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← Como o preconceito racial funciona — e como acabar com ele

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Showing Revision 12 created 06/27/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Há uns anos,
  2. eu ia num avião com o meu filho
    que, na época, tinha apenas cinco anos.
  3. O meu filho estava muito excitado
    por ir naquele avião com a mãe.
  4. Olha a toda a volta, verificando as coisas
  5. e observa as pessoas.
  6. Vê um homem e diz:
  7. "Olha! Aquele homem parece o pai!"
  8. Eu olho para o homem
  9. e ele não se parece nada
    com o meu marido,
  10. nem um pouco.
  11. Então começo a olhar
    por todo o avião
  12. e reparo que aquele homem
    era o único homem negro no avião.
  13. E pensei:
  14. "Tudo bem.
  15. "Vou ter de ter uma
    conversinha com o meu filho

  16. "sobre como nem todos
    os negros serem parecidos."
  17. O meu filho levanta a cabeça e diz-me:
  18. "Espero que ele não roube o avião."
  19. E eu disse: "O quê? O que é que disseste?"
  20. E ele responde: "Espero
    que aquele homem não roube o avião."
  21. Então eu disse: "Porque é que dizes isso?
  22. "Sabes que o pai não roubaria um avião."
  23. E ele diz: "Sim, sim, bem, eu sei."
  24. Então eu disse: "Então,
    por que é que disseste isso?"
  25. Ele olhou para mim
    com uma cara muito triste
  26. e disse:
  27. "Não sei porque é que disse isso.
  28. "Não sei porque é que pensei nisso."
  29. Estamos a viver uma estratificação
    racial tão profunda

  30. que até uma criança de cinco anos pode
    dizer-nos o que vai acontecer em seguida
  31. mesmo sem nenhum malfeitor,
  32. mesmo sem ódio explícito.
  33. Essa associação
    entre pessoas negras e crime
  34. entrou na mente
    do meu filho de cinco anos.
  35. Entra na mente
    de todas as nossas crianças,
  36. de todos nós.
  37. As nossas mentes são modeladas
    pelas disparidades raciais
  38. que vemos no mundo
  39. e as narrativas que nos ajudam
    a entender as disparidades que vemos:
  40. "Aquelas pessoas são criminosas."
  41. "Aquelas pessoas são violentas."
  42. "Devemos temer aquelas pessoas."
  43. Quando a minha equipa de investigação
    levou pessoas para o meu laboratório

  44. e lhes mostrou rostos,
  45. descobrimos que mostrar-lhes rostos negros
    levou-as a ver imagens de armas desfocadas
  46. com maior nitidez e mais depressa.
  47. O preconceito não só
    pode controlar o que vemos,
  48. mas também para onde olhamos.
  49. Descobrimos que induzir pessoas
    a pensarem em crimes violentos
  50. pode levá-las a dirigir
    os olhos para um rosto negro
  51. e desviá-los de um rosto branco.
  52. Estimular polícias a pensar
    em capturar e disparar
  53. e prender
  54. também leva os olhos deles
    na direção de rostos negros.
  55. O preconceito pode infetar
    todos os aspetos

  56. do nosso sistema de justiça criminal.
  57. Num grande conjunto de dados
    de réus elegíveis para a pena morte,
  58. descobrimos que ser mais negro
    mais que duplicou as hipóteses desses réus
  59. de receberem uma sentença de morte,
  60. pelo menos quando as vítimas
    deles eram brancas.
  61. Esse efeito é significativo
  62. mesmo que controlássemos
    a gravidade do crime
  63. e a atração do réu.
  64. Fosse o que fosse que controlámos,
  65. descobrimos que
    as pessoas negras eram punidas
  66. na proporção da negritude
    das suas características físicas:
  67. quanto mais negras,
    mais merecedoras de morte.
  68. O preconceito também pode influenciar

  69. a forma como os professores
    ensinam os alunos.
  70. Os meus colegas e eu descobrimos
    que os professores exprimem o desejo
  71. de castigar um aluno negro
    do ensino médio mais severamente
  72. do que um aluno branco
  73. pelas mesmas infrações repetidas.
  74. Num estudo recente,
  75. estamos a descobrir que os professores
    tratam os alunos negros como um grupo
  76. mas tratam os alunos brancos
    como indivíduos.
  77. Se, por exemplo,
    um aluno negro se porta mal
  78. e um aluno negro diferente
    se porta mal uns dias depois,
  79. o professor reage
    àquele segundo estudante negro
  80. como se ele se tivesse portado
    mal duas vezes.
  81. É como se os erros de uma criança
  82. se empilhassem em cima de outra.
  83. Criamos categorias
    para entender o mundo,

  84. para impor algum controlo e coerência
  85. aos estímulos com que estamos
    constantemente a ser bombardeados.
  86. A categorização e o preconceito
    que isso semeia
  87. permite que o nosso cérebro faça
    julgamentos mais depressa e eficazmente,
  88. e fazemos isso instintivamente
    com base em padrões
  89. que parecem previsíveis.
  90. Tal como as categorias que criamos
    nos permitem tomar decisões rápidas,
  91. também reforçam os preconceitos.
  92. Então, as mesmas coisas
    que nos ajudam a ver o mundo
  93. também podem impedir-nos de o ver.
  94. Tornam simples as nossas escolhas,
  95. sem conflitos.
  96. No entanto, cobram um preço caro.
  97. Então o que podemos fazer?

  98. Todos somos vulneráveis a preconceitos,
  99. mas não agimos sempre com preconceitos.
  100. Há certas condições que podem
    trazer o preconceito à tona
  101. e outras condições que podem abafá-lo.
  102. Vou dar-vos um exemplo.

  103. Muitas pessoas conhecem
    a empresa de tecnologia Nextdoor.
  104. Todo o seu objetivo é criar bairros
    mais fortes, mais saudáveis ​​e seguros.
  105. Assim, oferecem um espaço "online"
  106. onde os vizinhos podem reunir-se
    e partilhar informações.
  107. No entanto, a Nextdoor cedo descobriu
    que tinham um problema
  108. com o perfil racial.
  109. No caso típico,
  110. as pessoas olhavam pela janela
  111. e viam um homem negro
    no seu bairro quase todo branco
  112. e logo julgavam rapidamente
    que ele estava a preparar alguma,
  113. mesmo quando não havia nenhum
    indício de delito criminal.
  114. De muitas formas, a forma
    como nos portamos "online"
  115. é um reflexo de como
    nos portamos no mundo.
  116. Mas não queremos criar
    um sistema fácil de usar
  117. que possa amplificar o preconceito
    e aprofundar as disparidades raciais,
  118. em vez de desmontá-los.
  119. Então, o cofundador da Nextdoor
    procurou-me a mim e a outros

  120. para tentar descobrir o que fazer.
  121. E perceberam que, se restringissem
    o perfil racial na plataforma,
  122. iam ter de adicionar conflitos;
  123. isto é, eles teriam de
    acalmar as pessoas.
  124. Então, a Nextdoor
    teve de fazer uma escolha,
  125. e contra todos os impulsos,
  126. decidiram adicionar o conflito.
  127. Fizeram isso adicionando
    uma lista de verificação simples.
  128. A lista tinha três itens.
  129. Primeiro, pediam aos utilizadores
    que fizessem uma pausa e pensassem:
  130. "O que é que aquela pessoa
    estava a fazer que o tornou suspeito?"
  131. A categoria "homem negro"
    não é motivo para suspeita.
  132. Segundo, pediam aos utilizadores
  133. para descreverem
    as características físicas,
  134. não apenas a sua etnia e género.
  135. Terceiro, eles perceberam
    que muitas pessoas
  136. pareciam não saber
    o que era um perfil racial,
  137. nem que estavam envolvidos nisso.
  138. Então a Nextdoor
    forneceu-lhes uma definição
  139. e disse-lhes que aquilo era
    estritamente proibido.
  140. Muitos de vocês já viram
    esses sinais nos aeroportos
  141. e nas estações de metro:
    "Se vir alguma coisa, diga alguma coisa."
  142. A Nextdoor tentou modificar isso.
  143. "Se vir alguma coisa suspeita,
  144. "diga uma coisa específica."
  145. Usando esta estratégia,
    fazendo as pessoas caírem em si,
  146. a Nextdoor conseguiu conter
    o perfil racial em 75%.
  147. Agora, as pessoas costumam dizer-me:

  148. "Não podemos adicionar conflitos
    em todas as situações, em todo o contexto,
  149. "especialmente em pessoas que tomam
    decisões em frações de segundos."
  150. Mas acontece que podemos
    adicionar conflitos
  151. em mais situações do que pensamos.
  152. Trabalhando com o Departamento
    de Polícia de Oakland, na Califórnia,
  153. eu e vários colegas
    conseguimos ajudar o departamento
  154. a reduzir o número
    de detenções que eles faziam
  155. de pessoas que não estavam
    a cometer crimes graves.
  156. Fizemos isso incentivando os agentes
  157. a interrogarem-se antes
    de cada detenção que fizessem:
  158. "Esta detenção é motivada
    pela inteligência, sim ou não?
  159. "Por outras palavras,
  160. "eu tenho informações prévias
    para relacionar esta pessoa em particular
  161. "com um crime específico?"
  162. Ao adicionar esta pergunta
  163. no formulário que os agentes
    preenchem durante uma detenção,
  164. eles caem em si, fazem uma pausa e pensam:
  165. "Porque é que estou a considerar
    deter esta pessoa? "
  166. Em 2017, antes de adicionarmos
    esta pergunta inteligente ao formulário,

  167. os agentes fizeram cerca de
    32 000 detenções pela cidade.
  168. No ano seguinte,
    com a adição desta pergunta,
  169. as detenções caíram para 19 000.
  170. Só as detenções de afro-americanos
    caíram em 43%.
  171. E deter menos pessoas negras
    não tornou a cidade mais perigosa.
  172. Na verdade, a taxa de criminalidade
    continuou a cair,
  173. e a cidade ficou mais segura para todos.
  174. Portanto, uma solução pode vir da redução
    do número de detenções desnecessárias.

  175. Outra solução pode vir da melhoria
    da qualidade das detenções
  176. que os agentes fazem.
  177. Aqui, a tecnologia pode ajudar-nos.
  178. Todos ouvimos falar
    da morte de George Floyd
  179. porque aqueles que tentaram ajudá-lo
    seguravam câmaras de telemóvel
  180. para registar aquele terrível
    e fatal encontro com a polícia.
  181. Mas temos todo o tipo de tecnologia
    que não estamos a usar como deve ser.
  182. Os departamentos de polícia em todo o país
  183. são hoje obrigados a usar
    câmaras junto ao corpo
  184. por isso temos gravações não só
    dos encontros mais extremos e terríveis
  185. como de interações quotidianas.
  186. Com uma equipa
    interdisciplinar em Stanford,

  187. começámos a usar
    técnicas de aprendizagem de máquinas
  188. para analisar grande quantidade
    de encontros.
  189. Isto é para entender melhor o que acontece
    nos "auto-stops" rotineiros.
  190. Descobrimos que,
  191. mesmo quando os polícias
    se portam profissionalmente,
  192. falam com os motoristas negros com menos
    respeito do que com os motoristas brancos.
  193. De facto, segundo as palavras
    que os agentes usam,
  194. pudemos prever se eles estavam a falar
    com um motorista negro ou branco.
  195. O problema é que a grande maioria
    das filmagens dessas câmaras

  196. não é utilizada pelos
    departamentos da polícia
  197. para perceberem o que está
    a acontecer nas ruas
  198. ou para treinar agentes.
  199. E isso é uma pena.
  200. Como um "auto-stop" de rotina
    se transforma num encontro mortal?
  201. Como é que isso aconteceu
    no caso de George Floyd?
  202. Como é que isso aconteceu com outros?
  203. Quando o meu filho mais velho
    tinha 16 anos,

  204. ele descobriu que,
    quando os brancos olham para ele,
  205. eles sentem medo.
  206. Os elevadores são os piores, disse ele.
  207. Quando essas portas se fecham,
  208. as pessoas ficam presas
    naquele pequeno espaço
  209. com alguém que aprenderam
    a associar com perigo.
  210. O meu filho sente o desconforto deles
  211. e sorri para os pôr à vontade,
  212. para acalmar os seus medos.
  213. Quando ele fala,
  214. os corpos deles relaxam.
  215. Eles respiram mais facilmente.
  216. Sentem prazer na sua cadência,
  217. na sua dicção,
    na sua escolha das palavras.
  218. Ele soa como um deles.
  219. Eu pensava que o meu filho
    era um extrovertido natural como o pai.
  220. Mas naquele momento,
    naquela conversa, percebi
  221. que o sorriso dele não era um sinal
  222. de que ele queria
    relacionar-se com estranhos.
  223. Era um talismã que ele usava
    para se proteger,
  224. uma aptidão de sobrevivência que ele
    aperfeiçoou nas viagens de elevador.
  225. Ele estava a aprender a ajustar a tensão
    que a cor da sua pele gerava
  226. e que colocava em risco a sua vida.
  227. Sabemos que o cérebro
    está programado para o preconceito,

  228. e uma maneira de interromper esse
    preconceito é fazer uma pausa e refletir
  229. na evidência das nossas suposições.
  230. Então, precisamos de perguntar:
  231. Que suposições trazemos
    quando entramos num elevador?
  232. Ou num avião?
  233. Como tomamos consciência
    dos nossos preconceitos inconscientes?
  234. Quem é que se sente seguro
    com essas suposições?
  235. Quem é que elas colocam em risco?
  236. Enquanto não fizermos essas perguntas
  237. e não insistirmos que as escolas,
    os tribunais e os departamentos policiais
  238. e todas as instituições façam o mesmo,
  239. continuaremos a permitir
    que os preconceitos nos ceguem.
  240. E se assim for,
  241. nenhum de nós está verdadeiramente seguro.
  242. Obrigada.