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As imprevisíveis consequências de um mundo acelerado

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    Vocês já pensaram porque é
    que estamos cercados de coisas
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    que nos ajudam a fazer tudo
    cada vez mais depressa?
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    Comunicar mais depressa,
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    mas também trabalhar mais depressa,
    usar o banco mais depressa,
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    viajar mais depressa,
    encontrar um namorado mais depressa,
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    cozinhar mais depressa,
    limpar mais depressa
  • 0:19 - 0:21
    e fazer tudo isso ao mesmo tempo?
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    Como se sentem em fazer
    cada vez mais coisas em menos tempo?
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    Bem, para a minha geração
    de norte-americanos,
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    a velocidade é um direito de nascença.
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    Às vezes eu penso
    que a nossa velocidade mínima é Mach3.
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    Qualquer coisa abaixo disso
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    e sentimos medo de perder
    a nossa vantagem competitiva.
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    Mas até a minha geração
    está a começar a questionar
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    se controlamos a velocidade
    ou se é a velocidade que nos controla.
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    Eu sou antropóloga na Rand Corporation,
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    e enquanto muitos antropólogos
    estudam culturas antigas,
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    eu concentro-me nas culturas de hoje
    e como nos estamos a adaptar
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    a toda a mudança
    que está a acontecer no mundo.
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    Recentemente, colaborei
    com um engenheiro, Seifu Chonde,
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    para estudar a velocidade.
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    Estávamos interessados em como
    as pessoas estão a adaptar-se
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    a esta era de aceleração
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    e às suas implicações em relação
    às políticas e à segurança.
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    Como estará o nosso mundo
    daqui a 25 anos
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    se o atual ritmo de mudança
    continuar a acelerar?
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    O que isso significará
    para os transportes,
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    ou para a aprendizagem,
    para a comunicação,
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    para as manufaturas,
    para o fabrico de armamento,
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    ou até para a seleção natural?
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    Um futuro mais rápido tornar-nos-á
    mais seguros e mais produtivos?
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    Ou tornar-nos-á mais vulneráveis?
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    Na nossa investigação, as pessoas
    aceitavam a aceleração como inevitável,
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    tanto as emoções
    quanto a falta de controlo.
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    Receiam que, se diminuírem a velocidade,
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    podem correr o risco de ficarem obsoletos.
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    Dizem que preferem desgastarem-se
    do que enferrujarem
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    E ao mesmo tempo,
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    receiam que a velocidade
    possa erodir as suas culturas tradicionais
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    e sentido do lar.
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    Mas mesmo quem está
    a ganhar no jogo da velocidade
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    admite sentir-se preocupado.
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    Veem a aceleração como um aumento
    do fosso entre os endinheirados,
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    os privilegiados que se deslocam
    em jatos privados,
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    e os desfavorecidos,
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    que ficam abandonados na poeira digital.
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    Sim, temos boas razões para prever
    que o futuro será mais rápido,
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    mas o que eu vim a perceber
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    é que a velocidade é paradoxal,
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    e como todos bons paradoxos,
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    ensina-nos quanto à experiência humana,
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    até que ponto ela é absurda e complexa.
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    O primeiro paradoxo
    é que adoramos a velocidade,
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    e vibramos com a sua intensidade.
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    Mas os nossos cérebros pré-históricos
    não foram de facto feitos para isso,
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    por isso inventamos montanhas-russas,
    carros de corrida e aviões supersónicos,
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    mas ficamos com lesões tipo "chicote",
    ou enjoados,
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    desorientados pela mudança
    de fuso horário.
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    Nós não evoluímos para multitarefas.
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    Pelo contrário, evoluímos para fazer
    uma coisa com uma grande concentração,
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    como a caça — não necessariamente
    com alta velocidade
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    mas com resistência a longas distâncias.
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    Mas agora, há um fosso crescente entre
    a nossa biologia e o nosso estilo de vida,
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    uma incompatibilidade entre aquilo
    para que o nosso corpo foi feito
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    e aquilo que o forçamos a fazer.
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    É um fenómeno a que
    os meus mentores chamaram
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    "Homens da Idade da Pedra na Via Rápida".
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    (Risos)
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    Outro paradoxo da velocidade
    é que ela pode ser medida objetivamente.
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    Quilómetros por hora,
    gigabytes por segundo.
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    Mas a sensação que a velocidade nos dá
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    e se gostamos dela
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    é uma coisa altamente subjetiva.
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    Podemos demonstrar que o ritmo
    com que estamos a adotar novas tecnologias
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    está a acelerar.
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    Por exemplo, demorou 85 anos
    após a invenção do telefone
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    até a maioria dos americanos
    ter telefone em casa.
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    Em oposição, demorou apenas 13 anos
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    para a maioria de nós ter "smartphones".
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    E a forma como as pessoas agem
    e reagem à velocidade
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    varia de acordo com a cultura
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    e entre pessoas diferentes
    dentro da mesma cultura.
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    As interações que podem ser vistas como
    agradáveis e convenientes numa cultura
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    podem parecer terrivelmente
    rudes noutras culturas.
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    Ou seja, vocês não pediriam
    um copo com tampa
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    numa cerimónia japonesa do chá,
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    para irem bebendo
    até à paragem turística seguinte,
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    pois não?
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    Um terceiro paradoxo
    é que a velocidade gera velocidade.
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    Quanto mais depressa eu responder,
    mais respostas vou ter,
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    e mais depressa vou responder novamente.
  • 4:21 - 4:25
    Ter mais comunicação e informação
    ao nosso alcance
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    em qualquer momento
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    deveria tornar a tomada de decisão
    mais fácil e racional.
  • 4:32 - 4:35
    Mas, na verdade, parece
    que isso não está a acontecer.
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    Eis aqui mais um paradoxo:
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    Se todas essas tecnologias mais rápidas
    nos deveriam libertar do trabalho duro,
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    porque nos sentimos
    tão pressionados pelo tempo?
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    Porque temos acidentes de viação
    em número recorde,
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    porque achamos que temos de responder
    a uma mensagem imediatamente?
  • 4:54 - 4:57
    Não deveria a vida nesse ritmo acelerado
    parecer um pouco mais divertida
  • 4:57 - 4:59
    e um pouco menos ansiosa?
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    A língua alemã até tem
    uma palavra para isso:
  • 5:02 - 5:04
    "Eilkrankheit."
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    Em inglês, isso significa
    "doença da pressa".
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    Quando temos de tomar decisões rápidas,
  • 5:10 - 5:12
    o piloto automático do cérebro
    entra em ação,
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    e contamos com os nossos
    comportamentos aprendidos,
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    com os nossos reflexos,
    as nossas predisposições cognitivas,
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    para nos ajudar a perceber
    e reagir rapidamente.
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    Às vezes isso salva nossas vidas, certo?
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    Lutar ou fugir.
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    Mas, às vezes, isso desvia-nos
    do caminho a longo prazo.
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    Muitas vezes, quando a nossa sociedade
    tem grandes fracassos,
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    não são fracassos tecnológicos.
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    São fracassos que acontecem
    quando tomamos decisões
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    demasiado depressa
    no piloto automático.
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    Não construímos o pensamento criativo
    ou crítico necessário
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    para ligar os pontos,
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    para eliminar informações falsas
    ou entender a complexidade.
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    Esse tipo de pensamento
    não pode ser feito rapidamente.
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    É um pensamento lento.
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    Dois psicólogos, Daniel Kahneman
    e Amos Tversky
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    começaram a apontar isso em 1974,
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    e ainda estamos a lutar
    para fazer algo com essa ideia.
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    Toda a história moderna pode ser entendida
    como um surto de aceleração após o outro.
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    É como se pensássemos que,
    se acelerarmos o suficiente,
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    podemos superar os nossos problemas.
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    Mas nós nunca conseguimos.
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    Sabemos disso nas nossas próprias vidas,
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    e os políticos também sabem disso.
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    Então agora estamos a recorrer
    à inteligência artificial
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    para nos ajudar a tomar decisões
    mais rápidas e mais inteligentes
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    para processar esse universo de dados
    em constante expansão.
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    Mas as máquinas que processam dados
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    não substituem o pensamento crítico
    e contínuo dos seres humanos,
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    cujos cérebros simples
    precisam de algum tempo
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    para os seus impulsos diminuírem,
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    para a mente desacelerar
    e para os pensamentos fluírem.
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    Se vocês começarem a pensar
    que devemos apenas pisar o travão,
  • 6:52 - 6:55
    essa nem sempre será a solução certa.
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    Todos sabemos que um comboio
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    que avança demasiado depressa
    numa curva pode descarrilar,
  • 7:00 - 7:03
    mas Seifu, o engenheiro,
    ensinou-me que um comboio
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    que anda demasiado devagar numa curva
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    também pode descarrilar.
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    Gerir essa aceleração
    começa por compreender
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    que temos maior controlo da velocidade
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    do que pensamos, individualmente
    e enquanto sociedade.
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    Às vezes, precisamos de nos melhorar
    para avançar mais depressa.
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    Queremos resolver os impasses,
    acelerar o socorro a vítimas de furacões
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    ou usar a impressão 3D para produzir
    aquilo de que precisamos, na hora,
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    exatamente quando precisamos.
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    Às vezes, porém, queremos
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    que o nosso ambiente
    pareça mais lento
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    para elaborar a solução
    para os acidentes devidos à velocidade.
  • 7:40 - 7:44
    E tudo bem não estar sempre
    a ser estimulado.
  • 7:44 - 7:47
    É bom para adultos e crianças.
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    Talvez seja chato,
    mas dá-nos tempo para refletir.
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    O tempo vagaroso não é tempo perdido.
  • 7:56 - 8:00
    E nós precisamos rever o
    que significa poupar tempo.
  • 8:00 - 8:04
    A cultura e os rituais em todo o mundo
    desenvolvem-se na lentidão,
  • 8:04 - 8:07
    porque a lentidão ajuda-nos a reforçar
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    os nossos valores partilhados
    e interligados.
  • 8:09 - 8:12
    E a interligação é uma parte
    crítica de ser humano.
  • 8:13 - 8:15
    Nós precisamos de dominar a velocidade,
  • 8:15 - 8:19
    o que significa pensar com cuidado
    nas contrapartidas de qualquer tecnologia.
  • 8:20 - 8:22
    Será que isso nos ajuda a recuperar
    o tempo que podemos usar
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    para expressar a nossa humanidade?
  • 8:24 - 8:26
    Ficaremos com a doença da pressa?
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    As outras pessoas ficarão
    com a doença da pressa?
  • 8:28 - 8:31
    Se vocês tiverem a sorte
    de decidir o ritmo
  • 8:31 - 8:33
    com que querem viajar pela vida,
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    isso é um privilégio.
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    Usem-no.
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    Vocês podem decidir
    que tanto precisam de acelerar
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    como de criar tempo lento:
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    tempo para refletir,
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    para se infiltrar no seu próprio ritmo,
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    tempo para ouvir,
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    para ter empatia,
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    para descansar a mente,
  • 8:54 - 8:56
    para permanecer à mesa de jantar.
  • 8:57 - 9:00
    Assim, à medida que avançamos
    no futuro,
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    consideremos a possibilidade
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    de definir as tecnologias da velocidade,
  • 9:04 - 9:05
    o objetivo da velocidade
  • 9:05 - 9:10
    e as nossas expetativas de velocidade
    para um ritmo mais humano.
  • 9:11 - 9:12
    Obrigada.
  • 9:12 - 9:14
    (Aplausos)
Title:
As imprevisíveis consequências de um mundo acelerado
Speaker:
Kathryn Bouskill
Description:

Porque é que a tecnologia moderna promete eficiência, mas deixa-nos constantemente pressionados pelo tempo? A antropóloga Kathryn Bouskill explora os paradoxos de viver numa sociedade em ritmo acelerado e explica porque precisamos de reconsiderar a importância de desacelerar num mundo que exige andarmos cada vez mais depressa.

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Video Language:
English
Team:
TED
Project:
TEDTalks
Duration:
09:26

Portuguese subtitles

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