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← Os insultos de Shakespeare

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Showing Revision 4 created 04/06/2015 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Porque é que nos encolhemos
    quando ouvimos dizer "Shakespeare"?

  2. Se me perguntam, normalmente
    é por causa das suas palavras.
  3. Todos aqueles "vós"
    e "vossos" e "portantos"
  4. e "quem sois vós"
    são mais do que irritantes.
  5. Mas temos que refletir,
    porque é que ele é tão popular?
  6. Porque é que as peças dele
    foram representadas,
  7. mais do que as de qualquer
    outro dramaturgo?
  8. É por causa das suas palavras.
  9. Nos finais do século XVI
    e princípios do século XVII,
  10. era a melhor ferramenta
    que uma pessoa tinha
  11. e havia muito de que falar.
  12. Mas, a maior parte era muito deprimente.
  13. Estão a ver, com a Peste Negra
    e isso tudo...
  14. Shakespeare usa muitas palavras.
  15. Uma das suas proezas mais impressionantes
    é a utilização de insultos.
  16. Unificavam todo o público;
  17. onde quer que estivesse,
  18. toda a gente se ria
    com o que se passava no palco.
  19. As palavras, mais precisamente um diálogo,
    num quadro dramático
  20. são utilizadas
    por muitas razões diferentes:
  21. para situar o ambiente da cena,
  22. para dar melhor atmosfera ao ambiente
  23. e para estabelecer relações
    entre as personagens.
  24. Os insultos conseguem isso
    de forma rápida e incisiva.
  25. Comecemos por "Hamlet".
  26. Pouco antes deste diálogo,
  27. Polonius é o pai de Ofélia,
    que está apaixonada pelo Príncipe Hamlet.
  28. O rei Cláudio está a tentar perceber
  29. porque é que o Príncipe Hamlet
    está a agir como um louco
  30. desde que o rei casou
    com a mãe do Príncipe Hamlet.
  31. Polónio oferece-se para usar a sua filha
    para obter informações do Príncipe Hamlet.
  32. Passamos para o Ato II, Cena 2.
  33. Polónio: "Conheceis-me, Senhor?"
  34. Hamlet: "Muito bem.
    És traficante de peixe".
  35. Polónio: "Eu cá não, senhor".
  36. Hamlet: "Preferia que fosses
    um homem honesto".
  37. Ora bem, mesmo sem sabermos
    o que significa "traficante de peixe",
  38. podemos usar algumas pistas do contexto.
  39. Uma: Polónio reagiu de forma negativa,
    portanto deve ser uma coisa má.
  40. Duas: O peixe cheira mal,
    por isso deve ser uma coisa má.
  41. Três: Traficante não parece ser
    uma palavra boa.
  42. Portanto, mesmo que
    não saibamos o significado,
  43. começamos a construir
    uma certa caracterização
  44. da relação entre Hamlet e Polónio,
  45. que não era boa.
  46. Mas se aprofundarmos mais um pouco,
  47. "traficante de peixe" significa
    um intermediário de certo tipo,
  48. e, neste quadro, significaria um chulo,
  49. como se Polónio estivesse a utilizar
    a sua filha para ganhar dinheiro,
  50. coisa que ele está a fazer
    para agradar ao rei.
  51. Isto permite-nos ver que Hamlet
    não é tão louco como afirma,
  52. e intensifica a animosidade
    entre aquelas duas personagens.
  53. Querem outro exemplo?
  54. "Romeu e Julieta" têm alguns
    dos melhores insultos
  55. de todas as peças de Shakespeare.
  56. É uma peça sobre dois clãs,
  57. e dois apaixonados mal-aventurados
    que se suicidam.
  58. Bem, antes das escaramuças,
  59. sabemos que houve troca
    de insultos graves.
  60. E não ficaremos desiludidos.
  61. No Ato I Cena 1, logo a partir do início,
  62. ficamos a par do nível
    de desconfiança e ódio
  63. revelado pelos membros das duas famílias,
    os Capuleto e os Montecchio.
  64. Gregório: "Franzo o sobrolho
    sempre que passo por eles
  65. "e eles que pensem o que quiserem".
  66. Sansão: "Eles não se atrevem,
    vou morder o polegar à frente deles,
  67. "será uma afronta para eles,
    se se ficarem".
  68. Entram Abraão e Baltazar.
  69. Abraão: "Senhor, é para nós
    que mordeis o polegar?"
  70. Sansão: "Mordo, sim, Senhor".
  71. Abraão: "Senhor, é para nós
    que mordeis o polegar?"
  72. Como é que esta construção nos ajuda
    a perceber o tom ou o carácter?
  73. Vamos decompô-lo para perceber o insulto.
  74. Atualmente, morder o polegar
    não parece grande coisa
  75. mas Sansão diz que é um insulto.
  76. Se eles o dizem, é porque devia ser.
  77. Isto começa a mostrar-nos
    o nível de animosidade
  78. mesmo entre os homens
    que trabalham para os dois clãs.
  79. Normalmente isto só se faz a alguém
  80. se quisermos provocá-lo para uma luta,
  81. o que é exatamente
    o que está prestes a acontecer.
  82. Aprofundando mais, morder o polegar.
    na época em que a peça foi escrita.
  83. é como espetar o dedo médio, hoje.
  84. Provoca uma reação muito forte,
  85. portanto, começamos
    a sentir a tensão da cena.
  86. Mais tarde, na mesma cena,
    Tebaldo, da Casa dos Capuleto,
  87. atira uma boa a Benvólio,
    da Casa dos Montecchio.
  88. Tebaldo: "O quê! Estás feito com
    esses valentões sem coração?
  89. "Volta-te, Benvólio,
    e enfrenta a tua morte".
  90. Benvólio: "Eu só quero manter a paz;
    abaixa a tua espada
  91. "ou usa-a para me ajudar
    a separar estes homens".
  92. Tebaldo: "O quê, de espada na mão
    e falas de paz!
  93. "Odeio tanto essa palavra,
    como odeio o inferno,
  94. "todos os Montecchio e a ti também.
  95. "Toma, cobarde".
  96. Ok, "valentões sem coração"?
  97. Ficamos de novo a saber,
    não é uma coisa boa.
  98. As duas famílias odeiam-se mutuamente,
    e isto é só deitar lenha na fogueira.
  99. Mas até que ponto estas ferroadas são más?
  100. Um valentão sem coração é um cobarde.
  101. Chamar isso a alguém em frente
    dos seus homens, e da família rival,
  102. significa que vai haver uma luta.
  103. Tebaldo basicamente provoca Benvólio
  104. e, a fim de defender a sua honra,
    Benvólio tem que lutar.
  105. Este diálogo dá-nos uma boa ideia
  106. quanto à caracterização
    destas duas personagens.
  107. Tebaldo acha que os Montecchio
    não passam de cães cobardes
  108. e não lhes tem respeito nenhum,
  109. reforçando, mais uma vez,
    a tensão dramática da cena,
  110. Ok, atenção agora a um alerta.
  111. A casmurrice de Tebaldo
    e o profundo ódio aos Montecchio
  112. é aquilo a que os literatos
    chamam de "hamartía",
  113. ou seja, o que causa a sua perda.
  114. Pois é.
  115. Ele cai às mãos de Romeu.
  116. Por isso, quando lerem Shakespeare,
    parem e olhem para as palavras
  117. porque elas estão
    a tentar dizer-vos qualquer coisa.