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← As oportunidades escondidas da economia informal

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Showing Revision 78 created 03/17/2018 by Margarida Ferreira.

  1. Os mercados informais de África
    são considerados, segundo o estereótipo,
  2. caóticos e desorganizados.

  3. A desvantagem da palavra "informal"
    é a associação automática que temos
  4. — que é muito negativa
  5. e que já teve consequências significativas
    e perdas económicas —
  6. de acrescentar ou subtrair facilmente
    40 a 60% à margem de lucro,

  7. nos mercados informais.
  8. Para traçar o percurso do ecossistema
    do comércio informal,
  9. fizemos uma análise exaustiva
    dos relatórios e estudos
  10. do comércio transfronteiriço
    na África Oriental dos últimos 20 anos.
  11. Serviu para nos prepararmos
    para o trabalho de campo

  12. para perceber os entraves
    ao comércio informal neste setor informal.
  13. Descobrimos que, nos últimos 20 anos,
    ninguém fez a distinção entre ilícito
  14. — ou seja, o tráfico ou o contrabando
    no setor informal —
  15. e legal, mas não declarado,
  16. como é o caso do tomate,
    das laranjas e de outros frutos.
  17. Esta criminalização,
  18. — a que em suaíli chamamos "biashara",
    que é a venda ou o comércio,
  19. ao contrário de "magendo"
    que é tráfico ou contrabando —
  20. esta criminalização do setor informal,
  21. — que, em inglês, não distingue
    entre estes aspetos —
  22. pode custar à economia africana
  23. entre 60 a 80%
    do crescimento anual do PIB,

  24. por causa da nossa incapacidade
    de reconhecer o motor dessas economias.

  25. A criação de emprego no setor informal
    é quatro vezes superior
  26. à da economia formal tradicional,
  27. ou economia "moderna",
    como é conhecida.
  28. Oferece emprego e oportunidades
    para gerar receitas
  29. aos "sem-qualificações"
    para as profissões convencionais.

  30. Mas vocês conseguem fazer
    uma fritadeira de um carro velho?
  31. É isto, senhoras e senhores,
    que falta legitimar urgentemente.
  32. Enquanto continuarmos a achar
    que isto é um crime,
  33. que é clandestino,
  34. que é ilegal,
  35. não haverá uma tentativa de integração
    do ecossistema económico informal,

  36. nem no ecossistema formal nem no global.
  37. Vou-vos contar a história da Teresia,
  38. uma comerciante que contrariou
    todas as nossas suposições
  39. e nos fez questionar todos os estereótipos
    dos estudos dos últimos 20 anos.
  40. A Teresia vende roupas
    debaixo de uma árvore,
  41. numa cidade chamada Malaba,
    na fronteira do Uganda com o Quénia.
  42. Parece simples, não parece?
  43. Pendurar as roupas novas nos ramos,
  44. estender a lona, instalar-se,
    esperar pelos clientes
  45. e é tudo.
  46. Ela era exatamente o que esperávamos
    com base nos estudos e na investigação,
  47. incluindo viver do comércio
    e criar os filhos sozinha.
  48. Então, o que é que contrariou
    as nossas suposições?

  49. O que é que nos surpreendeu?
  50. Primeiro, a Teresia pagava uma renda
    à autoridade local, todos os dias,
  51. pelo privilégio de ter a sua venda
    debaixo da árvore.
  52. É assim há sete anos
    e passam-lhe recibos.
  53. Ela tem registos.
  54. Não se trata de uma comerciante africana
  55. marginalizada, desfavorecida,
    vulnerável, na berma da estrada.
  56. Trata-se de alguém que tem
    registos de vendas há anos.
  57. Ela dispõe de um ecossistema
    de comércio a retalho
  58. com origem no Uganda
    para criar o seu "stock",
  59. uma pessoa que tem carrinhos de mão
    para transportar a mercadoria,
  60. e um agente bancário que vem recolher
    o dinheiro, ao fim do dia.
  61. Sabem quanto é que a Teresia
    gasta, em média,
  62. por mês em compras,
  63. em stocks de roupas novas
    que recebe de Nairobi?
  64. 1500 dólares americanos.
  65. Isto é um investimento de cerca
    de 20 000 dólares em bens e serviços
  66. todos os anos.
  67. É esta a Teresia,
  68. a mulher invisível,
    a intermediária escondida.

  69. E ela faz parte apenas da primeira linha
    de pequenos empresários,
  70. de microempresas que podemos
    encontrar nestes mercados locais.
  71. Pelo menos,
    na região fronteiriça de Malaba,
  72. ela encontra-se na primeira linha.
  73. As pessoas mais acima
    na cadeia do comércio
  74. têm pelo menos
    três linhas de negócio,
  75. investindo 2500 a 3000 dólares por mês.
  76. Então, afinal o problema
    não era a criminalização.
  77. Não se pode criminalizar alguém
    a quem passamos recibos.
  78. É a falta de reconhecimento
    das suas ocupações.
  79. Os sistemas e a estrutura bancária
  80. não têm meios para os reconhecer
    como microempresas,
  81. além de que as árvores
    não têm endereço postal.

  82. Por isso, ela não tem saída.
  83. É ignorada pelas nossas suposições.
  84. Conhecem os micro-empréstimos
    para ajudar comerciantes africanas?
  85. São empréstimos de 50 ou 100 dólares.
    O que é que ela pode fazer com isso?
  86. Ela gasta 10 vezes isso por mês,
    só em compras,
  87. sem contar com os serviços extra
    ou o ecossistema de apoio.
  88. Estas pessoas não encaixam
    nem no estereótipo político
  89. dos não qualificados
    e dos marginalizados,
  90. nem nos trabalhadores
    administrativos com salários
  91. ou nos funcionários públicos com reforma,
  92. que supostamente compõem
    a classe média.

  93. Em vez disso, o que temos aqui
    são as proto-PMEs,
  94. as sementes férteis
    do comércio e das empresas
  95. que são o motor da economia
    e que põem a comida na mesa.
  96. Mesmo aqui neste hotel,
    as pessoas invisíveis
  97. — os talhantes, os padeiros
    os fabricantes de castiçais —
  98. fazem as máquinas
    que fritam as batatas,
  99. fazem as vossas camas.
  100. São estas as empresárias invisíveis
    do comércio fronteiriço
  101. todas à berma da estrada
  102. e por isso invisíveis aos que fazem
    a recolha de dados.
  103. Estão no meio da confusão
    do vasto setor informal
  104. que não distingue entre os contrabandistas
    e os que fogem ao fisco
  105. e os que fazem outro tipo
    de comércio ilegal,
  106. e as senhoras que são comerciantes

  107. e que põem a comida na mesa
    e mandam os filhos para a universidade.
  108. Este é o apelo que eu faço aqui.
  109. Isto é o que todos devemos fazer.
  110. Podemos começar pelo reconhecimento
    de capacidades, de ocupações?
  111. Podemos transformar a economia informal
    começando por esse reconhecimento
  112. e depois criar as medidas
    específicas necessárias
  113. para a sua integração na economia formal,
    global e em todo o sistema.
  114. Obrigada, senhoras e senhores.

  115. (Aplausos)