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← Como é ser um pai transgênero

LB Hannahs compartilha, de forma sincera, a experiência de ser pai e transgênero, e o que isso pode nos ensinar sobre autenticidade e defesa. "Autenticidade não significa 'conforto'. Significa gerenciar e negociar o desconforto da vida cotidiana", diz Hannahs.

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24 Languages

Showing Revision 41 created 05/28/2018 by Leonardo Silva.

  1. Certa manhã, fui à mercearia
    e um funcionário me cumprimentou:

  2. "Bom dia, senhor, posso ajudá-lo?"
  3. Eu disse: "Não, obrigado".
  4. Ele sorriu e seguimos nossos caminhos.
  5. Peguei um pacote de cereais
    e saí da mercearia.
  6. Passei pelo "drive-through"
    de uma cafeteria local.
  7. Depois de fazer meu pedido,
    a voz do outro lado disse:
  8. "Obrigado, senhora. Dirija com cuidado".
  9. Em menos de uma hora, fui chamado
    de "senhor" e de "senhora".
  10. Para mim, nenhuma
    dessas pessoas estava errada,
  11. mas elas também não estavam
    totalmente certas.
  12. Esta gracinha é minha filha Elliot,
    de quase dois anos.

  13. É, pois é.
  14. Nos últimos dois anos,
  15. esta criança me forçou a repensar
    o mundo e a maneira como faço parte dele.
  16. Eu me identifico como transgênero
    e como pai: um pai transgênero.
  17. (Risos)

  18. (Aplausos)

  19. (Vivas)

  20. (Aplausos)

  21. Como podem ver, levei o tema
    deste ano bem a sério

  22. (Risos)

  23. como qualquer boa piada
    de pai deveria ser.

  24. Eu me identifico especificamente
    como não binário.
  25. Há muitas maneiras
    de viver sendo não binário,
  26. mas, para mim, não me identifico
    como homem nem como mulher.
  27. Eu me sinto no meio e, às vezes,
    fora desse binário de gênero.
  28. Ficar de fora desse binário de gênero
  29. significa ser chamado de "senhor"
    e de "senhora" em menos de uma hora,
  30. ao fazer coisas cotidianas,
    como comprar cereais.
  31. Mas, no meio, é onde fico
    mais confortável.
  32. Este espaço onde posso ser homem e mulher
    parece ser o mais correto e autêntico.
  33. Mas não significa que essas interações
    não causem desconforto.
  34. O desconforto pode variar
    do pequeno aborrecimento
  35. à sensação de insegurança física.
  36. Como no bar da faculdade,
  37. quando um segurança
    me tirou de lá pela nuca
  38. e me expulsou do banheiro feminino.
  39. Mas, para mim, autenticidade
    não significa "conforto".
  40. Significa gerenciar e negociar
    o desconforto da vida cotidiana,
  41. até mesmo quando não for seguro.
  42. Quando minha experiência como transgênero
  43. entrou em conflito
    com minha identidade paterna,
  44. passei a entender como eu era vulnerável
  45. e como isso me impedia de ser eu mesmo.
  46. A maioria das pessoas não pensa muito
    em como serão chamadas por seus filhos,

  47. além de palavras específicas,
  48. ou variações sobre um tema de gênero
    como "mamãe", "mãe", ou "papai", "pai".
  49. Mas, para mim, os modos
    possíveis dessa criança,
  50. que será um adolescente
    e depois um adulto na vida real,
  51. me chamar pelo resto de nossas vidas
    era extremamente assustador e emocionante.
  52. Passei nove meses lutando com a realidade
    de ser chamado de "mamãe"
  53. ou de algo que não se parecia nada comigo.
  54. Não importava quantas vezes
    ou quantas versões de "mãe" eu tentava,
  55. sempre parecia forçado
    e profundamente desconfortável.
  56. Eu sabia que ser chamado de "mãe"
    seria mais aceitável para a maioria.
  57. A ideia de ter duas mães
    não é muito recente,
  58. principalmente onde moramos.
  59. Tentei outras palavras.

  60. Quando eu experimentava
    "papai", parecia melhor.
  61. Melhor, mas não perfeito.
  62. Parecia um par de sapatos
    de que gostamos muito,
  63. mas que precisamos usar e nos acostumar.
  64. Eu sabia que a ideia de ter nascido
    mulher e ser chamado de "papai"
  65. seria um caminho mais difícil,
    com muito mais momentos desconfortáveis.
  66. Mas, antes de eu perceber,
    tinha chegado a hora
  67. e Elliot veio chorando ao mundo,
    como a maioria dos bebês,
  68. e minha nova identidade como pai começou.
  69. Decidi me tornar pai, e nossa nova
    família enfrentou o mundo.
  70. Quando as pessoas nos conhecem,
    uma das coisas mais comuns

  71. é elas me chamarem de "mãe".
  72. Quando me chamam assim,
    a interação pode ocorrer de várias formas.
  73. Desenhei este mapa para ajudar
    a ilustrar minhas opções.
  74. (Risos)

  75. A opção um é ignorar
    o que as pessoas presumem

  76. e permitir que elas continuem
    se referindo a mim como "mãe",
  77. o que não é estranho para os outros,
    mas é normalmente muito estranho para nós.
  78. Geralmente, isso me faz restringir
    minha interação com essas pessoas.
  79. Opção um.
  80. A opção dois é parar e corrigi-las
  81. e dizer algo do tipo:
  82. "Na verdade, sou o pai de Elliot",
    ou "Elliot me chama de papai".
  83. Quando faço isso, acontece
    uma dessas duas coisas:
  84. As pessoas entendem e dizem
    algo como: "Ah, está bem".
  85. E seguem em frente.
  86. Ou respondem desculpando-se muito,
  87. porque se sentem mal, constrangidas,
    culpadas ou estranhas.
  88. Mas, muitas vezes, as pessoas
    ficam muito confusas,
  89. levantam os olhos com um olhar
    intenso e dizem algo como:
  90. "Isso significa que você quer mudar?
  91. Quer ser homem?"
  92. Ou dizem coisas como:
  93. "Como ela pode ser pai?
  94. Só homens podem ser pais".
  95. A opção um é muitas vezes
    o caminho mais fácil.

  96. A opção dois é sempre a mais autêntica.
  97. Todos esses cenários envolvem um nível
    de desconforto, mesmo no melhor caso.
  98. Com o tempo, minha capacidade
    de navegar neste mapa complicado
  99. tem ficado mais fácil.
  100. Mas o desconforto ainda está lá.
  101. Não vou ficar aqui e fingir
    que domino isso, muito pelo contrário.

  102. Há dias em que ainda permito
    que a opção um aconteça,
  103. porque a opção dois
    é muito difícil ou arriscada.
  104. Não dá para ter certeza
    da reação de ninguém,
  105. e quero ter certeza de que
    as pessoas têm boas intenções,
  106. que elas são boas.
  107. Mas vivemos em um mundo
    onde a opinião de alguém sobre mim
  108. pode ser recebida
    com sérias ameaças para mim
  109. ou para a segurança emocional
    e física de minha família.
  110. Então, peso os prós e contras,
  111. e, às vezes, a segurança de minha família
    vem antes de minha própria autenticidade.
  112. Mas, apesar desse risco,
    sei que, conforme Elliot cresce
  113. e desenvolve sua consciência
    e habilidades linguísticas,
  114. se eu não corrigir as pessoas, ela o fará.
  115. Não quero que meus medos
    e inseguranças sejam colocados nela
  116. para reprimir seu espírito
    e fazê-la questionar sua própria voz.
  117. Preciso modelar a ação,
    a autenticidade e a vulnerabilidade,
  118. o que significa se apoiar nos momentos
    desconfortáveis de ser chamado de "mãe",
  119. tomar partido e dizer: "Não, sou pai.
  120. Tenho até as piadas de pai
    para provar isso".
  121. (Risos)

  122. Já houve muitos momentos desconfortáveis
    e até mesmo alguns dolorosos.

  123. Mas também houve,
    em apenas dois breves anos,
  124. momentos de validação e, às vezes,
    de transformação em minha jornada como pai
  125. e em meu caminho rumo à autenticidade.
  126. Com nosso primeiro ultrassom,
  127. decidimos que queríamos
    saber o sexo do bebê.
  128. O técnico viu uma vulva, bateu
    as palavras "É uma menina" na tela,
  129. deu uma cópia para nós e fomos embora.
  130. Compartilhamos a foto com nossas famílias,
  131. e, logo depois, minha mãe apareceu
    em nossa casa com uma sacola cheia.
  132. E não estou exagerando.
  133. Era desta altura, cheia, transbordando
    de roupas e brinquedos cor-de-rosa.
  134. Eu estava um pouco aborrecido
    por me defrontar com muitas coisas rosa,
  135. tendo estudado gênero
  136. e passado incontáveis horas ensinando
    sobre isso em oficinas e salas de aula.
  137. Eu pensava que sabia muito
    sobre a construção social de gênero,
  138. sobre como o machismo
    é uma desvalorização do feminino
  139. e se manifesta explícita e implicitamente.
  140. Mas essa situação, essa aversão
    a uma sacola cheia de coisas cor-de-rosa
  141. me forçou a explorar minha rejeição
    de coisas altamente feminizadas
  142. no mundo de minha filha.
  143. Percebi que eu estava
    reforçando o machismo

  144. e as normas culturais
    que eu ensinava como problemáticas.
  145. Não importa o quanto eu acreditava
    na neutralidade de gênero na teoria,
  146. na prática, a ausência de feminilidade
    não é neutralidade, é masculinidade.
  147. Se eu vestir meu bebê
    apenas de verde, azul e cinza,
  148. o mundo externo não vai achar:
    "Ah, é uma graça de bebê sem gênero".
  149. As pessoas vão achar:
    "Ah, que menino bonitinho".
  150. Então, minha compreensão teórica de gênero
    e meu mundo como pai entraram em conflito.
  151. Sim, quero que minha filha experimente
    uma diversidade de cores e brinquedos.
  152. Quero que ela explore um ambiente
    equilibrado que faça sentido a ela.
  153. Até escolhemos um nome neutro
    para nossa criança nascida menina.
  154. Mas a neutralidade de gênero
    é muito mais fácil como um esforço teórico
  155. do que como prático.
  156. Em minhas tentativas de criar
    neutralidade de gênero,
  157. eu estava privilegiando sem querer
    a masculinidade sobre a feminilidade.
  158. Em vez de reduzir ou eliminar
    a feminilidade de nossas vidas,
  159. fazemos um esforço conjunto
    para glorificá-la.
  160. Temos cor-de-rosa
    entre a variedade de cores,
  161. equilibramos as gracinhas com os bonitões
    e as lindas com os fortes e inteligentes
  162. e trabalhamos duro para não associar
    nenhuma palavra a gênero.
  163. Valorizamos a feminilidade
    e a masculinidade
  164. ao mesmo tempo
    que somos altamente críticos.
  165. Fazemos o melhor para não fazê-la
    se sentir limitada por papéis de gênero.
  166. Fazemos tudo isso na esperança de modelar
  167. uma relação saudável e fortalecida
    com o gênero para nossa filha.
  168. Esse trabalho para desenvolver
    essa relação para Elliot

  169. me fez repensar e avaliar como
    eu permitia o machismo se manifestar
  170. em minha própria identidade de gênero.
  171. Comecei a reavaliar
    como eu rejeitava a feminilidade
  172. para justificar uma masculinidade
    que não era saudável,
  173. ou algo que eu queria transmitir.
  174. Fazer essa autoavaliação
    significava rejeitar a opção um.
  175. Não dava para ignorar e continuar.
  176. Eu tinha que escolher a opção dois.
  177. Eu tinha que lidar com
    minhas partes desconfortáveis
  178. para chegar ao meu mais autêntico eu.
  179. Eu precisava cair na real sobre
    o desconforto que tenho com meu corpo.
  180. É muito comum os transgêneros
    se sentirem desconfortáveis em seu corpo,
  181. e esse desconforto pode variar
    de debilitante a irritante
  182. e tudo o mais nesse meio.
  183. Conhecer meu corpo e me sentir
    confortável nele como transgênero
  184. tem sido uma longa jornada.
  185. Sempre lutei com as partes de meu corpo
    definidas como mais femininas:
  186. meu peito, meus quadris, minha voz.
  187. Tomei a decisão
    às vezes difícil, às vezes fácil
  188. de não tomar hormônios ou fazer
    qualquer cirurgia para mudar isso
  189. e me tornar mais masculino
    pelos padrões da sociedade.
  190. Embora eu certamente não tenha superado
    todos os sentimentos de insatisfação,
  191. percebi que, ao não me envolver
    com esse desconforto
  192. e chegar a um lugar positivo
    e afirmativo com meu corpo,
  193. eu reforçava o machismo, a transfobia
    e formava a vergonha do corpo.
  194. Se eu odiar meu corpo,
  195. especificamente as partes
    que a sociedade considera femininas,
  196. prejudico a forma como minha filha
    pode ver as possibilidades de seu corpo
  197. e suas partes femininas.
  198. Se odeio ou me sinto
    desconfortável com meu corpo,
  199. como posso esperar
    que minha filha ame o dela?
  200. Seria mais fácil para mim
    escolher a opção um:

  201. ignorar minha filha quando ela perguntar
    sobre meu corpo ou escondê-lo dela.
  202. Mas tenho que escolher
    a opção dois todos os dias.
  203. Preciso enfrentar minhas suposições
    de como um corpo de pai pode e deve ser.
  204. Trabalho todos os dias para me sentir
    mais confortável neste corpo
  205. e no modo como expresso a feminilidade.
  206. Falo mais sobre isso, exploro
    a fundo esse desconforto
  207. e encontro uma linguagem
    que me deixa confortável.
  208. Esse desconforto diário me ajuda
    a construir ação e autenticidade
  209. no modo como apareço
    em meu corpo e gênero.
  210. Estou trabalhando
    contra limitar a mim mesmo.
  211. Quero mostrar a ela
    que um pai pode ter quadris,
  212. não precisa ter peito perfeitamente plano,
    nem mesmo deixar crescer a barba.
  213. E, quando ela estiver preparada,
  214. quero conversar com ela
    sobre minha jornada com meu corpo.
  215. Quero que ela veja
    minha busca em ser autêntico
  216. mesmo quando for para mostrar a ela
    as partes mais confusas.
  217. Temos um pediatra maravilhoso

  218. e um bom relacionamento
    com o médico de nossa filha.
  219. Como todos sabem,
    embora o médico continua o mesmo,
  220. os enfermeiros mudam.
  221. Quando Elliot nasceu,
    nós a levamos ao pediatra
  222. e conhecemos nossa primeira enfermeira;
    vamos chamá-la de Sarah.
  223. Logo de início,
  224. dissemos a Sarah que eu seria chamado
    de "pai" e minha parceira de "mãe".
  225. Sarah foi uma dessas pessoas que entendeu,
  226. e nossas visitas posteriores
    correram muito bem.
  227. Um ano depois, Sarah trocou de turno
  228. e começamos a trabalhar com uma nova
    enfermeira; vamos chamá-la de Becky.
  229. Não tivemos conversas diretas
  230. até que Sarah, nossa primeira
    enfermeira, entrou para dizer olá.
  231. Sarah é cordial e alegre e disse olá
    para Elliot, para mim e minha esposa
  232. e, quando conversava
    com Elliot, disse algo como:
  233. "Seu pai está segurando seu brinquedo?"
  234. Pelo canto do olho, pude ver Becky
    voltar-se bruscamente em sua cadeira
  235. e olhar feio para Sarah.
  236. E como a conversa mudou
    para o nosso pediatra,
  237. vi a interação de Sarah e Becky
    continuar, e foi algo assim:
  238. Becky: balançando a cabeça em sinal
    de "não" e murmurando a palavra "mãe";
  239. Sarah: balançando a cabeça em sinal
    de "não" e murmurando: "não, pai".
  240. (Risos)

  241. Estranho, não?

  242. Isso aconteceu em total silêncio
    mais algumas vezes até que nos afastamos.
  243. Essa interação me marcou.

  244. Sarah poderia ter escolhido a opção um,
  245. ignorado Becky e a deixado
    me chamar de mãe.
  246. Teria sido mais fácil para Sarah.
  247. Ela poderia ter devolvido para mim
    a responsabilidade ou não ter dito nada.
  248. Mas, naquele momento,
    ela escolheu a opção dois.
  249. Ela escolheu enfrentar o que se presumia
    e confirmar minha existência.
  250. Ela insistia que uma pessoa com minha voz
    e aparência não podia, de fato, ser pai.
  251. E, de modo leve, mas significativo,
  252. ela veio em minha defesa e na defesa
    de minha autenticidade e família.
  253. Infelizmente, vivemos em um mundo
    que se recusa a reconhecer os transgêneros

  254. e sua diversidade em geral.
  255. Minha esperança é que,
    quando tivermos uma oportunidade
  256. de tomar partido de alguém,
  257. todos nós façamos como Sarah,
    mesmo quando houver riscos envolvidos.
  258. Há dias em que o risco de ser pai
    não binário parece muito grande.

  259. E decidir ser pai tem sido
    realmente difícil.
  260. Tenho certeza que continuará
    a ser a experiência
  261. mais difícil e gratificante de minha vida.
  262. Mas, apesar desse desafio,
    todo dia vale 100% a pena.
  263. A cada dia, confirmo
    minha promessa a Elliot
  264. e a mesma promessa a mim mesmo:
  265. amá-la e amar a mim mesmo
  266. com perdão e compaixão,
  267. com amor resistente e generosidade,
  268. dar espaço ao crescimento,
    ir além do conforto,
  269. na esperança de alcançar
    e viver uma vida mais significativa.
  270. Sei, na mente e no coração,

  271. que haverá dias difíceis, dolorosos
    e desconfortáveis pela frente.
  272. A mente e o coração
    também sabem que tudo isso
  273. levará a uma vida mais rica e autêntica,
  274. da qual eu possa não me arrepender
    quando olhar para trás.
  275. Obrigado.

  276. (Aplausos)