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← Como é ser mãe ou pai numa zona de guerra

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Showing Revision 5 created 02/14/2017 by Margarida Ferreira.

  1. Mais de 1500 milhões de pessoas
    no mundo, sofrem um conflito armado.
  2. Em consequência, as pessoas
    são forçadas a fugir do seu país,
  3. constituindo mais de 15 milhões
    de refugiados.
  4. As crianças, sem dúvida,
  5. são as vítimas mais inocentes
    e mais vulneráveis
  6. mas não só dos perigos físicos óbvios,
  7. também dos efeitos muitas vezes ocultos
    que as guerras têm nas suas famílias.
  8. As experiências da guerra
    põem as crianças num grande risco
  9. de desenvolvimento de problemas
    emotivos e comportamentais.
  10. Como podemos imaginar,
  11. as crianças sentem-se assustadas,
    ameaçadas e em risco.
  12. Mas há coisas positivas.
  13. A qualidade de cuidados
    que as crianças recebem das famílias
  14. pode ter um efeito mais significativo
    no seu bem-estar
  15. do que as experiências da guerra
    a que têm sido expostas.
  16. As crianças podem ser protegidas
  17. pelos cuidados calorosos e seguros
    dos pais, durante e depois do conflito.
  18. Em 2011, eu estava no primeiro ano
    do meu doutoramento

  19. na Escola de Psicologia
    da Universidade de Manchester.
  20. Como muitas outras pessoas aqui
  21. observava a crise na Síria
    a desenrolar-se à minha frente na TV.
  22. A minha família é originária da Síria,
  23. e desde muito cedo,
  24. perdi vários membros da família
    de formas horríveis.
  25. Juntava-me com a minha família
    em volta da TV.
  26. Todos víamos aquelas cenas:
  27. as bombas a destruir edifícios,
  28. o caos, a destruição
  29. e as pessoas a gritar e a fugir.
  30. Eram sempre as pessoas a gritar
    e a fugir que mais me impressionavam,
  31. especialmente aquelas
    crianças com um ar aterrorizado.
  32. Eu era mãe de duas crianças
    tipicamente inquiridoras.
  33. Tinham cinco e seis anos, na altura,
  34. numa idade em que, habitualmente,
    fazem montes de perguntas,
  35. e esperam respostas reais e convincentes.
  36. Comecei a imaginar como seria
    cuidar dos meus filhos
  37. numa zona de guerra
    e num campo de refugiados.
  38. Os meus filhos mudariam?
  39. Os olhos brilhantes e felizes
    da minha filha perderiam o seu brilho?
  40. A natureza descontraída e descuidada
    do meu filho passaria a medrosa e retraída?
  41. Como é que eu reagiria?
  42. Também mudaria?
  43. Enquanto psicólogos
    e formadores dos pais,

  44. sabemos que dotar os pais
    de competências para cuidar dos filhos
  45. pode ter um enorme efeito
    no seu bem-estar.
  46. Chamamos a isso formação parental.
  47. A pergunta que eu fazia era:
  48. "Os programas de formação parental
    seriam úteis às famílias
  49. "quando ainda estavam em zonas de guerra
    ou campos de refugiados?"
  50. "Podíamos ir ter com eles
    com conselhos ou formação
  51. "que os ajudassem
    a atravessar aquelas lutas?"
  52. Abordei a minha supervisora
    de doutoramento,
  53. a Professora Rachel Calam,
  54. pensando usar os meus dotes académicos
    para alterar o mundo real.
  55. Eu não sabia bem o que queria fazer.
  56. Ela escutou-me com atenção e paciência
  57. e depois, para minha satisfação, disse:
  58. "Se é isso que queres fazer,
    e significa tanto para ti,
  59. "vamos em frente.
  60. "Vamos arranjar formas de ver
    se os programas para pais
  61. "podem ser úteis
    para as famílias, neste contexto".
  62. Durante os últimos cinco anos,
    eu e os meus colegas

  63. — a Professora Calam
    e o Dr. Kim Cartwright —
  64. temos trabalhado
    em formas de apoiar famílias
  65. que sofreram a guerra e a deslocação.
  66. Para saber como ajudar famílias
    que passaram por conflitos,
  67. para apoiar os seus filhos,
  68. o primeiro passo tem que ser, obviamente,
  69. perguntar-lhes quais são
    as suas dificuldades.
  70. Quero dizer, parece óbvio.
  71. Mas, muitas vezes,
    é às pessoas mais vulneráveis
  72. que tentamos apoiar,
  73. que não perguntamos.
  74. Quantas vezes partimos do princípio
    que sabemos exatamente
  75. o que vai ajudar alguém,
    sem lhe perguntarmos primeiro?
  76. Portanto, viajei aos campos de refugiados
    na Síria e na Turquia,

  77. conversei com famílias e escutei.
  78. Escutei os seus problemas de pais,
  79. escutei as sua lutas de pais
  80. e escutei os seus pedidos de ajuda.
  81. Por vezes, só havia uma pausa
  82. porque eu só podia
    agarrar-lhes nas mãos
  83. e juntar-me a elas
    num choro e prece silenciosos.
  84. Falaram-me das suas lutas,
  85. falaram-me das condições
    difíceis do campo de refugiados
  86. que tornavam difícil
    concentrarem-se em coisas
  87. que não fossem as tarefas práticas,
  88. como arranjar água limpa.
  89. Falaram-me de como
    observavam os filhos a regredir:
  90. a tristeza, a depressão, a raiva,
  91. o chichi na cama, o chupar no dedo,
    o medo dos barulhos fortes,
  92. o medo dos pesadelos
  93. — pesadelos aterrorizadores.
  94. Aquelas famílias tinham passado
    por tudo o que tínhamos visto na TV.
  95. As mães
  96. — quase metade eram viúvas da guerra,
  97. ou nem sabiam se o marido
    estava morto ou vivo —
  98. descreviam como sentiam
    que estavam a reagir muito mal.
  99. Viam os filhos a mudar
    e não sabiam como os ajudar.
  100. Não sabiam como responder
    às perguntas dos filhos.
  101. O que achei incrivelmente espantoso
    e muito motivador

  102. foi que aquelas famílias estavam
    muito motivadas a apoiar os filhos.
  103. Apesar de todos os problemas
    que enfrentavam,
  104. estavam a tentar ajudar os filhos.
  105. Estavam a tentar arranjar apoio
    de pessoal de ONG,
  106. de professores no campo de refugiados,
  107. de médicos profissionais,
  108. de outros pais.
  109. Uma mãe que conheci só estava
    num campo há quatro dias
  110. e já tinha feito duas tentativas
  111. de procurar apoio
    para a sua filha de oito anos
  112. que estava a ter pesadelos terríveis.
  113. Infelizmente, essas tentativas
    são quase sempre inúteis.
  114. Os médicos dos campos de refugiados,
    quando os há,
  115. estão quase sempre demasiado ocupados
  116. ou não têm conhecimentos ou tempo
    para apoio básico aos pais.
  117. Os professores dos campos de refugiados
    e os outros pais são como eles
  118. — fazem parte de uma nova comunidade
    de refugiados
  119. que lutam com novas necessidades.
  120. Então, começámos a pensar.

  121. Como poderíamos ajudar aquelas famílias?
  122. As famílias debatiam-se com coisas
    muito maiores do que conseguiam lidar.
  123. A crise síria tornava claro
  124. como seria impossível
    chegar às famílias a um nível individual.
  125. Que outra coisa poderia ajudá-las?
  126. Como poderíamos chegar às famílias
    ao nível da população
  127. e com baixo custo
  128. naquela época terrível?
  129. Depois de horas a falar
    com funcionários das ONG,

  130. alguém sugeriu uma ideia
    inovadora fantástica
  131. de distribuir folhetos de informações
    aos pais, através dos pacotes do pão
  132. — pão que estava a ser distribuído
    às famílias numa zona de conflito na Síria
  133. por trabalhadores humanitários.
  134. Foi o que fizemos.
  135. Os pacotes de pão não mudaram de aspeto,
  136. exceto pela adição
    de duas folhas de papel.
  137. Um deles era um folheto de informações
    aos pais que tinha conselhos básicos
  138. e informações que tranquilizavam os pais
    sobre o que eles podiam estar a passar,
  139. e sobre o que os seus filhos
    podiam estar a passar.
  140. Informações sobre como se podiam
    apoiar a si mesmos e aos filhos,
  141. informações como passar tempo
    a falar com os filhos,
  142. mostrar-lhes mais afeto,
  143. ter mais paciência com os filhos,
  144. falar com os filhos.
  145. A outra folha de papel
    era um questionário de "feedback".
  146. E, claro, havia uma caneta.
  147. Isto é uma simples distribuição de folhetos
  148. ou é um meio possível para prestar
    uma primeira ajuda psicológica
  149. que proporciona cuidados paternais
    calorosos, segurança e amor?
  150. Conseguimos distribuir
    3000 panfletos numa semana.

  151. O incrível foi que tivemos
    uma resposta de 60%.
  152. Responderam 60% das 3000 famílias.
  153. Não sei quantos investigadores
    temos aqui hoje,
  154. mas este tipo de resposta é fantástico.
  155. Ter isso em Manchester
    seria uma enorme proeza,
  156. quanto mais
    numa zona de conflito na Síria,
  157. o que realça a importância
    deste tipo de mensagens para as famílias.
  158. Lembro-me como estávamos ansiosos
    pela devolução dos questionários.
  159. As famílias deixaram
    centenas de mensagens.
  160. Incrivelmente, a maioria
    eram positivas e encorajadoras.
  161. Mas a minha preferida
    tinha que ser:
  162. "Obrigada por não se esquecerem
    de nós e dos nossos filhos".
  163. Isto ilustra os meios possíveis
  164. da prestação duma primeira ajuda
    psicológica às famílias,
  165. e também a devolução dos comentários.
  166. Imaginem reproduzir isto
    usando outros meios
  167. como a distribuição do leite para bebés
    ou os kits de higiene feminina,
  168. ou mesmo dos cabazes com alimentos.
  169. Mas voltemos para mais perto de casa

  170. porque a crise dos refugiados
  171. é uma crise que tem efeitos
    em cada um de nós.
  172. Somos bombardeados todos os dias
    com imagens de estatísticas e com fotos,
  173. e isso não é para admirar
  174. porque, no mês passado,
  175. chegaram à Europa
    mais de um milhão de refugiados.
  176. Um milhão!
  177. Os refugiados estão a entrar
    nas nossas comunidades,
  178. estão a tornar-se nossos vizinhos,
  179. os filhos estão a frequentar
    as escolas dos nossos filhos.
  180. Por isso, adaptámos os folhetos
  181. de acordo com as necessidades
    dos refugiados na Europa.
  182. Temo-los "online", de acesso livre,
  183. em áreas com um fluxo
    de refugiados muito alto.
  184. Por exemplo, os cuidados médicos suecos
    registaram-nos na sua página.
  185. Nos primeiros 45 minutos,
  186. foram descarregados 343 vezes
  187. — denotando como isso é importante
  188. para voluntários, médicos
    e outros pais
  189. terem livre acesso a mensagens
    psicológicas de primeira ajuda.
  190. Em 2013, eu estava sentada
    no chão frio e duro

  191. duma tenda dum campo de refugiados
  192. com mães à minha volta,
    enquanto eu liderava um grupo focal.
  193. À minha frente estava uma senhora idosa
  194. com o que me pareceu ser
    uma rapariga de 13 anos ao lado,
  195. com a cabeça poisada nos joelhos
    da senhora idosa.
  196. A rapariga manteve-se quieta
    durante o grupo focal,
  197. sem dizer uma palavra,
  198. com os joelhos
    encostados ao peito.
  199. No final do grupo focal,
  200. quando eu estava a agradecer
    às mães pelo seu tempo,
  201. a senhora idosa olhou para mim
    e apontou para a rapariga,
  202. e disse-me: "Podes ajudar-me com...?"
  203. Sem perceber bem o que ela
    esperava que eu fizesse,
  204. olhei para a rapariga e sorri.
  205. Em árabe, disse-lhe:
  206. "Salaam alaikum. Shu-ismak?"
  207. "Como te chamas?"
  208. Ela olhou para mim,
    confusa e desinteressada
  209. mas depois disse: "Halul".
  210. Halul é o diminutivo
    para o nome árabe Hala
  211. e só se usa para rapariguinhas.
  212. Nessa altura, percebi que Hala
    devia ter muito mais que 13 anos.
  213. Acontece que Hala tinha 25 anos
    e era mãe de três crianças.
  214. Hala tinha sido uma mãe confiante,
    alegre, ativa, amorosa e cuidadosa
  215. para os seus filhos,
  216. mas a guerra tinha mudado tudo isso.
  217. Tinha passado por bombas
    a caírem na cidade,
  218. tinha passado por explosões.
  219. Quando os caças voavam
    em volta do seu edifício,
  220. a lançar bombas,
  221. os filhos gritavam,
    aterrorizados com o barulho.
  222. Hala agarrava em almofadas,
    freneticamente,
  223. para tapar os ouvidos dos filhos,
    para abafar o barulho,
  224. enquanto gritava também.
  225. Quando chegaram ao campo de refugiados
  226. e soube que, finalmente,
    estavam de certo modo em segurança,
  227. passou a comportar-se
    como na sua antiga infância.
  228. Rejeitou totalmente a família
  229. — os filhos, o marido.
  230. Hala já não conseguia aguentar,
  231. Esta é uma luta de pais
    com um fim muito duro,

  232. mas, infelizmente, não é raro.
  233. As duas experiências
    de conflito armado e deslocação
  234. representam lutas emocionais profundas.
  235. É uma coisa com que
    nos podemos identificar.
  236. Se passássemos por uma época devastadora
    na nossa vida,
  237. se perdêssemos alguém ou alguma coisa
    de que gostamos especialmente,
  238. como continuaríamos a aguentar?
  239. Conseguiríamos continuar
    a tratar de nós e da nossa família?
  240. Dado que os primeiros anos
    da vida duma criança são fundamentais

  241. para um desenvolvimento
    físico e emotivo saudável
  242. e que há 1500 milhões de pessoas
    a sofrer o conflito armado
  243. — muitas das quais estão agora
    a entrar nas nossas comunidades —
  244. não podemos fechar os olhos
  245. às necessidades daqueles
    que sofrem a guerra e a deslocação.
  246. Temos que dar prioridade
    às necessidades destas famílias,
  247. tanto às que estão deslocadas internamente
    como aos refugiados pelo mundo inteiro.
  248. Estas necessidades
    têm que ser prioritárias
  249. para os trabalhadores das ONG,
    para os políticos,
  250. para a OMS, para a ACNUR
    e para cada um de nós
  251. qualquer que seja a função
    que tenhamos na sociedade.
  252. Quando começamos a reconhecer
    os rostos individuais do conflito,

  253. quando começamos a reparar
    nas emoções complexas nesses rostos,
  254. começamos a vê-los também
    como seres humanos.
  255. Começamos a ver as necessidades
    dessas famílias,
  256. e são as necessidades humanas de verdade.
  257. Quando se der prioridade
    às necessidades dessas famílias
  258. — intervenções para crianças
    em ambientes humanitários —
  259. daremos prioridade e reconheceremos
  260. o importante papel da família
    no apoio aos filhos.
  261. A saúde mental da família
    gritará a plenos pulmões
  262. numa agenda internacional, mundial.
  263. As crianças terão menos hipóteses
    de entrar no sistema de serviço social
  264. em países de acolhimento
  265. porque as suas famílias
    terão apoio mais cedo.
  266. E estaremos de espírito mais aberto,
  267. seremos mais acolhedores,
    mais carinhosos
  268. e mais confiantes naqueles
    que estão a entrar nas nossas comunidades.
  269. Temos que acabar com as guerras.

  270. Temos que criar um mundo
  271. em que as crianças possam sonhar
    com aviões a lançar presentes,
  272. em vez de bombas.
  273. Enquanto não pararem os conflitos armados
    que devastam o mundo inteiro,
  274. as famílias continuarão a ser deslocadas,
  275. deixando as crianças vulneráveis.
  276. Mas, se melhorarmos o apoio
    aos pais e prestadores de cuidados,
  277. pode ser possível enfraquecer os elos
  278. entre a guerra
    e as dificuldades psicológicas
  279. nas crianças e nas suas famílias.
  280. Obrigada.

  281. (Aplausos)