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← O Poder de um Centro Comunitário a 100% | Joana Dionísio | TEDxSetúbal

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Showing Revision 7 created 11/26/2019 by Margarida Ferreira.

  1. A pergunta que se faz hoje é: "Para onde?"
  2. Foi a pergunta que eu já fiz
    várias vezes na minha vida
  3. e que me surgiu três vezes
    para estar aqui hoje.
  4. A primeira vez foi quando eu me perguntei
  5. para onde ia a nossa sociedade.
  6. Estas manchetes são verdadeiras,
    são de jornais,
  7. variando num período de tempo
    entre 2000 e 2018
  8. e são notícias horríveis
  9. como já tiveram oportunidade de ler
  10. e são algo que é verdadeiro.
  11. E algo que me deixou a pensar
  12. como é que nós chegamos ao ponto
  13. de que estas notícias aconteçam,
  14. principalmente a última,
    que me choca um bocadinho.
  15. Como é que alguém morre em casa
  16. e não damos conta
    de que o nosso vizinho morreu?
  17. É algo que me deixa muito triste
  18. e foi algo que me deixou a pensar
    durante algum tempo.
  19. A segunda pergunta era
    para onde ia a minha comunidade.
  20. Eu moro no bairro 25 de Abril,
    aqui em Setúbal.
  21. Para quem não conhece,
  22. é um bairro que antes se chamava
    Bairro Fundação Salazar.
  23. É um bairro que tem imenso tempo
  24. é até antes do 25 de Abril.
  25. É um bairro de casas camarárias
  26. que são casas que têm rendas mais baixas
    para pessoas carenciadas.
  27. Mas também é um bairro muito diferente,
    se calhar, dos bairros que conhecem.
  28. É um bairro onde conhecemos toda a gente.
  29. mas eu digo mesmo, toda a gente.
  30. Nós não dizemos "Olá"
    e "Boa tarde" apenas,
  31. nós conhecemos as vizinhas, os primos,
    os namorados, as tias, as filhas
  32. e sabemos que a vizinha do 5.º esquerdo
  33. já não namora com o mesmo namorado
    porque anda com outro homem há três dias.
  34. Nós sabemos mesmo, mesmo, tudo.
  35. Temos as câmaras de vigilância antigas
  36. que são as velhotas sentadas nos bancos.
  37. Portanto, é uma comunidade rica
    mas tem alguns defeitos.
  38. É uma comunidade muito pobre,
  39. é uma comunidade que tem
    alguns conflitos entre vizinhos
  40. o que me deixou a pensar
  41. que nela poderiam acontecer alguns fatores
  42. que eu referi nas notícias anteriores
  43. que aquilo um dia podia dar asneira
  44. pela falta de ligação entre as pessoas
  45. porque, apesar de nos conhecermos
    e de nos darmos todos,
  46. havia ali problemas que eu acho
    que mereciam ser resolvidos.
  47. A terceira pergunta que me perguntei
    "Para onde?"
  48. era "Para onde ia eu?"
  49. Crescida e criada em Setúbal,
  50. com um bichinho pelo ativismo,
  51. e com a maluqueira de achar
    que consigo mudar o mundo.
  52. Portanto, pensei
    onde é que eu poderia ir
  53. para poder mudar o meu bairro
  54. e poder mudar o mundo.
  55. É engraçado que a resposta
    às três perguntas foi a mesma.
  56. A cave do prédio número 16.
  57. Isto é uma cave
    que está disponível no meu bairro.
  58. Ficou disponível porque foi um infantário,
  59. depois foi outra associação,
  60. Foi várias coisas,
    e até agora não foi nada.
  61. E agora ficou disponível.
  62. As minhas vizinhas souberam logo
    e vieram-me chatear.
  63. Eu, sempre cheia de genica,
  64. vieram-me logo dizer:
  65. "Olha, a cave está disponível,
    vai já pedir aquilo para a gente".
  66. E foi isso que eu fiz,
    eu fui pedir aquilo.
  67. Então, fui a uma reunião, perguntei
  68. qual era a solução que tinham
    para aquele espaço,
  69. e falaram-me num centro comunitário.
  70. Eu tinha a cabeça feita
    com as minhas vizinhas
  71. disse logo que sim.
  72. Se me perguntassem: "Então, sabes
    o que é um centro comunitário?"
  73. eu iria responder: "Não".
  74. Eu tenho uma noção, como acho
    que todos aqui têm,
  75. mas muito mais do que isso, não.
  76. Eu não tinha um conhecimento profundo
    sobre a questão.
  77. Então, fui procurar no Google,
    como toda a boa pessoa em 2018,
  78. e a definição pomposa
    que me apareceu foi esta.
  79. "O centro comunitário elege
    como alvo prioritário da sua ação
  80. "a família e a comunidade,
    sem perder de vista
  81. "a situação particular e específica
    de cada pessoa".
  82. Primeiro, achei que isto é uma definição
    da Direção Geral da Ação Social,
  83. não está incorreta,
  84. contudo achei que era fria,
  85. que não era algo que eu
    verdadeiramente queria ouvir.
  86. Então, pesquisei exemplos.
  87. e vi vários centros comunitários
    que faziam coisas interessantes
  88. faziam várias atividades
    com pessoas mais idosas,
  89. faziam brincadeiras com crianças,
  90. ajudavam crianças em situações
    de famílias desestruturadas,
  91. e todo o trabalho que têm feito
    é de ser valorizado.
  92. Contudo, eu tive uma visão
    de algo que poderia ser diferente
  93. e algo que poderia ser mais vantajoso.
  94. A minha ideia era criar uma folha
  95. para cada elemento da comunidade,
  96. que tivesse o nome, idade,
    agregado familiar
  97. carências, "hobbies", saberes,
    faltas de saber
  98. gostos pelo animal e pela natureza.
  99. O que é que isto me irá permitir?
  100. A primeira parte do nome:
    irei identificar a pessoa em questão,
  101. a idade e o agregado familiar:
  102. irei perceber quantas pessoas
    vivem em cada casa,
  103. as idades entre elas, se há discrepâncias,
  104. se há menores a viverem
    com pessoas idosas,
  105. se há idosos a viverem sozinhos,
  106. e as suas carências
  107. ou seja, aqui podemos criar várias coisas
  108. que irão ajudar a minha comunidade
  109. As pessoas que eu vir que moram sozinhas
  110. a criar vários "workshops" e atividades
  111. e coisas que façam essas pessoas
    saírem de casa,
  112. e que convivam, que não fiquem em casa
  113. numa depressão ou, em casos piores,
    se matem ou que morram
  114. ou outra situação triste do género.
  115. Irei também descobrir as carências
  116. porque ninguém vai querer saber
  117. ninguém quer ouvir dizer
    que a vizinha do lado passa fome
  118. quando nós temos uma mesa cheia.
  119. Isso vai fazer com que nós pudéssemos
    criar eventos de trocas de alimentos,
  120. trocas de artigos
  121. e fazer com que as carências
    acabem nas comunidades.
  122. Os "hobbies", os saberes
    e as faltas de saber:
  123. irão também permitir criar "workshops"
  124. de trocas de saberes.
  125. Os idosos ensinam os mais novos
    e os mais novos ensinam os idosos.
  126. Os idosos ensinam a coser,
    o croché, o cozinhar
  127. os mais novos ensinam o Facebook,
  128. a fazer uma página em Word,
  129. ensinam várias coisas
    que os idosos não sabem.
  130. Nessa troca de saberes
    também irá haver o convívio
  131. e irá haver também a proximidade,
  132. aquela proximidade que nós às vezes
    vemos a acabar
  133. e que chega até às faltas de respeito
  134. que eu sinto que é isso que nós
    temos feito ultimamente,
  135. é afastarmo-nos cada vez mais
    do nosso próximo.
  136. Depois, o gosto pelos animais
    e pela natureza,
  137. é uma questão própria do meu bairro
  138. Nós temos vários animais,
    nós temos muitos gatos.
  139. O gosto pelos animais vai fazer
  140. com que nós criemos uma colónia
  141. criemos um "website"
  142. que irá fazer com que os animais
    tenham adotantes
  143. e acabamos também com esse problema
  144. que, infelizmente, para muitos,
    é um problema de saúde pública,
  145. Não é que eu concorde a 100%
  146. contudo a comunidade é mesmo isso.
  147. Nós temos ideias diferentes
  148. e toda a gente tem de me respeitar a mim
  149. como eu tenho de respeitar toda a gente.
  150. O gosto pela natureza é porque
    esta parte aqui de baixo
  151. é um descampado que vai dar
    a um descampado enorme.
  152. Poderemos usar para fazer hortas
    comunitárias
  153. poderemos embelezar
    com canteiros, com flores
  154. O que é que isso vai fazer?
  155. Vamos voltar à parte de cima
    as carências.
  156. Se alguém passar fome, nós podemos
    cultivar a nossa própria comida
  157. e, pelo menos, dar
    uma alimentação vegetariana
  158. a todos os elementos da comunidade.
  159. Claro que esta ideia que eu tive
    foi uma ideia para o meu bairro.
  160. porque a questão que se colocou
    foi a do meu bairro.
  161. Contudo, isto é um projeto
    que tem como ideia
  162. ser em todo o espaço, em todo o país.
  163. para que agora, que não temos
    este centro comunitário
  164. com toda essa aproximação
  165. e essa ligação entre todos
  166. e que nós batemos mesmo de frente
    com o problema que são as carências,
  167. quando tivermos, por exemplo,
    no meu bairro,
  168. outro no bairro aqui ao lado em Setúbal,
  169. outro noutro bairro,
  170. acaba por haver mais centros comunitários.
  171. vai fazer com que nós, depois,
    já tendo uma comunidade próxima,
  172. conseguimos criar comunidades
    próximas entre os outros.
  173. Futuramente, mais dois para cima,
    mais dois para baixo,
  174. e, quando dermos por ela,
  175. Portugal inteiro é uma comunidade.
  176. E nós podemos fazer isso
    até numa rede global,
  177. fazermos com que todo o mundo
    seja uma comunidade.
  178. Eu sei que agora isto parece uma decisão
    um bocadinho utópica,
  179. e que estão todos a pensar:
  180. "Eh pá, isso era muito bom
    mas nunca na vida".
  181. Mas a verdade é que nós somos humanos
  182. somos feitos todos da mesma maneira.
  183. Somos todos carne e osso
  184. e temos de nos aproximar
    cada vez mais entre nós, entre espécies
  185. e fazermos cada vez mais a luta
  186. por nós mesmos e pela nossa comunidade.
  187. Criando assim esta rede global
  188. nós podemos ter a noção de várias coisas.
  189. Temos a noção das carências
  190. e podemos criar
    coisas muito interessantes
  191. como viagens entre bairros
  192. viagens entre cidades
  193. e pessoas que hoje não têm
    nem dinheiro para comer
  194. amanhã vão poder ter comer na mesa
    com esta minha ideia
  195. e vão poder estar a comer esse comer
    no norte ou no Algarve
  196. ou num sítio, onde se calhar
    nunca pensaram ir.
  197. Porque, incrível ou não,
  198. há pessoas que o sonho de vida
    é andar de avião,
  199. coisa que, se calhar há aqui
    pessoas hoje
  200. que já andaram duas, três vezes.
  201. Essas coisas podem-se fazer com isto,
    com amor ao próximo.
  202. Esta minha ideia surgiu porquê?
  203. Primeiro, porque eu acho
    que aquela frase
  204. "pensar local para agir mundial"
  205. é o melhor.
  206. Não podemos pensar mudar o mundo
  207. se não mudarmos a nossa vizinha.
  208. Não podemos pensar:
  209. "Se eu estivesse no Brasil,
    não votava no Bolsonaro".
  210. Mas, depois, não consigo ajudar
    a minha vizinha
  211. porque quero um verniz cor-de-rosa.
  212. A verdade é que nós temos
    de pensar sempre local
  213. para agir mundial.
  214. Esta ideia também me surgiu
  215. porque eu vi este vídeo,
  216. Este vídeo chama-se
    "Alegoria das grandes colheres"
  217. É uma campanha da Caritas.
  218. A verdade é que é isso que nós fazemos
  219. sempre que temos uma dificuldade.
  220. O ser humano tem a brilhante ideia
  221. de que "porrada é que é bom"
    e "confusão é que é bom"
  222. e "afastar-me do meu próximo
    é que é a solução".
  223. E é isso que acontece até chegar ao caos
  224. neste caso, até haver uma colher partida.
  225. E é isto que eu proponho hoje.
  226. É pegar na minha colher,
  227. e dar a todos vocês
    e dar a todos no meu bairro
  228. e dar a todos.
  229. É criar apenas uma folha por pessoa
  230. e termos noção das dificuldades
    por que essa pessoa passa
  231. a nível financeiro, a nível social
  232. a nível mental
  233. e criar uma sociedade que dê cor
    que dê vida uns aos outros.
  234. Porque nós somos seres humanos
  235. e é isso que nós estamos cá para fazer.
  236. Se nós temos de ter
    uma missão na vida, é essa.
  237. É ajudar o próximo.
  238. Enão, quero finalizar por dizer
  239. que eu não estou cá sozinha
  240. comigo está toda a gente
    do meu bairro social
  241. está toda a gente dos bairros sociais
  242. toda a gente que passa fome
  243. toda a gente que vive
    em condições desumanas
  244. mas também está a mudança,
    o querer algo melhor,
  245. o querer um centro comunitário
  246. onde toda a gente se possa aproximar.
  247. A minha pergunta que vos deixo hoje é:
  248. Se o centro comunitário existir
    — que é por isso que eu estou a lutar —
  249. e se isto for a mudança, eu vou.
  250. Vocês vêm?
  251. Obrigada.
  252. (Aplausos)