Portuguese, Brazilian subtitles

← Três segredos das pessoas resilientes

Get Embed Code
42 Languages

Showing Revision 59 created 07/06/2020 by Maricene Crus.

  1. Para começar, peço licença
    para fazer algumas perguntas.
  2. Se vocês já perderam alguém
    que amavam profundamente,
  3. se já tiveram o coração partido,
  4. se já passaram por um divórcio complicado,
  5. ou se já foram vítima de infidelidade,
  6. por favor, levantem-se.
  7. Se não for possível ficar de pé,
    vocês podem levantar a mão.
  8. Por favor, permaneçam de pé
  9. e deixem a mão levantada.
  10. Se vocês já viveram um desastre natural,
    já sofreram bullying ou foram demitidos,
  11. levantem-se.
  12. Se já sofreram um aborto espontâneo,
  13. se vocês já abortaram
  14. ou se já lutaram contra a infertilidade,
  15. por favor, levantem-se.
  16. Por fim, se vocês, ou qualquer
    pessoa que amam,
  17. tiveram que lidar com alguma
    doença mental, demência,
  18. alguma forma de deficiência física,
    ou lidou com suicídio,
  19. por favor, levantem-se.
  20. Olhem ao redor.
  21. Dificuldades não discriminam.
  22. Se você está vivo,
  23. terá ou já teve
  24. que enfrentar tempos difíceis.
  25. Obrigada a todos, podem se sentar.
  26. Eu comecei meus estudos
    sobre resiliência há uma década

  27. na Universidade da Pensilvânia,
  28. na Filadélfia.
  29. Foi incrível estar lá naquela época,
    porque os professores que me treinaram
  30. tinham acabado de conseguir um contrato
  31. para treinar 1,1 milhões
    de soldados americanos
  32. para ficarem tão bem mentalmente
    quanto estavam fisicamente.
  33. Como podem imaginar,
  34. não dá pra ter um público mais cético
    que sargentos de treinamento americanos
  35. voltando do Afeganistão.
  36. Para alguém como eu,
    cuja missão principal na vida é entender
  37. como podemos tirar melhor proveito
    dos resultados acadêmicos
  38. e levá-los para o dia a dia das pessoas,
  39. a universidade era um lugar
    bem inspirador para se estar.
  40. Terminei meus estudos nos Estados Unidos

  41. e depois voltei aqui para casa,
    em Christchurch,
  42. para começar meu doutorado.
  43. Eu tinha acabado de começar minha pesquisa
  44. quando aconteceu o terremoto
    em Christchurch.
  45. Então, eu deixei minha pesquisa de lado
  46. e comecei a trabalhar com minha comunidade
  47. para ajudá-la durante aquele período
    terrível depois do terremoto.
  48. Trabalhei com todo tipo de organizações,
  49. de órgãos governamentais a construtoras,
  50. e todo tipo de grupos comunitários,
  51. ensinando a todos eles
    maneiras de pensar e agir
  52. que estimulam a resiliência.
  53. Eu pensei que aquela era minha vocação,
  54. meu momento de fazer bom uso
    de toda aquela pesquisa.
  55. Mas, infelizmente, eu estava errada.
  56. Meu verdadeiro teste veio em 2014,

  57. no final de semana
    do Aniversário da Rainha.
  58. Nós e outras duas famílias
    tínhamos decidido
  59. descer para o lago Ohau
    e pedalar até a costa.
  60. No último minuto,
  61. minha linda filha Abi, de 12 anos,
  62. decidiu entrar no carro com a melhor
    amiga, Ella, também de 12 anos,
  63. e a mãe da Ella, Sally,
    uma amiga minha muito querida.
  64. No caminho, quando estavam
    viajando por Rakaia
  65. em Thompsons Track,
    um motorista ignorou o sinal de PARE
  66. e bateu no carro delas,
  67. matando as três instantaneamente.
  68. Num piscar de olhos,

  69. eu me senti arremessada
    para o outro lado da equação,
  70. acordando com uma identidade
    completamente nova.
  71. Ao invés de ser
    a especialista em resiliência,
  72. eu era, de repente, uma mãe em luto.
  73. Acordar sem saber quem sou,
  74. tentar entender aquelas
    notícias impensáveis,
  75. meu mundo se quebrou em pedacinhos.
  76. De repente, sou eu quem precisa
    de todo aquele conselho de especialista.
  77. E digo mais,
  78. eu não gostei nem um pouco do que escutei.
  79. Nos dias seguintes à morte de Abi,

  80. nos disseram que estávamos
    à beira do distanciamento familiar.
  81. Que provavelmente iríamos nos divorciar
  82. e que corríamos risco
    de uma doença mental.
  83. Lembro-me de ter pensado: "Uau!
  84. Obrigada, pensei que minha vida
    já estivesse uma droga".
  85. (Risos)

  86. Os panfletos descreviam
    os cinco estágios do luto:

  87. raiva, negociação, negação,
    depressão, aceitação.
  88. O apoio à vítima chegou à nossa porta
  89. e disse que deveríamos considerar
    os próximos cinco anos de luto.
  90. Eu sei que os panfletos
    e as iniciativas tinham boas intenções.
  91. Mas em todo aquele conselho,
    eles nos faziam sentir como vítimas,
  92. completamente arrasados
    com o caminho pela frente
  93. e incapazes de exercer qualquer influência
    sobre qualquer que fosse nosso luto.
  94. Não precisava que me dissessem
    que as coisas estavam muito ruins.
  95. Acreditem, já sabia que as coisas
    eram realmente terríveis.
  96. O que eu mais precisava era de esperança.
  97. Eu precisava de uma luz
    no meio de toda aquela angústia,
  98. dor e anseio.
  99. Acima de tudo,
  100. queria ser um agente participativo
    no meu processo de luto.
  101. Então, decidi dar as costas
    àqueles conselhos

  102. e, ao invés disso, decidi conduzir
    uma autoexperimentação.
  103. Eu pesquisei e tinha as ferramentas.
  104. Queria saber se elas seriam
    mesmo úteis naquele momento
  105. frente a uma montanha enorme para escalar.
  106. Mas, neste momento, tenho que confessar
  107. que não sabia direito se alguma
    coisa daquilo iria funcionar.
  108. A perda de um filho é conhecida
    como a mais difícil de suportar.
  109. Mas agora posso dizer,
    depois de cinco anos,
  110. o que eu já sabia da pesquisa.
  111. Que você pode se reerguer
    de uma dificuldade,
  112. que há estratégias que funcionam,
  113. que é bem possível
  114. fazer você pensar e agir
    de certas maneiras
  115. que ajudarão a abrir caminho
    em tempos difíceis.
  116. Existem coleções enormes
    de pesquisas sobre como fazer isso.

  117. Hoje, vou dividir
    com vocês três estratégias.
  118. Essas foram as principais que adotei
  119. e que me salvaram nos dias mais difíceis.
  120. São três estratégias que sustentam
    todo o meu trabalho
  121. e estão todas facilmente
    disponíveis a todos nós,
  122. qualquer um pode aprender.
  123. Vocês podem aprendê-las agora mesmo.
  124. Então, número um:

  125. pessoas resilientes sabem
    que coisas terríveis acontecem.
  126. Sabem que o sofrimento faz parte da vida.
  127. Não significa que o apreciem,
    elas não estão delirando.
  128. Só que quando os tempos difíceis chegam,
  129. elas parecem entender
  130. que o sofrimento é parte
    da existência humana.
  131. E saber disso impede que você
    se sinta discriminado
  132. quando os tempos difíceis chegam.
  133. Nem uma única vez tinha me perguntado:
  134. "Por que eu?"
  135. Na verdade, me lembro ter pensado:
  136. "Por que não eu?
  137. Coisas terríveis acontecem com você,
    assim como acontecem com qualquer um.
  138. Essa é sua vida agora:
    é hora de afundar ou nadar".
  139. A verdadeira tragédia
  140. é que poucos de nós parecem
    compreender isso.
  141. Parece que vivemos numa época
    em que temos o direito a uma vida perfeita
  142. na qual fotos bonitas e felizes
    no Instagram são a regra,
  143. quando, na verdade,
  144. como todos vocês mostraram
    no começo da minha palestra,
  145. a verdade é o oposto.
  146. Número dois:

  147. pessoas resilientes
  148. sabem escolher cautelosamente
    ao que dar atenção.
  149. Elas têm o hábito de julgar
    situações de maneira realista
  150. e, normalmente, focam
    o que elas podem mudar,
  151. e, de alguma forma, aceitam
    as coisas que não podem.
  152. Essa é uma habilidade vital
    para a resiliência e pode ser aprendida.
  153. Como humanos,
  154. nós somos muito bons em perceber
    ameaças e fraquezas.
  155. Nós ficamos atentos ao negativo.
  156. Somos muito bons em percebê-lo.
  157. Emoções negativas colam
    em nós como Velcro,
  158. enquanto emoções e experiências positivas
    parecem quicar como o Teflon.
  159. Ficar atento nesse sentido é,
    na verdade, muito bom para nós,

  160. e nos serviu muito bem
    sob uma perspectiva evolutiva.
  161. Imaginem por um momento
    que sou uma mulher das cavernas,
  162. e estou saindo da minha caverna pela manhã
  163. e há um tigre dentes-de-sabre de um lado
  164. e um belo arco-íris do outro.
  165. Perceber esse tigre é a chave
    da minha sobrevivência.
  166. O problema é
  167. que agora nós vivemos em uma era
    em que somos constantemente bombardeados
  168. por ameaças o tempo todo,
  169. e nosso pobre cérebro
    trata cada uma dessas ameaças
  170. como se ela fosse um tigre.
  171. O nosso foco na ameaça,
    a resposta ao nosso estresse,
  172. fica ligado permanentemente.
  173. Pessoas resilientes
    não desdenham coisas negativas,
  174. mas elas também acharam uma maneira
  175. de se sintonizar no que é bom.
  176. Um dia, quando dúvidas
    ameaçavam tomar conta de mim,

  177. me lembro claramente de ter pensado:
  178. "Não, você não será engolida por isso.
  179. Você tem que aguentar.
  180. Você ainda tem muito para viver.
  181. Escolha a vida, não a morte.
  182. Não perca o que você tem
  183. para o que você já perdeu".
  184. Em psicologia, chamamos isso
    de "ganho percebido".
  185. No meu admirável mundo novo,
  186. isso envolvia tentar encontrar
    coisas pelas quais ser grata.
  187. Pelo menos a nossa garotinha
  188. não tinha morrido de alguma doença
    terrível, de longa duração.
  189. Morreu de repente, instantaneamente,
  190. poupando a nós e a ela mesma de dor.
  191. Nós tivemos um apoio enorme
    da nossa família e de amigos
  192. para superar isso.
  193. E o mais importante,
  194. ainda tínhamos dois lindos meninos
    para nos dedicarmos,
  195. que precisavam de nós agora,
  196. e mereciam ter uma vida normal
    e o nosso melhor.
  197. Ser capaz de mudar o foco da atenção
    para também incluir coisas boas
  198. foi mostrado pela ciência
    como uma ótima estratégia.
  199. Então, em 2005, Martin Seligmann
    e seus colegas conduziram um experimento.

  200. Tudo que eles pediram
    para as pessoas fazerem
  201. foi pensar em três coisas boas
    que tinham acontecido em cada dia.
  202. Eles descobriram, depois de mais
    de seis meses desse estudo,
  203. que aquelas pessoas manifestavam
    níveis mais altos de gratidão,
  204. níveis mais altos de felicidade
  205. e menos depressão ao longo
    dos seis meses de pesquisa.
  206. Quando você está de luto,
  207. talvez precise de um lembrete,
    ou de permissão para se sentir grato.
  208. Na nossa cozinha, temos
    um pôster rosa neon
  209. que nos lembra a aceitar as coisas boas.
  210. No exército americano,
  211. fizeram isso de modo um pouco diferente.
  212. Disseram ao exército
    para "caçar" coisas boas.
  213. Encontrem a linguagem
    que funcionar melhor, mas seja qual for,
  214. façam um esforço intencional,
    premeditado e contínuo para se sintonizar
  215. com o que há de bom do mundo.
  216. Número três:

  217. pessoas resilientes se perguntam:
  218. "O que eu estou fazendo está
    me ajudando ou me prejudicando?"
  219. Essa é uma pergunta
    muito usada em terapias boas.
  220. E como isso é poderoso!
  221. Essa era minha pergunta essencial
  222. nos dias seguintes da morte das meninas.
  223. Me fiz essa pergunta inúmeras vezes:
  224. "Devo ir ao julgamento e ver o motorista?
  225. Isso me ajudaria ou me prejudicaria?"
  226. Bem, era óbvio para mim,
  227. eu decidi ficar longe disso.
  228. Mas o Trevor, meu marido,
    decidiu conhecer o motorista
  229. um tempo depois.
  230. Tarde da noite, eu me pegava
    absorta em fotos antigas da Abi,
  231. e ficava cada vez mais triste.
  232. Eu me perguntava:
  233. "Sério? Isso está te ajudando
    ou te prejudicando?
  234. Guarde essas fotos,
  235. vá pra cama dormir,
  236. seja bondosa com você mesma".
  237. Essa pergunta pode servir
    em muitos contextos diferentes.

  238. "Será que a maneira como estou pensando
    e agindo está me ajudando ou prejudicando
  239. na minha tentativa de conseguir
    aquela promoção,
  240. passar naquela prova,
  241. me recuperar de um ataque cardíaco?"
  242. Muitas situações diferentes.
  243. Eu escrevo muito sobre resiliência
  244. e, com o passar dos anos, essa estratégia
  245. tem mostrado mais feedback
    que qualquer outra.
  246. Recebo rios de cartas e e-mails
    de todos os lugares
  247. de pessoas me falando sobre o impacto
    enorme que isso tem tido na vida delas.
  248. Seja perdoar transgressões
    familiares antigas,
  249. brigas de Natais passados,
  250. ou simplesmente "trollagem"
    em redes sociais,
  251. seja se perguntar
  252. se você realmente precisa
    de mais uma taça de vinho,
  253. se perguntar se o que você está fazendo,
    a maneira como você está pensando,
  254. se o jeito que está agindo
    está te ajudando ou te prejudicando,
  255. isso te coloca na posição de controle.
  256. Isso te dá certo controle
    na tomada de decisão.
  257. Três estratégias.

  258. Bem simples.
  259. Elas são de fácil alcance para todos nós,
  260. a qualquer hora, em qualquer lugar.
  261. Não é nada extraordinário.
  262. Resiliência não é uma característica fixa.
  263. Não é elusiva,
  264. algo que algumas pessoas têm e outras não.
  265. Ela exige, na verdade,
    um processo simples.
  266. Apenas a boa vontade para tentá-la.
  267. Acho que todos passamos
    por momentos na vida

  268. em que nossos caminhos se dividem
  269. e aquele que acreditávamos estar tomando
  270. se desvia para direções terríveis
    que nunca tínhamos previsto,
  271. e que certamente não queríamos.
  272. Aconteceu comigo.
  273. Foi horrível além do imaginável.
  274. Se vocês um dia se encontrarem
    em uma situação e pensarem:
  275. "Não tenho como me recuperar disso",
  276. recomendo que vocês
    se apoiem nessas estratégias
  277. e pensem novamente.
  278. Não vou fingir
  279. que seja fácil pensar dessa maneira.
  280. E não elimina toda a dor.
  281. Mas se aprendi algo
    nos últimos cinco anos,
  282. é que pensar dessa maneira ajuda.
  283. Mais do que qualquer outra coisa,
  284. isso me mostrou que é possível
  285. viver e estar de luto ao mesmo tempo.
  286. E eu sempre serei grata por isso.
  287. Obrigada.

  288. (Aplausos)