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← Como é ser pai e mãe numa zona de guerra

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Showing Revision 43 created 04/25/2017 by Claudia Sander.

  1. Em todo o mundo, mais de 1,5 bilhão
    de pessoas vivenciam conflitos armados.
  2. Com isso, as pessoas são forçadas
    a fugir de seus países,
  3. gerando mais de 15 milhões de refugiados.
  4. As crianças, sem dúvida, são as vítimas
    mais inocentes e vulneráveis...
  5. não só pelos óbvios perigos físicos,
  6. mas pelos efeitos normalmente não ditos
    que a guerra provoca em suas famílias.
  7. As experiências de guerra
    colocam as crianças em alto risco
  8. de desenvolverem problemas
    emocionais e de comportamento.
  9. As crianças, como podemos imaginar,
  10. sentem-se preocupadas,
    ameaçadas e em risco.
  11. Mas há boas notícias.
  12. A qualidade dos cuidados
    que as crianças recebem de suas famílias
  13. pode ter um efeito
    mais significativo em seu bem-estar
  14. do que as experiências de guerra
    às quais elas foram expostas.
  15. Então na verdade as crianças
    podem ser protegidas
  16. através de uma criação segura e calorosa
    durante e depois do conflito.
  17. Em 2011, eu estava
    no primeiro ano do doutorado

  18. na Universidade de Manchester,
    na School of Psychological Sciences.
  19. Como muitos de vocês,
  20. eu observava o desenrolar
    da crise na Síria pela TV.
  21. Minha família é originária da Síria,
  22. e muito cedo perdi muitos familiares
    de maneiras realmente horríveis.
  23. Eu me reunia com minha família
    e sentava para ver TV.
  24. Todos nós vimos aquelas cenas:
  25. bombas destruindo prédios,
  26. caos, destruição,
  27. pessoas gritando e correndo.
  28. O que mais me impressionava,
    eram as pessoas correndo e gritando,
  29. especialmente aquelas crianças
    de olhar aterrorizado.
  30. Eu era mãe de duas crianças pequenas
    e tipicamente questionadoras.
  31. Elas tinham cinco e seis anos na época,
  32. uma idade em que elas normalmente
    fazem muitas perguntas
  33. e esperam por respostas
    verdadeiras e convincentes.
  34. Então comecei a imaginar como seria
  35. criar meus filhos em uma zona de guerra
    e em um campo de refugiados.
  36. Meus filhos mudariam?
  37. Os olhos brilhantes e felizes
    da minha filha perderiam o brilho?
  38. Meu filho tranquilo e despreocupado
    se tornaria cheio de medos e fechado?
  39. Como eu lidaria com a situação?
  40. Eu mudaria?
  41. Como psicólogos e orientadores dos pais,

  42. sabemos que dotar os pais com habilidades
    para cuidarem de seus filhos
  43. pode ter um efeito enorme
    em seu bem-estar,
  44. e chamamos isso de orientação parental.
  45. A dúvida que eu tinha era:
  46. os programas de orientação parental
    podem ser úteis às famílias
  47. enquanto ainda estão em zonas de guerra
    ou em campos de refugiados?
  48. Podemos alcançá-las
    com conselhos ou treinamento
  49. que as ajudem nessas batalhas?
  50. Então, procurei a supervisora
    do meu doutorado,
  51. a professora Rachel Calam,
  52. com a ideia de usar
    minhas habilidades acadêmicas
  53. para fazer algumas mudanças no mundo real.
  54. Eu não tinha muita certeza
    do que eu queria fazer.
  55. Ela escutou com atenção e paciência
  56. e, para minha alegria, disse:
  57. "Se é isso que você quer fazer,
  58. e se significa tanto para você,
    vamos em frente.
  59. Vamos achar formas de ver
    se programas de orientação parental
  60. podem ser úteis a famílias
    nesses contextos".
  61. Então, nos últimos cinco anos,
    eu e minhas colegas,

  62. professora Calam
    e a doutora Kim Cartwright,
  63. estamos trabalhando
    em formas de apoiar famílias
  64. que vivenciaram a guerra
    e o desalojamento.
  65. Mas, para saber como ajudar
    famílias que passaram por conflitos
  66. a ajudar seus filhos,
  67. o primeiro passo seria, obviamente,
    perguntar a elas o que estão enfrentando,
  68. certo?
  69. Quero dizer, parece óbvio.
  70. Mas em geral é para aqueles
    que estão mais vulneráveis
  71. e que estamos tentando apoiar
    que não perguntamos.
  72. Quantas vezes simplesmente presumimos
    saber exatamente o que irá ajudar
  73. alguém ou alguma situação,
    sem realmente perguntar antes?
  74. Então viajei para campos de refugiados
    na Síria e na Turquia,

  75. sentei com famílias e escutei.
  76. Escutei seus desafios
    e suas lutas enquanto pais,
  77. e escutei seus pedidos de ajuda.
  78. Algumas vezes ficávamos em silêncio,
  79. e tudo que eu podia fazer
    era segurar suas mãos
  80. e juntar-me a eles em choro
    e prece silenciosos.
  81. Eles me contaram sobre suas batalhas,
  82. me contaram sobre as condições
    duras e difíceis do campo de refugiados
  83. que tornavam difícil focar algo
    além das tarefas práticas,
  84. como coletar água limpa.
  85. Eles me contaram como observavam
    a retração de suas crianças;
  86. a tristeza, depressão, raiva;
  87. fazendo xixi na cama, chupando o dedo,
    com medo de barulhos altos,
  88. medo de pesadelos,
  89. pesadelos aterrorizantes.
  90. Essas famílias passaram por aquilo
    que tínhamos visto na TV.
  91. As mães, quase metade delas
    agora eram viúvas da guerra
  92. ou nem mesmo sabiam se seus maridos
    estavam vivos ou mortos,
  93. relatavam que sentiam
    que não estavam dando conta.
  94. Elas observavam as mudanças em seus filhos
    e não tinham ideia de como ajudá-los.
  95. Elas não sabiam como responder
    às perguntas de seus filhos.
  96. O que me pareceu incrivelmente
    impressionante e muito motivador

  97. foi o fato de essas famílias estarem
    tão motivadas a apoiar seus filhos.
  98. Apesar de todos os desafios enfrentados,
  99. elas estavam tentando
    ajudar suas crianças.
  100. Elas tentavam buscar apoio
    com funcionários de ONGs,
  101. com professores do campo de refugiados,
  102. médicos,
  103. outros pais.
  104. Uma mãe que encontrei estava
    no campo há apenas quatro dias,
  105. e já tinha feito duas tentativas
  106. de buscar apoio
    para sua filha de oito anos
  107. que estava tendo terríveis pesadelos.
  108. Mas, infelizmente, essas tentativas
    são quase sempre inúteis.
  109. Quando existem médicos
    nos campos de refugiados,
  110. quase sempre estão muito ocupados,
  111. ou não têm o conhecimento ou o tempo
    para dar um apoio parental básico.
  112. Professores de campos de refugiados
    e outros pais são como eles:
  113. parte de uma nova comunidade de refugiados
    lutando com novas necessidades.
  114. Então começamos a pensar:

  115. como podemos ajudar essas famílias?
  116. As famílias lutavam com coisas
    muito maiores do que conseguiam lidar.
  117. A crise síria deixou clara
  118. a impossibilidade de atingir
    famílias individualmente.
  119. De que outra forma podíamos ajudá-los?
  120. Como alcançar as famílias como população
  121. e a um baixo custo
  122. nestes tempos terríveis?
  123. Depois de horas conversando
    com funcionários de ONGs,

  124. alguém sugeriu a ideia
    fantástica e inovadora
  125. de distribuir folhetos informativos sobre
    cuidados parentais na embalagem de pão;
  126. embalagem do pão enviado a famílias
    em uma zona de conflito na Síria
  127. por trabalhadores humanitários.
  128. Foi o que fizemos.
  129. A embalagem do pão não
    mudou muito em aparência,
  130. a não ser pela adição
    de duas folhas de papel.
  131. Uma era um folheto informativo aos pais
    com avisos e informações básicas
  132. explicando o que eles e seus filhos
    deviam estar vivenciando.
  133. E informação sobre como eles podiam
    apoiar a si próprios e a seus filhos,
  134. como passar um tempo
    conversando com seu filho,
  135. mostrar afeição a eles,
  136. ser mais paciente com seus filhos,
  137. conversar com eles.
  138. A outra folha era
    um questionário de opinião
  139. e, claro, acompanhado de uma caneta.
  140. Então, isso é simplesmente
    uma distribuição de folhetos
  141. ou é realmente um meio viável
    de levar primeiros socorros psicológicos
  142. que proporcionem uma criação
    amorosa, segura e calorosa?
  143. Nós conseguimos distribuir 3 mil
    desses em apenas uma semana.

  144. E o incrível foi que tivemos
    taxa de resposta de 60%.
  145. Das 3 mil familias, 60% responderam.
  146. Não sei quantos
    pesquisadores há aqui hoje,
  147. mas essa taxa de resposta é fantástica.
  148. Obter isso em Manchester
    seria uma conquista enorme,
  149. imagine em uma zona de conflito na Síria,
  150. mostrando como esse tipo de mensagem
    realmente era importante para as famílias.
  151. Eu me lembro como ficamos excitados
    e ansiosos pelo retorno dos questionários.
  152. As famílias deixaram
    centenas de mensagens,
  153. a maioria delas incrivelmente
    positiva e encorajadora.
  154. Mas minha favorita foi esta:
  155. "Obrigada por não esquecer
    de nós e de nossos filhos".
  156. Isso realmente mostra
    potenciais meios de distribuição
  157. de primeiros socorros
    psicológicos às famílias,
  158. e também do retorno
    do questionário de opinião.
  159. Imagine replicar isso usando outros meios,
  160. como a distribuição de leite para bebês,
    de kits higiênicos femininos,
  161. ou mesmo cestas de alimentos.
  162. Mas isso nos afeta diretamente,

  163. pois a crise dos refugiados
    tem efeitos em cada um de nós.
  164. Estamos sendo bombardeados
    diariamente com estatísticas e fotos,
  165. e isso não é de se admirar,
  166. pois no mês passado mais de 1 milhão
    de refugiados chegaram à Europa.
  167. Um milhão.
  168. Os refugiados estão se juntando
    às nossas comunidades,
  169. estão se tornando nossos vizinhos,
  170. seus filhos estão indo
    à escola de nossos filhos.
  171. Então adaptamos os folhetos de acordo
    com a necessidade dos refugiados europeus,
  172. e os deixamos disponíveis on-line
  173. em áreas muito acessadas por refugiados.
  174. Por exemplo, o sistema de saúde sueco
    disponibilizou-os em seu website,
  175. e, nos primeiros 45 minutos,
    ele foi baixado 343 vezes,
  176. mostrando como é importante
  177. para voluntários, profissionais e pais
  178. terem acesso a mensagens
    de primeiros socorros psicológicos.
  179. Em 2013, eu estava sentada
    no chão frio e duro

  180. de uma barraca em um campo de refugiados,
  181. com mães sentadas ao meu redor,
    conduzindo um grupo focal.
  182. Na minha frente sentou-se
    uma senhora de idade
  183. com quem parecia ser uma menina
    de uns 13 anos deitada ao seu lado,
  184. com a cabeça nos joelhos da senhora.
  185. A garota ficou em silêncio
    durante todo o grupo focal,
  186. sem falar nada,
  187. com os joelhos dobrados contra o peito.
  188. No final do grupo focal,
  189. quando eu estava agradecendo
    às mães por seu tempo,
  190. a senhora olhou para mim,
    apontando para a garota,
  191. e disse: "Você pode nos ajudar com...?"
  192. Sem saber bem o que ela esperava de mim,
  193. olhei para a garota, sorri
    e disse, em árabe:
  194. (Árabe) "Salaam alaikum. Shu-ismak?"
  195. "Qual é o seu nome?"
  196. Ela me olhou confusa e desinteressada,
  197. mas disse: "Halul".
  198. Halul é um apelido infantil
    para o nome feminino árabe Hala,
  199. e é usado somente para garotas
    realmente muito jovens.
  200. Nesse momento me dei conta de que Hala
    provavelmente tinha bem mais que 13 anos.
  201. Na verdade, Hala tinha 25 anos,
    e era mãe de 3 crianças pequenas.
  202. Hala fora uma mãe confiante, alegre,
    animada, carinhosa, dedicada
  203. para seus filhos,
  204. mas a guerra mudou tudo.
  205. Ela viveu no meio de bombas
    sendo lançadas em sua cidade;
  206. viveu no meio de explosões.
  207. Quando aviões de guerra voavam
    ao redor de seu prédio lançando bombas,
  208. as crianças gritavam,
    aterrorizadas com o barulho.
  209. Hala corria para buscar travesseiros
    e cobrir os ouvidos de seus filhos
  210. para abafar o barulho,
  211. enquanto ela mesma gritava.
  212. Quando chegaram ao campo de refugiados
  213. e ela soube que, finalmente,
    estavam seguros de certa forma,
  214. ela regrediu completamente
    e passou a agir como uma criança.
  215. Ela rejeitou completamente sua família:
  216. seus filhos, seu marido.
  217. Hala simplesmente
    não conseguia mais aguentar.
  218. Essa é uma batalha
    com um fim realmente muito difícil,

  219. mas, infelizmente, não é incomum.
  220. As pessoas que vivenciam
    conflitos armados e desalojamento
  221. vão enfrentar batalhas
    emocionais muito sérias.
  222. E isso é algo com o qual todos
    podemos nos identificar.
  223. Se você tivesse passado por algum
    momento devastador na vida,
  224. se tivesse perdido alguém ou algo
    de que realmente gostava,
  225. como continuaria a aguentar?
  226. Você ainda conseguiria
    cuidar de si mesmo e de sua família?
  227. Como os primeiros anos de vida
    de uma criança são cruciais

  228. para um desenvolvimento
    físico e emocional saudável,
  229. e 1,5 bilhão de pessoas estão
    vivenciando conflitos armados,
  230. muitas das quais estão se juntando
    às nossas comunidades,
  231. não podemos fingir que não vemos
  232. as necessidades das pessoas que vivenciam
    a guerra e o desalojamento.
  233. Precisamos dar prioridade
    às necessidades dessas famílias,
  234. tanto as que são desalojadas internamente,
    quanto as que estão refugiadas pelo mundo.
  235. Essas necessidades devem ser priorizadas
    por funcionários de ONGs, governantes,
  236. a OMS, o Alto Comissariado da ONU
    para Refugiados e cada um de nós,
  237. qualquer que seja
    nossa função na sociedade.
  238. Quando começarmos a reconhecer
    os rostos das pessoas no conflito,

  239. quando começarmos a perceber
    as intrincadas emoções em seus rostos,
  240. começaremos também a vê-los como humanos.
  241. Começaremos a ver
    as necessidades dessas famílias,
  242. e essas são as verdadeiras
    necessidades humanas.
  243. Quando as necessidades
    dessas famílias forem priorizadas,
  244. intervenções para crianças
    em um cenário humanitário
  245. irão priorizar e reconhecer
    o papel fundamental da família
  246. no apoio às crianças.
  247. A saúde mental da família
    gritará em voz alta e clara
  248. na agenda internacional global.
  249. As crianças precisarão menos
    do sistema de assistência social
  250. em países em reassentamento,
  251. pois suas famílias já terão
    recebido apoio antes.
  252. E nós estaremos mais abertos,
  253. mais acolhedores, mais atentos
  254. e mais confiantes nas pessoas que estão
    se juntando às nossas comunidades.
  255. Precisamos acabar com as guerras.

  256. Precisamos construir um mundo
  257. no qual as crianças possam sonhar
    com aviões lançando presentes,
  258. e não bombas.
  259. Até acabarmos com os conflitos armados
    que assolam o mundo,
  260. as famílias continuarão sendo desalojadas,
  261. deixando as crianças vulneráveis.
  262. Mas melhorando o apoio
    aos pais e cuidadores,
  263. é possivel enfraquecer
    os laços entre a guerra
  264. e as dificuldades psicológicas
    das crianças e suas famílias.
  265. Obrigada.

  266. (Aplausos)