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← Como os médicos podem ajudar a consertar o sistema de asilo político dos EUA

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Showing Revision 217 created 09/04/2020 by Maricene Crus.

  1. Vários anos atrás, um jovem
    veio me ver em minha clínica.
  2. Estava fugindo para salvar sua vida.
  3. Ele fugiu de sua pátria,
  4. porque lá a homossexualidade
    não apenas era ilegal,
  5. mas em alguns casos, punível com a morte.
  6. Quando sua orientação sexual foi exposta,
  7. a família o rejeitou,
  8. o chefe dele o demitiu
  9. e multidões enfurecidas
    o atacaram várias vezes na rua.
  10. E toda vez que a polícia aparecia,
    era apenas para prendê-lo,
  11. detê-lo e torturá-lo ainda mais.
  12. E ele sabia que se não pudesse
    escapar desse ciclo de violência,
  13. certamente seria morto.
  14. Então ele teve que fazer
    o necessário para sobreviver.

  15. Deixou tudo para trás.
  16. Amigos, família, carreira.
  17. Ele fugiu de sua pátria,
  18. escapou para os Estados Unidos
  19. e aqui ele pediu asilo político.
  20. Mas, como muitos que fogem deste tipo
    de perseguição, não trouxe muito com ele.

  21. Tinha documentos básicos,
  22. quase nenhum dinheiro
    e alguns outros pertences.
  23. Não tinha documentos oficiais
    da polícia que o torturava.
  24. Nenhum vídeo da multidão
    que tentou matá-lo.
  25. Não tinha esse tipo de prova
    para confirmar suas afirmações,
  26. no entanto, lá estava ele,
    sentado na minha clínica,
  27. mostrando-me algumas das provas
    mais poderosas de sua perseguição.
  28. Eram as cicatrizes físicas
    e psicológicas que trouxe.
  29. Sofria de uma dor crônica e debilitante.
  30. Tinha cicatrizes profundas
    espalhadas pelo corpo,
  31. feridas que cicatrizavam mal
    e infeccionavam repetidamente.
  32. Ele sofria de uma depressão grave,
  33. flashbacks paralisantes e pesadelos
    frequentes pelo estresse pós-traumático.
  34. Continuamos com nosso trabalho,

  35. nos encontramos regularmente por meses,
  36. documentando todas essas provas médicas.
  37. Repassamos os detalhes de cada ataque,
  38. fotografamos as cicatrizes,
    documentamos as lesões e feridas
  39. e pudemos até começar a observar
    uma recuperação lenta, mas constante,
  40. enquanto ele estava sob nossos cuidados.
  41. Trabalhando com os advogados dele,
  42. apresentei um atestado detalhado,
  43. incluindo os resultados
    desta avaliação médica forense,
  44. e incluímos tudo no pedido de asilo.
  45. E então esperamos
  46. por vários longos anos enquanto
    o processo tramitava nos tribunais.
  47. Um dia, recebi um e-mail dele

  48. que dizia que ele tinha recebido asilo.
  49. Todos na clínica ficaram radiantes.
  50. Disse no e-mail que era
    a primeira vez em anos
  51. que ele não temia deportação e morte.
  52. A primeira vez em anos
    que realmente se sentia seguro
  53. para reconstruir sua vida novamente.
  54. E foi apenas por meio
    dessa defesa médica e legal
  55. que pudemos ajudar a restaurar
    o status legal e os direitos dele,
  56. que ele pôde fazer isso,
  57. e tudo através do asilo político.
  58. Muitas pessoas fugindo da perseguição
    vêm para programas e clínicas como esta

  59. com histórias inimagináveis
    de violência por diferentes razões.
  60. Mas uma coisa é sempre igual.
  61. A violência contra elas
  62. revela total impunidade,
  63. às vezes pelas mãos do governo diretamente
    por meio da polícia ou oficiais militares.
  64. Em outros casos, o governo
    simplesmente fecha os olhos
  65. e tolera atos de grupos paramilitares
    ou de parceiros domésticos violentos.
  66. Outras vezes, o governo
    é completamente impotente
  67. para proteger os vulneráveis
    de gangues poderosas.
  68. Os determinantes sociais
    têm um papel importante

  69. na saúde e bem-estar de nossos pacientes.
  70. Habitação, renda, educação,
    raça, inclusão social.
  71. Mas o mesmo pode ser verdade
    com relação à proteção igual na lei,
  72. o devido processo legal.
  73. Especialmente em sociedades
    para os mais vulneráveis,
  74. os marginalizados
  75. e aqueles ativamente visados,
  76. o acesso a essas proteções
    de direitos humanos
  77. pode significar a diferença
    entre doença e saúde
  78. e muitas vezes é a diferença
    entre a vida e a morte.
  79. E para milhões de pessoas
    que sofrem perseguição e tortura,
  80. a única maneira de se curarem
  81. é reconhecer o abuso dos direitos humanos
  82. e ajudar a restaurar os direitos
    e proteções que foram violados.
  83. Após as atrocidades
    da Segunda Guerra Mundial,

  84. o sistema de asilo foi estabelecido
    como um caminho para esse tipo de ajuda.
  85. Mas hoje em dia parece que isso
    se transformou em uma pista de obstáculos,
  86. algo destinado ao fracasso.
  87. Refugiados muitas vezes
    não sabem como começar,
  88. muito menos como terminar o processo
    que pode se arrastar por anos.
  89. Eles não têm direito a advogados,
    então não conhecem seus direitos.
  90. Cada vez mais, são impedidos até de pisar
    em locais de potencial refúgio.
  91. Eles são presos ou processados,
  92. até deportados antes mesmo
    de falarem com um oficial de asilo.
  93. E mesmo que consigam passar pelo processo,
  94. as taxas de concessão de asilo
    podem ser de 20%
  95. e muito menores para alguns.
  96. É quase como se o sistema
    tivesse sido projetado
  97. para impedir as pessoas
    de exercerem o seu direito.
  98. Mas há algo que muitas
    dessas pessoas podem fazer

  99. e que pode aumentar potencialmente
    suas chances de sucesso
  100. para 90% ou mais.
  101. Então o que faz a diferença?
  102. Conseguir um advogado
    e fazer uma avaliação médica.
  103. Simples assim.
  104. O homem que veio à minha clínica
    e ganhou seu caso de asilo.
  105. Médicos e advogados trabalhando juntos
    para apresentar todas as evidências,
  106. incluindo as médicas, para os tribunais,
  107. permitem que os juízes tomem
    decisões informadas e justas.
  108. Esse tipo de parceria médico-legal

  109. é mais importante do que nunca,
  110. porque vivemos em uma época
    de migração forçada e maciça
  111. devido à violência e ao conflito.
  112. Em 2018, foram 70 milhões de pessoas
    desalojadas à força em todo o mundo
  113. devido à guerra, conflito e perseguição.
  114. Dessas, 40 milhões internamente,
  115. 25 milhões de refugiados
    e 3 milhões de requerentes de asilo.
  116. Aqui nos EUA, vemos o impacto
    da escalada da violência
  117. em lugares como El Salvador,
    Guatemala e Honduras,
  118. onde as taxas de homicídio são tão altas
    como as da Síria e do Afeganistão.
  119. Onde a corrupção policial e a violência
    de gangues estão aumentando,
  120. a pobreza e o abuso infantil
    são generalizados e tolerados,
  121. e os sistemas básicos de governança,
  122. segurança pública
  123. e proteção infantil
  124. são ineficazes.
  125. Não é nenhuma surpresa então
    que muitos dos mais vulneráveis

  126. em algumas dessas sociedades,
  127. crianças, mulheres e outros grupos-alvo,
  128. estejam ficando cada vez mais desesperados
    e fugindo em números sem precedentes.
  129. Nos últimos 10 anos, o número
    de crianças desacompanhadas
  130. tentando buscar segurança na fronteira
    sudoeste dos EUA aumentou 18 vezes,
  131. de 3,3 mil em 2009
    para mais de 62 mil em 2019,
  132. além de quase 500 mil pessoas
    fugindo com a família.
  133. Homens, mulheres e crianças tentando
    buscar refúgio em nossas fronteiras,
  134. mas presos em uma crise humanitária.
  135. E o que torna tudo pior

  136. é estarem presos nesta névoa
    de reivindicações e reconvenções
  137. sobre quem eles são,
  138. o que vivenciaram,
  139. onde está a prova
  140. e o que eles merecem.
  141. Merecem nossa ajuda?
  142. Às vezes, dizem que eles não estão
    fugindo de abusos de direitos humanos,
  143. são simplesmente migrantes econômicos.
  144. Outros dizem que são crianças exploradas
    e traficadas pelos próprios pais.
  145. Ou dizem que nem mesmo são crianças,
  146. mas criminosos calejados,
  147. membros de gangues tentando
    se infiltrar em nosso país.
  148. Para esclarecer um pouco tudo isso,
    meus colegas e eu fizemos um estudo.

  149. Analisamos dados de crianças
    buscando asilo político
  150. e que passaram por avaliações médicas.
  151. Eis o que as evidências nos dizem.
  152. Dessas crianças, 80% mostraram sinais
  153. de exposição a violência física repetida,
  154. agressão e tortura.
  155. Em 60% das meninas,
    e em pelo menos 10% dos meninos
  156. havia provas de exposição
    repetida à violência sexual.
  157. Uma jovem contou uma história
    com evidências corroborantes
  158. de ter sido presa, espancada
    e estuprada ao longo de três anos,
  159. traficada para outros homens
  160. e ainda sofrer ameaças
    de assassinarem sua família
  161. se ela fugisse ou tentasse procurar ajuda.
  162. Dessas crianças, 90% tinham
    evidências de danos psicológicos
  163. de violência indireta,
    incluindo ameaças graves,
  164. mas também testemunharam
    atrocidades incontáveis.
  165. Um menino descreveu o terror, a dor

  166. e o total pavor
  167. de ver o corpo e o rosto mutilados
    de seu irmão mais novo,
  168. de sua tia,
  169. de seu tio e seu primo,
  170. todos mortos em um único ataque de gangue
    para enviar uma mensagem à comunidade.
  171. E, claro, o custo psicológico é imenso.

  172. Dessas crianças, 19% apresentavam
    sinais de transtorno de ansiedade,
  173. 41% de depressão,
  174. e 64% de transtorno de estresse
    pós-traumático, TEPT.
  175. E 21% também apresentaram
    sinais de suicídio quando crianças.
  176. Para comparação, de 10 a 20% dos veteranos
    que retornam de combate sofrem de TEPT.
  177. Estas crianças têm três a seis vezes
    mais probabilidade de sofrer de TEPT
  178. do que um soldado voltando da guerra.
  179. Além deste fardo e deste trauma,

  180. existem muitos outros.
  181. Crianças que vêm em busca de segurança
    e entram em nosso sistema de imigração
  182. apenas para sofrer mais abuso
  183. e até torturas que lembram
    os lugares de onde fugiram.
  184. Devem se lembrar das manchetes
    e de imagens de 2019.
  185. Filhos sendo arrancados
    dos braços dos pais.
  186. Crianças pequenas e bebês
    em gaiolas frias e anti-higiênicas.
  187. Deixadas sem comida, água,
    roupas e até mesmo sabonete.
  188. Também há relatos crescentes
    de negligência médica,
  189. complicações evitáveis,
  190. abuso infantil,
  191. abuso sexual e até morte de crianças
    sob a custódia dos Estados Unidos.
  192. Infelizmente, muitos abusos
    e crimes não são novos.
  193. Alguns datam de muitos anos
    e até de outras administrações.
  194. Mas algo mudou.
  195. A extensão e o nível dos abusos e crimes,
  196. o perigo sistemático e aparentemente
    intencional sofrido pelos que pedem asilo,
  197. e também a impunidade com que são feitos
  198. elevou o dano a um nível
    totalmente alarmante.
  199. Isso me lembra uma das meninas no estudo

  200. que nos contou como ela
    implorava a um dos agressores
  201. para ele parar e perguntando
    por que ela tinha sido alvo.
  202. E sabem qual foi a resposta?
  203. Ele disse: "Podemos fazer isso, porque
    não há ninguém aqui para proteger você".
  204. Não podemos deixar isso ser verdade,

  205. crianças e outros requerentes de asilo
    procuram ajuda em nossas fronteiras.
  206. Mas o que podemos fazer?
  207. Como médico, muitas vezes
    lido com decisões difíceis
  208. com alguns dos meus pacientes
    mais doentes e complexos.
  209. Claro que queremos manter
    nosso foco na saúde deles,
  210. no bem-estar, na qualidade de vida
  211. mas, às vezes, isso requer uma exploração
    mais profunda de seus valores
  212. para entender como seguir em frente.
  213. De maneira semelhante,
    nossa nação enfrenta uma crise
  214. com o aumento de requerentes
    de asilo político nas fronteiras
  215. e em nossas comunidades,
  216. e isso nos obriga a reexaminar
    alguns de nossos valores fundamentais.
  217. O que significa valorizar
    saúde e segurança?

  218. Valorizar a segurança,
  219. a vida, liberdade,
  220. a vida das crianças?
  221. Pensem nisso.
  222. O que significa quando dizemos
    que valorizamos a lei e a ordem?
  223. Isso também inclui o respeito ao direito
    ao devido processo de quem solicita asilo?
  224. Para alguns, quando escutam esses termos,

  225. imediatamente querem
    construir mais barreiras,
  226. utilizar mais patrulha de fronteira,
  227. deportar mais pessoas,
  228. mesmo que isso signifique separar
    as crianças de suas famílias,
  229. submetendo-as à tortura psicológica
  230. ou deportando-as para lugares
    onde possam morrer.
  231. Tudo em nome da segurança.
  232. Em nosso nome.
  233. Mas para mim e muitos outros,

  234. quando penso nesses valores,
    sigo numa direção totalmente nova
  235. e renovo meu compromisso de tentar atender
    às necessidades dos requerentes de asilo
  236. com todas as ferramentas
    que tenho à disposição.
  237. Dizer que valorizamos a vida e a liberdade
  238. é enxergar essas pessoas
    que assumiram riscos inimagináveis
  239. para fugir do perigo e do dano iminente
  240. para tentar encontrar segurança.
  241. Atendê-las e fornecer
    comida, água, abrigo, roupas.
  242. Fornecer o atendimento médico
  243. e os cuidados de saúde mental
    de que tanto precisam.
  244. Dizer que valorizamos o Estado de Direito,
  245. e não apenas os privilégios
    que ele fornece a alguns,
  246. mas as responsabilidades
    que exige de todos nós,
  247. é garantir um sistema
    de imigração funcionando.
  248. Com juízes capacitados.
  249. Vamos nos certificar de que não estamos
    conformados com a ilusão de lei e ordem
  250. que um muro alto ou uma fronteira
    militarizada possam nos fornecer.
  251. Queremos algo real.
  252. Que os juízes possam avaliar
    as provas, incluindo as médicas,
  253. e queremos que eles apliquem a justiça,
  254. de forma justa.
  255. Se dizemos que valorizamos
    a saúde e o bem-estar,

  256. que não queremos permitir o mal,
  257. então vamos implantar
    estratégias baseadas em trauma
  258. em todos os níveis da imigração.
  259. Começando com treinamento renovado
    dos agentes de fronteira
  260. ou dos oficiais de imigração,
  261. mas precisamos de especialistas médicos,
    de saúde mental e de bem-estar infantil
  262. em todo o sistema.
  263. E se dizemos que valorizamos a justiça,

  264. não nos transformemos nos torturadores
  265. dos quais muitas crianças
    e outras pessoas fugiram.
  266. Vamos abrir nossos centros
    de detenção e tribunais
  267. para especialistas e advogados
    e vamos nos responsabilizar.
  268. Podemos descobrir que devemos
    fechar a maioria deles
  269. e os campos também.
  270. Acredito que trabalhando
    em parcerias eficazes

  271. com advogados, médicos,
    defensores dos direitos humanos
  272. e muitos outros,
  273. podemos atender às necessidades
    dos requerentes de asilo político,
  274. cumprir nossas obrigações históricas,
    humanitárias e legais para com eles.
  275. E quando fizermos isso,
    algo poderoso vai acontecer.
  276. Não só esses requerentes de asilo,
  277. como o homem que veio
    à minha clínica e ganhou seu caso,
  278. mas as crianças no estudo
  279. ou as milhares de outras pessoas
    em busca de uma nova vida,
  280. poderão encontrar proteção e segurança.
  281. Vamos reconhecer os abusos ocorridos
  282. e restaurar os direitos
    e proteções perdidos.
  283. E acho que ficaremos maravilhados
  284. quando os virmos na plenitude
    de sua humanidade.
  285. Não apenas seus pontos fortes e fracos,
  286. suas esperanças e alegrias,
  287. não apenas o trauma que reconhecemos,
  288. mas também estaremos com eles
  289. e seremos inspirados por sua resiliência.
  290. Eles vão florescer
  291. e aumentar a riqueza desta nação.
  292. Acho que permanecendo fiel
    aos nossos valores fundamentais

  293. da maneira que descrevi,
  294. criamos um sistema
    de imigração sadio e humano.
  295. É assim que continuamos
    sendo a "Golden Door".
  296. E é assim que continuamos
    a ser a luz brilhante do mundo.
  297. Obrigado.

  298. (Aplausos)