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← O que você contará para suas filhas sobre 2016?

Com palavras que cortam como cacos de vidro, Chinaka Hodge disseca 2016 e expõe 12 meses de violência, profunda tristeza, medo, vergonha, coragem e esperança neste poema original sobre um ano que nenhum de nós esqueceremos tão cedo.

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Showing Revision 15 created 03/10/2017 by Maricene Crus.

  1. Conte as suas filhas sobre este ano,
  2. como acordamos precisando de café,
  3. mas, em vez disto, encontramos cadáveres
    espalhados por nossos jornais matinais,
  4. repleto de cópias de nossas
    irmãs, esposas e filhas pequenas.
  5. Conte a sua bebê sobre este ano
    quando ela lhe perguntar, como o fará,
  6. diga-lhe que foi um pouco tarde.
  7. Admita que mesmo no ano em que alugamos
    a liberdade, não a possuímos.
  8. Ainda havia leis sobre como
    usamos nossas partes íntimas,
  9. enquanto eles apalpavam nossas dobras,
  10. agarravam sem se preocupar
    com nosso consentimento,
  11. sem leis para os homens
    que as fazem cumprir.
  12. Fomos treinadas para nos esquivar,
  13. esperar, nos encolher e nos cobrir,
  14. esperar mais, permanecer, esperar.
  15. Mandaram-nos nos calar.
  16. Fale às suas filhas
    destes tempos de guerra,

  17. um ano precedido por mais do mesmo,
  18. assim como nas duas décadas anteriores,
  19. enxugamos nossos olhos,
  20. envolvemos caixões em bandeiras,
  21. saímos da cena do crime da boate,
  22. gritamos na rua,
  23. deitamos nossos corpos no chão
    sobre o contorno de nossas quedas,
  24. gritamos: "É claro que fomos importantes",
  25. cantamos pelos desaparecidos.
  26. As mulheres choraram neste ano.
  27. Elas choraram.
  28. Nesse mesmo ano, estivemos prontas.

  29. O ano em que nos desinibimos
    e avançamos corajosamente
  30. foi também o ano que olhamos
    dentro do cano da arma,
  31. cantamos os grous do céu,
    nos curvamos e defendemos,
  32. achamos ouro em Hijab
    recebemos ameaças de morte,
  33. nos declaramos patriotas,
  34. dissemos: "Temos 35, hora de
    acomodarmos e encontrar um parceiro".
  35. Criamos mapas para a alegria infantil,
    só nos envergonhamos do medo
  36. chamamo-nos de gordas,
    querendo dizer, é claro,
  37. impecáveis.
  38. Neste ano, fomos mulheres,

  39. não noivas ou enfeites,
  40. não um gênero de quinta,
  41. não uma concessão, mas mulheres.
  42. Instruam suas filhas.

  43. Lembrem-nas de que o tempo
    de ser dócil ou frágil já passou.
  44. Algumas disseram pela primeira
    vez que éramos mulheres,
  45. levaram a sério
    essa promessa de solidariedade.
  46. Algumas de nós conceberam
    filhos e outras, não,
  47. nenhuma de nós questionou
    se isto nos tornava reais
  48. ou apropriadas ou verdadeiras.
  49. Quando ela perguntar sobre este ano,

  50. sua filha, seja sua prole
    ou herdeira do seu triunfo,
  51. do seu lado confortável da história
    abalada e tornando-se mulher,
  52. ela vai imaginar e perguntar anciosamente,
  53. embora não compreenda seu sacrifício,
  54. ela achará sua opinião sagrada,
  55. investigando curiosamente: "Onde estava?
  56. Você lutou? Você foi destemida ou medrosa?
  57. Do que se arrepende?
  58. O que você fez pelas mulheres
    quando teve tempo?
  59. Este caminho que criou para mim,
    o que teve que sacrificar?
  60. Você fez o suficiente, e está bem, mamãe.
  61. E você é uma heroína?"
  62. Ela vai fazer perguntas difíceis.
  63. Não vai se importar com a sua surpresa,

  64. o peso da sua bagagem.
  65. Ela não pedirá suas referências.
  66. Sua filha, pela qual você
    tanto sofreu, quer saber
  67. o que você trouxe, qual presente,
    qual luz você não deixou apagar?
  68. Quando eles procuravam
    por vítimas à noite,
  69. você dormiu ou foi acordada?
  70. O quanto custou ficar acordada?
  71. No ano que dissemos que o tempo acabou,
    o que fez com o seu privilégio?
  72. Alegrava-se à miséria dos outros?
  73. Você desviou ou olhou direto na chama?
  74. Conhecia sua aptidão
    ou a tratou como obrigação?
  75. Você foi enganada pelo
    "repugnante" ou "menos quê"?
  76. Você ensinou de coração
    ou com um punho cerrado?
  77. Onde você estava?
  78. Diga-lhe a verdade. Sempre. Confirme.

  79. Diga: "Filha, eu encarei o momento
  80. que se desenhou a minha frente
    como uma adaga,
  81. que voltava a si mesma,
  82. cortando o espaço para você".
  83. Diga-lhe a verdade, como viveu
    apesar das poucas chances.
  84. Diga que você foi corajosa,
  85. e sempre, sempre
    com a coragem como companheira,
  86. principalmente nos dias
    que você estava só.
  87. Diga-lhe que ela nasceu como você,
  88. como sua mãe, e as irmãs dela,
  89. na era das lendas, como sempre.
  90. Diga-lhe que ela nasceu na hora certa,

  91. na hora certa
  92. de liderar.
  93. (Aplausos)