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← O conto popular japonês do erudito egoísta — Iseult Gillespie

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Showing Revision 4 created 09/18/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Na Quioto da Antiguidade, um devoto
    erudito xintoísta vivia uma vida simples,
  2. mas distraía-se com frequência
    das suas orações pelo ruído da cidade.
  3. Sentia que os seus vizinhos
    estavam a poluir a sua alma
  4. e decidiu realizar um "harae" pessoal,
  5. um ritual de purificação que limpasse
    o seu corpo e o seu espírito.
  6. Decidiu visitar o venerável santuário Hie.

  7. A viagem consistia numa subida
    difícil que durava um dia inteiro.
  8. Mas sentiu-se feliz
    com a solidão que lhe proporcionava
  9. e a paz que sentia quando
    regressava a casa era profunda.
  10. O erudito estava decidido a manter
    esta clareza tanto tempo quanto possível
  11. e resolveu fazer esta peregrinação
    mais 99 vezes.
  12. Percorria sozinho todo o caminho,
  13. ignorando quaisquer distrações
    na sua procura de equilíbrio,
  14. e nunca se desviando do seu objetivo.
  15. Manteve-se fiel à sua palavra

  16. e, à medida que os dias
    se transformavam em semanas,
  17. ele caminhava, quer fizesse chuva,
    quer o sol queimasse.
  18. Com o tempo, a sua devoção revelou-lhe
    o mundo invisível dos espíritos
  19. que existe paralelo ao nosso.
  20. Começou a sentir os "kami",
    que animavam as pedras sob os seus pés,
  21. a brisa que o refrescava
    e os animais pastando nos campos.
  22. Mas não falava com ninguém,
    espírito ou ser humano.

  23. Estava decidido a evitar o contacto
    com aqueles que o desviavam do caminho
  24. e estavam poluídos com "kegare",
  25. Este tabu de corrupção
    pesava sobre os doentes e os mortos
  26. assim como sobre os que corrompiam
    a terra ou praticavam crimes violentos.
  27. De todas as ameaças à procura
    de pureza espiritual do erudito
  28. o "kegare" era a mais importante.
  29. Depois de prestar a sua homenagem
    pela 80.ª vez,

  30. dirigiu-se a casa uma vez mais.
  31. Mas, quando caiu a escuridão,
    ouviu soluços contidos no ar noturno.
  32. O erudito tentou continuar
    e ignorar os lamentos
  33. mas os gritos desesperados
    impressionaram-no.
  34. Contrariado, saiu do caminho
    seguiu o som até à sua origem.
  35. Depressa chegou a uma pequena vivenda
    com uma mulher enroscada cá fora.

  36. Cheio de compaixão, o erudito implorou
    à mulher que lhe contasse a sua dor.
  37. Ela explicou que a mãe dela
    tinha acabado de morrer
  38. mas ninguém queria ajudar a sepultá-la.
  39. Ao ouvir aquilo,
    o coração dele afundou-se.
  40. Se tocasse no cadáver,
    o seu espírito ficaria corrompido,
  41. a sua força vital escaparia
    e os "kami" abandoná-lo-iam.
  42. Mas, ao ouvir o choro dela,
    a sua compaixão aumentou.
  43. Assim, os dois sepultaram a idosa,
  44. para lhe garantir a passagem segura
    para o mundo dos espíritos.
  45. Terminaram o enterro, mas o tabu da morte
    pesava fortemente sobre o erudito.

  46. Como podia ter sido tão louco
  47. ao ponto de violar a regra mais importante
    e corromper a sua viagem divina?
  48. Depois de uma noite atormentada,
  49. resolveu regressar ao santuário
    para se purificar.
  50. Para sua surpresa, o templo
    habitualmente tranquilo,

  51. estava cheio de pessoas,
  52. todas reunidas em volta de uma "medium"
    que comunicava diretamente com o "kami".
  53. O homem escondeu-se,
    sem se atrever a aproximar-se,
  54. para ninguém se aperceber
    da sua alma poluída.
  55. Mas a "medium" tinha outras formas de ver,
    e chamou-o em frente da multidão.
  56. Preparado para ser enjeitado,
    o erudito aproximou-se da santa mulher.

  57. A "medium" limitou-se a sorrir.
  58. Agarrou na mão impura dele
    com as suas mãos,
  59. e segredou-lhe uma bênção
    que só ele ouviu
  60. — agradecendo-lhe a sua bondade.
  61. Naquele momento, o erudito descobriu
    um grande segredo espiritual:
  62. a contaminação e a corrupção
    são duas coisas muito diferentes.
  63. Inspirado, o erudita recomeçou
    o regresso da sua viagem.

  64. Mas desta vez, parou para ajudar
    todos os que encontrava.
  65. Começou a ver a beleza do mundo
    espiritual em toda a parte a que ia,
  66. mesmo na cidade que evitava anteriormente.
  67. Outros avisavam-no de que ele
    punha o "kegare" em risco
  68. mas ele nunca lhes contou
    porque é que se juntava tão à vontade
  69. com os doentes e os desfavorecidos.
  70. Porque ele sabia que as pessoas
  71. só podiam compreender
    verdadeiramente o "harae"
  72. se fizessem a sua própria viagem.