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← Isto pode ser a razão de estarmos deprimidos ou ansiosos

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Showing Revision 50 created 11/03/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Durante muito tempo,
  2. meditei sobre dois mistérios.
  3. Eu não os entendia,
  4. e para ser honesto,
    tinha medo de refletir sobre eles.
  5. O primeiro mistério era:
    eu tenho 40 anos,
  6. e durante toda a minha vida,
    ano após ano,
  7. os casos graves de depressão
    e ansiedade têm aumentado
  8. nos EUA, na Grã-Bretanha,
  9. e em todo o mundo ocidental.
  10. E eu queria entender porquê.
  11. Porque é que isso
    está a acontecer connosco?
  12. Porque é que, a cada ano que passa,
  13. cada vez mais gente acha difícil
    chegar ao fim do dia?
  14. Eu queria entender isto por causa
    de um mistério mais pessoal.
  15. Quando eu era adolescente,

  16. lembro-me de ir ao médico
  17. e explicar que tinha a sensação
    de uma dor que jorrava de dentro de mim.
  18. Eu não a conseguia controlar,
  19. não percebia porque é
    que aquilo estava a acontecer,
  20. Sentia-me muito envergonhado.
  21. O meu médico contou-me uma história
  22. que, agora percebo, foi bem intencionada,
  23. mas muito simplificada.
  24. Não totalmente errada.
  25. O médico disse:
    "Sabemos porque é que isto acontece.
  26. "Algumas pessoas desenvolvem naturalmente
    um desequilíbrio químico no cérebro,
  27. "claramente és uma delas.
  28. "Só precisamos de te dar medicamentos
  29. "para o equilíbrio químico
    voltar ao normal."
  30. Comecei a tomar um fármaco
    chamado Paxil ou Seroxat,

  31. é a mesma coisa com nomes diferentes
    em países diferentes.
  32. E senti-me muito melhor,
    senti-me estimulado.
  33. Mas pouco tempo depois,
  34. o sentimento de dor começou a voltar.
  35. Deram-me doses cada vez maiores
  36. até que, durante 13 anos,
    tomei a dose máxima possível
  37. que é permitido tomar legalmente.
  38. Na maioria desses 13 anos,
    e praticamente todo o tempo final,
  39. eu continuava a sofrer muito.
  40. Comecei a perguntar-me:
    "Afinal, o que é que se passa aqui?"
  41. "Se estamos a fazer tudo
  42. "o que a história da cultura dominante
    nos diz para fazer,
  43. "porque é que ainda nos sentimos assim?"
  44. Para resolver estes dois mistérios,
  45. para um livro que eu escrevi,
  46. acabei por fazer uma grande viagem
    por todo o mundo.
  47. Eu viajei mais de 64 000 km
  48. para falar com os principais
    especialistas do mundo
  49. sobre as causas da depressão
    e da ansiedade
  50. e, essencialmente, o que as soluciona,
  51. e com pessoas que ultrapassaram
    a depressão e a ansiedade
  52. de várias formas distintas.
  53. E eu aprendi muito
  54. com as pessoas maravilhosas
    que conheci ao longo do caminho.
  55. Na essência do que aprendi está que,

  56. até agora, temos evidências científicas
  57. para nove causas diferentes
    da depressão e da ansiedade.
  58. Duas delas estão na nossa biologia.
  59. Os nossos genes podem tornar-nos
    mais sensíveis a estes problemas,
  60. embora eles não escrevam o nosso destino.
  61. Há mudanças cerebrais reais que podem
    acontecer quando ficamos deprimidos
  62. que podem dificultar a saída.
  63. Mas a maioria dos fatores comprovados
  64. que causam depressão e ansiedade
  65. não estão na nossa biologia.
  66. São fatores na nossa maneira de viver.
  67. Logo que os compreendemos,
  68. abre-se um conjunto
    muito diferente de soluções
  69. que deveriam ser oferecidas às pessoas
  70. em conjunto com a opção
    de tomar antidepressivos químicos.
  71. Por exemplo, se sentimos solidão,

  72. temos maior probabilidade
    de ficarmos deprimidos.
  73. Se, no trabalho, não temos
    nenhum controlo sobre o nosso trabalho,
  74. e só podemos fazer o que nos mandam,
  75. temos maior probabilidade
    de ficarmos deprimidos.
  76. Se raramente temos contacto
    com a natureza,
  77. temos maior probabilidade
    de ficarmos deprimidos.
  78. Uma coisa une muitas das causas
    da depressão e da ansiedade

  79. que aprendi.
  80. Não todas, mas muitas delas.
  81. Todos aqui sabem
  82. que temos necessidades
    físicas naturais, certo?
  83. Obviamente.
  84. Precisamos de comida, precisamos de água,
  85. precisamos de abrigo,
    precisamos de ar puro.
  86. Se nos tirassem essas coisas,
  87. ficaríamos em apuros, muito rapidamente.
  88. Mas ao mesmo tempo,
  89. todo o ser humano tem
    necessidades psicológicas naturais.
  90. Precisamos de sentir que pertencemos.
  91. Precisamos de sentir que a nossa vida
    tem um sentido e um propósito,
  92. que as pessoas nos veem e valorizam.
  93. Precisamos de sentir que temos
    um futuro com sentido.
  94. Esta cultura que construímos
    é boa em muitas coisas.
  95. E muitas coisas estão melhor
    que no passado.
  96. Estou feliz por estar vivo hoje.
  97. Mas estamos cada vez pior
  98. em satisfazer estas necessidades
    psicológicas básicas profundas.
  99. E isto não é a única coisa que se passa,
  100. mas penso que é a razão chave
    de esta crise estar a aumentar.
  101. Achei isto muito difícil de assimilar.
  102. Lutei bastante contra a ideia
  103. de deixar de pensar na minha depressão
    como um problema apenas no meu cérebro,
  104. para um problema com muitas causas,
  105. inclusive na nossa forma de viver.
  106. Isto só começou a fazer sentido para mim

  107. quando um dia fui entrevistar
    um psiquiatra sul-africano
  108. chamado Derek Summerfield.
  109. Ele é um homem fantástico.
  110. O Dr. Summerfield estava
    no Camboja em 2001,
  111. quando apresentaram os antidepressivos
    químicos pela primeira vez
  112. às pessoas desse país.
  113. Os médicos locais, cambojanos,
    nunca tinham ouvido falar dessas drogas
  114. e perguntavam: "O que são?"
  115. E ele explicou.
  116. E eles disseram-lhe:
  117. "Não precisamos disso,
    nós já temos antidepressivos."
  118. Ele disse: "Como assim?"
  119. Pensava que lhe fossem falar
    de algum tipo de remédio herbal,
  120. como a erva-de-são-joão,
    a ginkgo biloba, ou algo parecido.
  121. Em vez disso, contaram-lhe uma história.
  122. Havia um agricultor na comunidade deles
    que trabalhava nos campos de arroz.

  123. Um dia, ele pisou uma mina terrestre,
  124. deixada pela guerra com os EUA,
  125. que lhe arrancou uma perna.
  126. Deram-lhe uma perna artificial,
  127. e ele voltou a trabalhar
    nos campos de arroz.
  128. Mas parece que é muito doloroso
    trabalhar dentro de água,
  129. quando se tem um membro artificial,
  130. e penso que tenha sido muito traumático
  131. voltar a trabalhar no campo
    onde perdera a perna.
  132. O homem começou a chorar o dia todo,
  133. recusou-se a sair da cama,
  134. desenvolveu todos os sintomas
    da depressão clássica.
  135. O médico cambojano disse:
  136. "Foi então que lhe demos
    um antidepressivo."
  137. O Dr. Summerfield disse:
    "O que é que foi?"
  138. Eles explicaram que foram ter com ele
    e sentaram-se juntos.
  139. Ouviram-no.
  140. Perceberam que a dor dele fazia sentido.
  141. Era difícil para o homem entender,
    no meio da sua depressão,
  142. que esta tinha causas perfeitamente
    compreensíveis na sua vida.
  143. Um dos médicos, a falar com as pessoas
    na comunidade, sugeriu:
  144. "Se comprarmos uma vaca a este homem,
  145. "ele pode ser um produtor de leite,
  146. "e não precisa de estar numa situação
    que o prejudica tanto,
  147. "não precisa de trabalhar
    nos campos de arroz".
  148. Então compraram-lhe uma vaca.
  149. Em duas semanas o choro cessou,
  150. Num mês, a depressão
    tinha desaparecido.
  151. Disseram ao Dr. Summerfield:
  152. "Está a ver, doutor, aquela vaca
    foi um antidepressivo.
  153. "É a isso que se refere, não é?"
  154. (Risos)

  155. (Aplausos)

  156. Se foram educados para pensar
    na depressão como eu fui,

  157. e a maioria das pessoas aqui foi,
  158. isto parece uma piada de mau gosto.
  159. "Fui à médica pedir um antidepressivo
  160. "e ela deu-me uma vaca."
  161. Mas o que aqueles médicos cambojanos
    sabiam intuitivamente,
  162. baseados neste episódio
    individual e não científico,
  163. é o que o principal corpo médico do mundo,
  164. a Organização Mundial da Saúde,
  165. nos tem tentado dizer há anos,
  166. baseando-se nas melhores
    evidências científicas.
  167. Se estamos deprimidos,

  168. se estamos ansiosos,
  169. não somos fracos, não somos malucos,
  170. não somos, na maioria,
    uma máquina com peças avariadas.
  171. Somos um ser humano
    com necessidades não satisfeitas.
  172. Também é importante pensar
    no que os médicos cambojanos
  173. e a Organização Mundial da Saúde
    não estão a dizer.
  174. Não disseram a este agricultor:
  175. "Olha, amigo, tens de te recompor.
  176. "És tu que tens de entender
    e resolver este problema sozinho."
  177. Pelo contrário, o que é dito é:
  178. "Estamos aqui enquanto grupo
    para trabalhar contigo,
  179. "Em conjunto, podemos perceber
    e resolver este problema."
  180. É disto que uma pessoa
    deprimida precisa,
  181. e é o que todas as pessoas
    deprimidas merecem.
  182. Por isso é que um dos médicos principais
    das Nações Unidas,

  183. no seu discurso oficial
    no Dia Mundial da Saúde,
  184. disse há dois anos, em 2017:
  185. "Precisamos de falar menos
    em desequilíbrios químicos,
  186. "e falar mais nos desequilíbrios
    na forma como vivemos".
  187. Os fármacos trazem grande alívio
    a algumas pessoas
  188. — deram-me alívio durante algum tempo,
  189. mas, precisamente porque este problema
    é mais complexo que a biologia,
  190. as soluções também precisam
    de ser mais complexas.
  191. A primeira vez que aprendi isto,

  192. lembro-me de pensar:
  193. "Eu conseguia ver todas
    as evidências científicas,
  194. "li um grande número de estudos,
  195. "entrevistei muitos especialistas
    que explicavam isto,
  196. "mas não deixava de pensar
    'Como é que podemos fazer isto?' "
  197. As coisas que nos tornam deprimidos
  198. são, habitualmente, mais complexas
  199. do que o que se passou
    com o agricultor cambojano.
  200. Por onde começar, após esta revelação?
  201. Mas depois, na grande viagem
    para o meu livro,

  202. por todo o mundo,
  203. não parei de conhecer pessoas
    que faziam isso mesmo,
  204. desde Sydney
    a São Francisco, a São Paulo.
  205. Encontrei sempre pessoas
    que entendiam
  206. as causas mais profundas
    da depressão e da ansiedade
  207. e, enquanto grupos, as solucionavam.
  208. Não vos posso falar
    de todas as pessoas maravilhosas
  209. que conheci e sobre quem escrevi
  210. ou de todas as nove causas de depressão
    e ansiedade que aprendi,
  211. porque não me deixam fazer
    uma palestra TED de 10 horas
  212. — podem queixar-se disso com eles.
  213. Mas quero focar-me em duas das causas

  214. e duas das soluções que delas emergem.
  215. Aqui está a primeira.
  216. Somos a sociedade mais solitária
    na história da humanidade.
  217. Um estudo recente perguntou
    aos norte-americanos:
  218. "Sente que já não está
    próximo de ninguém?"
  219. E 39% de pessoas disseram
    que isso as descrevia:
  220. "Já não estou próximo de ninguém."
  221. Nas medições internacionais da solidão,
  222. a Grã-Bretanha e o resto da Europa
    seguem-se logo aos EUA,
  223. caso alguém se sinta superior.
  224. (Risos)

  225. Passei muito tempo a analisar isto

  226. com o principal especialista
    em solidão do mundo,
  227. um homem incrível,
    o professor John Cacioppo,
  228. que estava em Chicago.
  229. Pensei muito numa questão
    que o trabalho dele coloca.
  230. O professor Cacioppo perguntou:
  231. "Porque é que existimos?
  232. "Porque estamos aqui,
    porque estamos vivos?"
  233. Uma razão fundamental
  234. é que os nossos antepassados
    nas savanas de África
  235. eram muito bons numa coisa.
  236. Eles não eram maiores que os animais
    que abatiam na maior parte do tempo,
  237. não eram mais rápidos que os animais
    que abatiam na maior parte do tempo,
  238. mas eram muito melhores
    a juntar-se em grupos e a cooperar.
  239. Este era o nosso superpoder
    enquanto espécie,
  240. agrupamo-nos.
  241. Assim como as abelhas evoluíram
    para viverem em colmeia,
  242. os seres humanos evoluíram
    para viverem em tribos.
  243. Somos os primeiros
    seres humanos de sempre
  244. a dissolver as nossas tribos,
  245. o que nos faz sentir pessimamente.
  246. Mas isto não tem de ser assim.
  247. Um dos heróis no meu livro,
    e, de facto, na minha vida,

  248. é um médico chamado Sam Everington.
  249. Ele é clínico geral numa zona pobre
    na zona oriental de Londres,
  250. onde vivi muitos anos.
  251. Sam estava muito desconfortável,
  252. porque muitos pacientes iam ter com ele
  253. com depressão e ansiedade terríveis.
  254. Ele não se opõe
    aos antidepressivos químicos,
  255. pensa que dão algum
    alívio a certas pessoas.
  256. Mas ele via duas coisas.
  257. Primeiro, que a maioria dos seus pacientes
    estavam deprimidos e ansiosos
  258. por razões totalmente compreensíveis,
    como a solidão.
  259. Segundo, embora os fármacos
    aliviassem algumas pessoas,
  260. na maioria delas
    não resolviam o problema,
  261. o problema subjacente.
  262. Um dia, Sam decidiu ser pioneiro
    de uma abordagem diferente.
  263. Apareceu no seu centro de saúde
  264. uma mulher chamada Lisa Cunningham.
  265. Eu conheci a Lisa mais tarde.
  266. A Lisa tinha estado fechada em casa
    com depressão incapacitante e ansiedade
  267. durante sete anos.
  268. Quando ela foi ao centro do Sam,
    disseram-lhe:
  269. "Não te preocupes, vamos continuar
    a dar-te estes fármacos,
  270. "mas vamos prescrever outra coisa também.
  271. "Vamos receitar que venhas
    a este centro, duas vezes por semana,
  272. "para te reunires com um grupo
    de pessoas deprimidas e ansiosas,
  273. "não para falares de quão miserável estás,
  274. "mas para descobrires alguma coisa
    com significado que possam fazer juntos
  275. "para não te sentires sozinha,
    não sentires que a vida é inútil."
  276. A primeira vez que este grupo se reuniu,

  277. Lisa começou literalmente
    a vomitar de ansiedade.
  278. Foi tão avassalador para ela.
  279. Mas as pessoas confortaram-na,
    começaram a falar, dizendo:
  280. "O que é que podemos fazer?"
  281. Eram pessoas da cidade,
    pessoas como eu,
  282. não sabiam nada de jardinagem,
    mas disseram:
  283. "Porque é que não aprendemos
    jardinagem?"
  284. Havia uma área abandonada
    por detrás dos gabinetes médicos
  285. "Porque é que não fazemos um jardim?"
  286. Começaram a levar livros da biblioteca,
  287. Começaram a ver vídeos no YouTube.
  288. Começaram a meter as mãos na terra.
  289. Começaram a aprender
    os ritmos das estações.
  290. Há muitos indícios
  291. de que o contacto com o mundo natural
  292. é um antidepressivo muito poderoso.
  293. Mas eles começaram a fazer algo
    ainda mais importante.
  294. Começaram a formar uma tribo.
  295. Começaram a formar um grupo.
  296. Começaram a cuidar uns dos outros.
  297. Se um deles não aparecia,
  298. os outros iam à procura dele e diziam:
    "Está tudo bem?"
  299. Ajudavam-no a perceber
    o que o perturbava nesse dia.
  300. A Lisa colocou isto assim:
  301. "À medida que o jardim
    começou a florescer,
  302. "nós começámos a florescer."
  303. Esta abordagem chama-se
    prescrição social,

  304. e está a espalhar-se pela Europa.
  305. Há um pequeno mas crescente
    corpo de indícios
  306. que sugere que pode produzir
    um declínio real e significativo
  307. na depressão e na ansiedade.
  308. Um dia, lembro-me de estar no jardim

  309. que a Lisa e os seus amigos construíram
  310. — é um jardim mesmo bonito —
  311. e ter um pensamento,
  312. inspirado por um professor
    chamado Hugh Mackay, da Austrália.
  313. Quantas vezes, quando as pessoas
    se sentem em baixo nesta cultura,
  314. o que lhes dizemos é:
    — eu e todos aqui o dissemos:
  315. "Só precisas de ser tu próprio".
  316. Percebi que, na realidade,
    o que deveríamos dizer é:
  317. "Não sejam vocês.
  318. "Não sejam vocês próprios.
  319. "Sejam nós.
  320. "Sejam parte de um grupo."
  321. (Aplausos)

  322. A solução para estes problemas

  323. não passa por recorrer
    cada vez mais aos nossos recursos
  324. enquanto indivíduo isolado
  325. — isso é em parte
    o que nos levou a esta crise.
  326. Passa por nos interligarmos
    a algo maior do que nós.
  327. Isto está muito associado
    a uma das outras causas

  328. de depressão e de ansiedade
    de que vos queria falar.
  329. Todos sabem
  330. que a comida de plástico domina
    as nossas dietas e nos faz adoecer.
  331. Não digo isto com ar de superioridade,
  332. eu vim do McDonald's para esta palestra.
  333. Eu vi-vos a comer o pequeno-almoço
    saudável do TED, e pensei: "Nem pensar".
  334. Mas tal como a comida de plástico domina
    as nossas dietas e nos faz adoecer,
  335. uma espécie de valores de plástico
    tem dominado as nossas mentes
  336. e faz-nos adoecer, mentalmente.
  337. Durante milhares de anos,
    os filósofos disseram
  338. que, se pensamos que a vida é
    só dinheiro, estatuto e ostentação,
  339. vamo-nos sentir uma porcaria.
  340. Não é bem uma citação exata
    de Schopenhauer,
  341. mas é na essência o que ele disse.
  342. Estranhamente, quase ninguém
    tinha investigado isto cientificamente,

  343. até que conheci uma pessoa
    extraordinária, o professor Tim Kasser,
  344. que está no Knox College em Illinois,
  345. e tem investigado isto há 30 anos.
  346. A sua investigação sugere
    várias coisas muito importantes.
  347. Primeiro, quanto mais acreditamos
  348. que comprar e exibir
  349. é o caminho que leva da tristeza
    a uma boa vida,
  350. maior é a probabilidade de nos tornarmos
    deprimidos e ansiosos.
  351. Em segundo lugar,
  352. enquanto sociedade, tornámo-nos
    muito mais conduzidos por estas crenças.
  353. Em toda a minha vida,
  354. sob o peso da publicidade, do Instagram
    e de tudo o que seja parecido.
  355. Enquanto pensava nisto,

  356. percebi que é como se nos tivessem
    alimentado desde a nascença,
  357. com uma espécie de comida
    de plástico para a alma.
  358. Treinaram-nos para procurar a felicidade
    em todos os lugares errados,
  359. e tal como a comida de plástico
    não satisfaz as necessidades nutricionais
  360. e nos faz sentir pessimamente,
  361. os valores de plástico não satisfazem
    as nossas necessidades psicológicas,
  362. e privam-nos de uma vida boa.
  363. A primeira vez que passei tempo
    com o professor Kasser
  364. e estava a aprender tudo isto,
  365. senti uma mistura
    bem estranha de emoções.
  366. Porque, por um lado,
    achei isto muito desafiante.
  367. Eu via quão frequentemente
    na minha vida, ao me sentir em baixo,
  368. eu tentava remediar a situação com
    uma solução grandiosa e meio vistosa.
  369. E percebi porque é que isso
    não resultara bem para mim.
  370. Pensei também:
    "Não é isto óbvio?
  371. "Não é isto quase banal?"
  372. Se eu vos dissesse a todos
  373. que nenhum de vocês se deitará
    no leito de morte
  374. a pensar nos sapatos que comprou
    e nos "retweets" que recebeu,
  375. mas que vão pensar
    em momentos de amor,
  376. de significado e de conexão na vossa vida.
  377. Acho que parece quase um cliché.
  378. Continuei a falar com
    o professor Kasser e disse-lhe:
  379. "Porque é que sinto
    esta estranha duplicidade?"
  380. E ele disse: "De certa forma,
    todos sabemos estas coisas.
  381. "Mas nesta cultura, não as vivemos.
  382. "Conhecemo-las tão bem
    que elas se tornam clichés,
  383. "mas não as vivemos".
  384. Continuei a perguntar porque é
    que sabemos algo tão profundo,
  385. mas não o vivemos?
  386. Passado um momento,
    o professor Kasser disse-me:
  387. "Porque vivemos numa máquina
  388. "concebida para nos fazer negligenciar
    o que é importante na vida."
  389. Tive de pensar bem acerca disso.
  390. "Porque vivemos numa máquina
  391. "concebida para nos fazer negligenciar
    o que é importante na vida."
  392. O professor Kasser queria descobrir
    se podemos sabotar essa máquina.

  393. Ele fez muita investigação sobre isso.
  394. Vou-vos dar um exemplo,
  395. e encorajo todos a experimentar isto
    com os amigos e família.
  396. Um homem chamado Nathan Dungan,
    reuniu adolescentes e adultos,
  397. que se juntaram numa série de sessões
    durante algum tempo.
  398. Parte do objetivo do grupo
  399. era que as pessoas pensassem
    num momento da sua vida
  400. em que tivessem encontrado
    sentido e propósito.
  401. Para pessoas diferentes,
    eram coisas diferentes.
  402. Para algumas pessoas era tocar música,
    escrever, ajudar alguém
  403. — de certeza que todos conseguimos
    imaginar algo assim.
  404. E parte do objetivo do grupo
    era que as pessoas perguntassem:
  405. "Ok, como é que podemos
    dedicar mais da nossa vida
  406. "perseguindo estes momentos
    de significado e de propósito,
  407. "e menos a comprar porcarias
    de que não precisamos,
  408. "a colocá-las nas redes sociais
    para as pessoas dizerem:
  409. " 'Ó meu Deus, que inveja!' "
  410. Eles descobriram que,

  411. só por ter estas reuniões,
  412. era como uma espécie de Alcoólicos
    Anónimos para o consumismo.
  413. Fazerem estas reuniões,
    articularem estes valores,
  414. decidirem agir sobre eles
    e prestarem contas umas às outras,
  415. levou a uma mudança marcada
    nos valores das pessoas.
  416. Afastou-as deste furacão
    de mensagens geradoras de depressão
  417. que nos treinam a procurar a felicidade
    nos sítios errados,
  418. aproximando-as de valores
    mais significativos e nutritivos
  419. que nos fazer sair da depressão.
  420. Mas com todas as soluções
    que vi e escrevi,

  421. e muitas de que não posso falar aqui,
  422. continuei a pensar,
  423. "Porque é que demorei tanto tempo
    a ter estes discernimentos?"
  424. Porque, quando os explicamos às pessoas
  425. — algumas são mais complicadas,
    mas não todas —
  426. quando explicamos isto às pessoas,
    não é difícil de compreender.
  427. De alguma forma,
    já sabemos estas coisas.
  428. Mas porque é que achamos
    tão difícil de entender?
  429. Acho que há muitas razões.
  430. Penso que uma razão é que temos
    de mudar o nosso entendimento
  431. do que realmente são
    a depressão e a ansiedade.
  432. Há contribuições biológicas muito reais
  433. para a depressão e para a ansiedade.
  434. Mas se permitimos que a biologia
    pinte todo o quadro,
  435. como eu fiz durante muito tempo,
  436. como diria que a nossa cultura
    fez basicamente toda a minha vida,
  437. o que estamos a dizer implicitamente
    — e ninguém tem essa intenção —
  438. mas o que estamos a dizer
    implicitamente é:
  439. "A tua dor não vale nada.
  440. "É só um mau funcionamento.
  441. "É como uma falha
    num programa de computador,
  442. "É só um problema de ligações na cabeça."
  443. Só consegui mudar a minha vida
  444. quando percebi que a depressão
    não é um mau funcionamento.
  445. É um sinal.
  446. A nossa depressão é um sinal.
  447. Está-nos a dizer algo.
  448. (Aplausos)

  449. Sentimo-nos assim por alguma razão,

  450. que pode ser difícil de ver
    no meio da depressão
  451. — eu percebo isso muito bem
    por experiência pessoal.
  452. Mas com a ajuda certa,
    podemos entender estes problemas
  453. e podemos resolver estes problemas juntos.
  454. Mas, para fazer isso,
  455. o primeiro passo é deixar
    de insultar estes sinais
  456. dizendo que são um sinal de fraqueza,
    de loucura ou meramente biológicos,
  457. com exceção de um pequeno
    número de pessoas.
  458. Temos de começar a ouvir estes sinais,
  459. porque nos estão a dizer
    algo que precisamos de ouvir.
  460. Só quando verdadeiramente
    ouvirmos estes sinais,
  461. honrarmos estes sinais
    e respeitarmos estes sinais,
  462. é que começaremos a ver
  463. as soluções mais profundas,
    libertadoras e nutritivas:
  464. as vacas que estão à espera à nossa volta.
  465. Obrigado.

  466. (Aplausos)