas entravam
    e confessavam luxúria,
  111. e o padre ficava numa posição
    extremamente embaraçosa.
  112. Ele tinha que fazer uma série de perguntas
  113. para determinar a penitência correta:
  114. "O que exatamente você fez?"
  115. "Com quem você fez isso?"
  116. "Onde você estava?"
  117. Se a pessoa não fosse comunicativa,
    o padre teria que pressionar um pouco:
  118. "Preciso saber: você fez isso ou aquilo?"
  119. Isso não era apenas uma linha estranha
    de questionamento para um padre,
  120. mas poderia colocar ideias
    na mente da pessoa:
  121. "Não fiz isso, mas parece
    uma ótima ideia...
  122. Vou experimentar da próxima vez".
  123. (Risos)
  124. Assim, para contornar esse problema,
  125. os padres inventaram subdivisões
    da categoria luxúria,
  126. e uma delas era "sodomia".
  127. É uma palavra verdadeiramente terrível.
  128. Foi usada para justificar
    muita violência contra gays,
  129. mas também fez algo incrível e positivo:
  130. criou algo do nada;
  131. atribuiu uma palavra a um conceito
  132. e fez esse conceito existir
  133. onde antes havia um vazio
    em nossa linguagem e em nossa mente.
  134. Rapidamente após o invento
    da palavra "sodomia",
  135. vemos as pessoas começarem a usá-la
    para se referir a si mesmas
  136. e, na verdade, para reunir outras pessoas.
  137. Rótulos criam solidariedade.
  138. Rótulos permitem
    a existência de comunidades.
  139. Em minha própria vida,
    esse rótulo era "transgênero".
  140. Quando eu era criança,
  141. parecia que havia algo errado comigo,
  142. que eu era o anormal,
  143. e que não havia outra explicação.
  144. Eu era apenas esquisito.
  145. Mas, quando encontrei
    o rótulo "transgênero"
  146. e outras pessoas transgêneras,
  147. de repente, soube
    que essa palavra me deixava ver
  148. que isso é muito mais do que apenas eu.
  149. Não é algo que está em minha mente.
  150. Espero que adotemos o poder dos rótulos.
  151. Espero que vejamos
  152. que, embora a linguagem
    tenha esse peso histórico,
  153. e sintamos que temos de seguir
    as regras da gramática,
  154. que ela realmente atenda
    às nossas necessidades.
  155. A linguagem é útil para nós,
  156. e devemos inventar novas palavras,
  157. e devemos mudar as regras,
    se elas não nos servirem.
  158. Adoro como a comunidade LGBT+
    reformulou palavras antigas,
  159. como adotaram termos como "bicha",
    que costumava ter uma conotação negativa,
  160. e a transformaram em algo positivo.
  161. Adoro como abandonaram termos
    como "transexual" e "homossexual",
  162. palavras usadas para nos tratar
    como doentes e "os outros".
  163. E adoro como a linguagem
    a respeito de gênero
  164. acabou explodindo e assumindo
    um conjunto novo de formas.
  165. Estou otimista de que podemos adotá-lo.
  166. Acho que precisamos reconhecer
  167. que a linguagem não apenas descreve
    ou explica a realidade.
  168. Ela a muda.
  169. A linguagem é revolucionária.
  170. (Aplausos) (Vivas)