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← A urgência de criarmos animais livres de antibióticos

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Showing Revision 16 created 02/03/2020 by Maricene Crus.

  1. Houve um tempo em que simples
    infecções eram letais.
  2. Mas hoje,
  3. graças à grande variedade de antibióticos,
  4. isso é coisa do passado.
  5. Mas, na verdade, devo dizer "era",
  6. porque hoje usamos tantos antibióticos
  7. que as bactérias que causam
    estas infecções
  8. estão se tornando resistentes.
  9. E isso deveria realmente
    assustar a nós todos.
  10. Se não mudarmos o nosso comportamento
    e diminuirmos o uso de antibióticos,

  11. a ONU prevê que até 2050
  12. a resistência antimicrobiana
    terá se tornado nosso maior assassino.
  13. Então, devemos começar a agir.
  14. Mas "onde começar?"
    é uma pergunta interessante,
  15. porque nós, seres humanos, não somos
    os únicos que usam antibióticos.
  16. No mundo todo,
  17. de 50% a 80% de todos os antibióticos
    são usados por animais.
  18. Nem todos eles representam
    perigo à nossa saúde,
  19. mas se não controlarmos o seu uso agora,
  20. os seres humanos e os animais
    enfrentarão um futuro pavoroso.
  21. Para começar, vamos falar
    sobre como viemos parar aqui.

  22. O início do uso em grande escala
    de antibióticos se deu nos anos 1950.
  23. No Ocidente, as pessoas prosperavam
    e queriam consumir mais proteína animal.
  24. Quando os animais adoeciam,
    eram tratados com antibióticos;
  25. assim, eles não morriam
    e continuavam a crescer.
  26. Mas logo descobriu-se
    que doses pequenas e regulares
  27. de antibióticos na alimentação
    mantinham os animais saudáveis,
  28. faziam com que crescessem mais rápido
    e precisassem de menos alimento.
  29. Então, os antibióticos funcionavam bem,
  30. muito bem, na verdade.
  31. E, com o aumento da produção animal,
  32. o uso de antibióticos também
    disparou no mundo todo.
  33. Infelizmente, a resistência
    a eles também aumentou.
  34. O seu médico lhe diz para tomar
    a caixa inteira de antibióticos

  35. porque, se você diminuir a dose,
    não matará todas as bactérias.
  36. E aquelas que sobreviverem
    criarão resistência ao antibiótico.
  37. Ocorre o mesmo quando damos doses pequenas
    regulares de antibióticos aos animais:
  38. algumas bactérias morrem, mas nem todas.
  39. Se isso for ampliado
    por toda uma indústria,
  40. vocês entenderão que, acidentalmente,
  41. criaremos um grande reservatório
    de bactérias resistentes a antibióticos.
  42. Mas sinto ter que dizer a vocês
    que o problema não para por aí.

  43. Vocês sabem quem mais ingere
    esses antibióticos?
  44. Félix, seu gato, e Totó, seu cachorro.
  45. (Risos)

  46. Os animais de estimação estão
    entre os maiores consumidores

  47. e eles usam antibióticos que são
    essenciais para a saúde humana.
  48. Combinem isso ao fato do quanto vivemos
    próximos de nossos amigos animais
  49. e entenderão o risco de adquirirmos deles
    bactérias resistentes a antibióticos.
  50. Mas como as bactérias
    resistentes a antibióticos

  51. presentes em animais
    de fazendas nos afetam?
  52. Vou dar a vocês um exemplo
    baseado em dados.
  53. Os níveis de resistência da bactéria
    salmonela em porcos na Europa
  54. contra diferentes tipos de antibióticos
    variam de menos de 1% a 60%.
  55. O que significa que, em muitos casos,
  56. tal antibiótico não conseguirá
    mais matar a salmonela.
  57. E houve uma alta correlação
  58. entre a salmonela resistente
    a antibióticos nos suínos
  59. e no produto final, seja costeleta
    de porco, costelas ou carne moída.
  60. Felizmente,

  61. menos de 1% de toda
    carne crua, peixes ou ovos
  62. contém salmonela.
  63. E só representam um perigo
    quando não são bem preparados.
  64. Entretanto, há mais de 100 mil casos
    de salmonela em humanos na União Europeia
  65. e mais de 1 milhão nos EUA.
  66. Nos EUA, tal fato leva a 23 mil
    casos de hospitalizações
  67. e a 450 mortes a cada ano.
  68. Com o aumento de salmonelas
    resistentes a antibióticos,
  69. é provável que essa taxa
    de mortalidade cresça.
  70. Mas o problema não está
    apenas no que consumimos.

  71. Neste ano, mais de 100 pessoas
    foram infectadas
  72. por um tipo de salmonela
    multirresistente a drogas
  73. depois de alimentarem seus cães
    com orelhas de porcos.
  74. Portanto, devemos realmente reduzir
    o uso de antibióticos na produção animal.
  75. Por sorte, isso está
    começando a acontecer.
  76. A União Europeia foi a primeira a banir
    o uso de pequenas doses na alimentação.

  77. Desde 1999, gradualmente,
    a quantidade de diferentes tipos
  78. de antibióticos permitidos
    tem sido reduzida
  79. e, em 2006, eles foram
    completamente banidos.
  80. Os antibióticos só eram permitidos
    quando um veterinário determinava
  81. que o animal estava doente.
  82. Que legal, não? Problema resolvido!

  83. Não, esperem! Não foi tão rápido assim.
  84. Assim que começou o programa de redução,
  85. logo se descobriu que os antibióticos
    eram a máscara perfeita para encobrir
  86. muitas práticas ilícitas no campo.
  87. Cada vez mais animais adoeciam
    e precisavam de antibióticos.
  88. Então, em vez do uso diminuir,
    na verdade, aumentou.
  89. Obviamente, aquele não era
    o caminho a ser seguido.
  90. Mas, por sorte, não era o fim da história.
  91. Todo o setor agrícola europeu
    iniciou uma jornada,
  92. da qual acho que todos
    podem aprender uma lição.
  93. Foi aí que entrei em cena.

  94. Fui trabalhar numa grande empresa
    europeia de rações compostas,
  95. dessas que proporcionam ao fazendeiro
    a dieta completa, bem como aconselhamento
  96. sobre o melhor modo
    de criação dos animais da fazenda.
  97. Eu estava muito motivado
    por trabalhar com meus colegas,
  98. com os veterinários
    e, obviamente, com os fazendeiros
  99. para descobrirmos como manter
    os animais saudáveis, sem antibióticos.
  100. É preciso três coisas para que a criação
    fique livre de antibióticos.

  101. Vou mostrar a vocês como funciona.
  102. Pode parecer óbvio, mas a higiene
    deve ser o ponto de partida.
  103. A melhor limpeza dos estábulos
    e do encanamento de água potável
  104. dificultam a entrada
    e a disseminação de doenças.
  105. Isso tudo é muito importante,
  106. mas a parte em que eu estava
    mais interessado
  107. era alimentar bem os animais,
    fornecendo uma melhor nutrição.
  108. Uma dieta balanceada é importante.

  109. Reflitam:
  110. quando não consumimos fibras suficientes,
    não nos sentimos bem.
  111. Uma parte do alimento
    que consumimos não é digerida,
  112. mas é fermentada
    no intestino grosso por bactérias.
  113. Assim, alimentamos esses micróbios
    com uma parte do que comemos.
  114. Inicialmente, a maioria dos animais jovens
    tinha dietas pobres em fibras,
  115. ricas em amido e proteína, finamente
    moídas e facilmente digestíveis.
  116. Seria o equivalente a uma dieta
    de pão de hambúrguer,
  117. arroz, waffles e barras de proteína.
  118. Transformamos isso em uma dieta
    com menor teor de proteínas,
  119. mais rica em fibras, mais integral.
  120. É como fazer dieta e comer cereais
    integrais, salada com carne ou feijões.
  121. Isso tornou a flora bacteriana
    do intestino dos animais mais benéfica
  122. e reduziu a chance
    de desenvolver patógenos.
  123. Vocês devem estar surpresos,

  124. mas a composição da dieta,
    bem como sua estrutura, são importantes.
  125. O simples fato de que a mesma
    dieta é mais integral
  126. levará a um trato digestivo
    melhor desenvolvido
  127. e, portanto, a um animal mais saudável.
  128. Mas a melhor parte é que o fazendeiros
    começaram a apostar nisso, também.

  129. Diferente de outras partes do mundo,
    fazendeiros europeus ocidentais
  130. ainda tomam suas decisões
    de maneira independente:
  131. de quem compram a ração
    e para quem vendem os animais.
  132. Então, no final,
    o que você está vendendo,
  133. reflete a real necessidade local
    desses fazendeiros.
  134. Por exemplo, a quantidade
    de proteína em dietas de leitões
  135. em países que são muito mais vigilantes
    quanto à redução de antibióticos,
  136. como Alemanha e Holanda,
  137. já era de 10% a 15% menor
    que em lugares como no Reino Unido,
  138. cuja implementação foi mais lenta.
  139. Embora melhores condições de higiene
    e de nutrição ajudem,

  140. não impedirão totalmente que adoeçamos.
  141. Então, é preciso fazer mais.
  142. E é por isso que nos voltamos
    para o microbioma.
  143. Tornar a água mais ácida
    ajuda a criar um ambiente
  144. que propicia bactérias mais benéficas
    e inibe os patógenos.
  145. Tal como o alimento fermentado,
    seja iogurte, chucrute ou salame,
  146. todos eles se deterioram
    menos rapidamente também.
  147. Com as técnicas modernas de hoje,
    como as baseadas em testes de DNA,

  148. podemos ver que há muito mais
    micro-organismos diferentes presentes.
  149. E esse ecossistema, denominado microbioma,
    é muito mais complexo.
  150. Acontece que há cerca de oito vezes
    mais micro-organismos em nossos intestinos
  151. do que células de tecidos no nosso corpo.
  152. E o impacto não é menor nos animais.
  153. Então, se quisermos criar animais
    livres de antibióticos,
  154. temos que torná-los mais robustos.
  155. Assim, quando ficarem doentes,
    os animais serão muito mais resistentes.
  156. Essa abordagem tripartida da "Nutribiosis"
  157. que envolve o hospedeiro,
    a nutrição e o microbioma,
  158. é o caminho a ser seguido.
  159. A prática de criar animais
    com o uso de antibióticos

  160. ou com uma dieta que cause o uso deles
  161. é um pouco mais barata
    para os fazendeiros.
  162. No final, estamos falando de um pequeno
    percentual dos consumidores.
  163. É bastante acessível para as classes
    média e alta da população mundial.
  164. E é um preço muito pequeno a se pagar
  165. quando nossa saúde ou a dos nossos
    entes queridos está em questão.
  166. Então, qual direção acham
    que devemos tomar?

  167. Vamos permitir
    que a resistência antimicrobiana
  168. se torne nosso maior assassino,
    a um custo financeiro e pessoal alto?
  169. Ou vamos, além de reduzir
    o uso humano de antibióticos,
  170. realmente começar a abraçar
    a criação animal livre de antibióticos?
  171. Para mim, a escolha é muita óbvia.
  172. Mas, para que isso aconteça,
    temos que estabelecer metas de redução
  173. e nos assegurar de que elas sejam
    seguidas no mundo todo.
  174. Pois os fazendeiros competem entre si.
  175. E em um país, bloco comercial
    ou mercado global,
  176. os custos são muito importantes.
  177. Além disso, temos que ser realistas:
  178. os fazendeiros precisam ter os meios
    de investir mais em melhor gestão
  179. e em melhor alimentação
    para atingir essa redução.
  180. E além das questões legais,
    o mercado pode atuar
  181. oferecendo produtos reduzidos
    ou isentos de antibióticos.
  182. Com a crescente conscientização
    do consumidor,
  183. essas forças de mercado crescerão.
  184. Tudo sobre o que eu falei
    parece ser importante para nós.

  185. Mas, e para os animais?
  186. Vejam, a vida deles também vai melhorar:
  187. mais saúde, menos estresse, vida feliz.
  188. Então, agora vocês sabem.
  189. Temos o conhecimento de como produzir
    carne, ovos e leite
  190. com ou sem pequenas doses de antibióticos,
  191. e digo que é um pequeno preço a se pagar
  192. para evitarmos um futuro
    no qual as infecções por bactérias
  193. se tornarão, repito,
    nosso maior assassino.
  194. Obrigado.

  195. (Aplausos)