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← Como funciona o preconceito racial — e como rompê-lo

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Showing Revision 29 created 08/08/2020 by Raissa Mendes.

  1. Há alguns anos,
  2. eu estava em um voo com meu filho,
    que tinha apenas cinco anos na época.
  3. Meu filho estava tão empolgado
    por estar naquele avião com a mãe dele.
  4. Ele olhava tudo a nossa volta,
    e mexia em tudo que via,
  5. e ficava olhando as pessoas.
  6. Até que viu um homem e disse:
  7. "Olha, esse homem parece o papai!"
  8. Então, olhei para o homem,
  9. e ele não parecia em nada
    com o meu marido.
  10. Nada mesmo.
  11. A seguir, comecei a reparar
    nas pessoas ao redor
  12. e notei que esse homem era
    o único homem preto no avião.
  13. Então pensei:
  14. "Muito bem,
  15. acho que terei de conversar
    com meu filho sobre isso,
  16. sobre como nem todas
    as pessoas pretas são iguais".
  17. Meu filho levanta a cabeça e me diz:
  18. "Espero que ele não roube o avião".
  19. Então falei: "O quê? O que você disse?"
  20. E ele respondeu: "Bem, espero
    que aquele homem não roube o avião".
  21. Daí, perguntei: "Por que você disse isso?
  22. Você sabe que seu pai
    nunca roubaria um avião".
  23. Então ele disse: "Sim, sim, sim, eu sei".
  24. "Mas por que disse isso?", perguntei.
  25. Daí ele me olhou
    com uma expressão muito triste
  26. e falou:
  27. "Não sei por que disse isso.
  28. Não sei por que pensei assim".
  29. Vivemos uma estratificação
    racial tão grande

  30. que até mesmo um menino de cinco anos
    conseguia prever o que esperar,
  31. mesmo que não houvesse malfeito algum,
  32. mesmo sem o ódio explícito.
  33. Essa associação entre pele negra e crime
  34. invadiu a cabecinha do meu filho
    de cinco anos de idade.
  35. Ela invade a cabecinha
    de todas as crianças.
  36. Ela está dentro de todos nós.
  37. Nossas mentes são moldadas
    pelas discrepâncias raciais
  38. que vemos mundo afora
  39. e pelas narrativas que nos ajudam
    a dar sentido às diferenças:
  40. "Essas pessoas são criminosas";
  41. "Essas pessoas são violentas";
  42. "Devemos ter medo dessas pessoas".
  43. Quando minha equipe de pesquisadores
    trouxe pessoas ao laboratório

  44. e mostrou alguns rostos a elas,
  45. descobrimos que elas associavam
  46. o rosto das pessoas pretas a armas de fogo
  47. com muita clareza e rapidez.
  48. O preconceito não controla
    apenas o que vemos,
  49. mas para onde olhamos.
  50. Percebemos que induzir as pessoas
    a pensarem sobre violência
  51. faz com que dirijam o olhar
    para o rosto de uma pessoa preta,
  52. e não para o rosto de uma pessoa branca.
  53. Induzir policiais a pensar
    em capturas, tiroteios e prisões
  54. faz com que eles pousem o olhar
    em rostos de pessoas pretas também.
  55. O preconceito infecta todos os aspectos
    do nosso sistema de justiça penal.

  56. Num grande grupo de dados
    de presidiários no corredor da morte,
  57. verificamos que parecer mais preto
    dobrava as chances de condenação
  58. a uma pena de morte,
  59. ao menos quando as vítimas eram brancas.
  60. O resultado é significante,
  61. embora tenhamos
    controlado a gravidade do crime
  62. e quão atraente era o réu.
  63. Não importa o que é controlado,
  64. detectamos que pessoas pretas são punidas
  65. na proporção da negritude
    das características físicas que possuem:
  66. quanto mais preta é a cor da pele,
  67. mais merecedor da pena de morte.
  68. O preconceito também influencia
    como professores disciplinam os alunos.

  69. Meus colegas e eu descobrimos
    que professores tendem
  70. a disciplinar com mais severidade
    um aluno preto do ensino fundamental
  71. que um branco pelas mesmas
    repetidas infrações.
  72. Num estudo recente,
  73. foi observado que professores
    lidam com alunos pretos como um grupo,
  74. mas tratam os brancos como indivíduos.
  75. Se, por exemplo, um aluno preto
    não se comporta adequadamente,
  76. e dias depois outro aluno preto
    apresenta o mesmo mau comportamento,
  77. o professor reagirá a esse segundo aluno
  78. como se ele tivesse
    se comportado mal em dobro.
  79. É como se os pecados de uma criança
  80. fossem empilhados sobre os da outra.
  81. Criamos categorias
    para dar sentido ao mundo,

  82. para termos algum controle e coerência
  83. sobre estímulos com que somos
    bombardeados incessantemente.
  84. A categorização
    e o preconceito que ela semeia
  85. permitem que nossos cérebros sejam
    mais rápidos e eficientes em julgar,
  86. e fazemos isso por causa
    dessa instintiva confiança em padrões
  87. que parecem previsíveis.
  88. Todavia, as mesmas classificações
    que nos permitem decidir com rapidez
  89. também reforçam estereótipos.
  90. Portanto, as mesmas coisas
    que nos ajudam a ver o mundo
  91. também podem nos cegar para ele.
  92. Elas tornam nossas escolhas automáticas,
  93. livres de resistência.
  94. Ainda assim, cobram caro por isso.
  95. Então, o que podemos fazer?

  96. Estamos todos vulneráveis ao preconceito,
  97. mas nem sempre agimos dessa forma.
  98. Existem algumas situações
    que trazem o preconceito à tona,
  99. e outras que podem camuflá-lo.
  100. Deixem que eu dê um exemplo a vocês.

  101. Muitas pessoas estão familiarizadas
    com a empresa de tecnologia Nextdoor.
  102. O objetivo deles é criar vizinhanças
    mais fortes, saudáveis e seguras.
  103. Por isso oferecem um espaço on-line
  104. no qual os vizinhos podem se reunir
    e compartilhar informações.
  105. No entanto, a empresa
    logo descobriu que havia um problema
  106. com discriminação por perfil racial.
  107. Em um caso típico,
  108. as pessoas olhavam pela janela
  109. e observavam um homem preto
    em uma vizinhança de maioria branca,
  110. faziam um julgamento rápido
    de que aquele homem tinha atitude suspeita
  111. ainda que não houvesse evidência alguma
    de infrações criminosas.
  112. Em muitos aspectos,
    o comportamento on-line
  113. é um reflexo de como agimos no dia a dia.
  114. Entretanto, não queremos
    criar uma interface amigável
  115. que amplifique o preconceito
    e aprofunde as diferenças raciais,
  116. ao invés de desconstruir essas questões.
  117. Então, um dos cofundadores da Nextdoor
    me contatou e outros colegas

  118. a fim de procurarmos uma solução.
  119. Eles entenderam que, para reduzir
    o preconceito racial na plataforma,
  120. teriam de adicionar resistência.
  121. A ideia era frear os usuários.
  122. Assim, a empresa tinha uma escolha a fazer
  123. e, para prevenir essas ações impulsivas,
  124. decidiram adicionar resistência.
  125. Eles fizeram isso criando
    um simples questionário.
  126. Havia três itens nele:
  127. primeiro, era pedido ao usuário para parar
  128. e pensar: "O que aquela pessoa
    estava fazendo que a tornava suspeita?"
  129. A resposta "homem preto" não serviria
    para identificar alguém como suspeito.
  130. Segundo, eles pediram ao usuário
  131. para descrever as características
    da pessoa, não apenas o gênero e a etnia.
  132. Terceiro, eles perceberam
    que muitas pessoas
  133. pareciam não saber o que era
    discriminação por perfil racial
  134. nem que elas estavam agindo dessa maneira.
  135. Então a Nextdoor explicou
    o conceito para elas
  136. e estabeleceu que esse tipo de coisa
    era completamente proibida.
  137. A maioria já deve ter visto
    essas placas nos aeroportos
  138. e em algumas estações de metrô:
    "Se vir alguma coisa, diga alguma coisa".
  139. A Nextdoor tentou modificar a frase:
  140. "Se vir algo suspeito,
  141. diga algo específico".
  142. E, ao usar a estratégia de meramente
    fazer os usuários pararem pra pensar,
  143. a Nextdoor foi capaz de reduzir
    a discriminação por perfil racial em 75%.
  144. Mas as pessoas sempre me dizem:

  145. "Você não pode adicionar resistência
    em todas as situações e contextos
  146. e, principalmente, com pessoas
    que tomam decisões rápidas o tempo todo".
  147. Mas, obviamente, resistência
    pode ser adicionada
  148. em mais situações do que se pode imaginar.
  149. Trabalhando com o departamento
    de polícia de Oakland, na Califórnia,
  150. meus colegas e eu conseguimos ajudá-los
  151. a reduzir o número de abordagens
  152. de pessoas que não estavam
    cometendo nenhum crime grave.
  153. Fizemos isso provocando os policiais
  154. a se perguntarem antes de cada abordagem:
  155. "Esta abordagem é motivada
    por alguma informação concreta?
  156. Sim ou não?"
  157. Em outras palavras,
  158. "Tenho alguma informação prévia
    para relacionar essa pessoa em particular
  159. a algum crime específico?"
  160. Ao adicionar essa pergunta
  161. ao formulário que os policiais
    preenchem durante uma abordagem,
  162. eles saem do automático, param,
  163. pensam: "Por que estou cogitando
    pedir para essa pessoa estacionar?"
  164. Em 2017, antes de incluirmos
    essa pergunta ao formulário,

  165. os policiais fizeram
    32 mil abordagens na cidade.
  166. No ano seguinte, com a adição da pergunta,
  167. o número de abordagens caiu para 19 mil.
  168. Apenas as abordagens
    em afro-americanos caíram 43%.
  169. Abordar menos pessoas pretas
    não tornou a cidade mais perigosa.
  170. Na verdade, a taxa de crimes
    continuou a cair,
  171. e a cidade se tornou segura para todos.
  172. Então, uma das soluções pode vir
    da redução de abordagens desnecessárias.

  173. Uma outra solução pode vir da melhora
    na qualidade dessas abordagens
  174. que os policiais fazem.
  175. A tecnologia pode nos ajudar nesse ponto.
  176. Todos ficamos sabendo
    sobre a morte de George Floyd
  177. porque aqueles que tentaram ajudá-lo
    empunharam as câmeras dos smartphones
  178. para gravar aquele terrível e fatal
    encontro com a polícia.
  179. Mas temos todos os tipos de tecnologia
    das quais não fazemos um bom uso.
  180. Departamentos de polícia pelo país
  181. são agora obrigados a adotar câmeras
    acopladas ao corpo dos policiais.
  182. Dessa forma, há gravações não apenas
    dos encontros mais terríveis e violentos,
  183. mas também gravações
    das interações diárias.
  184. E, com uma equipe
    multidisciplinar em Stanford,

  185. começamos a usar técnicas
    de aprendizado de máquina
  186. para analisar um grande
    número de confrontos.
  187. Isso, para entendermos melhor
    o que ocorre em abordagens no trânsito.
  188. O que descobrimos foi
  189. que, mesmo quando os policiais
    se comportam com profissionalismo,
  190. motoristas pretos são mais desrespeitados
    do que motoristas brancos.
  191. Na verdade apenas com palavras
    usadas pelos policiais,
  192. conseguimos prever se eles estão falando
    com um motorista preto ou branco.
  193. O problema está no fato de que a grande
    maioria das filmagens dessas câmeras

  194. não são utilizadas pelas autoridades
  195. para entender o que está
    acontecendo nas ruas
  196. ou para treinar policiais.
  197. E isso é uma pena.
  198. Como uma abordagem de rotina
    acaba em um encontro mortal?
  199. Como isso aconteceu
    no caso de George Floyd?
  200. Como acontece em outros casos?
  201. Quando meu filho mais velho tinha 16 anos,

  202. percebeu que, quando pessoas
    brancas o viam,
  203. sentiam medo.
  204. "Elevadores eram
    os piores lugares", ele dizia.
  205. Quando as portas se fechavam,
  206. as pessoas ficavam presas
    naquele espaço minúsculo
  207. com alguém que eles foram ensinados
    a associar com perigo.
  208. Meu filho sentia o desconforto deles,
  209. e então sorria para tranquilizá-los,
  210. para acalmar o medo deles.
  211. Quando ele falava,
  212. o corpo das pessoas relaxava.
  213. Elas respiravam com maior facilidade.
  214. Sentiam prazer no seu tom de voz,
  215. sua dicção e na escolha das palavras:
  216. meu filho soava como um branco.
  217. Eu costumava a pensar que ele era
    naturalmente extrovertido como o pai,
  218. mas soube naquele momento,
    naquela conversa,
  219. que o sorriso dele não era um sinal
    de que tinha vontade de se aproximar
  220. de pessoas estranhas.
  221. Era um talismã que usava para proteção,
  222. uma habilidade de sobrevivência
    que adquiriu ao entrar nos elevadores.
  223. Ele aprendeu a amenizar as tensões
    que a sua cor da pele criava.
  224. E isso colocava a vida dele em risco.
  225. Sabemos que o cérebro
    está programado para criar estereótipos,

  226. e uma forma de interromper
    o preconceito é parar e pensar
  227. nas evidências de nossas conjeturas.
  228. Portanto, precisamos nos questionar:
  229. "Que tipo de hipóteses levantamos
    ao pisar dentro de um elevador?
  230. Ou de um avião?";
  231. "Como nos tornamos conscientes
    dos preconceitos estruturais?";
  232. "Como essas conjeturas
    irão nos manter seguros?";
  233. "A quem elas põem em risco?"
  234. Até que façamos essas perguntas
  235. e insistamos que nossas escolas,
    tribunais, departamentos de polícia
  236. e todas as instituições façam o mesmo,
  237. continuamos a permitir que o preconceito
  238. nos deixe cegos.
  239. Se deixarmos isso acontecer,
  240. nenhum de nós está realmente a salvo.
  241. Obrigada.