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← As imprevisíveis consequências de um mundo acelerado

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Showing Revision 12 created 05/23/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Vocês já pensaram porque é
    que estamos cercados de coisas
  2. que nos ajudam a fazer tudo
    cada vez mais depressa?
  3. Comunicar mais depressa,
  4. mas também trabalhar mais depressa,
    usar o banco mais depressa,
  5. viajar mais depressa,
    encontrar um namorado mais depressa,
  6. cozinhar mais depressa,
    limpar mais depressa
  7. e fazer tudo isso ao mesmo tempo?
  8. Como se sentem em fazer
    cada vez mais coisas em menos tempo?
  9. Bem, para a minha geração
    de norte-americanos,

  10. a velocidade é um direito de nascença.
  11. Às vezes eu penso
    que a nossa velocidade mínima é Mach3.
  12. Qualquer coisa abaixo disso
  13. e sentimos medo de perder
    a nossa vantagem competitiva.
  14. Mas até a minha geração
    está a começar a questionar
  15. se controlamos a velocidade
    ou se é a velocidade que nos controla.
  16. Eu sou antropóloga na Rand Corporation,

  17. e enquanto muitos antropólogos
    estudam culturas antigas,
  18. eu concentro-me nas culturas de hoje
    e como nos estamos a adaptar
  19. a toda a mudança
    que está a acontecer no mundo.
  20. Recentemente, colaborei
    com um engenheiro, Seifu Chonde,
  21. para estudar a velocidade.
  22. Estávamos interessados em como
    as pessoas estão a adaptar-se
  23. a esta era de aceleração
  24. e às suas implicações em relação
    às políticas e à segurança.
  25. Como estará o nosso mundo
    daqui a 25 anos
  26. se o atual ritmo de mudança
    continuar a acelerar?
  27. O que isso significará
    para os transportes,
  28. ou para a aprendizagem,
    para a comunicação,
  29. para as manufaturas,
    para o fabrico de armamento,
  30. ou até para a seleção natural?

  31. Um futuro mais rápido tornar-nos-á
    mais seguros e mais produtivos?
  32. Ou tornar-nos-á mais vulneráveis?
  33. Na nossa investigação, as pessoas
    aceitavam a aceleração como inevitável,
  34. tanto as emoções
    quanto a falta de controlo.
  35. Receiam que, se diminuírem a velocidade,
  36. podem correr o risco de ficarem obsoletos.
  37. Dizem que preferem desgastarem-se
    do que enferrujarem
  38. E ao mesmo tempo,
  39. receiam que a velocidade
    possa erodir as suas culturas tradicionais
  40. e sentido do lar.
  41. Mas mesmo quem está
    a ganhar no jogo da velocidade
  42. admite sentir-se preocupado.
  43. Veem a aceleração como um aumento
    do fosso entre os endinheirados,
  44. os privilegiados que se deslocam
    em jatos privados,
  45. e os desfavorecidos,
  46. que ficam abandonados na poeira digital.
  47. Sim, temos boas razões para prever
    que o futuro será mais rápido,
  48. mas o que eu vim a perceber
  49. é que a velocidade é paradoxal,
  50. e como todos bons paradoxos,

  51. ensina-nos quanto à experiência humana,
  52. até que ponto ela é absurda e complexa.
  53. O primeiro paradoxo
    é que adoramos a velocidade,
  54. e vibramos com a sua intensidade.
  55. Mas os nossos cérebros pré-históricos
    não foram de facto feitos para isso,
  56. por isso inventamos montanhas-russas,
    carros de corrida e aviões supersónicos,
  57. mas ficamos com lesões tipo "chicote",
    ou enjoados,
  58. desorientados pela mudança
    de fuso horário.
  59. Nós não evoluímos para multitarefas.
  60. Pelo contrário, evoluímos para fazer
    uma coisa com uma grande concentração,
  61. como a caça — não necessariamente
    com alta velocidade
  62. mas com resistência a longas distâncias.
  63. Mas agora, há um fosso crescente entre
    a nossa biologia e o nosso estilo de vida,

  64. uma incompatibilidade entre aquilo
    para que o nosso corpo foi feito

  65. e aquilo que o forçamos a fazer.
  66. É um fenómeno a que
    os meus mentores chamaram
  67. "Homens da Idade da Pedra na Via Rápida".
  68. (Risos)
  69. Outro paradoxo da velocidade
    é que ela pode ser medida objetivamente.
  70. Quilómetros por hora,
    gigabytes por segundo.
  71. Mas a sensação que a velocidade nos dá
  72. e se gostamos dela
  73. é uma coisa altamente subjetiva.
  74. Podemos demonstrar que o ritmo
    com que estamos a adotar novas tecnologias
  75. está a acelerar.
  76. Por exemplo, demorou 85 anos
    após a invenção do telefone
  77. até a maioria dos americanos
    ter telefone em casa.
  78. Em oposição, demorou apenas 13 anos
  79. para a maioria de nós ter "smartphones".
  80. E a forma como as pessoas agem
    e reagem à velocidade
  81. varia de acordo com a cultura
  82. e entre pessoas diferentes
    dentro da mesma cultura.
  83. As interações que podem ser vistas como
    agradáveis e convenientes numa cultura
  84. podem parecer terrivelmente
    rudes noutras culturas.
  85. Ou seja, vocês não pediriam
    um copo com tampa
  86. numa cerimónia japonesa do chá,
  87. para irem bebendo
    até à paragem turística seguinte,
  88. pois não?

  89. Um terceiro paradoxo
    é que a velocidade gera velocidade.
  90. Quanto mais depressa eu responder,
    mais respostas vou ter,
  91. e mais depressa vou responder novamente.
  92. Ter mais comunicação e informação
    ao nosso alcance
  93. em qualquer momento
  94. deveria tornar a tomada de decisão
    mais fácil e racional.
  95. Mas, na verdade, parece
    que isso não está a acontecer.
  96. Eis aqui mais um paradoxo:
  97. Se todas essas tecnologias mais rápidas
    nos deveriam libertar do trabalho duro,
  98. porque nos sentimos
    tão pressionados pelo tempo?
  99. Porque temos acidentes de viação
    em número recorde,
  100. porque achamos que temos de responder
    a uma mensagem imediatamente?
  101. Não deveria a vida nesse ritmo acelerado
    parecer um pouco mais divertida
  102. e um pouco menos ansiosa?
  103. A língua alemã até tem
    uma palavra para isso:
  104. "Eilkrankheit."
  105. Em inglês, isso significa
    "doença da pressa".
  106. Quando temos de tomar decisões rápidas,
  107. o piloto automático do cérebro
    entra em ação,
  108. e contamos com os nossos
    comportamentos aprendidos,
  109. com os nossos reflexos,
    as nossas predisposições cognitivas,
  110. para nos ajudar a perceber
    e reagir rapidamente.
  111. Às vezes isso salva nossas vidas, certo?
  112. Lutar ou fugir.
  113. Mas, às vezes, isso desvia-nos
    do caminho a longo prazo.

  114. Muitas vezes, quando a nossa sociedade
    tem grandes fracassos,
  115. não são fracassos tecnológicos.
  116. São fracassos que acontecem
    quando tomamos decisões
  117. demasiado depressa
    no piloto automático.
  118. Não construímos o pensamento criativo
    ou crítico necessário
  119. para ligar os pontos,
  120. para eliminar informações falsas
    ou entender a complexidade.
  121. Esse tipo de pensamento
    não pode ser feito rapidamente.
  122. É um pensamento lento.
  123. Dois psicólogos, Daniel Kahneman
    e Amos Tversky
  124. começaram a apontar isso em 1974,
  125. e ainda estamos a lutar
    para fazer algo com essa ideia.

  126. Toda a história moderna pode ser entendida
    como um surto de aceleração após o outro.
  127. É como se pensássemos que,
    se acelerarmos o suficiente,
  128. podemos superar os nossos problemas.
  129. Mas nós nunca conseguimos.
  130. Sabemos disso nas nossas próprias vidas,
  131. e os políticos também sabem disso.
  132. Então agora estamos a recorrer
    à inteligência artificial
  133. para nos ajudar a tomar decisões
    mais rápidas e mais inteligentes
  134. para processar esse universo de dados
    em constante expansão.
  135. Mas as máquinas que processam dados
  136. não substituem o pensamento crítico
    e contínuo dos seres humanos,
  137. cujos cérebros simples
    precisam de algum tempo
  138. para os seus impulsos diminuírem,
  139. para a mente desacelerar
    e para os pensamentos fluírem.

  140. Se vocês começarem a pensar
    que devemos apenas pisar o travão,
  141. essa nem sempre será a solução certa.
  142. Todos sabemos que um comboio
  143. que avança demasiado depressa
    numa curva pode descarrilar,
  144. mas Seifu, o engenheiro,
    ensinou-me que um comboio
  145. que anda demasiado devagar numa curva

  146. também pode descarrilar.
  147. Gerir essa aceleração
    começa por compreender
  148. que temos maior controlo da velocidade
  149. do que pensamos, individualmente
    e enquanto sociedade.
  150. Às vezes, precisamos de nos melhorar
    para avançar mais depressa.
  151. Queremos resolver os impasses,
    acelerar o socorro a vítimas de furacões
  152. ou usar a impressão 3D para produzir
    aquilo de que precisamos, na hora,
  153. exatamente quando precisamos.
  154. Às vezes, porém, queremos
  155. que o nosso ambiente
    pareça mais lento
  156. para elaborar a solução
    para os acidentes devidos à velocidade.
  157. E tudo bem não estar sempre
    a ser estimulado.
  158. É bom para adultos e crianças.
  159. Talvez seja chato,
    mas dá-nos tempo para refletir.
  160. O tempo vagaroso não é tempo perdido.
  161. E nós precisamos rever o
    que significa poupar tempo.
  162. A cultura e os rituais em todo o mundo
    desenvolvem-se na lentidão,
  163. porque a lentidão ajuda-nos a reforçar

  164. os nossos valores partilhados
    e interligados.
  165. E a interligação é uma parte
    crítica de ser humano.
  166. Nós precisamos de dominar a velocidade,
  167. o que significa pensar com cuidado
    nas contrapartidas de qualquer tecnologia.
  168. Será que isso nos ajuda a recuperar
    o tempo que podemos usar
  169. para expressar a nossa humanidade?
  170. Ficaremos com a doença da pressa?
  171. As outras pessoas ficarão
    com a doença da pressa?
  172. Se vocês tiverem a sorte
    de decidir o ritmo
  173. com que querem viajar pela vida,
  174. isso é um privilégio.
  175. Usem-no.
  176. Vocês podem decidir
    que tanto precisam de acelerar
  177. como de criar tempo lento:
  178. tempo para refletir,
  179. para se infiltrar no seu próprio ritmo,
  180. tempo para ouvir,
  181. para ter empatia,
  182. para descansar a mente,
  183. para permanecer à mesa de jantar.

  184. Assim, à medida que avançamos
    no futuro,
  185. consideremos a possibilidade
  186. de definir as tecnologias da velocidade,
  187. o objetivo da velocidade
  188. e as nossas expetativas de velocidade
    para um ritmo mais humano.

  189. Obrigada.

  190. (Aplausos)