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← As consequências imprevistas de um mundo acelerado

Por que a tecnologia moderna promete eficiência, mas nos deixa constantemente pressionados pelo tempo? A antropóloga Kathryn Bouskill explora os paradoxos de viver em uma sociedade acelerada e explica por que precisamos reconsiderar a importância de desacelerar em um mundo que demanda o oposto.

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Showing Revision 11 created 02/11/2020 by Leonardo Silva.

  1. Já se perguntaram
    por que estamos cercados de coisas
  2. que nos ajudam a fazer tudo
    cada vez mais rápido?
  3. Comunicar mais rápido,
  4. mas também trabalhar mais rápido,
    ganhar dinheiro mais rápido,
  5. viajar mais rápido,
    encontrar um namorado mais rápido,
  6. cozinhar mais rápido, limpar mais rápido
    e fazer tudo isso ao mesmo tempo?
  7. Como vocês se sentem cada vez mais
    sobrecarregados o tempo todo?
  8. Para minha geração,

  9. a velocidade é um direito de nascença.
  10. Às vezes, acho que nossa velocidade mínima
    deve ser a do Gillette Mach 3.
  11. Menos do que isso, tememos perder
    nossa vantagem competitiva.
  12. Mas até mesmo minha geração
    começa a questionar
  13. se dominamos a velocidade
  14. ou se somos dominados por ela.
  15. Sou antropóloga da Rand Corporation

  16. e, enquanto muitos antropólogos
    estudam culturas antigas,
  17. eu me concentro em culturas modernas
    e em como nos adaptamos
  18. a todas essas mudanças
    que acontecem no mundo.
  19. Recentemente, juntei-me a um engenheiro,
    Seifu Chonde, para estudar a velocidade.
  20. Ambos nos interessamos em como as pessoas
    se adaptam a essa época de aceleração
  21. e nas implicações de segurança e política.
  22. Como seria o mundo daqui a 25 anos
  23. se o ritmo atual de mudanças
    continuar acelerando?
  24. Como afetaria os transportes,
  25. o aprendizado, a comunicação,
  26. a indústria, o armamento
  27. ou até mesmo a seleção natural?
  28. Será que um futuro mais rápido
    nos tornaria mais seguros e produtivos?
  29. Ou nos tornaria mais vulneráveis?
  30. Em nossa pesquisa, as pessoas aceitaram
    a aceleração como inevitável,

  31. tanto as emoções
    quanto a falta de controle.
  32. Elas temem que, se desacelerarem,
  33. podem correr o risco de ficarem obsoletas.
  34. Elas preferem ficar exaustas
    a ficar enferrujadas,
  35. mas, ao mesmo tempo,
  36. temem que a velocidade
    acabe com suas tradições culturais
  37. e o sentido de lar.
  38. Mas mesmo quem está ganhando
    no jogo da velocidade
  39. admite um certo desconforto.
  40. Vê que a aceleração
    amplia a diferença entre os ricos,
  41. que andam por aí de jato particular,
  42. e os pobres,
  43. que são deixados na poeira digital.
  44. Sim, temos boas razões para prever
    que o futuro será mais rápido,

  45. mas percebi
  46. que a velocidade é um paradoxo
  47. e, como todos os bons paradoxos,
  48. nos ensina sobre a experiência humana,
  49. por mais absurda e complexa que seja.
  50. O primeiro paradoxo
    é que adoramos velocidade

  51. e vibramos por sua intensidade.
  52. Mas nosso cérebro pré-histórico
    não foi feito para isso.
  53. Assim, inventamos montanhas-russas,
    carros de corrida e aviões supersônicos,
  54. mas machucamos o pescoço,
    ficamos enjoados no carro,
  55. desorientados pelo fuso horário.
  56. Não evoluímos para a multitarefa.
  57. Em vez disso, evoluímos para fazer
    uma coisa com foco incrível,
  58. como a caça, não necessariamente
    com grande velocidade,
  59. mas com resistência por grande distância.
  60. Mas agora há uma lacuna crescente
  61. entre nossa biologia
    e nosso estilo de vida,
  62. uma incompatibilidade entre a capacidade
    do corpo e o que exigimos dele.
  63. É um fenômeno que meus mentores chamam
    de "antiquados na pista expressa".
  64. (Risos)

  65. Um segundo paradoxo da velocidade
    é que ela pode ser medida objetivamente.

  66. Quilômetros por hora,
    gigabytes por segundo.
  67. Mas a percepção da velocidade,
  68. e se gostamos dela,
  69. é altamente subjetiva.
  70. Podemos documentar
  71. que o ritmo em que adotamos
    novas tecnologias está aumentando.
  72. Por exemplo, foram necessários 85 anos
    desde a introdução do telefone
  73. até o tempo em que a maioria
    das pessoas tivesse telefone em casa.
  74. Por outro lado, levou apenas 13 anos
    para a maioria de nós ter smartphones.
  75. E a maneira como as pessoas
    agem e reagem à velocidade
  76. varia segundo a cultura
  77. e entre pessoas diferentes
    dentro da mesma cultura.
  78. Interações que podem ser vistas
  79. como agradavelmente rápidas
    e convenientes em algumas culturas
  80. podem ser extremamente
    grosseiras em outras.
  81. Você não pediria uma xícara para viagem
    em uma cerimônia de chá japonesa
  82. para poder partir
    para o próximo ponto turístico,
  83. não é mesmo?
  84. Um terceiro paradoxo
    é que velocidade gera velocidade.

  85. Quanto mais rápido respondo,
    mais respostas recebo
  86. e mais rápido tenho que responder de novo.
  87. Ter mais comunicação
  88. e informação ao nosso alcance
  89. a qualquer momento
  90. deveria tornar a tomada de decisões
    mais fácil e mais racional.
  91. Mas parece que não é o que acontece.
  92. Eis apenas mais um paradoxo:

  93. se todas essas tecnologias mais rápidas
    deveriam nos libertar do trabalho penoso,
  94. por que todos nos sentimos
    tão pressionados pelo tempo?
  95. Por que estamos batendo
    nossos carros em número recorde
  96. por acharmos que precisamos responder
    a uma mensagem imediatamente?
  97. Será que a vida na pista expressa
    não deveria ser um pouco mais divertida
  98. com um pouco menos de ansiedade?
  99. Os falantes de alemão
    têm uma palavra para isso:
  100. "Eilkrankheit",
  101. que significa "doença da pressa".
  102. Quando precisamos tomar decisões rápidas,
  103. o piloto automático entra em ação,
  104. e confiamos nos comportamentos
    que aprendemos,
  105. em nossos reflexos
    e nossas tendências cognitivas
  106. para nos ajudar a perceber
    e responder rapidamente.
  107. Às vezes, isso salva nossa vida, não é?
  108. Lutar ou fugir.
  109. Mas, às vezes, isso
    nos desencaminha a longo prazo.
  110. Muitas vezes, quando nossa sociedade
    tem falhas importantes,

  111. não são falhas tecnológicas.
  112. São falhas que acontecem
    quando tomamos decisões muito rapidamente
  113. no piloto automático.
  114. Não fizemos o pensamento
    criativo ou crítico necessário
  115. para ligar os pontos,
  116. eliminar informações falsas
  117. ou entender a complexidade.
  118. Esse tipo de pensamento
    não pode ser feito rapidamente.
  119. Isso é pensamento lento.
  120. Dois psicólogos,
    Daniel Kahneman e Amos Tversky,
  121. começaram a chamar a atenção
    para isso em 1974,
  122. e continuamos lutando para fazer algo
    com as percepções deles.
  123. Podemos pensar em toda a história moderna
    como um surto de aceleração após o outro.

  124. É como pensar que,
    se acelerarmos o bastante,
  125. poderemos escapar de nossos problemas.
  126. Mas nunca escapamos.
  127. Sabemos disso em nossa vida,
  128. e os legisladores também sabem.
  129. Agora nos voltamos
    para a inteligência artificial
  130. para nos ajudar decidir
    melhor e mais rápido
  131. para processar um universo de dados
    em constante expansão.
  132. Mas as máquinas que processam dados
  133. não substituem o pensamento
    crítico e sustentado de seres humanos,
  134. cujo cérebro antiquado precisa de tempo
    para permitir que seus impulsos diminuam,
  135. para desacelerar a mente
  136. e para deixar os pensamentos fluírem.
  137. Se estiverem começando a pensar
    que devemos apenas pisar no freio,

  138. essa nem sempre será a solução certa.
  139. Todos sabemos que um trem que anda
    muito rápido pode descarrilhar na curva,
  140. mas Seifu, o engenheiro, me ensinou
  141. que um trem que anda muito devagar
    perto da curva também pode descarrilhar.
  142. Gerenciar esse surto de aceleração
    começa com o entendimento

  143. de que temos mais controle
    sobre a velocidade do que pensamos,
  144. individualmente e como sociedade.
  145. Às vezes, precisamos nos planejar
    para ir mais rápido.
  146. Queremos resolver o impasse,
  147. acelerar o socorro às vítimas de furacões
  148. ou usar a impressão 3D para produzir
    o que precisamos no local,
  149. exatamente quando precisamos.
  150. Às vezes, porém, queremos
    que nosso ambiente pareça mais lento
  151. para planejar o impacto
    pela experiência rápida.
  152. E não há problema em não ser
    estimulado o tempo todo.
  153. É bom para adultos
  154. e crianças.
  155. Talvez seja chato,
    mas nos dá tempo para refletir.
  156. Tempo lento não é perda de tempo.
  157. Precisamos reconsiderar
    o significado de economizar tempo.

  158. Cultura e rituais em todo o mundo
    se desenvolvem na lentidão,
  159. porque a lentidão nos ajuda
  160. a reforçar nossos valores
    compartilhados e a nos relacionar.
  161. As relações são uma parte
    importante do ser humano.
  162. Precisamos dominar a velocidade,
  163. o que significa considerar cuidadosamente
  164. as vantagens e desvantagens
    de qualquer tecnologia.
  165. Será que isso lhe ajudará a recuperar
    o tempo para expressar sua humanidade?
  166. Será que isso deixará você
    e os outros com a doença da pressa?
  167. Se você tiver sorte o bastante
    para decidir o ritmo que deseja seguir,
  168. será um privilégio.
  169. Use-o.
  170. Você pode decidir
    que precisa tanto acelerar
  171. quanto criar um tempo lento:
  172. tempo para refletir,
  173. para passar
  174. em seu próprio ritmo;
  175. tempo para escutar,
  176. para se identificar,
  177. para descansar a mente,
  178. para demorar na mesa de jantar.
  179. À medida que avançamos no futuro,

  180. vamos considerar estabelecer
    as tecnologias da velocidade,
  181. o objetivo da velocidade
  182. e nossas expectativas da velocidade
  183. a um ritmo mais humano.
  184. Obrigada.

  185. (Aplausos)