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← O poder de um centro comunitário | Joana Dionísio | TEDxSetúbal

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Showing Revision 9 created 12/02/2019 by Claudia Sander.

  1. A pergunta que se faz hoje é: "Para onde?"
  2. E foi a pergunta que eu já fiz
    várias vezes na minha vida
  3. e que me veio à mente três vezes
    para falar aqui hoje.
  4. A primeira vez foi quando me perguntei
  5. para onde ia a nossa sociedade.
  6. Essas notícias são verdadeiras,
    são de jornais,
  7. publicadas entre 2000 e 2018
  8. e são notícias horríveis,
  9. como já tiveram oportunidade de ler;
  10. e são verdadeiras.
  11. O que me faz pensar
  12. em como é que chegamos ao ponto
  13. de deixar que notícias assim aconteçam,
  14. principalmente esta última,
    que me choca bastante.
  15. Como é que alguém morre em casa
  16. e não nos damos conta
    de que o nosso vizinho morreu?
  17. É algo que me deixa muito triste
  18. e foi algo em que pensei
    durante algum tempo.
  19. A segunda pergunta era
    para onde ia a minha comunidade.
  20. Eu moro no bairro 25 de Abril,
    aqui em Setúbal.
  21. Para quem não conhece,
  22. é um bairro que antes se chamava
    Bairro Fundação Salazar.
  23. É um bairro bem antigo
  24. fundado antes do "25 de Abril".
  25. É um bairro de conjuntos habitacionais,
  26. que são destinados às pessoas carentes,
    economicamente desfavorecidos.
  27. Mas também é um bairro muito diferente,
    quando se compara aos que vocês conhecem.
  28. É um bairro onde conhecemos
    todas as pessoas.
  29. Literalmente, todas as pessoas.
  30. Não dizemos apenas "Olá" e "Boa tarde",
  31. nós conhecemos as vizinhas, os primos,
    os namorados, as tias, as filhas
  32. e sabemos que a vizinha
    do quinto andar do lado esquerdo
  33. já não namora mais o mesmo namorado
    porque sai com outro homem há três dias.
  34. Nós sabemos de tudo, mesmo.
  35. Nossas câmeras de vigilância
  36. são as velhinhas sentadas nos bancos.
  37. Portanto, é uma comunidade rica,
    mas tem alguns defeitos.
  38. É uma comunidade muito pobre,
  39. e que tem alguns conflitos entre vizinhos
  40. o que me faz pensar
  41. que nela poderiam acontecer alguns fatores
  42. que eu mencionei nas notícias anteriores;
  43. que um dia, aquilo poderia acontecer
  44. pela falta de ligação entre as pessoas
  45. porque, apesar de nos conhecermos
    e de nos darmos bem,
  46. havia problemas que eu acho
    que poderiam ser resolvidos.
  47. A terceira pergunta que me perguntei
    era "Para onde eu iria?"
  48. Nascida e criada em Setúbal,
  49. com um gostinho pelo ativismo
  50. e com a ideia na cabeça
    de que consigo mudar o mundo.
  51. Portanto, pensei onde eu poderia ir
  52. para poder mudar o meu bairro
  53. e poder mudar o mundo.
  54. O engraçado é que a resposta
    para as três perguntas foi a mesma.
  55. "O terreno do prédio 16".
  56. Este é um terreno que está
    disponível no meu bairro.
  57. Ficou disponível porque era
    pra ser uma creche,
  58. depois uma associação,
  59. Poderia ser várias coisas
    e até agora não foi nada.
  60. E agora está disponível.
  61. As minhas vizinhas souberam
    e vieram logo me contar.
  62. Eu, sempre cheia de energia,
  63. vieram logo me dizer:
  64. "Olha, o terreno está disponível,
    vai logo pedir pra gente."
  65. E foi isso que eu fiz;
    eu fui pedir o terreno.
  66. Então, fui a uma reunião e perguntei
  67. qual era a ideia que tinham
    para aquele espaço
  68. e me disseram "um centro comunitário".
  69. Eu já tinha arquitetado
    com as minhas vizinhas
  70. e disse logo que sim.
  71. Se me perguntassem: "Você sabe
    o que é um centro comunitário?"
  72. eu responderia: "Não".
  73. Eu tenho uma noção,
    como acho que todos aqui têm,
  74. mas não muito mais que isso.
  75. Eu não possuía um conhecimento
    profundo sobre o assunto.
  76. Então, fui pesquisar no Google,
    como qualquer pessoa faz em 2018,
  77. e a melhor definição que achei foi esta:
  78. "O centro comunitário elege
    como alvo prioritário da sua ação
  79. a família e a comunidade,
    sem perder de vista
  80. a situação particular
    e específica de cada pessoa".
  81. Primeiro, achei que isso é uma definição
    da Direção Geral da Ação Social,
  82. não está errada,
  83. contudo, achei que soava fria,
  84. não era algo que eu
    verdadeiramente queria ouvir.
  85. Então, pesquisei exemplos,
  86. e vi vários centros comunitários
    que faziam coisas interessantes,
  87. faziam várias atividades
    com pessoas idosas,
  88. faziam brincadeiras com crianças,
  89. ajudavam crianças em situações
    de desestrutura familiar
  90. e todo o trabalho feito
    deve ser valorizado.
  91. Contudo, eu tive uma visão
    de algo que poderia ser diferente
  92. e algo que poderia ser mais vantajoso.
  93. A minha ideia seria criar um formulário
  94. para cada pessoa da comunidade,
  95. em que constasse o nome,
    idade, membros familiares
  96. necessidades, hobbies,
    saberes, inexperiências,
  97. gostos pelos animais e pela natureza.
  98. O que isto me permitirá saber?
  99. A primeira parte dos dados
    permitirá identificar a pessoa em questão;
  100. a idade e seus membros familiares:
  101. assim saberei quantas pessoas
    vivem em cada casa,
  102. as idades delas, se há discrepâncias,
  103. se existem menores vivendo
    com pessoas idosas
  104. se existem idosos morando sozinhos;
  105. e suas necessidades.
  106. Ou seja, assim podemos
    identificar várias coisas
  107. que irão ajudar a minha comunidade.
  108. As pessoas que vivem sozinhas
  109. poderão participar
    de oficinas e atividades
  110. e coisas que façam essas pessoas
    saírem de casa,
  111. e tenham convívio social,
    que não se isolem numa depressão
  112. ou, em casos piores,
    tirem a própria vida ou morram,
  113. ou outras situações tristes do gênero.
  114. Irei também identificar as necessidades,
  115. porque ninguém vai querer saber,
  116. ninguém quer ouvir falar
    que a vizinha do lado passa fome,
  117. quando nós temos uma mesa farta.
  118. Isso fará com que possamos criar
    eventos de trocas de alimentos,
  119. trocas de artigos
  120. e acabar com as necessidades
    nas comunidades.
  121. Os hobbies, os saberes e as inexperiências
  122. também permitirão criar oficinas
  123. para trocas de saberes.
  124. Os idosos ensinarão os mais novos
    e os mais novos ensinarão os idosos.
  125. Os idosos ensinarão a costurar,
    tricotar, cozinhar...
  126. os mais novos ensinarão o Facebook,
  127. a criar documentos no Word,
  128. ensinarão várias coisas
    que os idosos não sabem.
  129. Nessa troca de saberes,
    também haverá o convívio
  130. e haverá também a proximidade,
  131. aquela proximidade
    que às vezes vemos acabar
  132. e que culmina na falta de respeito,
  133. que eu sinto que é isso
    que temos feito ultimamente,
  134. nos afastamos cada vez mais do próximo.
  135. Depois, o gosto pelos animais
    e pela natureza
  136. é uma questão própria do meu bairro.
  137. Nós temos vários animais,
    temos muitos gatos.
  138. O gosto pelos animais vai fazer
  139. com que criemos uma comunidade,
  140. criemos um website
  141. para que os animais sejam adotados,
  142. acabando também com esse problema,
  143. que, infelizmente, para muitos,
    é um problema de saúde pública.
  144. Não que eu concorde 100%,
  145. contudo, comunidade é isso mesmo.
  146. Temos ideias diferentes
  147. e todas as pessoas têm de me respeitar
  148. como tenho de respeitar todas as pessoas.
  149. O gosto pela natureza é porque
    esta parte aqui de baixo
  150. é um descampado enorme.
  151. Poderemos usar para fazer
    hortas comunitárias
  152. podemos embelezar
    com canteiros, com flores.
  153. Qual a vantagem disso?
  154. Vamos usar como exemplo as necessidades:
  155. Caso alguém passe fome, podemos
    plantar nossa própria comida,
  156. e ao menos prover
    uma alimentação vegetariana
  157. a todos os indivíduos da comunidade.
  158. Claro que essa foi uma ideia
    que eu tive para o meu bairro,
  159. porque a questão foi
    colocada no meu bairro.
  160. Contudo, este é um projeto
    que tem como objetivo
  161. abranger todos os espaços, em todo o país.
  162. Porque mesmo que agora
    não tenhamos o centro comunitário
  163. com toda essa aproximação
  164. e essa ligação entre todos,
  165. mas que possamos mesmo bater de frente
    com o problema, que são as necessidades,
  166. quando tivermos, por exemplo,
    o centro no meu bairro,
  167. outro centro no bairro ao lado, em Setúbal
  168. em outro bairro,
  169. haverá mais centros comunitários.
  170. Isso fará com que depois,
    já tendo uma comunidade próxima,
  171. consigamos criar comunidades
    próximas entre outros bairros.
  172. Futuramente, expandiremos
    para cima e para baixo,
  173. e quando nos dermos conta,
  174. Portugal inteiro será uma comunidade.
  175. E poderemos fazer isso globalmente,
  176. fazendo com que o mundo inteiro
    seja uma comunidade.
  177. Sei que agora esse projeto parece utópico,
    e que todos estão pensando:
  178. "Nossa, isso é muito bonito
    na teoria, mas na prática..."
  179. Mas a verdade é que somos todos humanos,
  180. somos todos feitos da mesma matéria,
  181. somos feitos de carne e osso
  182. e temos de nos aproximar cada vez mais
    entre nós, como pessoas
  183. e lutarmos cada vez mais
  184. por nós mesmos e pela nossa comunidade.
  185. Assim, criando essa rede global,
  186. podemos ter a noção de várias coisas.
  187. Termos noção das necessidades
  188. e podermos criar coisas
    muito interessantes
  189. como viagens entre bairros,
  190. entre cidades,
  191. e pessoas que hoje não têm
    dinheiro para comer,
  192. amanhã poderão ter comida
    na mesa com este meu projeto
  193. e poderão comer no norte ou em Algarve
  194. ou em qualquer lugar
    onde sequer cogitaram estar.
  195. Porque, por incrível que pareça,
  196. há pessoas que sonham em andar de avião,
  197. coisa que, se pensar, aqui tem pessoas
  198. que já andaram duas ou três vezes.
  199. E podemos fazer isso com amor ao próximo.
  200. Por que tive essa ideia?
  201. Primeiro, porque eu acho que aquela frase
  202. "Pensar local para agir global"
  203. é o melhor.
  204. Não podemos pensar em mudar o mundo
  205. se não mudamos o nosso próximo.
  206. Não podemos pensar:
  207. "Se eu estivesse no Brasil,
    não votaria no Bolsonaro",
  208. mas, depois, não conseguir
    ajudar o próximo
  209. porque quero um esmalte cor-de-rosa.
  210. A verdade é que temos de pensar
    sempre local para agir global.
  211. Esta ideia também me veio
  212. porque eu vi este vídeo,
  213. que se chama "Alegoria
    das grandes colheres".
  214. É uma campanha da Cáritas.
  215. A verdade é que é isso que fazemos.
  216. Sempre que temos uma dificuldade.
  217. o ser humano tem a ideia brilhante
  218. de que "porrada que é bom"
    e que "confusão é que é bom"
  219. e "afastar-se do próximo é a solução",
  220. e é isso que acontece, até chegar ao caos,
  221. nesse caso, uma colher quebrada.
  222. E é isto que eu proponho hoje:
  223. pegar da minha colher
  224. e dar a todos vocês,
    dar a todos do meu bairro,
  225. dar a todos.
  226. É criar um formulário por pessoa
  227. e termos noção das dificuldades
    que essa pessoa está passando
  228. a nível financeiro, social,
  229. a nível mental,
  230. e criar uma sociedade
    que dê cor e vida uns aos outros.
  231. Porque nós somos seres humanos
  232. e é por isso que estamos aqui.
  233. Se temos de ter
    uma missão na vida, é esta:
  234. ajudar o próximo.
  235. Então, quero terminar dizendo
  236. que eu não estou sozinha,
  237. estão comigo todos do meu bairro social,
  238. todas as pessoas dos bairros sociais,
  239. todos que passam fome,
  240. todas as pessoas que vivem
    em condições desumanas,
  241. mas também estão a mudança
    e o querer algo melhor,
  242. o querer um centro comunitário
  243. onde todas as pessoas possam se aproximar.
  244. A pergunta que deixo para vocês hoje é:
  245. "Se o centro comunitário existir,
    que é por isso que estou lutando,
  246. se esta for a mudança, eu vou.
  247. Vocês vem comigo?"
  248. Obrigada.
  249. (Aplausos)