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← Como um vírus em tempos esquecido pode ajudar no combate à crise dos antibióticos

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Showing Revision 14 created 11/29/2018 by Margarida Ferreira.

  1. Quero que parem por instantes

  2. e pensem num vírus.
  3. O que lhes vem à cabeça?
  4. Doença?
  5. Medo?
  6. Muito provavelmente algo desagradável.
  7. No entanto, nem todos os vírus são iguais.
  8. É certo que alguns causam
    doenças devastadoras.
  9. Mas certos vírus podem fazer
    o oposto — curar doenças.
  10. Estes vírus são chamados "fagos".
  11. A primeira vez que eu ouvi falar
    em fagos foi em 2013.

  12. O meu sogro, que é cirurgião,
  13. estava a falar-me de uma paciente dele
  14. que tinha uma lesão no joelho
    que obrigara a várias cirurgias.
  15. No decorrer dessas cirurgias,
  16. desenvolvera uma infecção
    bacteriana crónica na perna.
  17. Lamentavelmente,
  18. a bactéria responsável
    pela infecção, não reagiu
  19. a nenhum antibiótico disponível.
  20. A este ponto, habitualmente,
    a única opção é amputar a perna
  21. para evitar que a infecção
    se espalhe ainda mais.
  22. O meu sogro estava desesperado
    por encontrar outro tipo de solução,
  23. e assim, recorreu a um tratamento
    experimental, de último recurso com fagos.
  24. E sabem que mais? Resultou.
  25. Três semanas após a administração
    de fagos, a infecção crónica tinha sarado,
  26. algo que nenhum antibiótico
    tinha conseguido fazer.
  27. Fiquei fascinado com esta estranha noção:
  28. um vírus capaz de curar infecções.
  29. Ainda hoje fico fascinado
    pelo potencial médico dos fagos.
  30. Na verdade, demiti-me o ano passado
    para criar uma empresa neste ramo.
  31. O que é um fago?

  32. Esta imagem foi captada
    por um microscópio electrónico.
  33. Isso significa que o que vêem no ecrã
    é extremamente minúsculo.
  34. Aquela coisa granulosa no centro,
    com a cabeça, o corpo alongado
  35. e com vários membros
  36. — este é o aspecto de um fago prototípico.
  37. Até que é fofinho.
  38. (Risos)

  39. Agora, olhem bem para a vossa mão.

  40. A nossa equipa calculou que existem
    mais de 10 mil milhões de fagos
  41. em cada uma das nossas mãos.
  42. Que fazem eles ali?
  43. (Risos)

  44. Os vírus são bons a infectar células.

  45. E os fagos são peritos
    em infectar bactérias.
  46. As mãos, tal como grande parte
    do nosso corpo,
  47. são um viveiro de actividade bacteriana,
  48. tornando-a numa zona de caça
    ideal para os fagos.
  49. Porque, afinal de contas,
    os fagos caçam bactérias.
  50. Também é importante saber que os fagos
    são caçadores bastante selectivos.
  51. Normalmente, um fago infecta
    apenas uma espécie de bactérias.
  52. Neste caso, o fago que vêem
  53. tem como alvo a bactéria
    Staphylococcus aureus,
  54. conhecida como MRSA na sua forma
    resistente a medicamentos,
  55. e causa infecções na pele ou em feridas.
  56. O fago caça com os seus membros,

  57. que são receptores
    extremamente sensíveis,
  58. em busca da superfície ideal
    numa célula bacteriana.
  59. Assim que a encontra,
  60. o fago adere à parede celular da bactéria
  61. e injecta o seu ADN.
  62. O ADN situa-se na cabeça do fago
  63. e é conduzido até à bactéria
    pelo corpo alongado.
  64. Nessa altura, o fago reprograma a bactéria
  65. para que produza imensos novos fagos.
  66. Assim, a bactéria torna-se
    uma fábrica de fagos.
  67. Uma vez acumulados entre 50 a 100 fagos
    dentro da célula bacteriana,
  68. estes começam a libertar uma proteína
  69. que desfaz a parede celular da bactéria.
  70. Assim que a bactéria se desintegra,
    os fagos são libertados
  71. e vão à caça de novas bactérias
    que possam infectar.
  72. Desculpem, isto provavelmente
    tornou os vírus assustadores outra vez.

  73. Mas é precisamente esta aptidão dos fagos
  74. — de proliferarem dentro das bactérias
    e depois destruí-las —
  75. que os torna tão interessantes
    do ponto de vista médico.
  76. Outro aspecto que acho
    bastante interessante
  77. é a escala a que isto ocorre.
  78. Há cinco anos, não sabia sequer
    que os fagos existiam.
  79. E hoje, posso dizer-vos que fazem parte
    de um princípio natural.
  80. Os fagos e as bactérias datam
    dos primórdios da evolução.
  81. Têm existido sempre em simultâneo,
    mantendo-se um ao outro sob controlo.
  82. É uma história real de yin e yang,
    do predador e da presa,
  83. mas a um nível microscópico.
  84. Certos cientistas chegaram a estimar
  85. que os fagos são o organismo
    que mais abunda no nosso planeta.
  86. Assim, antes de nos debruçarmos
    sobre o seu potencial médico,
  87. creio que devemos tomar conhecimento
    sobre os fagos e o seu papel no planeta:
  88. eles caçam, infectam e destroem bactérias.
  89. Ora, como é possível que exista algo
    tão eficaz na natureza,

  90. constantemente ao nosso redor,
  91. e todavia, na maior parte do mundo,
  92. não tenhamos no mercado um único fármaco
  93. que use este princípio no combate
    a infecções bacterianas?
  94. A resposta simples é: ainda ninguém
    desenvolveu este tipo de medicação
  95. ou, pelo menos, uma que cumpra
    os critérios reguladores ocidentais
  96. que ditam a norma para
    grande parte do mundo.
  97. Para compreender porquê,
    temos de recuar um pouco no tempo.
  98. Este é Félix d'Herelle.

  99. É um dos dois cientistas responsáveis
    pela descoberta de fagos.
  100. Se bem que, quando os descobriu, em 1917,
  101. ele não fazia ideia daquilo
    que tinha descoberto.
  102. Na altura, ele estudava
    a doença disenteria bacilar,
  103. uma infecção bacteriana que provoca
    casos graves de diarreia,
  104. o que na época levava à morte
    de bastantes pessoas,
  105. pois ainda não existia uma cura
    para infecções bacterianas.
  106. Ao analisar várias amostras de doentes
    que tinham sobrevivido à doença,
  107. ele descobriu algo peculiar.
  108. Algo na amostra estava
    a destruir as bactérias
  109. que eram responsáveis pela doença.
  110. Para compreender o que tinha em mãos,
    fez um teste engenhoso.

  111. Pegou na amostra e filtrou-a,
  112. até ter a certeza de que apenas
    restava algo minúsculo,
  113. extraiu uma pequena gota
    e adicionou-a a uma cultura de bactérias.
  114. Algumas horas mais tarde, observou
  115. que as bactérias tinham sido destruídas.
  116. Então, repetiu o processo, filtrando
    a amostra, extraindo uma pequena gota,
  117. e adicionando-a
    a uma nova cultura de bactérias.
  118. Fez isto 50 vezes, sequencialmente,
  119. obtendo sempre o mesmo resultado.
  120. Nessa altura, ele concluiu duas coisas.
  121. Primeiro, e o mais óbvio:
    algo estava a destruir as bactérias,
  122. e estava contido no fluido.
  123. Segundo: tinha de ser algo biológico,
  124. visto que uma pequena gota era suficiente
    para provocar um efeito maciço.
  125. Chamou "micróbio invisível"
    ao agente que encontrou
  126. e deu-lhe o nome "bacteriófago",
  127. que significa literalmente
    "devorador de bactérias".
  128. Acontece que esta foi
    uma das descobertas fundamentais
  129. da microbiologia moderna.
  130. Devemos muitas técnicas modernas ao nosso
    conhecimento de como os fagos funcionam,
  131. não só na edição do genoma,
    como noutros campos.
  132. E ainda hoje, o prémio Nobel da Química
  133. foi atribuído a dois cientistas
    que trabalham com fagos
  134. e que desenvolvem fármacos a partir deles.
  135. Durante os anos 20 e 30,

  136. reconheceu-se de imediato
    o potencial médico dos fagos.
  137. Afinal, ainda que invisíveis,
  138. tínhamos algo eficaz a destruir bactérias.
  139. Empresas que ainda hoje operam,
    tais como Abbott, Squibb ou Lilly,
  140. vendiam preparações de fagos.
  141. Mas a verdade é que, quando
    lidamos com um micróbio invisível,
  142. torna-se muito difícil obter
    um fármaco fidedigno.
  143. Imaginem chegarem à FDA
  144. e falarem-lhes de um vírus invisível
  145. que querem administrar a doentes.
  146. Então, quando surgiram os antibióticos
    químicos, nos anos 40,
  147. o jogo mudou, por assim dizer.
  148. Este homem teve um papel fundamental.
  149. Este é Alexander Fleming.

  150. Ganhou o Prémio Nobel da Medicina
  151. pelo seu trabalho
    que contribuiu para a criação
  152. do primeiro antibiótico, a penicilina.
  153. Os antibióticos funcionam
    de uma forma diferente dos fagos.
  154. Na sua maioria, inibem
    a proliferação das bactérias,
  155. sem grande distinção quanto ao tipo
    de bactérias presentes.
  156. Os ditos antibióticos de largo espectro
  157. chegam a eliminar uma ampla
    gama de bactérias.
  158. Ao comparar com os fagos,
    que se focam somente
  159. numa espécie de bactérias,
  160. é possível perceber a óbvia vantagem.
  161. Na altura, deve ter parecido
    um sonho tornado realidade.

  162. Imaginemos um doente
    com suspeitas de uma infecção bacteriana,
  163. administrávamos-lhe o antibiótico,
  164. e sem precisar de saber mais nada
    sobre a bactéria causadora da doença
  165. muitos dos doentes melhoravam.
  166. Assim, ao criarmos
    cada vez mais antibióticos,
  167. estes tornaram-se a terapia de
    primeira linha para infecções bacterianas.
  168. E, diga-se, melhoraram imenso
    a nossa esperança de vida.
  169. Actualmente realizamos
    intervenções médicas e cirurgias
  170. altamente complexas,
  171. e graças aos antibióticos,
  172. o doente não corre o risco
    de morrer no dia seguinte
  173. com uma infecção bacteriana que possa
    ter contraído durante a operação.
  174. Então, começámos a esquecer os fagos,
    principalmente na medicina ocidental.

  175. E em certa medida, ainda quando
    eu era novo, a ideia era:
  176. resolvemos o problema das infecções
    bacterianas; temos os antibióticos.
  177. É claro que, hoje em dia,
    sabemos que estávamos errados.
  178. Já devem ter ouvido falar
    em superbactérias.
  179. São bactérias que ficaram resistentes
  180. a vários, senão a todos,
    os antibióticos que desenvolvemos
  181. para combater essas infecções.
  182. Como chegámos a este ponto?

  183. Parece que não somos tão espertos
    quanto pensávamos.
  184. Conforme começámos a utilizar
    antibióticos em todo o lado
  185. — em hospitais para tratamento e prevenção
    e em casa para constipações,
  186. na pecuária, para manter o gado saudável —
  187. as bactérias foram evoluindo.
  188. Perante a investida que os antibióticos
    desferiam contra elas,
  189. sobreviveram as bactérias
    com melhor capacidade de adaptação.
  190. Hoje, chamamos-lhes
    "bactérias multirresistentes".
  191. E deixem-me referir um número assustador.
  192. Um estudo recente pedido
    pelo governo do Reino Unido
  193. estima que, pelo ano 2050,
  194. dez milhões de pessoas podem morrer
    anualmente de infecções multirresistentes.
  195. Comparando isso com os oito milhões
    de mortes anuais por cancro,
  196. podemos ver o quão assustador
    é este valor.
  197. A boa notícia é que os fagos
    continuam connosco.

  198. E a multirresistência a antibióticos
    não os impressiona muito.
  199. (Risos)

  200. Continuam a caçar e a destruir bactérias
    ao nosso redor sem qualquer problema.

  201. E mantiveram-se selectivos,
    o que é uma vantagem hoje em dia.
  202. Agora conseguimos identificar
    exactamente qual a bactéria patogénica
  203. responsável por uma infecção
    em vários contextos.
  204. E a sua selectividade ajuda a evitar
    certos efeitos secundários
  205. normalmente associados
    a antibióticos de largo espectro.
  206. Mas talvez a melhor notícia seja esta:
    já não são um micróbio invisível.
  207. Agora podemos observá-los.
  208. Foi o que fizemos há pouco.
  209. Podemos fazer sequenciação do seu ADN.
  210. Podemos estudar como se replicam
  211. e compreender as suas limitações.
  212. Estamos numa óptima posição
  213. para desenvolver medicação à base
    de fagos que seja eficaz e segura.
  214. E é isso que está a acontecer
    a nível global.

  215. Mais de 10 empresas de biotecnologia,
    incluindo a nossa,
  216. estão a estudar como utilizar fagos
    para tratar infecções bacterianas.
  217. Na Europa e nos EUA, já estão em curso
    vários ensaios clínicos.
  218. Por isso, estou convencido
  219. de que estamos perante a era
    do Renascimento da fagoterapia.
  220. E para mim, a forma mais correcta
    de representar os fagos é esta.
  221. (Risos)

  222. Para mim, os fagos são os super-heróis
    de que precisávamos

  223. na luta contra as infecções
    por multirresistência a antibióticos.
  224. Então, da próxima vez
    que pensarem num vírus,

  225. tenham esta imagem em mente.
  226. Quem sabe, um dia, um fago
    pode salvar-vos a vida.
  227. Obrigado.

  228. (Aplausos)