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← Três segredos de pessoas resilientes

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Showing Revision 10 created 06/20/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Gostaria de começar, se puder,
    a fazer-vos algumas perguntas.
  2. Se vocês já tiverem perdido
    alguém que amam muito,
  3. se já tiveram o coração partido,
  4. se já tiverem lutado
    num divórcio complicado,
  5. ou se já tiverem sido
    vítimas de infidelidade,
  6. por favor, levantem-se.
  7. Caso não possam levantar-se,
    levantem a mão.
  8. Por favor, mantenham-se de pé
  9. e mantenham a mão levantada.
  10. Se tiverem sobrevivido
    a um desastre natural,
  11. se sofreram de "bullying"
    ou ficaram redundantes,
  12. continuem de pé.
  13. Se tiveram um aborto espontâneo,
  14. se já tiveram um aborto
  15. ou sofreram de infertilidade,
  16. por favor, levantem-se.
  17. Finalmente, se vocês ou alguém
    que vocês amam
  18. tiveram de lidar
    com uma doença mental, com demência,
  19. com alguma forma de deficiência física
  20. ou de lidar com um suicídio,
  21. por favor, levantem-se.
  22. Olhem à vossa volta.
  23. A adversidade não discrimina.
  24. Se vocês estão vivos,
  25. terão ou já tiveram de lidar
  26. com tempos difíceis.
  27. Obrigada, podem-se sentar.
  28. Comecei a estudar investigações
    sobre resiliência há uma década

  29. na Universidade da Pensilvânia,
    em Filadélfia.
  30. Foi um tempo maravilhoso
  31. porque os professores que me treinaram
  32. tinham acabado de fazer um contrato
  33. para treinar 1,1 milhões
    de soldados americanos
  34. para estarem aptos mentalmente
    como sempre estiveram fisicamente.
  35. Como podem imaginar,
  36. não se consegue uma audiência
    mais cética
  37. do que os sargentos de treino americanos
    que regressam do Afeganistão.
  38. Então, para alguém como eu,
  39. cujo objetivo principal na vida
    é conseguir descobrir
  40. como agarrar nas melhores conclusões
    científicas da academia,
  41. e levá-las para as pessoas
    na sua vida quotidiana,
  42. foi um lugar muito inspirador
    para estar.
  43. Eu terminei os meus estudos nos EUA
  44. e regressei a casa
    aqui em Christchurch
  45. para começar o meu doutoramento.

  46. Eu tinha acabado de começar os estudos
  47. quando ocorreu
    o terremoto de Christchurch.
  48. Então fiz uma pausa
    na minha investigação,
  49. e comecei a trabalhar
    com a comunidade da minha cidade
  50. para ajudá-los naquele
    terrível período pós-terremoto.
  51. Trabalhei com vários tipos
    de organizações,
  52. de departamentos governamentais
    a empresas de construção
  53. e com diversos tipos
    de grupos comunitários,
  54. ensinando-lhes formas
    de pensar e agir
  55. que sabemos impulsionam a resiliência.
  56. Eu pensei que era essa
    a minha missão,
  57. o meu momento de dar bom uso
    a toda a minha investigação.
  58. Mas infelizmente, eu estava enganada.
  59. O meu verdadeiro teste
    apareceu em 2014
  60. no final de semana
    do aniversário da rainha.
  61. Nós e outras duas famílias
    decidimos ir até o Lago Ohau

  62. e pedalar até ao mar.
  63. No último minuto,
  64. Abi, a minha linda filha de 12 anos,
  65. decidiu entrar no carro com a sua
    melhor amiga, Ella, também com 12 anos,
  66. e com Sally, a mãe de Ella,
    uma amiga minha muito querida.
  67. No caminho,
    enquanto elas viajavam por Rakaia
  68. na Thompsons Track,
  69. um carro acelerou num sinal de "stop",
  70. colidiu com elas
  71. e matou as três instantaneamente.
  72. Num abrir e fechar de olhos,
  73. encontro-me lançada
    para o outro lado da equação,
  74. acordando com uma identidade
    totalmente nova.

  75. Em vez de ser a especialista
    em resiliência
  76. subitamente, eu sou a mãe de luto.
  77. Acordando sem saber quem eu sou,
  78. tentando que a minha cabeça
    entenda notícias inimagináveis,
  79. o meu mundo desfez-se em pedacinhos.
  80. Repentinamente, eu estou na outra ponta
    de todos esses conselhos qualificados.
  81. E posso dizer-vos
  82. não gostei nada do que ouvi.
  83. Nos dias depois da morte de Abi,
  84. disseram-nos que éramos fortes
    candidatos a um afastamento familiar,
  85. que, provavelmente, nos divorciaríamos,

  86. e que corríamos grande risco
    de doenças mentais.
  87. "Meu Deus," lembro-me de ter pensado,
  88. "Muito obrigada, julgava
    que a minha vida já era uma merda."
  89. (Risos)
  90. Os folhetos descreviam
    os cinco estágios do luto:
  91. raiva, rejeição, negação,
    depressão, aceitação.

  92. O apoio às vítimas
    bateu à nossa porta

  93. e disse-nos para nos prepararmos
    para cinco anos de luto.
  94. Eu sei que os folhetos
    e os recursos tinham boas intenções.
  95. Mas todos aqueles conselhos,
  96. fizeram-nos sentir como vítimas.
  97. Totalmente apavorados
    pelo futuro à nossa frente
  98. e impotentes para ter
    qualquer influência no nosso luto.
  99. Eu não precisava que me dissessem
    quanto as coisas eram ruins.
  100. Acreditem, eu já sabia
    que eram realmente terríveis.
  101. O que eu precisava era de esperança.
  102. Precisava de um percurso
    por toda aquela angústia,
  103. aquela dor e aquela saudade.
  104. Mais que tudo,
  105. eu queria ser uma participante ativa
    no meu processo de luto.
  106. Então, decidi virar as costas
    aos conselhos deles
  107. e decidi fazer uma experiência própria.
  108. Eu tinha feito a investigação,
    tinha as ferramentas,

  109. queria saber até que ponto
    seriam úteis para mim,
  110. perante uma montanha
    tão grande para escalar.
  111. Hoje tenho de confessar
  112. que eu não sabia, de verdade,
    que nada disso funcionaria.
  113. O luto por um filho
    é amplamente reconhecido
  114. como a perda mais difícil de suportar.
  115. Mas posso dizer agora,
    cinco anos depois,
  116. o que eu já sabia da investigação.
  117. Que podemos erguer-nos na adversidade,
  118. que há estratégias que funcionam,
  119. que é perfeitamente possível
  120. agirmos e pensarmos
    de determinadas formas
  121. que ajudam a atravessar
    tempos difíceis.
  122. Há uma quantidade enorme de investigação
    sobre como fazer essas coisas.
  123. Hoje, vou apenas partilhar
    convosco três estratégias,
  124. Estas são as estratégias essenciais
    em que eu confiei

  125. e que me salvaram
    dos meus dias mais sombrios.
  126. São três estratégias
    que sustentam todo o meu trabalho,
  127. e que são facilmente
    acessíveis para todos nós,
  128. qualquer um pode aprendê-las.
  129. Vocês podem aprendê-las aqui hoje.
  130. Então, número um.
  131. As pessoas resilientes
    entendem que acontecem coisas más.
  132. Sabem que isso faz parte da vida.

  133. Isso não significa
    que as recebam de bom grado,
  134. elas não estão loucas.
  135. Mas quando chegam os momentos difíceis,
  136. elas parecem saber
  137. que o sofrimento faz parte
    de toda a experiência humana.
  138. E saber isso impede-nos
    de nos sentirmos discriminados
  139. quando chegam os tempos difíceis.
  140. Nunca me passou pela cabeça pensar:
  141. "Porquê eu?"
  142. Na verdade, lembro-me de pensar:
  143. "Porque não eu?
  144. "Coisas horríveis acontecem comigo
  145. "da mesma forma que acontecem
    com toda a gente.
  146. "Esta é a minha vida agora,

  147. " a altura de me afundar ou de nadar."
  148. A verdadeira tragédia
  149. é que parece que são poucos
    os que ainda pensam assim.
  150. Parece que vivemos numa era
  151. em que temos direito
    a uma vida perfeita,
  152. em que a norma são as fotos
    brilhantes e felizes no Instagram,
  153. quando, na verdade,
  154. como todos vocês demonstraram
    no início da minha palestra,
  155. o oposto é que é a verdade.
  156. Número dois.
  157. As pessoas resilientes
    são muito boas
  158. em escolher cuidadosamente
    onde colocam a sua atenção.
  159. Têm o hábito de avaliar
    realisticamente as situações
  160. em especial, conseguindo concentrar-se
    em coisas que podem mudar,

  161. e, de certa forma, aceitar
    as coisas que não podem mudar.
  162. Esta é uma capacidade vital
    para a resiliência.
  163. Como humanos, somos muito bons
  164. em perceber ameaças e fraquezas.
  165. Estamos programados
    para essa negativa.
  166. Somos muito, muito bons
    em dar por elas
  167. As emoções negativas agarram-se
    a nós como Velcro,
  168. enquanto que as emoções
    e experiências positivas
  169. parecem ser rechaçadas, como o Teflon.
  170. Estar programado desta forma
    é muito bom para nós
  171. e serviu-nos bem
    numa perspetiva evolutiva.
  172. Imagine por instantes
    que sou uma mulher das cavernas.
  173. Saio da minha caverna de manhã,
  174. há um tigre dentes-de-sabre
    de um lado

  175. e um lindo arco-íris do outro.
  176. Eu, para sobreviver,
    preciso de reparar naquele tigre.
  177. O problema é que agora
    vivemos numa época
  178. em que somos constantemente
    bombardeados
  179. por ameaças o dia inteiro
  180. e o nosso pobre cérebro
    trata cada uma dessas ameaças
  181. como se elas fossem um tigre.
  182. A nossa atenção, a resposta ao "stress"
  183. estão permanentemente ligados.
  184. As pessoas resilientes não
    diminuem a negativa,
  185. mas também acharam uma forma
  186. de transformá-la em algo bom.
  187. Um dia, quando as dúvidas
    ameaçavam esmagar-me,
  188. lembro-me muito bem
    de ter pensado:
  189. "Não, não podes ser engolida assim.
  190. "Tens de sobreviver.
  191. "Tens muito por que viver.

  192. "Escolhe a vida, não a morte.
  193. "Não percas o que tens
    para o que perdeste."
  194. Em psicologia, chamamos-lhe
    conclusão de benefício.
  195. No meu admirável mundo novo,
  196. isso envolveu tentar descobrir
    coisas que devemos agradecer.
  197. Pelo menos, a nossa querida menina
  198. não morreu de uma doença
    terrível, longa e desgastante.
  199. Morreu subitamente, instantaneamente,
  200. poupando-nos e a ela
    desse sofrimento.
  201. Tivemos uma grande quantidade
    de apoio social,
  202. de familiares e amigos que nos ajudaram.
  203. E acima de tudo,
  204. ainda tínhamos de viver
    para dois lindos meninos
  205. que precisavam de nós
  206. e mereciam ter a vida mais normal
    que lhes pudéssemos dar.
  207. Conseguir mudar a nossa atenção
  208. para também incluir o que é bom
  209. ficou demonstrado pela ciência
    que é uma estratégia muito forte.
  210. Em 2005, Martin Selligman e os seus
    colegas realizaram uma experiência.
  211. Pediram a pessoas que pensassem
    em três coisas boas
  212. que tivessem acontecido com elas
    em cada dia.
  213. Descobriram, ao longo
    de um estudo de seis meses,
  214. que essas pessoas mostraram
    níveis mais altos de gratidão,

  215. níveis mais altos de felicidade
  216. e menos depressão
    ao longo de seis meses de estudo.
  217. Quando estamos a lidar com o luto,
  218. talvez precisemos que nos lembrem
  219. ou talvez precisemos de permissão
    para nos sentirmos gratos.
  220. Na nossa cozinha, comprámos
    um póster rosa néon
  221. que nos lembra para "aceitarmos" o bom.
  222. No exército americano,
  223. fizeram as coisas
    de forma um pouco diferente.
  224. Falaram com o exército
    sobre procurar coisas boas.
  225. Procurem a língua estrangeira
    que funcione convosco,
  226. mas façam o que fizerem,
  227. façam um esforço intencional,
    deliberado, contínuo,
  228. para aprimorar o que é bom
    no vosso mundo.
  229. Número três.
  230. As pessoas resilientes interrogam-se:
  231. "O que estou a fazer está a ajudar-me
    ou a prejudicar-me?"
  232. Esta é uma pergunta muito
    usada em numa boa terapia.
  233. E é muito forte.

  234. Era esta a pergunta que eu mais fazia
  235. nos dias após a morte das meninas.
  236. Eu perguntava vezes sem conta.
  237. "Devia ir ao julgamento
    e ver o condutor?
  238. "Isso ajudar-me-ia ou prejudicar-me-ia?"
  239. Nessa, não precisei de pensar muito,
    decidi ficar longe.
  240. Mas Trevor, o meu marido,
    decidiu conhecer o condutor

  241. uns tempos depois.
  242. À noite, por vezes, apanho-me
    a chorar ao ver fotos antigas da Abi,
  243. ficando cada vez mais transtornada.
  244. Eu pergunto:
  245. "A sério? Isto está a ajudar-te
    ou a prejudicar-te?
  246. "Guarda as fotos,
  247. "Vai para a cama dormir,
  248. "sê gentil contigo mesma."
  249. Esta pergunta pode ser aplicada
    em muitos contextos diferentes.
  250. A forma como eu penso ou atuo
    está a ajudar-vos ou a prejudicar-vos
  251. na vossa tentativa de conseguir
    aquela promoção,
  252. de passar naquele exame,
  253. de recuperar de um ataque cardíaco?

  254. Tantas formas diferentes.
  255. Eu escrevo muito sobre resiliência
  256. e ao longo dos anos,
    esta estratégia
  257. promoveu mais "feedbacks"
    positivos do que qualquer outra.
  258. Eu recebo dezenas de cartas
    de "e-mails" e de coisas
  259. de toda a parte,
  260. de pessoas que dizem o grande impacto
    que isso teve na vida delas.
  261. Seja perdoando uma antiga
    transgressão de família,
  262. discussões de Natais passados
  263. seja apenas passear
    pelas redes sociais,
  264. seja perguntando para vocês mesmos
  265. se precisam mesmo
    daquele copo de vinho a mais.
  266. Se perguntarem o que estão a fazer
    como estão a pensar,
  267. a forma como estão a agir
  268. está a ajudar-vos ou a prejudicar-vos
  269. a colocar-vos de novo
    no lugar do motorista.
  270. Dá-vos um certo controlo
    na vossa tomada de decisões.
  271. Três estratégias.
  272. Muito simples.
  273. Estão rapidamente disponíveis
    a todos nós,
  274. a qualquer hora, em qualquer lugar.
  275. Não precisam de ciência do outro mundo.

  276. A resiliência não é
    uma característica fixa.
  277. Não é enganosa,
  278. uma coisa que algumas pessoas têm
    e outras pessoas não.
  279. Na verdade, necessita
    de processos muito vulgares.
  280. Apenas a vontade de lhes dar uma hipótese.
  281. Eu penso que todos nós
    temos momentos na vida
  282. em que o nosso caminho se divide
  283. e a jornada que pensávamos
    que estávamos a seguir
  284. toma uma direção terrível
  285. que nunca previmos

  286. e que certamente não queríamos.
  287. Aconteceu comigo.
  288. Foi mais horrível
    do que é possível imaginar.
  289. Se vocês se encontrarem
    numa situação em que pensem:
  290. "Não há hipótese
    de eu recuperar disto",
  291. eu peço que tentem estas estratégias
  292. e pensem melhor.
  293. Eu não vou fingir
  294. que pensar desta forma é fácil.
  295. E não elimina toda a dor.
  296. Mas se eu aprendi algo
    ao longo destes cinco anos,
  297. é que pensar desta forma
    realmente ajuda.
  298. Sobretudo,
  299. mostrou-me que é possível
  300. viver e sofrer ao mesmo tempo.
  301. E por isso, eu serei sempre grata.
  302. Obrigada.
  303. (Aplausos)