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← O caso urgente para animais isentos de antibióticos

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Showing Revision 6 created 01/11/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Houve uma época
    em que uma simples infeção era mortal,
  2. mas hoje, graças à ampla disponibilidade
    dos antibióticos,
  3. isso é uma simples relíquia do passado.
  4. Na verdade, eu devia dizer "era",
  5. porque atualmente
    estamos a usar tanto os antibióticos
  6. que as bactérias que causam essas infeções
  7. estão a tornar-se resistentes.
  8. Isso devia assustar-nos muito.
  9. Se não alterarmos o nosso comportamento
    e não reduzirmos o uso dos antibióticos,

  10. a ONU prevê que, em 2050,
  11. a resistência antimicrobiana
    tornar-se-á o maior assassino.
  12. Por isso, temos de começar a agir.
  13. Mas por onde começar
    é uma questão interessante,
  14. porque não são só os seres humanos
    que estão a usar antibióticos.
  15. No mundo inteiro, 50% a 80%
    dos antibióticos são usados em animais.
  16. Nem todos eles são importantes
    para a saúde humana,
  17. mas, se não os mantivermos
    sob controlo a partir de agora,
  18. encaramos um futuro assustador
    tanto para pessoas como para animais.
  19. Para começar, falemos
    sobre como chegámos aqui.

  20. O primeiro uso em grande escala
    de antibióticos,
  21. foi no início dos anos 50
    do século passado.
  22. No mundo ocidental,
    a prosperidade estava a aumentar
  23. e as pessoas queriam comer
    mais proteínas animais.
  24. Quando os animais adoeciam,
    podiam tratá-los com antibióticos
  25. por isso, eles não morriam
    e continuavam a crescer.
  26. Mas, em breve se descobriu
  27. que a adição de pequenas quantidades
    de antibióticos na alimentação,
  28. mantinha os animais saudáveis,
  29. fazia-os crescer mais depressa
  30. e exigia menos quantidade de comida.
  31. Assim, os antibióticos funcionavam bem,
  32. muito bem, mesmo.
  33. Com o aumento da produção animal,
  34. o uso dos antibióticos aumentou
    exponencialmente em todo o mundo.
  35. Infelizmente, o mesmo aconteceu
    com a resistência aos antibióticos.
  36. Os médicos dizem-nos para tomarmos
    a dose completa de antibióticos

  37. porque, se reduzirmos a dose,
    não mataremos todos os micróbios.
  38. E os que restarem criarão
    resistência aos antibióticos.
  39. É o mesmo problema em dar aos animais
    pequenas doses regulares de antibióticos:
  40. alguns micróbios maus morrem
    mas nem todos.
  41. Ampliem isso por toda uma indústria
  42. e percebemos que criámos
    inconscientemente
  43. um grande reservatório
    de bactérias resistentes a antibióticos.
  44. Mas lamento revelar-vos,

  45. o problema não termina aqui.
  46. Sabem quem mais toma antibióticos?
  47. Fluffy, o vosso gato e Rover, o vosso cão.
  48. (Risos)

  49. Os animais domésticos estão
    entre os maiores consumidores de todos

  50. e usam antibióticos
  51. que são muito mais importantes
    para a saúde humana.
  52. Combinem isto com a proximidade
    com que vivemos com animais de companhia
  53. e percebemos o risco
  54. de apanharmos bactérias resistentes
    aos antibióticos dos nossos animais.
  55. Mas como é que estas bactérias
    resistentes a antibióticos

  56. dos animais da quinta nos afetam?
  57. Vou dar-vos um exemplo
    de que temos informações.
  58. Os níveis da salmonela resistente
    a antibióticos em porcos, na Europa,
  59. em comparação com diversos
    tipos de antibióticos
  60. variam entre menos de 1% até aos 60%.
  61. O que significa que, na maioria dos casos,
  62. este antibiótico deixará de funcionar
    para matar essa salmonela.
  63. E existia uma alta correlação
  64. entre as salmonelas resistentes
    a antibióticos nos porcos
  65. e o produto final,
  66. quer seja nas costeletas de porco,
  67. nas costelas ou na carne picada.
  68. Felizmente, normalmente
    menos de 1%

  69. de toda a carne crua, peixe ou ovos
  70. contêm salmonelas.
  71. Isto só representa um risco
    quando não são bem tratados.
  72. Mesmo assim, há mais de 100 000 casos
    de salmonelas humanas na União Europeia
  73. e mais de um milhão de casos nos EUA.
  74. Nos EUA, isso leva a
    23 000 hospitalizações
  75. e morrem 450 pessoas por ano.
  76. Com o aumento de salmonelas
    resistentes a antibióticos,
  77. este número de mortes tende a aumentar.
  78. Mas o problema não é só
    consumirmos.

  79. Este ano, mais de 100 pessoas
    foram infetadas
  80. com uma salmonela
    resistente a multidrogas
  81. depois de alimentar os cães
    com orelha de porco.
  82. Portanto, temos de eliminar o uso
    de antibióticos na criação de animais.
  83. Felizmente, isso já está a acontecer.
  84. A União Europeia
    foi a primeira região a proibir

  85. a utilização de antibióticos nas rações.
  86. A partir de 1999, de forma faseada,
  87. foi-se reduzindo a quantidade de tipos
    diferentes de antibióticos permitidos
  88. e em 2006, entrou em vigor
    uma proibição total.
  89. Os antibióticos só eram permitidos
  90. quando um veterinário determinasse
    que o animal estava doente.
  91. Parece ótimo, não é?

  92. Problema resolvido.
  93. Não, esperem, não é assim tão rápido.
  94. Logo que se iniciou o programa de redução,
  95. cedo se descobriu
  96. que os antibióticos tinham sido
    a capa perfeita
  97. para encobrir muitas más práticas
    na pecuária.
  98. Cada vez havia mais animais a adoecer
  99. e precisavam de ser tratados
    com... antibióticos.
  100. Assim, em vez de a quantidade
    total ter diminuído,
  101. acabou por aumentar.
  102. Claro, que essa não era
    uma forma de continuar.
  103. Felizmente, a história não terminou aqui.
  104. Todo o setor europeu da pecuária
    iniciou um percurso
  105. e penso que é um percurso
    com que todos podem aprender.
  106. Foi também esta a altura
    em que eu entrei em cena.

  107. Juntei-me a uma grande empresa
    europeia de rações compostas.
  108. Estas empresas fabricam uma dieta total
    para a alimentação de animais
  109. e também proporciona conselhos
  110. sobre como criar animais
    da melhor forma.
  111. Eu sentia-me motivado
    a trabalhar com os meus colegas,
  112. com os veterinários e, claro,
    com os agricultores
  113. para garantir manter os animais
    saudáveis e isentos de antibióticos.
  114. Mas era preciso
    que acontecessem três coisas

  115. para uma produção isenta de antibióticos.
  116. Vou guiar-vos
    pelo manual de funcionamento.
  117. Para começar — e isto parece óbvio —
  118. a higiene é o local para começar.
  119. Uma melhor limpeza dos estábulos
    e das linhas de água
  120. torna mais difícil a entrada de doenças
    e o contágio dentro do estábulo.
  121. É muito importante,
  122. mas a parte em que eu estava
    mais interessado
  123. era em alimentar melhor os animais,
  124. uma alimentação melhor.
  125. Uma dieta bem equilibrada é importante.

  126. Pensem deste modo:
  127. quando não comemos fibras suficientes,
    não nos sentimos bem.
  128. Uma parte dos alimentos que consumimos
    não são digeridos
  129. mas fermentam no intestino grosso
    graças às bactérias.
  130. Assim, alimentamos esses micróbios
    com a nossa dieta.
  131. Inicialmente, a maioria dos animais jovens
    tinham dietas pobre em fibras,
  132. ricas em amido e proteínas,
  133. finamente moídas e altamente digeríveis.
  134. Era como se nos alimentássemos
    com uma dieta de hambúrgueres,
  135. de arroz, de massas
    e de barras de proteínas.
  136. Mudámos isso para um tipo de dieta
    mais grosseira,
  137. com baixo teor de proteínas
    e alto teor de fibras.
  138. Como uma dieta de cereais,
    de saladas com carne ou feijão.
  139. Isso alterou a flora bacteriana
    nos intestinos dos animais
  140. para uma flora mais benéfica
  141. e reduziu a hipótese
    de desenvolvimento de agentes patogénicos.
  142. Podem ficar admirados

  143. mas não basta uma composição de dieta,
    a sua estrutura também é importante.
  144. O simples facto de a mesma dieta
    ser mais grosseira
  145. provoca um trato digestivo
    mais bem desenvolvido
  146. e, portanto, um animal mais saudável.
  147. Mas a melhor parte foi que os agricultores
    começaram a aderir a isto.

  148. Ao contrário de outras partes no mundo,
  149. os agricultores da Europa Ocidental
    tomam decisões de compra independentes:
  150. a quem comprar a alimentação
    e a quem vender os seus animais.
  151. Assim, o que acabamos por vender
  152. reflete a necessidade local
    desses agricultores.
  153. Por exemplo,
  154. o conteúdo de proteínas
    na dieta dos leitões
  155. em países muito mais vigilantes
    na redução de antibióticos
  156. como, por exemplo
    a Alemanha e a Holanda,
  157. já era 10% a 15% mais baixo
  158. do que num país como o Reino Unido,
    que foi mais lento a acompanhar isto.
  159. Mas, tal como uma melhor higiene,
    uma melhor nutrição ajuda

  160. mas não impede totalmente
    que adoeçamos.
  161. É preciso mais qualquer coisa.
  162. É por isso que nos virámos
    para o microbioma.
  163. Tornar a água mais ácida
  164. ajuda a criar um ambiente
  165. que beneficia as bactérias
    mais benéficas
  166. e inibe os agentes patogénicos.
  167. Tal como a comida fermentada,
  168. quer seja o iogurte, a couve
    fermentada ou o salame,
  169. também se estragam menos rapidamente.
  170. Com as técnicas modernas,

  171. como as que se baseiam em testes de ADN,
  172. podemos ver que estão presentes
    muitos mais micro-organismos diferentes.
  173. Este ecossistema,
    a que chamamos o microbioma,
  174. é muito mais complexo.
  175. Acontece que há cerca de oito vezes
    mais micro-organismos nos intestinos
  176. do que nas células de tecidos
    no nosso corpo.
  177. Para os animais, o impacto é igual.
  178. Assim, se queremos trabalhar
    sem antibióticos, na criação de animais,
  179. temos de tornar os animais
    muito mais robustos.
  180. Assim, quando uma doença ataca,
  181. os animais são muito mais resistentes.
  182. Esta estratégia tripla de nutribiose
  183. envolvendo o hospedeiro,
    a nutrição e o microbioma
  184. é a forma certa de o fazer.
  185. A prática de criar animais
    com uma dieta contendo antibióticos

  186. ou com uma dieta que provoca
    o uso de antibióticos
  187. é um pouco mais barata.
  188. Mas estamos a falar de uma pequena
    percentagem a nível do consumidor.
  189. É perfeitamente sustentável
  190. para a parte da população mundial
    de rendimentos altos e médios.
  191. E é um preço muito pequeno a pagar
  192. quando está em jogo a nossa saúde
    ou a saúde dos nossos entes queridos.
  193. Então, o que é que acham,
    que direção tomamos?

  194. Permitimos que a resistência
    aos antimicróbios
  195. se torne o maior assassino
  196. a um enorme custo financeiro e pessoal?
  197. Ou, para além de reduzirmos
    o consumo dos antibióticos humanos,
  198. passamos a adotar a criação
    de animais isentos de antibióticos?
  199. Para mim, a escolha é óbvia.
  200. Mas, para que isso aconteça,
  201. temos de estabelecer
    níveis de redução
  202. e garantir que são cumpridos
    em todo o mundo.
  203. Porque os agricultores
    competem uns com os outros.
  204. E a nível de um país,
  205. os custos do bloqueio comercial
    ou do mercado global
  206. são muito importantes.
  207. Também temos de ser realistas.
  208. Os agricultores precisam
    de ter a possibilidade
  209. de investir mais numa melhor gestão
    e em melhor alimentação
  210. a fim de atingir essa redução.
  211. Para além dos limites legais,
    o mercado pode desempenhar um papel
  212. oferecendo produtos de antibióticos
    reduzidos ou isentos de antibióticos.
  213. Com a crescente consciencialização
    do consumidor
  214. essas forças do mercado
    aumentarão o seu poder.
  215. Tudo aquilo de que falei
    parece ser muito bom.

  216. Mas e quanto aos animais?
  217. Reparem, a vida deles também melhora.
  218. Uma saúde melhor, menos "stress",
    uma vida mais feliz.
  219. Agora, já sabem.
  220. Temos o conhecimento de como
    produzir carne, ovos e leite
  221. sem antibióticos ou com
    uma quantidade muito baixa de antibióticos
  222. e eu diria que é um preço baixo a pagar
  223. para evitar um futuro
    em que as infeções bacterianas
  224. voltem a ser o maior assassino.
  225. Obrigado.

  226. (Aplausos)