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← O conto popular japonês do estudioso egoísta - Iseult Gillespie

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Showing Revision 6 created 09/27/2020 by Leonardo Silva.

  1. Na antiga Quioto, um estudioso devoto
    do xintoísmo tinha uma vida simples,
  2. mas, muitas vezes, ele se distraía
    de suas orações pela cidade movimentada.
  3. Ele sentia que seus semelhantes
    poluíam sua alma
  4. e buscava realizar
    um tipo de "harae" pessoal,
  5. um ritual de purificação
    que limparia o corpo e a mente.
  6. Ele decidiu viajar
    para o venerado Santuário Hie.

  7. A viagem foi uma subida árdua
    que durou o dia todo.
  8. Mas ele estava feliz com a solidão
    que isso lhe proporcionava,
  9. e a paz que sentia
    ao voltar para casa era profunda.
  10. O estudioso estava determinado a manter
    essa clareza pelo maior tempo possível
  11. e resolveu fazer a peregrinação
    outras 99 vezes.
  12. Ele percorria o caminho sozinho,
  13. ignorava qualquer distração
    em sua busca pelo equilíbrio
  14. e nunca se desviava de seu propósito.
  15. O homem era fiel à sua palavra

  16. e, conforme os dias se tornavam semanas,
  17. ele caminhava sob a chuva torrencial
    e o sol escaldante.
  18. Com o tempo, sua devoção
    revelava o mundo invisível dos espíritos,
  19. que existia junto ao nosso.
  20. Ele começava a sentir o "kami",
    que dava vida às rochas sob os pés,
  21. à brisa que o refrescava
    e aos animais que pastavam nos campos.
  22. Mesmo assim, ele não falava
    com ninguém, espírito ou humano.

  23. Ele estava determinado a evitar contato
  24. com aqueles que haviam se desviado
    do caminho e se contaminado com "kegare".
  25. Esse tabu de profanação
    pairava sobre os enfermos e falecidos,
  26. bem como sobre aqueles que profanavam
    a terra ou cometiam crimes violentos.
  27. De todas as ameaças à busca
    do estudioso por pureza espiritual,
  28. kegare era de longe a maior.
  29. Após 80 visitas,

  30. ele voltava para casa mais uma vez.
  31. Mas, ao anoitecer, ele ouviu
    soluços tensos no ar noturno.
  32. O estudioso tentou seguir em frente
    e ignorar os gemidos,
  33. mas os gritos desesperados o dominaram.
  34. Com desagrado, deixou seu caminho
    para seguir a origem dos sons.
  35. Logo chegou a uma cabana apertada,

  36. com uma mulher encolhida do lado de fora.
  37. Repleto de pena, o estudioso implorou
    à mulher que compartilhasse sua tristeza.
  38. Ela explicou que a mãe
    havia acabado de morrer,
  39. mas que ninguém a ajudaria com o enterro.
  40. O coração dele se partiu com essa notícia.
  41. Tocar o corpo profanaria seu espírito,
  42. drenaria sua força vital
  43. e faria com que fosse
    repudiado pelos kami.
  44. Mas, quando ouviu os prantos dela,
    sua compaixão aumentou.
  45. E então, eles enterraram
    a velha senhora juntos,
  46. para garantir sua passagem segura
    ao mundo espiritual.
  47. O enterro foi concluído,

  48. mas o tabu da morte
    pesou muito sobre o estudioso.
  49. Como ele pôde ter sido tão tolo,
  50. não cumprindo sua regra mais importante
    e corrompendo sua jornada divina?
  51. Após uma noite atormentada,
  52. ele resolveu voltar ao santuário
    para se purificar.
  53. Para surpresa dele, o templo normalmente
    silencioso estava repleto de pessoas,

  54. todas reunidas em torno de uma médium
    que se comunicava diretamente com o kami.
  55. O homem se escondeu,
    não ousando se aproximar,
  56. para que ninguém visse sua alma poluída.
  57. Mas a médium tinha outras maneiras de ver
    e o chamou à frente da multidão.
  58. Pronto para ser repudiado,
    o estudioso se aproximou da santa mulher.

  59. Mas a médium apenas sorriu.
  60. Ela segurou a mão impura dele
  61. e sussurrou uma bênção
    que só ele conseguiu ouvir,
  62. agradecendo-lhe por sua bondade.
  63. Naquele momento, o estudioso descobriu
    um segredo espiritual importante:
  64. contaminação e corrupção
    são duas coisas muito diferentes.
  65. Repleto de discernimento,
    o estudioso voltou à jornada,

  66. mas, dessa vez, parou para ajudar
    aqueles que encontrava.
  67. Ele começou a ver a beleza
    do mundo espiritual aonde quer que fosse,
  68. até mesmo na cidade
    que havia evitado anteriormente.
  69. Outros o advertiram que arriscava kegare,
  70. mas ele nunca lhes disse
  71. por que conversava tão livremente
    com os doentes e desfavorecidos,
  72. pois sabia que as pessoas só podiam
    compreender verdadeiramente o harae
  73. por meio da própria jornada.