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← Como um vírus há muito esquecido poderia nos ajudar a resolver a crise dos antibióticos

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Showing Revision 23 created 01/05/2019 by Claudia Sander.

  1. Pare um pouco

  2. e pense em um vírus.
  3. O que vem a sua mente?
  4. Uma doença?
  5. Um medo?
  6. Provavelmente algo realmente desagradável.
  7. No entanto, os vírus não são todos iguais.
  8. É verdade, alguns deles causam
    doenças devastadoras.
  9. Mas outros podem fazer exatamente
    o oposto: curar doenças.
  10. Esses vírus são chamados de fagos.
  11. A primeira vez que ouvi
    sobre fagos foi por volta de 2013.
  12. Meu sogro, que é cirurgião,
  13. contou-me sobre uma mulher
    que ele estava tratando.
  14. A mulher tinha uma lesão no joelho,
    precisou de várias cirurgias
  15. e, ao longo delas, desenvolveu na perna
    uma infecção bacteriana crônica.
  16. Infelizmente para ela,
  17. as bactérias causadoras da infecção
  18. também não responderam
    a qualquer antibiótico disponível.
  19. Nesse ponto, normalmente,
    a única opção é amputar a perna
  20. para impedir que a infecção
    se espalhe ainda mais.
  21. Meu sogro estava desesperado
    por outra solução
  22. e solicitou um tratamento experimental
    usando fagos, como último recurso.
  23. E adivinha? Funcionou.
  24. Depois de três semanas
    da aplicação dos fagos,
  25. a infecção crônica estava curada,
  26. sendo que antes nenhum antibiótico
    tinha funcionado.
  27. Fiquei fascinado
    por esta concepção estranha:
  28. vírus curando uma infecção.
  29. Até hoje, sou fascinado
    pelo potencial médico dos fagos.
  30. Na verdade, ano passado larguei o emprego
    para criar uma empresa nessa área.
  31. Agora, o que é um fago?
  32. Esta imagem foi tirada
    por um microscópio eletrônico.
  33. Isso significa que o que vemos na tela
    é extremamente minúsculo.
  34. O que vemos no meio, com uma cabeça,
    corpo comprido e vários pés,
  35. é a imagem de um fago prototípico.
  36. Até que ele é fofo.
  37. (Risos)
  38. Agora, dê uma olhada na sua mão.
  39. Nossa equipe estima que temos
    mais de 10 bilhões de fagos
  40. em cada uma das mãos.
  41. O que eles estão fazendo ali?
  42. (Risos)
  43. Bem, os vírus são bons
    em infectar células.
  44. E os fagos são ótimos
    em infectar bactérias.
  45. E nossa mão, assim como
    muito do nosso corpo,
  46. é um viveiro de atividade bacteriana,
  47. tornando-se um local ideal
    de caça para os fagos.
  48. Porque, afinal, os fagos caçam bactérias.
  49. Também é importante saber que os fagos
    são caçadores extremamente seletivos.
  50. Normalmente, um fago infectará
    apenas uma única espécie de bactéria.
  51. Então, nesta representação,
  52. o fago que vemos caça uma bactéria
    chamada Staphylococcus aureus,
  53. conhecida como MRSA
    em sua forma resistente a drogas.
  54. Ela causa infecções
    na pele ou em ferimentos.
  55. O fago caça com os pés.
  56. Os pés são receptores
    extremamente sensíveis,
  57. em busca da superfície exata
    de uma célula bacteriana.
  58. Uma vez encontrada,
  59. o fago vai agarrar-se
    à parede celular bacteriana
  60. e injetar seu DNA.
  61. O DNA fica na cabeça do fago
  62. e passa para as bactérias
    através do corpo longo.
  63. Nesse ponto, o fago reprograma a bactéria
  64. para produzir lotes de novos fagos.
  65. A bactéria, na verdade,
    se torna uma fábrica de fagos.
  66. Quando houver cerca de 50 a 100 fagos
    dentro da célula bacteriana,
  67. eles são capazes de liberar uma proteína
  68. que rompe a parede celular da bactéria.
  69. Quando a bactéria irrompe, os fagos saem
  70. e vão caçar outra bactéria para infectar.
  71. Desculpe, isso provavelmente
    se parece com um vírus assustador.
  72. Mas é exatamente
    essa capacidade dos fagos,
  73. de se multiplicar dentro das bactérias
    e depois matá-las,
  74. que os tornam tão interessantes
    do ponto de vista médico.
  75. Outra coisa que acho
    extremamente interessante
  76. é a escala em que isso está acontecendo.
  77. Há apenas cinco anos,
    eu não tinha ideia sobre fagos.
  78. E hoje eu diria que eles são parte
    de um princípio natural.
  79. Fagos e bactérias remontam
    aos primórdios da evolução.
  80. Eles sempre existiram em conjunto,
    mantendo um ao outro em cheque.
  81. Então, essa é realmente a história
    do yin e yang, do caçador e da presa,
  82. a nível microscópico.
  83. Alguns cientistas estimaram
  84. que os fagos são o organismo
    mais abundante em nosso planeta.
  85. Então, antes de continuarmos
    falando sobre seu potencial médico,
  86. acho que todos deveriam saber
    sobre os fagos e seu papel na Terra:
  87. eles caçam, infectam e matam bactérias.
  88. Agora, como é que temos algo
    que funciona tão bem na natureza,
  89. todos os dias, em todos os lugares,
  90. e, ainda assim,
  91. não temos uma única droga no mercado
  92. que use esse princípio
    para combater infecções bacterianas?
  93. A resposta simples é: ninguém
    desenvolveu esse tipo de droga ainda,
  94. ao menos não uma de acordo
    com os padrões regulatórios ocidentais,
  95. que definem a norma
    para grande parte do mundo.
  96. Para entender o porquê,
    precisamos voltar no tempo.
  97. Esta é uma foto de Félix d'Herelle,
  98. um dos dois cientistas
    que descobriu os fagos.
  99. Só que, quando ele os descobriu, em 1917,
  100. ele não tinha ideia
    do que tinha descoberto.
  101. Ele estava interessado em uma doença
    chamada disenteria bacilar,
  102. uma infecção bacteriana
    que causa diarreia grave
  103. e que, na época,
    estava matando muita gente,
  104. afinal de contas, não havia cura
    para infecções bacterianas.
  105. Ele observava amostras de pacientes
    que sobreviveram a essa doença,
  106. e descobriu que algo estranho
    estava acontecendo.
  107. Algo na amostra estava matando
    as bactérias que causavam a doença.
  108. Para descobrir o que estava acontecendo,
    ele fez um experimento engenhoso.
  109. Ele pegou a amostra, filtrou-a,
  110. até ter certeza de que apenas algo
    muito pequeno poderia ter restado,
  111. e, em seguida, acrescentou uma pequena
    gota a bactérias recentemente cultivadas.
  112. Ele observou que, dentro de algumas horas,
  113. as bactérias estavam mortas.
  114. Ele repetiu isso, filtrando novamente,
    pegando uma pequena gota,
  115. e adicionando-a ao próximo
    lote de bactérias frescas.
  116. Ele repetiu isso 50 vezes,
    sempre observando o mesmo efeito.
  117. Nesse ponto, ele chegou a duas conclusões.
  118. Primeiro, a óbvia:
  119. algo estava matando as bactérias
    e estava naquele líquido.
  120. A outra: tinha que ser
    algo biológico por natureza
  121. porque uma pequena gota era suficiente
    para causar um enorme impacto.
  122. Ele chamou o agente que havia
    encontrado de "micróbio invisível"
  123. e deu-lhe o nome "bacteriófago",
  124. que, literalmente traduzido,
    significa "comedor de bactérias".
  125. A propósito, essa é uma
    das descobertas mais fundamentais
  126. da microbiologia moderna.
  127. Muitas técnicas modernas remontam
    à compreensão de como os fagos funcionam;
  128. na edição do genoma,
    mas também em outros campos.
  129. E, justamente hoje,
    o Prêmio Nobel de Química
  130. foi anunciado para dois cientistas
    que trabalham com fagos
  131. e desenvolvem drogas baseadas neles.
  132. Nos anos 1920 e 1930,
  133. as pessoas também viram imediatamente
    o potencial médico dos fagos,
  134. afinal de contas, embora invisível, algo
    certamente estava matando as bactérias.
  135. Empresas que ainda existem hoje,
    como Abbott, Squibb ou Lilly,
  136. vendiam preparações de fagos.
  137. Mas a realidade é que, se você
    começa com um micróbio invisível,
  138. é muito difícil chegar
    a um medicamento confiável.
  139. Apenas imagine ir à Anvisa hoje
  140. e falar sobre um vírus invisível
  141. que você quer dar aos pacientes.
  142. Então, quando os antibióticos químicos
    surgiram na década de 1940,
  143. eles mudaram completamente o jogo.
  144. E este cara desempenhou
    um papel importante.
  145. Este é Alexander Fleming.
  146. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Medicina
  147. por sua contribuição
    para o desenvolvimento
  148. do primeiro antibiótico, a penicilina.
  149. E os antibióticos realmente agem
    de forma bem diferente dos fagos.
  150. Em sua maioria, eles inibem
    o crescimento das bactérias
  151. e não se preocupam muito
    com o tipo de bactéria presente.
  152. Os chamados antibióticos de largo espectro
  153. agem contra diversas bactérias.
  154. Comparemos com os fagos, que agem
    contra uma única espécie de bactéria,
  155. e vemos a vantagem óbvia.
  156. Naquela época, deve ter sido
    como a realização de um sonho.
  157. Você tinha um paciente
    com suspeita de infecção bacteriana,
  158. dava antibiótico a ele,
  159. e, sem precisar realmente saber mais nada
    sobre a bactéria que causava a doença,
  160. muitos dos pacientes se recuperavam.
  161. Assim, à medida que desenvolvíamos
    mais e mais antibióticos,
  162. eles se tornaram o tratamento número um
    para infecções bacterianas.
  163. E, a propósito, eles contribuíram muito
    para nossa expectativa de vida.
  164. Só podemos realizar cirurgias
    e intervenções médicas complexas
  165. porque temos antibióticos
  166. e o paciente não corre o risco de morrer
    no dia seguinte de infecção bacteriana
  167. possivelmente contraída
    durante a operação.
  168. Então começamos a nos esquecer dos fagos,
    especialmente na medicina ocidental.
  169. E de certa forma, mesmo quando eu
    estava crescendo, a noção era:
  170. resolvemos as infecções bacterianas,
    temos os antibióticos.
  171. Claro, hoje sabemos que isso está errado.
  172. A maioria de vocês já ouviu
    sobre as superbactérias.
  173. Bactérias que se tornaram resistentes
  174. a muitos, se não todos,
    os antibióticos que desenvolvemos
  175. para tratar essa infecção.
  176. Como chegamos a isso?
  177. Bem, não fomos tão espertos
    quanto pensamos.
  178. Quando começamos a usar
    antibióticos para tudo:
  179. em hospitais, para tratar e prevenir,
    em casa, para simples resfriados,
  180. e em fazendas, para manter
    os animais saudáveis,
  181. as bactérias evoluíram.
  182. Com o ataque agressivo dos antibióticos,
  183. as bactérias com mais facilidade
    de se adaptar sobreviveram.
  184. Hoje, são chamadas
    de "bactérias multirresistentes".
  185. Vou colocar aqui um número assustador.
  186. Em um recente estudo pago
    pelo governo do Reino Unido,
  187. estimou-se que, por volta de 2050,
  188. 10 milhões de pessoas por ano podem morrer
  189. por infecções de bactérias
    multirresistentes.
  190. Comparemos isso aos 8 milhões
    de mortes por câncer por ano hoje,
  191. e podemos ver que é um número assustador.
  192. Mas a boa notícia é
    que os fagos continuam por aí.
  193. E eles não se impressionam
    com bactérias multirresistentes.
  194. (Risos)
  195. Eles seguem felizes, matando
    e caçando bactérias por aí.
  196. E continuam seletivos,
    o que hoje realmente é algo bom.
  197. Hoje, podemos seguramente
    identificar um patógeno bacteriano
  198. que está causando uma infecção.
  199. E a seletividade deles vai nos ajudar
    a evitar alguns dos efeitos colaterais
  200. que geralmente estão associados
    a antibióticos de amplo espectro.
  201. Mas talvez a melhor notícia de todas seja:
    não há mais micróbios invisíveis.
  202. Podemos vê-los.
  203. E fizemos isso antes, juntos.
  204. Podemos sequenciar o DNA deles.
  205. Entendemos como se replicam
    e suas limitações.
  206. Estamos num ponto ótimo
  207. para desenvolver medicamentos fortes
    e confiáveis baseados em fagos.
  208. E é isso que está
    acontecendo no mundo todo.
  209. Mais de dez empresas
    de biotecnologia, incluindo a nossa,
  210. estão desenvolvendo aplicações de fagos
    para tratar infecções bacterianas.
  211. Inúmeras pesquisas clínicas
    estão sendo feitas na Europa e nos EUA.
  212. Então estou convencido de que estamos
    próximos do ressurgimento da fagoterapia.
  213. E para mim, a forma correta
    de representar os fagos é assim.
  214. (Risos)
  215. Para mim, os fagos são os super-heróis
    pelos quais estávamos esperando
  216. em nossa luta contra
    as infecções multirresistentes.
  217. Então, da próxima vez
    em que você pensar em um vírus,
  218. tenha esta imagem em mente.
  219. Afinal de contas, um dia
    um fago pode salvar a sua vida.
  220. Obrigado.
  221. (Aplausos)